Rosane Araujo Martins
7º ano
8º ano
9º ano
[EM] 1ª série
[EM] 2ª série
Universidade
[EM] 3ª série
5 Aulas
81 Materiais
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Energizado
Aprendiz de Avaliações
9/10
Explorador de IA
5/10
Explorador de Aulas
Caça-palavra
Danças da Cultura Popular Brasileira
Prof. Rosane Araujo Martins
-
Flashcards
Flashcards: ão de um museu e ficar anos em um mesmo lugar ou pode estar associada a uma exposição itinerante
e ficar apenas uma semana, por exemplo. A arte também pode se deslocar, caminhar pelas ruas indo ao
encontro do público.
Um trabalho artístico pode ser composto sobre o solo, dentro de um lago, nos muros das ruas, em
uma floresta e até em árvores. Essa forma de fazer arte não se preocupa necessariamente com seu tempo
de exposição ou com sua durabilidade. Tais procedimentos, característicos da arte contemporânea, são
geralmente produzidos para causar um impacto e uma reflexão sobre um determinado tema.
O tempo que essa arte estará exposta ou mesmo a sua durabilidade dependerá da intenção do
artista e, muitas vezes, o próprio artista é um dos elementos de sua obra, como você verá ao longo
deste capítulo.
25
Regina Parra/Acervo da artista
Foco no tema
A arte das intervenções
No campo das artes, a prática da intervenção pode ser compreendida e empregada de diferentes
maneiras e com diversas técnicas, com possibilidade de serem pontuais ou de se tornarem obras perma-
nentes. É possível entender a intervenção como uma ação sobre algo, em geral um suporte preexistente,
que pode ser desde pequenos objetos e imagens até grandes espaços físicos.
Diferentes trabalhos de arte podem ser qualificados como intervenção, não havendo, portanto, uma
categorização única ou fronteiras rígidas, mas sim uma confluência entre as tendências. Elas podem
ser ações efêmeras, ou seja, que possuem uma curta duração; podem se constituir a partir de eventos
participativos em espaços abertos; podem ser inserções na paisagem; ocupações de edifícios ou áreas
livres; performances; instalações; vídeos; lambe-lambes; interferências em placas de sinalização de
trânsito ou materiais publicitários e manifestações de arte de rua, como o grafite.
Intervenções em objetos e imagens
Uma vertente da arte das intervenções é a realizada
sobre objetos existentes. Cildo Meireles (1948-) é um artista
brasileiro que desenvolveu a série Inserções em Circuitos
Ideológicos (1970), em que imprimiu e carimbou frases po-
líticas nas garrafas de vidro da Coca-Cola e em cédulas de
dinheiro, deslocando a recepção da obra da dimensão de
“público” para a de “circuito”.
Nesses trabalhos, o artista explorou a noção de circu-
lação e de intercâmbio de riqueza. No projeto Coca-Cola,
o artista incentivava as pessoas a registrar informações
críticas e opiniões nas garrafas retornáveis de vidro antes
de devolvê-las à circulação. Já no projeto Cédula, o artista
carimbou mensagens em notas de dinheiro que traziam
o questionamento “Quem matou Herzog?”, em referência
ao jornalista Vladimir Herzog (1937-1975) , preso e morto no
período da Ditadura Militar.
No período da Ditadura Militar no Brasil, o coletivo de artistas 3Nós3 também realizou intervenções
Cildo Meireles, Inserções em Circuitos Ideológicos.
Projeto Cédula, 1970.
com o objetivo de alertar a população sobre os horrores das torturas praticadas naquela época. A obra
Ensacamento, de 1979, consistiu na colocação de sacos plásticos sobre a cabeça de 68 estátuas públi-
cas da cidade de São Paulo, fazendo alusão à prática comum durante os interrogatórios.
Ensacamento, 3Nós3, 1979.
2266
3Nós3/(Hudinilson Jr., Mário Ramiro e Rafael França), Ensacamento, 1979.
C
Outra vertente da arte das intervenções é a realizada
sobre imagens conhecidas. Um dos precursores dessa prá-
tica foi o artista Marcel Duchamp, que desenhou bigode e
cavanhaque em um postal da Mona Lisa, de Leonardo da
Vinci. Esse gesto teve um objetivo contestatório, de rebel-
dia, confrontando a rede de poderes do mercado da arte
e criticando a banalização da arte tradicional trazida pela
sociedade de consumo.
Intervenção em espaços da cidade
Nos centros urbanos, as intervenções costumam interferir
sobre determinado suporte, como um muro, uma fachada de
prédio ou mesmo objetos menores, como lixeiras e hidrantes.
A relação entre a obra, o espaço e o público pode provocar
reações e transformações no comportamento, nas concep-
ções e nas percepções das pessoas.
L.H.O.O.Q., de Marcel
Duchamp, 1919.
Lápis sobre papel,
19 cm 3 12 cm.
Registro de intervenção em estêncil de Alexandre Orion, em rua de São Paulo (SP).
O movimento da arte urbana surgiu no fim da década de 1960 e início dos anos 1970, na cidade da
Filadélfia, Estados Unidos. Inicialmente com assinaturas monocromáticas e de traços simples, aos poucos
ganharam novas formas e cores, se transformando em verdadeiras ilustrações caligráficas.
O grafite sofreu desde o seu surgimento uma grande repressão pelo governo e pela polícia, sendo
percebido como vandalismo. Em Nova York, nos anos 1980, os artistas eram perseguidos, presos e ti-
nham suas obras constantemente apagadas dos espaços onde eram inseridas.
Esse embate, somado às transformações ocorridas pela dinâmica de mudança das cidades, coloca o
grafite como uma arte de intervenção efêmera, ou seja, pode possuir curta duração.
Atualmente, o grafite ainda vive essa disputa de repressão. Porém, em algumas cidades, a prática
ganhou espaço e reconhecimento na sociedade, permitindo aos artistas que alcancem reconhecimento
internacional e possam trabalhar em projetos que ocupem desde grandes prédios até estampas para
roupas e objetos. É possível destacar também que algumas instituições públicas por vezes recorrem ao
grafite como forma de expressão artística, proporcionando oportunidades e destaque para o trabalho
de jovens artistas.
Fique por dentro
Além dos grandes murais de grafite, existem outras técnicas de intervenções utilizadas pelos artistas na cidade. Um
exemplo é o pôster lambe-lambe, que consiste em uma colagem de imagem impressa. Outra prática é o estêncil, que
consiste em um molde vazado em que o artista aplica a tinta criando uma imagem rápida e fácil de ser replicada. A obra
de Alexandre Orion, acima, é um exemplo de produção criada a partir do uso de moldes.
27
Alexandre Orion/Acervo do artista
© Association Marcel Duchamp/AUTVIS, Brasil, 2020
Foto: Christie’s Images/Bridgeman Image/Fotoarena/
A
De olho
Você já ouviu falar de grafite reverso? Essa é
uma técnica que cria murais através da limpeza
de uma superfície coberta pela poluição da
cidade. Na obra ao lado, o artista Drin Cortês re-
tratou a cantora Amy Winehouse em um viaduto
no Complexo da Lagoinha, em Belo Horizonte.
Amy, de Drin Cortês, 2011.
Registro fotográfico por Pedro
Estrada, Belo Horizonte, 2013.
Acervo do fotógrafo.
O grafite se tornou a intervenção urbana mais po-
pular nas grandes cidades, mas, além dele, existem
outros suportes artísticos, como esculturas e instala-
ções, que podem ocupar os espaços de ruas, praças
e parques.
Essas intervenções podem ter dimensões grandio-
sas, como o trabalho do artista h olandês Florentijn
Hofman (1977-), que, em 2011, convocou 25 artesãos
voluntários para ajudá-lo a colocar um coelho de
13 metros de altura na praça em frente à igreja St. Ni-
colai, em Örebro, na Suécia.
Outro exemplo é o trabalho da artista brasileira
Néle Azevedo (1950-), que instalou pequenas escultu-
ras de gelo em escadarias ao longo do mundo. A obra
já passou pelo Brasil em 2005 e também foi exposta em
Birmingham, no Reino Unido, em 2014.
Big yellow rabbit (grande coelho amarelo), de Florentijn
Hofman, 2011.
Monumento mínimo, de Néle Azevedo, 2005. Dimensões variadas. Instalação montada em São
Paulo (SP), ao lado da Catedral da Sé.
2288
Nilton Fukuda/Estadão Conteúdo/AE/Nele Azevedo/AUTVIS Brasil,2021
Pedro Estrada/Acervo do fotógrafo
A
Parada obrigatória
1. Leia os textos, observe as imagens e responda ao que se
pede.
Texto I
Artista usa poluição, sujeira e dejetos
como matéria -prima de seu trabalho
Apagando com panos a sujeira de um túnel subterrâneo,
ele criou o mural “Ossário”, de 300 metros, com 3 500 crânios
desenhados, há quase dez anos. Durou pouco, mas fez história.
Estava inventado o grafi te reverso. Com a fuligem que extraiu
da lavagem dos panos, fez pigmento para pinturas que espalhou
por paredes e ruas.
Alexandre Orion, 37, fotógrafo, designer e artista, inclui po-
luição, fotografi a, paisagens e habitantes urbanos em suas obras.
O pensamento sobre a cidade não se resume aos materiais.
“Tudo que faço tem discurso, ideia, discussão sobre in-
terdependência, comunidade. Não faço nada fechado, só con-
ceitual. É tudo para tocar o outro. Sou mais comunicador que
artista”, diz.
[...]
FOLHA de São Paulo. Artista usa poluição, sujeira e dejetos como
matéria-prima de seu trabalho. Disponível em: https://m.folha.uol.
com.br/ambiente/2015/06/1637804-artista-usa-poluicao-sujeira-
e-dejetos-como-materia-prima-de-suas-obras.shtml?mobile.
Acesso em: 16 nov. 2020.
Texto II
Como a cidade de Belo Horizonte
transformou muros e edifícios em telas
para se consolidar galeria a céu aberto
Os murais do Cura começaram a ser pintados na mesma
época em que os muros grafi tados de São Paulo eram cobertos
por tinta cinza, o que projetou a capital mineira nacionalmente
como cidade que acolhe a arte urbana. A face visível dessa f or-
ma de expressão da arte contemporânea, dada pela altura dos
prédios onde estão, refl ete o trabalho de artistas urbanos, que
escolheram a rua como ateliê e muros como telas. A Bienal de
Graffi ti (2008), projeto Telas Urbanas (2015), Concurso Genti-
leza (2017), Museu de Rua (2018), Morro Arte Mural (MaMu)
(2018), Território de Arte Urbana (Tau) (2018), Grafi tação e cen-
tenas de grafi tes e “sopas de letrinhas”, por toda a cidade, são
exemplos dessa efervescência.
Matéria do Jornal Estado de Minas, Belo Horizonte, 2018. Disponível em: https://
www.em.com.br/app/noticia/90-anos/2018/12/12/interna_90_anos,1012421/
como-bh-transformou-muros-em-telas-para-se-consolidar-galeria-a-ceu-ab.shtml
Diante das imagens e dos textos apresentados, como a arte
urbana pode promover reflexões sobre o uso do espaço pú-
blico nas cidades?
Oss‡rio, de Alexandre Orion, 2006. Intervenção urbana realizada
através da limpeza seletiva da po luição depositada nas paredes
de túneis da cidade de São Paulo.
29
Alexandre Orion/ Acervo do artista
Juarez Rodrigues/EM/D.A Press
A
Parada complementar
1. (Enem)
artistas criaram obras em que predominam o equilí brio e a si-
metria de formas e cores, imprimindo um estilo caracterizado
pela imagem da respeitabilidade, da sobriedade, do concreto e
do civismo. Esses artistas misturaram o passado ao presente,
retratando os personagens da nobreza e da burguesia, alé m de
cenas mí ticas e histó rias cheias de vigor.
RAZOUK, J. J. (org.). Histó rias reais e belas nas telas. Posigraf, 2003.
Toca do Salitre — Piauí. Disponível em: http://www.fumdham.org.br.
Acesso em: 27 jul. 2010.
Atualmente, os artistas apropriam-se de desenhos, charges,
grafismo e até de ilustrações de livros para compor obras em
que se misturam personagens de diferentes épocas, como na
seguinte imagem:
a) Romero Brito.
“Gisele e Tom”
d) Andy Warhol.
“Marlyn Monroe”.
Arte Urbana. Foto: Diego Singh. Disponível em: http://www.diaadia.
pr.gov.br. Acesso em: 27 jul. 2010.
b) Andy Warhol.
“Michael Jackson”
O grafite contemporâneo, considerado em alguns momen-
tos como uma arte marginal, tem sido comparado às pin-
turas murais de várias épocas e às escritas pré-históricas.
Observando as imagens apresentadas, é possível reco nhe-
cer elementos comuns entre os tipos de pinturas murais,
tais como
a) a preferência por tintas naturais, em razão de seu efeito
estético.
b) a inovação na técnica de pintura, rompendo com modelos
estabelecidos.
c) o registro do pensamento e das crenças das sociedades
em várias épocas.
d) a repetição dos temas e a restrição de uso pelas classes
dominantes.
e) o uso exclusivista da arte para atender aos interesses da
elite.
2. (Enem)
Na busca constante pela sua evoluç ã o, o ser humano vem
alternando a sua maneira de pensar, de sentir e de criar. Nas
ú ltimas dé cadas do sé culo XVIII e no iní cio do sé culo XIX, os
Teste seu conhecimento: 1 e 2
3300
c) Funny Filez.
“Monabean”.
e) Pablo Picasso. “Retrato
de Jaqueline Roque
com as Mã os Cruzadas”.
Reprodução/Enem,2011
Reprodução/Enem,2011
F
O espaço e o tempo na composição da obra de arte
Algumas formas tradicionais de arte, como a pintura e a escultura, possuem um suporte bem defi-
nido, isto é, o espaço onde acontecem se restringe às margens do quadro ou ao contorno das formas
da imagem. Sua relação com o tempo tende a ser da perenidade, ou seja, quando bem condicionadas e
preservadas, podem durar muito tempo.
Na arte contemporânea, alguns artistas imprimiram uma relação distinta entre o espaço e o tempo em
suas obras. De meados do século XX até os dias de hoje, é possível observarmos obras que colocam essa
relação em questionamento. Intervenções urbana s que depois são desfeitas nos espaços das cidades ou
ações na natureza que estão condicionadas às questões climáticas são alguns exemplos desse tipo de tra-
balho, conhecido como site specific.
A natureza como elemento artístico
Ao longo da história, a paisagem natural serviu de inspiração para a criação de pinturas e desenhos.
Nestes casos, a natureza operava na esfera da representação nas obras de arte. A partir dos anos 1960, a
paisagem natural começou a se tornar o próprio suporte para a criação das obras.
Desertos, lagos, florestas, montanhas e planícies se tornaram palco para intervenções dos artistas, que
iam de simples caminhadas a grandes modificações com o uso de tratores e máquinas. Esse tipo de arte
ficou conhecida como Land Art, ou arte da terra.
Uma experiência icônic a deste período foi o trabalho do artista inglês Richard Long (1945-), intitulado
A line made by walking, que consiste na marca do andar do artista em linha reta em um terreno baldio
no interior da Inglaterra. Na imagem, que opera aqui como registro dessa ação, é possível percebermos a
ausência da figura humana, o que é visível é apenas o desenho da linha que transforma o espaço em pai-
sagem. Desenho criado através da ação do ato de caminhar e que desaparece com o tempo tornando esta
obra uma arte efêmera.
Site specific: termo utilizado
na arte para designar obras e
projetos artísticos pensados
para um ambiente específico
em que os elementos
dialogam com o meio
circundante, incorporando-o
e transformando-o, de acordo
com a proposta. Geralmente,
as experiências acontecem
uma única vez e não podem ser
reproduzidas em outros lugares.
Arte efêmera: conceito
curatorial atribuído a obras
que não possuem como
princípio a longa durabilidade.
Intervenções, instalações e
performances possuem essa
característica por estarem
limitadas à duração de sua
execução ou por estarem sujeitos
à alteração ou destruição ao
longo do tempo.
A line made by walking, de Richard Long, 1967.
Nas obras aqui apresentadas, o fazer artístico está integrado à natureza, transformando o entorno,
com o qual se relaciona. As obras, de pequenas ou grandes dimensões, se transformam e acabam desa-
parecendo ao longo do tempo, restando a elas apenas o registro por meio de fotografias e filmes. Para
experimentá-las, é preciso que o espectador esteja diante delas, percorrendo seus caminhos e espaços
enquanto acontecem ou enquanto permanecem na natureza.
31
Reprodução/Richard Long/Acervo do artista
A
Fique por dentro
A Land Art nos dias de hoje
O projeto Quando a fé move montanhas (2002), de Francis Alÿs, pode ser considerado uma releitura do movimento
da Land Art trazido para os tempos atuais. Em uma proposta coletiva que visava à ressocialização da prática, o
artista convocou os moradores de uma periferia em Lima, no Peru, para um deslocamento coletivo de uma duna
de 500 metros de diâmetro. No total, 500 voluntários participaram da ação, portando cada um uma pá de cavar, se
posicionando em uma linha reta e movendo a areia da paisagem.
O projeto proposto por Alÿs percebe o
lugar como um acontecimento coletivo em
que a força social surge do encontro pro-
posto pelo artista, portanto para além de
um conceito contemplativo. A duna é movida
em poucos centímetros, mas, simbolicamen-
te, diz muito daquela cidade e sociedade
promovendo uma história no imaginário
do lugar. A transformação da paisagem é
acompanhada por uma transformação da re-
lação social do povo que participou da ação,
uma vez que encontros, trocas, diálogos e
a mobilização que aconteceu na execução
do projeto se perpetuam como uma grande
potência simbólica da experiência.
Quando a fé move montanhas, de Francis
Alÿs, 2002. Lima, Peru.
Parada obrigatória
2. A partir dos conceitos apresentados, explique como a Land Art se relaciona com os conceitos de site specific e arte efêmera.
3322
©
Parada complementar
3. (UEL-PR)
O movimento artístico da década de 1960 conhecido como “Land Art” (Arte da Terra) parte da conexão e integração entre arte e na-
tureza, em que a natureza é, além de suporte, a criação artística. Com base na figura e nos conhecimentos sobre o movimento Land
Art, atribua V (verdadeiro) ou F (falso) às afirmativas a seguir.
( ) Destaca a relação entre espaço e mundo, em que um se realiza através do outro; opõe-se à arte apresentada nos museus, critican-
do a indústria cultural e a racionalidade formal.
( ) Enfatiza a grandeza e a efemeridade da arte na sua fusão com a natureza; os espaços das obras se comunicam e interagem uns com
os outros.
( ) Utiliza objetos do cotidiano para a obra de arte comunicar e interagir no fazer artístico e baseia-se na relação entre a arte e o espaço
limitado, fazendo deles o seu local de ocupação e produção.
( ) Traz a natureza como material e faz do espaço a arte, enfatizando os conceitos sobre ecologia, meio ambiente e sustentabilidade.
( ) Está ligado a uma estética baseada em sua bidimensionalidade circunscrita e na elaboração de obras que perduram por gerações.
Assinale a alternativa que contém, de cima para baixo, a sequência correta.
a) V, F, V, V, V.
b) V, V, F, V, F.
c) V, V, F, F, V.
d) F, V, F, V, F.
e) F, F, V, F, V.
4. (UEL-PR)
Há algumas décadas, certos artistas vêm migrando dos espaços convencionais da arte – como ateliês, galerias e museus – para se afron-
tarem com a imensidão dos espaços e tempos infi nitos do território natural. Vários exemplos podem ser encontrados nos artistas ligados à
“Land Art”, tendência na qual o meio ambiente se torna o próprio campo de experimentação artística, como os trabalhos desenvolvidos pelo
norte-americano Robert Smithson.
(Adaptado de: SOARES, Ana Cecília. Artes em campo expandido. Jornal Diário do Nordeste. 19 ago. 2010. Disponível em: www.diariodonordeste.globo.com/materia.
asp?codigo=834563. Acesso em: 9 ago. 2011.)
Robert Smithson. Molhe Espiral, 1970.
Rocha negra, cristais de sal, terra,
água vermelha (algas). 457,2 m de
comprimento e aproximadamente
4,57 m de largura. Grande Lago
Salga do, Utah (EUA).
Com base no texto e na figura 23, assinale a alternativa que apresenta, correta e respectivamente, a linguagem e a tendência artís-
tica do trabalho Molhe Espiral.
a) Performance e naturalista.
b) Escultura e naturalista.
c) Intervenção e contemporânea.
d) Performance e contemporânea.
e) Escultura e expressionista.
Teste seu conhecimento: 3 e 4
33
Reprodução/UEL, 2012
Reprodução/UEL,2019.
A
O deslocamento como elemento artístico
Ao longo do século XX, movimentos artísticos como o dadaísmo, o surrealismo e a internacional si-
tuacionista começaram a buscar estratégias de criar experiências que unissem a arte com o cotidiano,
transformando processos artísticos em sensações de vida. Nessa abordagem, a relação do corpo do ar-
tista diante do tempo, do espaço e, principalmente, diante das cidades modernas é repensada.
Entre Vidas, de Anna Maria Maiolino. Série Fotopoemação, 1981. Fotografia. 144 cm 3 92 cm,
Museu de Arte Contemporânea, Los Angeles.
O caminhar e o deslocar-se pelas paisagens urbanas e nos seus entornos se tornaram elementos que
serviram de ponto de partida para a realização de uma série de experiências, rompendo com a lógica de
pensar a arte a partir da criação de objetos, como quadros ou esculturas. Nesse contexto, a produção
artística é efêmera, e seu registro pode não existir ou pode ser feito por fotografia, vídeo, relato ou por
meio de uma cartografia.
No início do século XX, o ato de caminhar foi incorporado pelas vanguardas como forma de ação
estética. Em 1921, dadaístas organizaram uma série de visitas a lugares que definiam como “banais” na
cidade de Paris, quando o caminhar foi assumido pela primeira vez como uma manifestação de crítica às
tradicionais formas de arte.
As propostas dadaístas utilizavam o andar como um instrumento para a representação da cidade, que
passou por diversas transformações desde o século XIX. Os artistas e poetas que viveram essas transfor-
mações buscavam na arte formas de interpretar as mudanças do espaço e do tempo.
Em seguida, o movimento surrealista, caracterizado pelo uso e pela compreensão do inconsciente na
atividade criativa, promoveu as deambulações, que consistiam em caminhadas livres de rotas e desti-
nos pelos entornos das cidades. As deambulações propunham um caminhar no qual o controle da ação
era perdido em busca do inconsciente do território, fazendo o espaço surgir como um elemento ativo e
vibrante, que dialoga de maneira profunda com a mente, promovendo misturas entre sonho e realidade.
Nos anos 1960 e 1970, a utilização do caminhar como recurso plástico se tornou recorrente, em bus-
ca de estabelecer novas formas de pensar a espacialidade das cidades. Nesse período, o movimento
europeu internacional situacionista, composto de artistas, filósofos e poetas, questionava como as
futuras cidades deveriam ser construídas, utilizando a deriva como um meio de descobrir quais bairros
deveriam ser preservados. Instruções estabelecidas previamente determinavam a duração do percur-
so, os locais para o início e a quantidade de participantes, transformando a deriva em uma espécie de
laboratório de registro e vivência urbanos.
As práticas de deriva funcionavam como uma ferramenta para experienciar e criticar o planejamento
urbano excessivamente racional e frio, particularmente na Europa pós-guerra. A partir das derivas, ma-
pas psicogeográficos eram criados para ilustrar a experiência afetiva com a cidade.
No cenário internacional contemporâneo, o belga Francis Alÿ s é um artista que utiliza a caminhada
Paradox of Praxis, de Francis
Alÿs, 1997. Cidade do México.
Coleção particular.
3344
como experiência artística. Nascido em 1959, na Bélgica, se muda para a Cidade do México nos anos 1980,
onde começa a estabelecer uma relação criativa de experiência de vida com a cidade a partir da sua
condição de estrangeiro naquele lugar.
Foto: Francys Alÿs/Coleção particular
R
Em seus trabalhos, é possível evidenciar uma espécie de pulsão constante nos movimentos de
distanciamento e envolvimento com a cidade a partir de questões relacionadas aos contextos sociais e
às tensões neles existentes. A cidade, para Alÿs, é como um campo de forças, no qual dimensões sociais
e políticas se revelam no cotidiano. O artista, ao mesmo tempo que é afetado por essas forças, também
integra o espaço.
No Brasil, também é p ossível encontrar artistas que fizeram experimentos através do caminhar. Em
1956, o artista Flávio de Carvalho realizou a Experiência nº 3 quando desfilou pelas ruas do centro de São
Paulo vestindo o seu “new look”, composto de blusa, saiote e meia-arrastão. O que o artista propunha era
um traje ideal para os homens dos trópicos.
O ato de caminhar compõe também trabalho do
artista brasileiro Matheus Couto (1992-). Na série
Deriva Vestimentar, o artista uniu o ato de caminhar
com o vestuário contrastante com a paisagem. Nesse
projeto, a figura em movimento cria uma cena viva ao
juntar-se com a paisagem urbana.
É importante ter em mente que o trabalho dos ar-
tistas comentados neste tópico não se constitui pe-
los objetos que produz, e sim pelo comportamento
do próprio artista, que define suas obras como uma
“arte de conduta”. Em exposições e bienais de arte, seu
trabalho geralmente é apresentado através de instala-
ções, que consistem em arranjos de itens coletados ao
longo do trajeto, e trabalhos em vídeo, que documen-
tam sua jornada.
Fica evidente que devido à diversidade dessas
experiências com contextos históricos divergentes,
cada grupo ou artista tenha desenvolvido diferentes
práticas de abordagem do espaço, com táticas, ob-
jetivos e estratégias específicas, gerando novas for-
mas de investigar os territórios através do andar. O
deslocar-se na arte é entendido como estar sujeito ao
risco da surpresa, do acaso, do inesperado, pensando
em diferentes modos de ver, abordar e se aproximar
dos espaços.
Da mesma forma que o artista se transforma no processo do deslocamento, o espaço também é
Deriva Vestimentar n. 4 (2019), de Matheus Couto.
Ruas do Bairro Santa Tereza, Belo Horizonte.
transformado pela sua presença. Em todas as épocas, o caminhar tem produzido arquitetura e paisagem.
Mesmo não sendo a construção física de um espaço, implica uma transformação do lugar e dos seus
significados, operando como uma fórmula simbólica de transformar a paisagem.
Como fazer
O cortejo silencioso
Você viu que o ato de caminhar é um procedimento adotado por vários artistas contemporâneos, que fazem do deslocamento sua forma de expressão.
Agora, você e seus colegas vão experimentar essa forma de produzir arte realizando uma experiência de deslocamento pela escola: o cortejo silencioso.
Você já participou de algum cortejo? Em qual ocasião?
O cortejo é um acompanhamento que se faz a alguém ou a algum objeto simbólico por ocasião de alguma cerimônia importante, seja civil, militar ou
religiosa. “O cortejo silencioso” será uma caminhada pela escola de forma alinhada, podendo ser em fila única, dupla, ou fila tripla. É importante que
as regras para o cortejo sejam definidas ainda em sala de aula para não causar tumulto ou ruídos pela escola. Com os colegas, procurem definir qual
será o tipo do cortejo (fúnebre, militar, religioso, político, celebração etc.) para que cada um crie seus gestos e desenvolva expressões fisionômicas. O
importante é que o cortejo seja silencioso, isto é, não pode haver qualquer ruído.
Após realizarem o percurso, todos os participantes, sem desmanchar a fila e sem emitir sons, devem voltar para a sala e sentar-se em seus
devidos lugares. Em seguida cada um deverá comentar sobre a sua experiência e os sentimentos que teve ao longo do percurso, lembrando que o
deslocamento é um movimento corporal que também pode ser utilizado para expressar algo.
35
Matheus Couto/Acervo do artista
A
Parada obrigatória
3. A partir das reflexões apresentadas, comente o que você entende como uma caminhada em deriva.
Parada complementar
5. O artista Francis Alÿs caminha pela cidade do México enquanto a linha do seu suéter (desmanchando) deixa um rastro por onde ele
passa. Essa ação foi intitulada Conto de fadas.
Pesquise a obra na internet e, na sequência, responda: como o ato de caminhar do artista transformou a paisagem?
6. Em 1931, Flávio de Carvalho realiza sua Experiência no 2, que consistiu em andar em sentido contrário a uma procissão de Corpus
Christi pelas ruas de São Paulo, com um boné de veludo verde na cabeça. Posteriormente, publica livro de igual título, narrando sua
experiência. Sobre esta performance, é correto afirmar que o ato
a) foi rapidamente assimilado pelo público como uma situação cômica, visto que Flávio já era fi gura ligada ao humor e com boa aceita-
ção nos círculos religiosos de São Paulo.
b) foi seguido, em 1956, pela Experiência no 3, em que Flávio desfi la pelas ruas de São Paulo usando um traje, de sua autoria, do “novo
homem” dos trópicos.
c) não deve ser relacionado, nem mesmo no campo teórico, ao conceito de Deriva, elaborado pelos Situacionistas sediados na França,
o que demandaria um encontro presencial nunca ocorrido com Guy Débord.
d) Não tem implicações com a História da Arte propriamente dita, e seu estudo está restrito a um campo de atuação denominado estu-
dos culturais.
e) Fez parte, declaradamente, do movimento cultural a que se chamou de Tropicália, embora sem o devido reconhecimento por parte
dos historiadores da música brasileira, como José Ramos Tinhorão.
Teste seu conhecimento: 5 e 6
336
A dança como diálogo do corpo
A partir da segunda metade do século XX, diversos coreógrafos
ao redor do mundo passaram a buscar diferentes formas de pensar
o movimento e o uso do corpo na composição de uma coreografia.
Nesse sentido, a dança contemporânea não é uma escola ou
uma técnica específica, mas um modo de pensar a dança que es-
tabeleceu novos diálogos com o corpo para além da hegemonia do
balé clássico.
As possibilidades criativas da dança contemporânea são tão
abrangentes que não delimitam estilos de roupas, músicas, espaços
ou movimentos. Não há uma técnica única e predefinida, mas sim
processos e formas de criação. O que se busca é uma nova noção
de corporeidade, com um sentido mais experimental. Não existe um
corpo ideal, e sim um corpo multicultural, com várias referências.
O estilo butô
O ankoku butô, posteriormente conhecido apenas como butô,
foi um estilo de dança que nasceu no Japão, em meados da dé-
cada de 1950, em uma época marcada pelas consequências do
pós-guerra e pela abertura do país às influências estrangeiras.
Tatsumi Hijikata (1928-1986) iniciou um movimento que criaria
o butô pelo uso do corpo como meio de expressão de sentimen-
tos e sentidos através de colaborações artísticas e contato com
outras linguagens, como a literatura, a música, as artes plásticas
e o cinema. O Ocidente conheceu a dança butô somente nos úl-
timos anos da década de 1970, através do dançarino Kazuo Ohno
(1906-2010), que trabalhou com Tatsumi Hijikata ajudando a con-
solidar o estilo e levá-lo a outros países.
A inspiração para a criação do butô partiu da mistura de van-
guardas europeias, como o expressionismo, o cubismo e o surrealis-
mo, com danças japonesas, como nô e bugaku. O estilo buscava uma
forma de expressão que não seria necessariamente coreografada,
nem presa aos movimentos definitivos que remetam a uma técnica
específica. O que se buscava era a expressão da individualidade.
No Japão e em diversos países do mundo, muitos grupos, dan-
çarinos e performers assumiram a dança butô como matriz poé-
tica de suas práticas artísticas, incorporando novos elementos e
criando derivações do estilo. No Brasil, os principais expoentes da
dança foram Takao Kusuno (1945-2001) e sua esposa Felicia Ogawa
(1945-1997). Kusuno foi responsável pela difusão do butô no Brasil,
trazendo aspectos da cultura brasileira às suas performances.
A Técnica Klauss Viana
Klauss Viana (1928-1992) foi um bailarino brasileiro que se em-
penhou em criar uma identidade para o balé nacional que fugisse
de reproduções e inadequações de técnicas e métodos provenien-
tes de outros países, como a Rússia e a França.
Uma de suas contribuições para a dança e o teatro nacionais foi
o desenvolvimento da Técnica do Movimento Consciente, também
conhecida como Técnica Klauss Viana, resultado de um dos mais
importantes estudos sobre o corpo e a dança no Brasil. Em parceria
com a sua esposa, a também bailarina Angel Vianna (1928-), Klauss
buscou aprofundar a consciência do corpo e do movimento em
função de ampliar as possibilidades de movimento e expressão.
O que Angel e Klauss buscavam em sua técnica era a sensibi-
lização do corpo, a percepção dos seus estados corporais, com o
intuito de entender as relações entre a mecânica do movimento
e a expressão. A soma da atenção, da consciência e da presença
diante do espaço eram necessárias para a geração de um movi-
mento que viria de dentro do bailarino, diferentemente do que
propunham as escolas clássicas, que pensavam o movimento em
primeiro lugar, fazendo com que o corpo se enquadrasse a um
ideal de gesto a ser seguido.
A dança contemporânea no Brasil
Como apresentado no início deste tópico, a dança contem-
porânea tem um aspecto multidisciplinar e diverso, não sendo
possível, portanto, reduzi-la a uma única escola ou movimento.
A construção de uma coreografia pode estabelecer diferentes
diálogos e envolver diferentes processos criativos que utilizem
diversas matrizes culturais. A criação de um espetáculo de dança
contemporânea pode utilizar também os recursos da iluminação,
da trilha sonora, do espaço cênico, dos figurinos e do vídeo como
contribuintes para a narrativa a ser apresentada.
Espaço cênico: espaço definido para a encenação de uma apresentação de
dança ou de teatro.
Nesse sentido, o Brasil se tornou um forte berço para a cria-
ção de grupos e escolas que ganharam o mundo com propostas
de movimentos que romperam com concepções clássicas da dan-
ça e das artes cênicas como um todo.
O Grupo Corpo é um exemplo da capacidade de fundir e adap-
tar diferentes estilos das mais variadas fontes de aspectos da
cultura nacional e int ernacional. O coreógrafo do grupo, Rodrigo
Pederneiras, trabalha a sobreposição de formas e gestos, pen-
sando uma nova existência na cena. A mistura de elementos da
cultura brasileira é traduzida e reinterpretada pela articulação
entre a coreografia, a música, a iluminação e o figurino.
Já a companhia da coreógrafa Deborah Colker conseguiu
Kazuo Ohno (1906-2010),
dançarino japonês de
butô, apresentando Suiren
(Water Lilies) no Asia
Society, em Nova York, 1988.
criar um registro novo e popular para a dança no país. Movi-
mentos virtuosos se combinam a sequências atléticas e cená-
rios inusitados, promovendo uma interação entre o gesto e a
cena que desafia a gravidade e o tempo. Em seus espetáculos,
é comum a presença de estruturas que permitem a criação de
diferentes movimentos na dança apresentada pelos bailarinos
Prof. Rosane Araujo Martins
-
Flashcards
Flashcards: Existem diferentes maneiras de a arte ocupar um espaço. Ela pode fazer parte do acervo ou da cole-
ção de um museu e ficar anos em um mesmo lugar ou pode estar associada a uma exposição itinerante
e ficar apenas uma semana, por exemplo. A arte também pode se deslocar, caminhar pelas ruas indo ao
encontro do público.
Um trabalho artístico pode ser composto sobre o solo, dentro de um lago, nos muros das ruas, em
uma floresta e até em árvores. Essa forma de fazer arte não se preocupa necessariamente com seu tempo
de exposição ou com sua durabilidade. Tais procedimentos, característicos da arte contemporânea, são
geralmente produzidos para causar um impacto e uma reflexão sobre um determinado tema.
O tempo que essa arte estará exposta ou mesmo a sua durabilidade dependerá da intenção do
artista e, muitas vezes, o próprio artista é um dos elementos de sua obra, como você verá ao longo
deste capítulo.
25
Regina Parra/Acervo da artista
Foco no tema
A arte das intervenções
No campo das artes, a prática da intervenção pode ser compreendida e empregada de diferentes
maneiras e com diversas técnicas, com possibilidade de serem pontuais ou de se tornarem obras perma-
nentes. É possível entender a intervenção como uma ação sobre algo, em geral um suporte preexistente,
que pode ser desde pequenos objetos e imagens até grandes espaços físicos.
Diferentes trabalhos de arte podem ser qualificados como intervenção, não havendo, portanto, uma
categorização única ou fronteiras rígidas, mas sim uma confluência entre as tendências. Elas podem
ser ações efêmeras, ou seja, que possuem uma curta duração; podem se constituir a partir de eventos
participativos em espaços abertos; podem ser inserções na paisagem; ocupações de edifícios ou áreas
livres; performances; instalações; vídeos; lambe-lambes; interferências em placas de sinalização de
trânsito ou materiais publicitários e manifestações de arte de rua, como o grafite.
Intervenções em objetos e imagens
Uma vertente da arte das intervenções é a realizada
sobre objetos existentes. Cildo Meireles (1948-) é um artista
brasileiro que desenvolveu a série Inserções em Circuitos
Ideológicos (1970), em que imprimiu e carimbou frases po-
líticas nas garrafas de vidro da Coca-Cola e em cédulas de
dinheiro, deslocando a recepção da obra da dimensão de
“público” para a de “circuito”.
Nesses trabalhos, o artista explorou a noção de circu-
lação e de intercâmbio de riqueza. No projeto Coca-Cola,
o artista incentivava as pessoas a registrar informações
críticas e opiniões nas garrafas retornáveis de vidro antes
de devolvê-las à circulação. Já no projeto Cédula, o artista
carimbou mensagens em notas de dinheiro que traziam
o questionamento “Quem matou Herzog?”, em referência
ao jornalista Vladimir Herzog (1937-1975) , preso e morto no
período da Ditadura Militar.
No período da Ditadura Militar no Brasil, o coletivo de artistas 3Nós3 também realizou intervenções
Cildo Meireles, Inserções em Circuitos Ideológicos.
Projeto Cédula, 1970.
com o objetivo de alertar a população sobre os horrores das torturas praticadas naquela época. A obra
Ensacamento, de 1979, consistiu na colocação de sacos plásticos sobre a cabeça de 68 estátuas públi-
cas da cidade de São Paulo, fazendo alusão à prática comum durante os interrogatórios.
Ensacamento, 3Nós3, 1979.
2266
3Nós3/(Hudinilson Jr., Mário Ramiro e Rafael França), Ensacamento, 1979.
C
Outra vertente da arte das intervenções é a realizada
sobre imagens conhecidas. Um dos precursores dessa prá-
tica foi o artista Marcel Duchamp, que desenhou bigode e
cavanhaque em um postal da Mona Lisa, de Leonardo da
Vinci. Esse gesto teve um objetivo contestatório, de rebel-
dia, confrontando a rede de poderes do mercado da arte
e criticando a banalização da arte tradicional trazida pela
sociedade de consumo.
Intervenção em espaços da cidade
Nos centros urbanos, as intervenções costumam interferir
sobre determinado suporte, como um muro, uma fachada de
prédio ou mesmo objetos menores, como lixeiras e hidrantes.
A relação entre a obra, o espaço e o público pode provocar
reações e transformações no comportamento, nas concep-
ções e nas percepções das pessoas.
L.H.O.O.Q., de Marcel
Duchamp, 1919.
Lápis sobre papel,
19 cm 3 12 cm.
Registro de intervenção em estêncil de Alexandre Orion, em rua de São Paulo (SP).
O movimento da arte urbana surgiu no fim da década de 1960 e início dos anos 1970, na cidade da
Filadélfia, Estados Unidos. Inicialmente com assinaturas monocromáticas e de traços simples, aos poucos
ganharam novas formas e cores, se transformando em verdadeiras ilustrações caligráficas.
O grafite sofreu desde o seu surgimento uma grande repressão pelo governo e pela polícia, sendo
percebido como vandalismo. Em Nova York, nos anos 1980, os artistas eram perseguidos, presos e ti-
nham suas obras constantemente apagadas dos espaços onde eram inseridas.
Esse embate, somado às transformações ocorridas pela dinâmica de mudança das cidades, coloca o
grafite como uma arte de intervenção efêmera, ou seja, pode possuir curta duração.
Atualmente, o grafite ainda vive essa disputa de repressão. Porém, em algumas cidades, a prática
ganhou espaço e reconhecimento na sociedade, permitindo aos artistas que alcancem reconhecimento
internacional e possam trabalhar em projetos que ocupem desde grandes prédios até estampas para
roupas e objetos. É possível destacar também que algumas instituições públicas por vezes recorrem ao
grafite como forma de expressão artística, proporcionando oportunidades e destaque para o trabalho
de jovens artistas.
Fique por dentro
Além dos grandes murais de grafite, existem outras técnicas de intervenções utilizadas pelos artistas na cidade. Um
exemplo é o pôster lambe-lambe, que consiste em uma colagem de imagem impressa. Outra prática é o estêncil, que
consiste em um molde vazado em que o artista aplica a tinta criando uma imagem rápida e fácil de ser replicada. A obra
de Alexandre Orion, acima, é um exemplo de produção criada a partir do uso de moldes.
27
Alexandre Orion/Acervo do artista
© Association Marcel Duchamp/AUTVIS, Brasil, 2020
Foto: Christie’s Images/Bridgeman Image/Fotoarena/
A
De olho
Você já ouviu falar de grafite reverso? Essa é
uma técnica que cria murais através da limpeza
de uma superfície coberta pela poluição da
cidade. Na obra ao lado, o artista Drin Cortês re-
tratou a cantora Amy Winehouse em um viaduto
no Complexo da Lagoinha, em Belo Horizonte.
Amy, de Drin Cortês, 2011.
Registro fotográfico por Pedro
Estrada, Belo Horizonte, 2013.
Acervo do fotógrafo.
O grafite se tornou a intervenção urbana mais po-
pular nas grandes cidades, mas, além dele, existem
outros suportes artísticos, como esculturas e instala-
ções, que podem ocupar os espaços de ruas, praças
e parques.
Essas intervenções podem ter dimensões grandio-
sas, como o trabalho do artista h olandês Florentijn
Hofman (1977-), que, em 2011, convocou 25 artesãos
voluntários para ajudá-lo a colocar um coelho de
13 metros de altura na praça em frente à igreja St. Ni-
colai, em Örebro, na Suécia.
Outro exemplo é o trabalho da artista brasileira
Néle Azevedo (1950-), que instalou pequenas escultu-
ras de gelo em escadarias ao longo do mundo. A obra
já passou pelo Brasil em 2005 e também foi exposta em
Birmingham, no Reino Unido, em 2014.
Big yellow rabbit (grande coelho amarelo), de Florentijn
Hofman, 2011.
Monumento mínimo, de Néle Azevedo, 2005. Dimensões variadas. Instalação montada em São
Paulo (SP), ao lado da Catedral da Sé.
2288
Nilton Fukuda/Estadão Conteúdo/AE/Nele Azevedo/AUTVIS Brasil,2021
Pedro Estrada/Acervo do fotógrafo
A
Parada obrigatória
1. Leia os textos, observe as imagens e responda ao que se
pede.
Texto I
Artista usa poluição, sujeira e dejetos
como matéria -prima de seu trabalho
Apagando com panos a sujeira de um túnel subterrâneo,
ele criou o mural “Ossário”, de 300 metros, com 3 500 crânios
desenhados, há quase dez anos. Durou pouco, mas fez história.
Estava inventado o grafi te reverso. Com a fuligem que extraiu
da lavagem dos panos, fez pigmento para pinturas que espalhou
por paredes e ruas.
Alexandre Orion, 37, fotógrafo, designer e artista, inclui po-
luição, fotografi a, paisagens e habitantes urbanos em suas obras.
O pensamento sobre a cidade não se resume aos materiais.
“Tudo que faço tem discurso, ideia, discussão sobre in-
terdependência, comunidade. Não faço nada fechado, só con-
ceitual. É tudo para tocar o outro. Sou mais comunicador que
artista”, diz.
[...]
FOLHA de São Paulo. Artista usa poluição, sujeira e dejetos como
matéria-prima de seu trabalho. Disponível em: https://m.folha.uol.
com.br/ambiente/2015/06/1637804-artista-usa-poluicao-sujeira-
e-dejetos-como-materia-prima-de-suas-obras.shtml?mobile.
Acesso em: 16 nov. 2020.
Texto II
Como a cidade de Belo Horizonte
transformou muros e edifícios em telas
para se consolidar galeria a céu aberto
Os murais do Cura começaram a ser pintados na mesma
época em que os muros grafi tados de São Paulo eram cobertos
por tinta cinza, o que projetou a capital mineira nacionalmente
como cidade que acolhe a arte urbana. A face visível dessa f or-
ma de expressão da arte contemporânea, dada pela altura dos
prédios onde estão, refl ete o trabalho de artistas urbanos, que
escolheram a rua como ateliê e muros como telas. A Bienal de
Graffi ti (2008), projeto Telas Urbanas (2015), Concurso Genti-
leza (2017), Museu de Rua (2018), Morro Arte Mural (MaMu)
(2018), Território de Arte Urbana (Tau) (2018), Grafi tação e cen-
tenas de grafi tes e “sopas de letrinhas”, por toda a cidade, são
exemplos dessa efervescência.
Matéria do Jornal Estado de Minas, Belo Horizonte, 2018. Disponível em: https://
www.em.com.br/app/noticia/90-anos/2018/12/12/interna_90_anos,1012421/
como-bh-transformou-muros-em-telas-para-se-consolidar-galeria-a-ceu-ab.shtml
Diante das imagens e dos textos apresentados, como a arte
urbana pode promover reflexões sobre o uso do espaço pú-
blico nas cidades?
Oss‡rio, de Alexandre Orion, 2006. Intervenção urbana realizada
através da limpeza seletiva da po luição depositada nas paredes
de túneis da cidade de São Paulo.
29
Alexandre Orion/ Acervo do artista
Juarez Rodrigues/EM/D.A Press
A
Parada complementar
1. (Enem)
artistas criaram obras em que predominam o equilí brio e a si-
metria de formas e cores, imprimindo um estilo caracterizado
pela imagem da respeitabilidade, da sobriedade, do concreto e
do civismo. Esses artistas misturaram o passado ao presente,
retratando os personagens da nobreza e da burguesia, alé m de
cenas mí ticas e histó rias cheias de vigor.
RAZOUK, J. J. (org.). Histó rias reais e belas nas telas. Posigraf, 2003.
Toca do Salitre — Piauí. Disponível em: http://www.fumdham.org.br.
Acesso em: 27 jul. 2010.
Atualmente, os artistas apropriam-se de desenhos, charges,
grafismo e até de ilustrações de livros para compor obras em
que se misturam personagens de diferentes épocas, como na
seguinte imagem:
a) Romero Brito.
“Gisele e Tom”
d) Andy Warhol.
“Marlyn Monroe”.
Arte Urbana. Foto: Diego Singh. Disponível em: http://www.diaadia.
pr.gov.br. Acesso em: 27 jul. 2010.
b) Andy Warhol.
“Michael Jackson”
O grafite contemporâneo, considerado em alguns momen-
tos como uma arte marginal, tem sido comparado às pin-
turas murais de várias épocas e às escritas pré-históricas.
Observando as imagens apresentadas, é possível reco nhe-
cer elementos comuns entre os tipos de pinturas murais,
tais como
a) a preferência por tintas naturais, em razão de seu efeito
estético.
b) a inovação na técnica de pintura, rompendo com modelos
estabelecidos.
c) o registro do pensamento e das crenças das sociedades
em várias épocas.
d) a repetição dos temas e a restrição de uso pelas classes
dominantes.
e) o uso exclusivista da arte para atender aos interesses da
elite.
2. (Enem)
Na busca constante pela sua evoluç ã o, o ser humano vem
alternando a sua maneira de pensar, de sentir e de criar. Nas
ú ltimas dé cadas do sé culo XVIII e no iní cio do sé culo XIX, os
Teste seu conhecimento: 1 e 2
3300
c) Funny Filez.
“Monabean”.
e) Pablo Picasso. “Retrato
de Jaqueline Roque
com as Mã os Cruzadas”.
Reprodução/Enem,2011
Reprodução/Enem,2011
F
O espaço e o tempo na composição da obra de arte
Algumas formas tradicionais de arte, como a pintura e a escultura, possuem um suporte bem defi-
nido, isto é, o espaço onde acontecem se restringe às margens do quadro ou ao contorno das formas
da imagem. Sua relação com o tempo tende a ser da perenidade, ou seja, quando bem condicionadas e
preservadas, podem durar muito tempo.
Na arte contemporânea, alguns artistas imprimiram uma relação distinta entre o espaço e o tempo em
suas obras. De meados do século XX até os dias de hoje, é possível observarmos obras que colocam essa
relação em questionamento. Intervenções urbana s que depois são desfeitas nos espaços das cidades ou
ações na natureza que estão condicionadas às questões climáticas são alguns exemplos desse tipo de tra-
balho, conhecido como site specific.
A natureza como elemento artístico
Ao longo da história, a paisagem natural serviu de inspiração para a criação de pinturas e desenhos.
Nestes casos, a natureza operava na esfera da representação nas obras de arte. A partir dos anos 1960, a
paisagem natural começou a se tornar o próprio suporte para a criação das obras.
Desertos, lagos, florestas, montanhas e planícies se tornaram palco para intervenções dos artistas, que
iam de simples caminhadas a grandes modificações com o uso de tratores e máquinas. Esse tipo de arte
ficou conhecida como Land Art, ou arte da terra.
Uma experiência icônic a deste período foi o trabalho do artista inglês Richard Long (1945-), intitulado
A line made by walking, que consiste na marca do andar do artista em linha reta em um terreno baldio
no interior da Inglaterra. Na imagem, que opera aqui como registro dessa ação, é possível percebermos a
ausência da figura humana, o que é visível é apenas o desenho da linha que transforma o espaço em pai-
sagem. Desenho criado através da ação do ato de caminhar e que desaparece com o tempo tornando esta
obra uma arte efêmera.
Site specific: termo utilizado
na arte para designar obras e
projetos artísticos pensados
para um ambiente específico
em que os elementos
dialogam com o meio
circundante, incorporando-o
e transformando-o, de acordo
com a proposta. Geralmente,
as experiências acontecem
uma única vez e não podem ser
reproduzidas em outros lugares.
Arte efêmera: conceito
curatorial atribuído a obras
que não possuem como
princípio a longa durabilidade.
Intervenções, instalações e
performances possuem essa
característica por estarem
limitadas à duração de sua
execução ou por estarem sujeitos
à alteração ou destruição ao
longo do tempo.
A line made by walking, de Richard Long, 1967.
Nas obras aqui apresentadas, o fazer artístico está integrado à natureza, transformando o entorno,
com o qual se relaciona. As obras, de pequenas ou grandes dimensões, se transformam e acabam desa-
parecendo ao longo do tempo, restando a elas apenas o registro por meio de fotografias e filmes. Para
experimentá-las, é preciso que o espectador esteja diante delas, percorrendo seus caminhos e espaços
enquanto acontecem ou enquanto permanecem na natureza.
31
Reprodução/Richard Long/Acervo do artista
A
Fique por dentro
A Land Art nos dias de hoje
O projeto Quando a fé move montanhas (2002), de Francis Alÿs, pode ser considerado uma releitura do movimento
da Land Art trazido para os tempos atuais. Em uma proposta coletiva que visava à ressocialização da prática, o
artista convocou os moradores de uma periferia em Lima, no Peru, para um deslocamento coletivo de uma duna
de 500 metros de diâmetro. No total, 500 voluntários participaram da ação, portando cada um uma pá de cavar, se
posicionando em uma linha reta e movendo a areia da paisagem.
O projeto proposto por Alÿs percebe o
lugar como um acontecimento coletivo em
que a força social surge do encontro pro-
posto pelo artista, portanto para além de
um conceito contemplativo. A duna é movida
em poucos centímetros, mas, simbolicamen-
te, diz muito daquela cidade e sociedade
promovendo uma história no imaginário
do lugar. A transformação da paisagem é
acompanhada por uma transformação da re-
lação social do povo que participou da ação,
uma vez que encontros, trocas, diálogos e
a mobilização que aconteceu na execução
do projeto se perpetuam como uma grande
potência simbólica da experiência.
Quando a fé move montanhas, de Francis
Alÿs, 2002. Lima, Peru.
Parada obrigatória
2. A partir dos conceitos apresentados, explique como a Land Art se relaciona com os conceitos de site specific e arte efêmera.
3322
©
Parada complementar
3. (UEL-PR)
O movimento artístico da década de 1960 conhecido como “Land Art” (Arte da Terra) parte da conexão e integração entre arte e na-
tureza, em que a natureza é, além de suporte, a criação artística. Com base na figura e nos conhecimentos sobre o movimento Land
Art, atribua V (verdadeiro) ou F (falso) às afirmativas a seguir.
( ) Destaca a relação entre espaço e mundo, em que um se realiza através do outro; opõe-se à arte apresentada nos museus, critican-
do a indústria cultural e a racionalidade formal.
( ) Enfatiza a grandeza e a efemeridade da arte na sua fusão com a natureza; os espaços das obras se comunicam e interagem uns com
os outros.
( ) Utiliza objetos do cotidiano para a obra de arte comunicar e interagir no fazer artístico e baseia-se na relação entre a arte e o espaço
limitado, fazendo deles o seu local de ocupação e produção.
( ) Traz a natureza como material e faz do espaço a arte, enfatizando os conceitos sobre ecologia, meio ambiente e sustentabilidade.
( ) Está ligado a uma estética baseada em sua bidimensionalidade circunscrita e na elaboração de obras que perduram por gerações.
Assinale a alternativa que contém, de cima para baixo, a sequência correta.
a) V, F, V, V, V.
b) V, V, F, V, F.
c) V, V, F, F, V.
d) F, V, F, V, F.
e) F, F, V, F, V.
4. (UEL-PR)
Há algumas décadas, certos artistas vêm migrando dos espaços convencionais da arte – como ateliês, galerias e museus – para se afron-
tarem com a imensidão dos espaços e tempos infi nitos do território natural. Vários exemplos podem ser encontrados nos artistas ligados à
“Land Art”, tendência na qual o meio ambiente se torna o próprio campo de experimentação artística, como os trabalhos desenvolvidos pelo
norte-americano Robert Smithson.
(Adaptado de: SOARES, Ana Cecília. Artes em campo expandido. Jornal Diário do Nordeste. 19 ago. 2010. Disponível em: www.diariodonordeste.globo.com/materia.
asp?codigo=834563. Acesso em: 9 ago. 2011.)
Robert Smithson. Molhe Espiral, 1970.
Rocha negra, cristais de sal, terra,
água vermelha (algas). 457,2 m de
comprimento e aproximadamente
4,57 m de largura. Grande Lago
Salga do, Utah (EUA).
Com base no texto e na figura 23, assinale a alternativa que apresenta, correta e respectivamente, a linguagem e a tendência artís-
tica do trabalho Molhe Espiral.
a) Performance e naturalista.
b) Escultura e naturalista.
c) Intervenção e contemporânea.
d) Performance e contemporânea.
e) Escultura e expressionista.
Teste seu conhecimento: 3 e 4
33
Reprodução/UEL, 2012
Reprodução/UEL,2019.
A
O deslocamento como elemento artístico
Ao longo do século XX, movimentos artísticos como o dadaísmo, o surrealismo e a internacional si-
tuacionista começaram a buscar estratégias de criar experiências que unissem a arte com o cotidiano,
transformando processos artísticos em sensações de vida. Nessa abordagem, a relação do corpo do ar-
tista diante do tempo, do espaço e, principalmente, diante das cidades modernas é repensada.
Entre Vidas, de Anna Maria Maiolino. Série Fotopoemação, 1981. Fotografia. 144 cm 3 92 cm,
Museu de Arte Contemporânea, Los Angeles.
O caminhar e o deslocar-se pelas paisagens urbanas e nos seus entornos se tornaram elementos que
serviram de ponto de partida para a realização de uma série de experiências, rompendo com a lógica de
pensar a arte a partir da criação de objetos, como quadros ou esculturas. Nesse contexto, a produção
artística é efêmera, e seu registro pode não existir ou pode ser feito por fotografia, vídeo, relato ou por
meio de uma cartografia.
No início do século XX, o ato de caminhar foi incorporado pelas vanguardas como forma de ação
estética. Em 1921, dadaístas organizaram uma série de visitas a lugares que definiam como “banais” na
cidade de Paris, quando o caminhar foi assumido pela primeira vez como uma manifestação de crítica às
tradicionais formas de arte.
As propostas dadaístas utilizavam o andar como um instrumento para a representação da cidade, que
passou por diversas transformações desde o século XIX. Os artistas e poetas que viveram essas transfor-
mações buscavam na arte formas de interpretar as mudanças do espaço e do tempo.
Em seguida, o movimento surrealista, caracterizado pelo uso e pela compreensão do inconsciente na
atividade criativa, promoveu as deambulações, que consistiam em caminhadas livres de rotas e desti-
nos pelos entornos das cidades. As deambulações propunham um caminhar no qual o controle da ação
era perdido em busca do inconsciente do território, fazendo o espaço surgir como um elemento ativo e
vibrante, que dialoga de maneira profunda com a mente, promovendo misturas entre sonho e realidade.
Nos anos 1960 e 1970, a utilização do caminhar como recurso plástico se tornou recorrente, em bus-
ca de estabelecer novas formas de pensar a espacialidade das cidades. Nesse período, o movimento
europeu internacional situacionista, composto de artistas, filósofos e poetas, questionava como as
futuras cidades deveriam ser construídas, utilizando a deriva como um meio de descobrir quais bairros
deveriam ser preservados. Instruções estabelecidas previamente determinavam a duração do percur-
so, os locais para o início e a quantidade de participantes, transformando a deriva em uma espécie de
laboratório de registro e vivência urbanos.
As práticas de deriva funcionavam como uma ferramenta para experienciar e criticar o planejamento
urbano excessivamente racional e frio, particularmente na Europa pós-guerra. A partir das derivas, ma-
pas psicogeográficos eram criados para ilustrar a experiência afetiva com a cidade.
No cenário internacional contemporâneo, o belga Francis Alÿ s é um artista que utiliza a caminhada
Paradox of Praxis, de Francis
Alÿs, 1997. Cidade do México.
Coleção particular.
3344
como experiência artística. Nascido em 1959, na Bélgica, se muda para a Cidade do México nos anos 1980,
onde começa a estabelecer uma relação criativa de experiência de vida com a cidade a partir da sua
condição de estrangeiro naquele lugar.
Foto: Francys Alÿs/Coleção particular
R
Em seus trabalhos, é possível evidenciar uma espécie de pulsão constante nos movimentos de
distanciamento e envolvimento com a cidade a partir de questões relacionadas aos contextos sociais e
às tensões neles existentes. A cidade, para Alÿs, é como um campo de forças, no qual dimensões sociais
e políticas se revelam no cotidiano. O artista, ao mesmo tempo que é afetado por essas forças, também
integra o espaço.
No Brasil, também é p ossível encontrar artistas que fizeram experimentos através do caminhar. Em
1956, o artista Flávio de Carvalho realizou a Experiência nº 3 quando desfilou pelas ruas do centro de São
Paulo vestindo o seu “new look”, composto de blusa, saiote e meia-arrastão. O que o artista propunha era
um traje ideal para os homens dos trópicos.
O ato de caminhar compõe também trabalho do
artista brasileiro Matheus Couto (1992-). Na série
Deriva Vestimentar, o artista uniu o ato de caminhar
com o vestuário contrastante com a paisagem. Nesse
projeto, a figura em movimento cria uma cena viva ao
juntar-se com a paisagem urbana.
É importante ter em mente que o trabalho dos ar-
tistas comentados neste tópico não se constitui pe-
los objetos que produz, e sim pelo comportamento
do próprio artista, que define suas obras como uma
“arte de conduta”. Em exposições e bienais de arte, seu
trabalho geralmente é apresentado através de instala-
ções, que consistem em arranjos de itens coletados ao
longo do trajeto, e trabalhos em vídeo, que documen-
tam sua jornada.
Fica evidente que devido à diversidade dessas
experiências com contextos históricos divergentes,
cada grupo ou artista tenha desenvolvido diferentes
práticas de abordagem do espaço, com táticas, ob-
jetivos e estratégias específicas, gerando novas for-
mas de investigar os territórios através do andar. O
deslocar-se na arte é entendido como estar sujeito ao
risco da surpresa, do acaso, do inesperado, pensando
em diferentes modos de ver, abordar e se aproximar
dos espaços.
Da mesma forma que o artista se transforma no processo do deslocamento, o espaço também é
Deriva Vestimentar n. 4 (2019), de Matheus Couto.
Ruas do Bairro Santa Tereza, Belo Horizonte.
transformado pela sua presença. Em todas as épocas, o caminhar tem produzido arquitetura e paisagem.
Mesmo não sendo a construção física de um espaço, implica uma transformação do lugar e dos seus
significados, operando como uma fórmula simbólica de transformar a paisagem.
Como fazer
O cortejo silencioso
Você viu que o ato de caminhar é um procedimento adotado por vários artistas contemporâneos, que fazem do deslocamento sua forma de expressão.
Agora, você e seus colegas vão experimentar essa forma de produzir arte realizando uma experiência de deslocamento pela escola: o cortejo silencioso.
Você já participou de algum cortejo? Em qual ocasião?
O cortejo é um acompanhamento que se faz a alguém ou a algum objeto simbólico por ocasião de alguma cerimônia importante, seja civil, militar ou
religiosa. “O cortejo silencioso” será uma caminhada pela escola de forma alinhada, podendo ser em fila única, dupla, ou fila tripla. É importante que
as regras para o cortejo sejam definidas ainda em sala de aula para não causar tumulto ou ruídos pela escola. Com os colegas, procurem definir qual
será o tipo do cortejo (fúnebre, militar, religioso, político, celebração etc.) para que cada um crie seus gestos e desenvolva expressões fisionômicas. O
importante é que o cortejo seja silencioso, isto é, não pode haver qualquer ruído.
Após realizarem o percurso, todos os participantes, sem desmanchar a fila e sem emitir sons, devem voltar para a sala e sentar-se em seus
devidos lugares. Em seguida cada um deverá comentar sobre a sua experiência e os sentimentos que teve ao longo do percurso, lembrando que o
deslocamento é um movimento corporal que também pode ser utilizado para expressar algo.
35
Matheus Couto/Acervo do artista
A
Parada obrigatória
3. A partir das reflexões apresentadas, comente o que você entende como uma caminhada em deriva.
Parada complementar
5. O artista Francis Alÿs caminha pela cidade do México enquanto a linha do seu suéter (desmanchando) deixa um rastro por onde ele
passa. Essa ação foi intitulada Conto de fadas.
Pesquise a obra na internet e, na sequência, responda: como o ato de caminhar do artista transformou a paisagem?
6. Em 1931, Flávio de Carvalho realiza sua Experiência no 2, que consistiu em andar em sentido contrário a uma procissão de Corpus
Christi pelas ruas de São Paulo, com um boné de veludo verde na cabeça. Posteriormente, publica livro de igual título, narrando sua
experiência. Sobre esta performance, é correto afirmar que o ato
a) foi rapidamente assimilado pelo público como uma situação cômica, visto que Flávio já era fi gura ligada ao humor e com boa aceita-
ção nos círculos religiosos de São Paulo.
b) foi seguido, em 1956, pela Experiência no 3, em que Flávio desfi la pelas ruas de São Paulo usando um traje, de sua autoria, do “novo
homem” dos trópicos.
c) não deve ser relacionado, nem mesmo no campo teórico, ao conceito de Deriva, elaborado pelos Situacionistas sediados na França,
o que demandaria um encontro presencial nunca ocorrido com Guy Débord.
d) Não tem implicações com a História da Arte propriamente dita, e seu estudo está restrito a um campo de atuação denominado estu-
dos culturais.
e) Fez parte, declaradamente, do movimento cultural a que se chamou de Tropicália, embora sem o devido reconhecimento por parte
dos historiadores da música brasileira, como José Ramos Tinhorão.
Teste seu conhecimento: 5 e 6
336
A dança como diálogo do corpo
A partir da segunda metade do século XX, diversos coreógrafos
ao redor do mundo passaram a buscar diferentes formas de pensar
o movimento e o uso do corpo na composição de uma coreografia.
Nesse sentido, a dança contemporânea não é uma escola ou
uma técnica específica, mas um modo de pensar a dança que es-
tabeleceu novos diálogos com o corpo para além da hegemonia do
balé clássico.
As possibilidades criativas da dança contemporânea são tão
abrangentes que não delimitam estilos de roupas, músicas, espaços
ou movimentos. Não há uma técnica única e predefinida, mas sim
processos e formas de criação. O que se busca é uma nova noção
de corporeidade, com um sentido mais experimental. Não existe um
corpo ideal, e sim um corpo multicultural, com várias referências.
O estilo butô
O ankoku butô, posteriormente conhecido apenas como butô,
foi um estilo de dança que nasceu no Japão, em meados da dé-
cada de 1950, em uma época marcada pelas consequências do
pós-guerra e pela abertura do país às influências estrangeiras.
Tatsumi Hijikata (1928-1986) iniciou um movimento que criaria
o butô pelo uso do corpo como meio de expressão de sentimen-
tos e sentidos através de colaborações artísticas e contato com
outras linguagens, como a literatura, a música, as artes plásticas
e o cinema. O Ocidente conheceu a dança butô somente nos úl-
timos anos da década de 1970, através do dançarino Kazuo Ohno
(1906-2010), que trabalhou com Tatsumi Hijikata ajudando a con-
solidar o estilo e levá-lo a outros países.
A inspiração para a criação do butô partiu da mistura de van-
guardas europeias, como o expressionismo, o cubismo e o surrealis-
mo, com danças japonesas, como nô e bugaku. O estilo buscava uma
forma de expressão que não seria necessariamente coreografada,
nem presa aos movimentos definitivos que remetam a uma técnica
específica. O que se buscava era a expressão da individualidade.
No Japão e em diversos países do mundo, muitos grupos, dan-
çarinos e performers assumiram a dança butô como matriz poé-
tica de suas práticas artísticas, incorporando novos elementos e
criando derivações do estilo. No Brasil, os principais expoentes da
dança foram Takao Kusuno (1945-2001) e sua esposa Felicia Ogawa
(1945-1997). Kusuno foi responsável pela difusão do butô no Brasil,
trazendo aspectos da cultura brasileira às suas performances.
A Técnica Klauss Viana
Klauss Viana (1928-1992) foi um bailarino brasileiro que se em-
penhou em criar uma identidade para o balé nacional que fugisse
de reproduções e inadequações de técnicas e métodos provenien-
tes de outros países, como a Rússia e a França.
Uma de suas contribuições para a dança e o teatro nacionais foi
o desenvolvimento da Técnica do Movimento Consciente, também
conhecida como Técnica Klauss Viana, resultado de um dos mais
importantes estudos sobre o corpo e a dança no Brasil. Em parceria
com a sua esposa, a também bailarina Angel Vianna (1928-), Klauss
buscou aprofundar a consciência do corpo e do movimento em
função de ampliar as possibilidades de movimento e expressão.
O que Angel e Klauss buscavam em sua técnica era a sensibi-
lização do corpo, a percepção dos seus estados corporais, com o
intuito de entender as relações entre a mecânica do movimento
e a expressão. A soma da atenção, da consciência e da presença
diante do espaço eram necessárias para a geração de um movi-
mento que viria de dentro do bailarino, diferentemente do que
propunham as escolas clássicas, que pensavam o movimento em
primeiro lugar, fazendo com que o corpo se enquadrasse a um
ideal de gesto a ser seguido.
A dança contemporânea no Brasil
Como apresentado no início deste tópico, a dança contem-
porânea tem um aspecto multidisciplinar e diverso, não sendo
possível, portanto, reduzi-la a uma única escola ou movimento.
A construção de uma coreografia pode estabelecer diferentes
diálogos e envolver diferentes processos criativos que utilizem
diversas matrizes culturais. A criação de um espetáculo de dança
contemporânea pode utilizar também os recursos da iluminação,
da trilha sonora, do espaço cênico, dos figurinos e do vídeo como
contribuintes para a narrativa a ser apresentada.
Espaço cênico: espaço definido para a encenação de uma apresentação de
dança ou de teatro.
Nesse sentido, o Brasil se tornou um forte berço para a cria-
ção de grupos e escolas que ganharam o mundo com propostas
de movimentos que romperam com concepções clássicas da dan-
ça e das artes cênicas como um todo.
O Grupo Corpo é um exemplo da capacidade de fundir e adap-
tar diferentes estilos das mais variadas fontes de aspectos da
cultura nacional e int ernacional. O coreógrafo do grupo, Rodrigo
Pederneiras, trabalha a sobreposição de formas e gestos, pen-
sando uma nova existência na cena. A mistura de elementos da
cultura brasileira é traduzida e reinterpretada pela articulação
entre a coreografia, a música, a iluminação e o figurino.
Já a companhia da coreógrafa Deborah Colker conseguiu
Kazuo Ohno (1906-2010),
dançarino japonês de
butô, apresentando Suiren
(Water Lilies) no Asia
Society, em Nova York, 1988.
criar um registro novo e popular para a dança no país. Movi-
mentos virtuosos se combinam a sequências atléticas e cená-
rios inusitados, promovendo uma interação entre o gesto e a
cena que desafia a gravidade e o tempo. Em seus espetáculos,
é comum a presença de estruturas que permitem a criação de
diferentes movimentos na dança apresentada pelos bailarino
Prof. Rosane Araujo Martins
-
Flashcards
Flashcards: Existem diferentes maneiras de a arte ocupar um espaço. Ela pode fazer parte do acervo ou da cole-
ção de um museu e ficar anos em um mesmo lugar ou pode estar associada a uma exposição itinerante
e ficar apenas uma semana, por exemplo. A arte também pode se deslocar, caminhar pelas ruas indo ao
encontro do público.
Um trabalho artístico pode ser composto sobre o solo, dentro de um lago, nos muros das ruas, em
uma floresta e até em árvores. Essa forma de fazer arte não se preocupa necessariamente com seu tempo
de exposição ou com sua durabilidade. Tais procedimentos, característicos da arte contemporânea, são
geralmente produzidos para causar um impacto e uma reflexão sobre um determinado tema.
O tempo que essa arte estará exposta ou mesmo a sua durabilidade dependerá da intenção do
artista e, muitas vezes, o próprio artista é um dos elementos de sua obra, como você verá ao longo
deste capítulo.
25
Regina Parra/Acervo da artista
Foco no tema
A arte das intervenções
No campo das artes, a prática da intervenção pode ser compreendida e empregada de diferentes
maneiras e com diversas técnicas, com possibilidade de serem pontuais ou de se tornarem obras perma-
nentes. É possível entender a intervenção como uma ação sobre algo, em geral um suporte preexistente,
que pode ser desde pequenos objetos e imagens até grandes espaços físicos.
Diferentes trabalhos de arte podem ser qualificados como intervenção, não havendo, portanto, uma
categorização única ou fronteiras rígidas, mas sim uma confluência entre as tendências. Elas podem
ser ações efêmeras, ou seja, que possuem uma curta duração; podem se constituir a partir de eventos
participativos em espaços abertos; podem ser inserções na paisagem; ocupações de edifícios ou áreas
livres; performances; instalações; vídeos; lambe-lambes; interferências em placas de sinalização de
trânsito ou materiais publicitários e manifestações de arte de rua, como o grafite.
Intervenções em objetos e imagens
Uma vertente da arte das intervenções é a realizada
sobre objetos existentes. Cildo Meireles (1948-) é um artista
brasileiro que desenvolveu a série Inserções em Circuitos
Ideológicos (1970), em que imprimiu e carimbou frases po-
líticas nas garrafas de vidro da Coca-Cola e em cédulas de
dinheiro, deslocando a recepção da obra da dimensão de
“público” para a de “circuito”.
Nesses trabalhos, o artista explorou a noção de circu-
lação e de intercâmbio de riqueza. No projeto Coca-Cola,
o artista incentivava as pessoas a registrar informações
críticas e opiniões nas garrafas retornáveis de vidro antes
de devolvê-las à circulação. Já no projeto Cédula, o artista
carimbou mensagens em notas de dinheiro que traziam
o questionamento “Quem matou Herzog?”, em referência
ao jornalista Vladimir Herzog (1937-1975) , preso e morto no
período da Ditadura Militar.
No período da Ditadura Militar no Brasil, o coletivo de artistas 3Nós3 também realizou intervenções
Cildo Meireles, Inserções em Circuitos Ideológicos.
Projeto Cédula, 1970.
com o objetivo de alertar a população sobre os horrores das torturas praticadas naquela época. A obra
Ensacamento, de 1979, consistiu na colocação de sacos plásticos sobre a cabeça de 68 estátuas públi-
cas da cidade de São Paulo, fazendo alusão à prática comum durante os interrogatórios.
Ensacamento, 3Nós3, 1979.
2266
3Nós3/(Hudinilson Jr., Mário Ramiro e Rafael França), Ensacamento, 1979.
C
Outra vertente da arte das intervenções é a realizada
sobre imagens conhecidas. Um dos precursores dessa prá-
tica foi o artista Marcel Duchamp, que desenhou bigode e
cavanhaque em um postal da Mona Lisa, de Leonardo da
Vinci. Esse gesto teve um objetivo contestatório, de rebel-
dia, confrontando a rede de poderes do mercado da arte
e criticando a banalização da arte tradicional trazida pela
sociedade de consumo.
Intervenção em espaços da cidade
Nos centros urbanos, as intervenções costumam interferir
sobre determinado suporte, como um muro, uma fachada de
prédio ou mesmo objetos menores, como lixeiras e hidrantes.
A relação entre a obra, o espaço e o público pode provocar
reações e transformações no comportamento, nas concep-
ções e nas percepções das pessoas.
L.H.O.O.Q., de Marcel
Duchamp, 1919.
Lápis sobre papel,
19 cm 3 12 cm.
Registro de intervenção em estêncil de Alexandre Orion, em rua de São Paulo (SP).
O movimento da arte urbana surgiu no fim da década de 1960 e início dos anos 1970, na cidade da
Filadélfia, Estados Unidos. Inicialmente com assinaturas monocromáticas e de traços simples, aos poucos
ganharam novas formas e cores, se transformando em verdadeiras ilustrações caligráficas.
O grafite sofreu desde o seu surgimento uma grande repressão pelo governo e pela polícia, sendo
percebido como vandalismo. Em Nova York, nos anos 1980, os artistas eram perseguidos, presos e ti-
nham suas obras constantemente apagadas dos espaços onde eram inseridas.
Esse embate, somado às transformações ocorridas pela dinâmica de mudança das cidades, coloca o
grafite como uma arte de intervenção efêmera, ou seja, pode possuir curta duração.
Atualmente, o grafite ainda vive essa disputa de repressão. Porém, em algumas cidades, a prática
ganhou espaço e reconhecimento na sociedade, permitindo aos artistas que alcancem reconhecimento
internacional e possam trabalhar em projetos que ocupem desde grandes prédios até estampas para
roupas e objetos. É possível destacar também que algumas instituições públicas por vezes recorrem ao
grafite como forma de expressão artística, proporcionando oportunidades e destaque para o trabalho
de jovens artistas.
Fique por dentro
Além dos grandes murais de grafite, existem outras técnicas de intervenções utilizadas pelos artistas na cidade. Um
exemplo é o pôster lambe-lambe, que consiste em uma colagem de imagem impressa. Outra prática é o estêncil, que
consiste em um molde vazado em que o artista aplica a tinta criando uma imagem rápida e fácil de ser replicada. A obra
de Alexandre Orion, acima, é um exemplo de produção criada a partir do uso de moldes.
27
Alexandre Orion/Acervo do artista
© Association Marcel Duchamp/AUTVIS, Brasil, 2020
Foto: Christie’s Images/Bridgeman Image/Fotoarena/
A
De olho
Você já ouviu falar de grafite reverso? Essa é
uma técnica que cria murais através da limpeza
de uma superfície coberta pela poluição da
cidade. Na obra ao lado, o artista Drin Cortês re-
tratou a cantora Amy Winehouse em um viaduto
no Complexo da Lagoinha, em Belo Horizonte.
Amy, de Drin Cortês, 2011.
Registro fotográfico por Pedro
Estrada, Belo Horizonte, 2013.
Acervo do fotógrafo.
O grafite se tornou a intervenção urbana mais po-
pular nas grandes cidades, mas, além dele, existem
outros suportes artísticos, como esculturas e instala-
ções, que podem ocupar os espaços de ruas, praças
e parques.
Essas intervenções podem ter dimensões grandio-
sas, como o trabalho do artista h olandês Florentijn
Hofman (1977-), que, em 2011, convocou 25 artesãos
voluntários para ajudá-lo a colocar um coelho de
13 metros de altura na praça em frente à igreja St. Ni-
colai, em Örebro, na Suécia.
Outro exemplo é o trabalho da artista brasileira
Néle Azevedo (1950-), que instalou pequenas escultu-
ras de gelo em escadarias ao longo do mundo. A obra
já passou pelo Brasil em 2005 e também foi exposta em
Birmingham, no Reino Unido, em 2014.
Big yellow rabbit (grande coelho amarelo), de Florentijn
Hofman, 2011.
Monumento mínimo, de Néle Azevedo, 2005. Dimensões variadas. Instalação montada em São
Paulo (SP), ao lado da Catedral da Sé.
2288
Nilton Fukuda/Estadão Conteúdo/AE/Nele Azevedo/AUTVIS Brasil,2021
Pedro Estrada/Acervo do fotógrafo
A
Parada obrigatória
1. Leia os textos, observe as imagens e responda ao que se
pede.
Texto I
Artista usa poluição, sujeira e dejetos
como matéria -prima de seu trabalho
Apagando com panos a sujeira de um túnel subterrâneo,
ele criou o mural “Ossário”, de 300 metros, com 3 500 crânios
desenhados, há quase dez anos. Durou pouco, mas fez história.
Estava inventado o grafi te reverso. Com a fuligem que extraiu
da lavagem dos panos, fez pigmento para pinturas que espalhou
por paredes e ruas.
Alexandre Orion, 37, fotógrafo, designer e artista, inclui po-
luição, fotografi a, paisagens e habitantes urbanos em suas obras.
O pensamento sobre a cidade não se resume aos materiais.
“Tudo que faço tem discurso, ideia, discussão sobre in-
terdependência, comunidade. Não faço nada fechado, só con-
ceitual. É tudo para tocar o outro. Sou mais comunicador que
artista”, diz.
[...]
FOLHA de São Paulo. Artista usa poluição, sujeira e dejetos como
matéria-prima de seu trabalho. Disponível em: https://m.folha.uol.
com.br/ambiente/2015/06/1637804-artista-usa-poluicao-sujeira-
e-dejetos-como-materia-prima-de-suas-obras.shtml?mobile.
Acesso em: 16 nov. 2020.
Texto II
Como a cidade de Belo Horizonte
transformou muros e edifícios em telas
para se consolidar galeria a céu aberto
Os murais do Cura começaram a ser pintados na mesma
época em que os muros grafi tados de São Paulo eram cobertos
por tinta cinza, o que projetou a capital mineira nacionalmente
como cidade que acolhe a arte urbana. A face visível dessa f or-
ma de expressão da arte contemporânea, dada pela altura dos
prédios onde estão, refl ete o trabalho de artistas urbanos, que
escolheram a rua como ateliê e muros como telas. A Bienal de
Graffi ti (2008), projeto Telas Urbanas (2015), Concurso Genti-
leza (2017), Museu de Rua (2018), Morro Arte Mural (MaMu)
(2018), Território de Arte Urbana (Tau) (2018), Grafi tação e cen-
tenas de grafi tes e “sopas de letrinhas”, por toda a cidade, são
exemplos dessa efervescência.
Matéria do Jornal Estado de Minas, Belo Horizonte, 2018. Disponível em: https://
www.em.com.br/app/noticia/90-anos/2018/12/12/interna_90_anos,1012421/
como-bh-transformou-muros-em-telas-para-se-consolidar-galeria-a-ceu-ab.shtml
Diante das imagens e dos textos apresentados, como a arte
urbana pode promover reflexões sobre o uso do espaço pú-
blico nas cidades?
Oss‡rio, de Alexandre Orion, 2006. Intervenção urbana realizada
através da limpeza seletiva da po luição depositada nas paredes
de túneis da cidade de São Paulo.
29
Alexandre Orion/ Acervo do artista
Juarez Rodrigues/EM/D.A Press
A
Parada complementar
1. (Enem)
artistas criaram obras em que predominam o equilí brio e a si-
metria de formas e cores, imprimindo um estilo caracterizado
pela imagem da respeitabilidade, da sobriedade, do concreto e
do civismo. Esses artistas misturaram o passado ao presente,
retratando os personagens da nobreza e da burguesia, alé m de
cenas mí ticas e histó rias cheias de vigor.
RAZOUK, J. J. (org.). Histó rias reais e belas nas telas. Posigraf, 2003.
Toca do Salitre — Piauí. Disponível em: http://www.fumdham.org.br.
Acesso em: 27 jul. 2010.
Atualmente, os artistas apropriam-se de desenhos, charges,
grafismo e até de ilustrações de livros para compor obras em
que se misturam personagens de diferentes épocas, como na
seguinte imagem:
a) Romero Brito.
“Gisele e Tom”
d) Andy Warhol.
“Marlyn Monroe”.
Arte Urbana. Foto: Diego Singh. Disponível em: http://www.diaadia.
pr.gov.br. Acesso em: 27 jul. 2010.
b) Andy Warhol.
“Michael Jackson”
O grafite contemporâneo, considerado em alguns momen-
tos como uma arte marginal, tem sido comparado às pin-
turas murais de várias épocas e às escritas pré-históricas.
Observando as imagens apresentadas, é possível reco nhe-
cer elementos comuns entre os tipos de pinturas murais,
tais como
a) a preferência por tintas naturais, em razão de seu efeito
estético.
b) a inovação na técnica de pintura, rompendo com modelos
estabelecidos.
c) o registro do pensamento e das crenças das sociedades
em várias épocas.
d) a repetição dos temas e a restrição de uso pelas classes
dominantes.
e) o uso exclusivista da arte para atender aos interesses da
elite.
2. (Enem)
Na busca constante pela sua evoluç ã o, o ser humano vem
alternando a sua maneira de pensar, de sentir e de criar. Nas
ú ltimas dé cadas do sé culo XVIII e no iní cio do sé culo XIX, os
Teste seu conhecimento: 1 e 2
3300
c) Funny Filez.
“Monabean”.
e) Pablo Picasso. “Retrato
de Jaqueline Roque
com as Mã os Cruzadas”.
Reprodução/Enem,2011
Reprodução/Enem,2011
F
O espaço e o tempo na composição da obra de arte
Algumas formas tradicionais de arte, como a pintura e a escultura, possuem um suporte bem defi-
nido, isto é, o espaço onde acontecem se restringe às margens do quadro ou ao contorno das formas
da imagem. Sua relação com o tempo tende a ser da perenidade, ou seja, quando bem condicionadas e
preservadas, podem durar muito tempo.
Na arte contemporânea, alguns artistas imprimiram uma relação distinta entre o espaço e o tempo em
suas obras. De meados do século XX até os dias de hoje, é possível observarmos obras que colocam essa
relação em questionamento. Intervenções urbana s que depois são desfeitas nos espaços das cidades ou
ações na natureza que estão condicionadas às questões climáticas são alguns exemplos desse tipo de tra-
balho, conhecido como site specific.
A natureza como elemento artístico
Ao longo da história, a paisagem natural serviu de inspiração para a criação de pinturas e desenhos.
Nestes casos, a natureza operava na esfera da representação nas obras de arte. A partir dos anos 1960, a
paisagem natural começou a se tornar o próprio suporte para a criação das obras.
Desertos, lagos, florestas, montanhas e planícies se tornaram palco para intervenções dos artistas, que
iam de simples caminhadas a grandes modificações com o uso de tratores e máquinas. Esse tipo de arte
ficou conhecida como Land Art, ou arte da terra.
Uma experiência icônic a deste período foi o trabalho do artista inglês Richard Long (1945-), intitulado
A line made by walking, que consiste na marca do andar do artista em linha reta em um terreno baldio
no interior da Inglaterra. Na imagem, que opera aqui como registro dessa ação, é possível percebermos a
ausência da figura humana, o que é visível é apenas o desenho da linha que transforma o espaço em pai-
sagem. Desenho criado através da ação do ato de caminhar e que desaparece com o tempo tornando esta
obra uma arte efêmera.
Site specific: termo utilizado
na arte para designar obras e
projetos artísticos pensados
para um ambiente específico
em que os elementos
dialogam com o meio
circundante, incorporando-o
e transformando-o, de acordo
com a proposta. Geralmente,
as experiências acontecem
uma única vez e não podem ser
reproduzidas em outros lugares.
Arte efêmera: conceito
curatorial atribuído a obras
que não possuem como
princípio a longa durabilidade.
Intervenções, instalações e
performances possuem essa
característica por estarem
limitadas à duração de sua
execução ou por estarem sujeitos
à alteração ou destruição ao
longo do tempo.
A line made by walking, de Richard Long, 1967.
Nas obras aqui apresentadas, o fazer artístico está integrado à natureza, transformando o entorno,
com o qual se relaciona. As obras, de pequenas ou grandes dimensões, se transformam e acabam desa-
parecendo ao longo do tempo, restando a elas apenas o registro por meio de fotografias e filmes. Para
experimentá-las, é preciso que o espectador esteja diante delas, percorrendo seus caminhos e espaços
enquanto acontecem ou enquanto permanecem na natureza.
31
Reprodução/Richard Long/Acervo do artista
A
Fique por dentro
A Land Art nos dias de hoje
O projeto Quando a fé move montanhas (2002), de Francis Alÿs, pode ser considerado uma releitura do movimento
da Land Art trazido para os tempos atuais. Em uma proposta coletiva que visava à ressocialização da prática, o
artista convocou os moradores de uma periferia em Lima, no Peru, para um deslocamento coletivo de uma duna
de 500 metros de diâmetro. No total, 500 voluntários participaram da ação, portando cada um uma pá de cavar, se
posicionando em uma linha reta e movendo a areia da paisagem.
O projeto proposto por Alÿs percebe o
lugar como um acontecimento coletivo em
que a força social surge do encontro pro-
posto pelo artista, portanto para além de
um conceito contemplativo. A duna é movida
em poucos centímetros, mas, simbolicamen-
te, diz muito daquela cidade e sociedade
promovendo uma história no imaginário
do lugar. A transformação da paisagem é
acompanhada por uma transformação da re-
lação social do povo que participou da ação,
uma vez que encontros, trocas, diálogos e
a mobilização que aconteceu na execução
do projeto se perpetuam como uma grande
potência simbólica da experiência.
Quando a fé move montanhas, de Francis
Alÿs, 2002. Lima, Peru.
Parada obrigatória
2. A partir dos conceitos apresentados, explique como a Land Art se relaciona com os conceitos de site specific e arte efêmera.
3322
©
Parada complementar
3. (UEL-PR)
O movimento artístico da década de 1960 conhecido como “Land Art” (Arte da Terra) parte da conexão e integração entre arte e na-
tureza, em que a natureza é, além de suporte, a criação artística. Com base na figura e nos conhecimentos sobre o movimento Land
Art, atribua V (verdadeiro) ou F (falso) às afirmativas a seguir.
( ) Destaca a relação entre espaço e mundo, em que um se realiza através do outro; opõe-se à arte apresentada nos museus, critican-
do a indústria cultural e a racionalidade formal.
( ) Enfatiza a grandeza e a efemeridade da arte na sua fusão com a natureza; os espaços das obras se comunicam e interagem uns com
os outros.
( ) Utiliza objetos do cotidiano para a obra de arte comunicar e interagir no fazer artístico e baseia-se na relação entre a arte e o espaço
limitado, fazendo deles o seu local de ocupação e produção.
( ) Traz a natureza como material e faz do espaço a arte, enfatizando os conceitos sobre ecologia, meio ambiente e sustentabilidade.
( ) Está ligado a uma estética baseada em sua bidimensionalidade circunscrita e na elaboração de obras que perduram por gerações.
Assinale a alternativa que contém, de cima para baixo, a sequência correta.
a) V, F, V, V, V.
b) V, V, F, V, F.
c) V, V, F, F, V.
d) F, V, F, V, F.
e) F, F, V, F, V.
4. (UEL-PR)
Há algumas décadas, certos artistas vêm migrando dos espaços convencionais da arte – como ateliês, galerias e museus – para se afron-
tarem com a imensidão dos espaços e tempos infi nitos do território natural. Vários exemplos podem ser encontrados nos artistas ligados à
“Land Art”, tendência na qual o meio ambiente se torna o próprio campo de experimentação artística, como os trabalhos desenvolvidos pelo
norte-americano Robert Smithson.
(Adaptado de: SOARES, Ana Cecília. Artes em campo expandido. Jornal Diário do Nordeste. 19 ago. 2010. Disponível em: www.diariodonordeste.globo.com/materia.
asp?codigo=834563. Acesso em: 9 ago. 2011.)
Robert Smithson. Molhe Espiral, 1970.
Rocha negra, cristais de sal, terra,
água vermelha (algas). 457,2 m de
comprimento e aproximadamente
4,57 m de largura. Grande Lago
Salga do, Utah (EUA).
Com base no texto e na figura 23, assinale a alternativa que apresenta, correta e respectivamente, a linguagem e a tendência artís-
tica do trabalho Molhe Espiral.
a) Performance e naturalista.
b) Escultura e naturalista.
c) Intervenção e contemporânea.
d) Performance e contemporânea.
e) Escultura e expressionista.
Teste seu conhecimento: 3 e 4
33
Reprodução/UEL, 2012
Reprodução/UEL,2019.
A
O deslocamento como elemento artístico
Ao longo do século XX, movimentos artísticos como o dadaísmo, o surrealismo e a internacional si-
tuacionista começaram a buscar estratégias de criar experiências que unissem a arte com o cotidiano,
transformando processos artísticos em sensações de vida. Nessa abordagem, a relação do corpo do ar-
tista diante do tempo, do espaço e, principalmente, diante das cidades modernas é repensada.
Entre Vidas, de Anna Maria Maiolino. Série Fotopoemação, 1981. Fotografia. 144 cm 3 92 cm,
Museu de Arte Contemporânea, Los Angeles.
O caminhar e o deslocar-se pelas paisagens urbanas e nos seus entornos se tornaram elementos que
serviram de ponto de partida para a realização de uma série de experiências, rompendo com a lógica de
pensar a arte a partir da criação de objetos, como quadros ou esculturas. Nesse contexto, a produção
artística é efêmera, e seu registro pode não existir ou pode ser feito por fotografia, vídeo, relato ou por
meio de uma cartografia.
No início do século XX, o ato de caminhar foi incorporado pelas vanguardas como forma de ação
estética. Em 1921, dadaístas organizaram uma série de visitas a lugares que definiam como “banais” na
cidade de Paris, quando o caminhar foi assumido pela primeira vez como uma manifestação de crítica às
tradicionais formas de arte.
As propostas dadaístas utilizavam o andar como um instrumento para a representação da cidade, que
passou por diversas transformações desde o século XIX. Os artistas e poetas que viveram essas transfor-
mações buscavam na arte formas de interpretar as mudanças do espaço e do tempo.
Em seguida, o movimento surrealista, caracterizado pelo uso e pela compreensão do inconsciente na
atividade criativa, promoveu as deambulações, que consistiam em caminhadas livres de rotas e desti-
nos pelos entornos das cidades. As deambulações propunham um caminhar no qual o controle da ação
era perdido em busca do inconsciente do território, fazendo o espaço surgir como um elemento ativo e
vibrante, que dialoga de maneira profunda com a mente, promovendo misturas entre sonho e realidade.
Nos anos 1960 e 1970, a utilização do caminhar como recurso plástico se tornou recorrente, em bus-
ca de estabelecer novas formas de pensar a espacialidade das cidades. Nesse período, o movimento
europeu internacional situacionista, composto de artistas, filósofos e poetas, questionava como as
futuras cidades deveriam ser construídas, utilizando a deriva como um meio de descobrir quais bairros
deveriam ser preservados. Instruções estabelecidas previamente determinavam a duração do percur-
so, os locais para o início e a quantidade de participantes, transformando a deriva em uma espécie de
laboratório de registro e vivência urbanos.
As práticas de deriva funcionavam como uma ferramenta para experienciar e criticar o planejamento
urbano excessivamente racional e frio, particularmente na Europa pós-guerra. A partir das derivas, ma-
pas psicogeográficos eram criados para ilustrar a experiência afetiva com a cidade.
No cenário internacional contemporâneo, o belga Francis Alÿ s é um artista que utiliza a caminhada
Paradox of Praxis, de Francis
Alÿs, 1997. Cidade do México.
Coleção particular.
3344
como experiência artística. Nascido em 1959, na Bélgica, se muda para a Cidade do México nos anos 1980,
onde começa a estabelecer uma relação criativa de experiência de vida com a cidade a partir da sua
condição de estrangeiro naquele lugar.
Foto: Francys Alÿs/Coleção particular
R
Em seus trabalhos, é possível evidenciar uma espécie de pulsão constante nos movimentos de
distanciamento e envolvimento com a cidade a partir de questões relacionadas aos contextos sociais e
às tensões neles existentes. A cidade, para Alÿs, é como um campo de forças, no qual dimensões sociais
e políticas se revelam no cotidiano. O artista, ao mesmo tempo que é afetado por essas forças, também
integra o espaço.
No Brasil, também é p ossível encontrar artistas que fizeram experimentos através do caminhar. Em
1956, o artista Flávio de Carvalho realizou a Experiência nº 3 quando desfilou pelas ruas do centro de São
Paulo vestindo o seu “new look”, composto de blusa, saiote e meia-arrastão. O que o artista propunha era
um traje ideal para os homens dos trópicos.
O ato de caminhar compõe também trabalho do
artista brasileiro Matheus Couto (1992-). Na série
Deriva Vestimentar, o artista uniu o ato de caminhar
com o vestuário contrastante com a paisagem. Nesse
projeto, a figura em movimento cria uma cena viva ao
juntar-se com a paisagem urbana.
É importante ter em mente que o trabalho dos ar-
tistas comentados neste tópico não se constitui pe-
los objetos que produz, e sim pelo comportamento
do próprio artista, que define suas obras como uma
“arte de conduta”. Em exposições e bienais de arte, seu
trabalho geralmente é apresentado através de instala-
ções, que consistem em arranjos de itens coletados ao
longo do trajeto, e trabalhos em vídeo, que documen-
tam sua jornada.
Fica evidente que devido à diversidade dessas
experiências com contextos históricos divergentes,
cada grupo ou artista tenha desenvolvido diferentes
práticas de abordagem do espaço, com táticas, ob-
jetivos e estratégias específicas, gerando novas for-
mas de investigar os territórios através do andar. O
deslocar-se na arte é entendido como estar sujeito ao
risco da surpresa, do acaso, do inesperado, pensando
em diferentes modos de ver, abordar e se aproximar
dos espaços.
Da mesma forma que o artista se transforma no processo do deslocamento, o espaço também é
Deriva Vestimentar n. 4 (2019), de Matheus Couto.
Ruas do Bairro Santa Tereza, Belo Horizonte.
transformado pela sua presença. Em todas as épocas, o caminhar tem produzido arquitetura e paisagem.
Mesmo não sendo a construção física de um espaço, implica uma transformação do lugar e dos seus
significados, operando como uma fórmula simbólica de transformar a paisagem.
Como fazer
O cortejo silencioso
Você viu que o ato de caminhar é um procedimento adotado por vários artistas contemporâneos, que fazem do deslocamento sua forma de expressão.
Agora, você e seus colegas vão experimentar essa forma de produzir arte realizando uma experiência de deslocamento pela escola: o cortejo silencioso.
Você já participou de algum cortejo? Em qual ocasião?
O cortejo é um acompanhamento que se faz a alguém ou a algum objeto simbólico por ocasião de alguma cerimônia importante, seja civil, militar ou
religiosa. “O cortejo silencioso” será uma caminhada pela escola de forma alinhada, podendo ser em fila única, dupla, ou fila tripla. É importante que
as regras para o cortejo sejam definidas ainda em sala de aula para não causar tumulto ou ruídos pela escola. Com os colegas, procurem definir qual
será o tipo do cortejo (fúnebre, militar, religioso, político, celebração etc.) para que cada um crie seus gestos e desenvolva expressões fisionômicas. O
importante é que o cortejo seja silencioso, isto é, não pode haver qualquer ruído.
Após realizarem o percurso, todos os participantes, sem desmanchar a fila e sem emitir sons, devem voltar para a sala e sentar-se em seus
devidos lugares. Em seguida cada um deverá comentar sobre a sua experiência e os sentimentos que teve ao longo do percurso, lembrando que o
deslocamento é um movimento corporal que também pode ser utilizado para expressar algo.
35
Matheus Couto/Acervo do artista
A
Parada obrigatória
3. A partir das reflexões apresentadas, comente o que você entende como uma caminhada em deriva.
Parada complementar
5. O artista Francis Alÿs caminha pela cidade do México enquanto a linha do seu suéter (desmanchando) deixa um rastro por onde ele
passa. Essa ação foi intitulada Conto de fadas.
Pesquise a obra na internet e, na sequência, responda: como o ato de caminhar do artista transformou a paisagem?
6. Em 1931, Flávio de Carvalho realiza sua Experiência no 2, que consistiu em andar em sentido contrário a uma procissão de Corpus
Christi pelas ruas de São Paulo, com um boné de veludo verde na cabeça. Posteriormente, publica livro de igual título, narrando sua
experiência. Sobre esta performance, é correto afirmar que o ato
a) foi rapidamente assimilado pelo público como uma situação cômica, visto que Flávio já era fi gura ligada ao humor e com boa aceita-
ção nos círculos religiosos de São Paulo.
b) foi seguido, em 1956, pela Experiência no 3, em que Flávio desfi la pelas ruas de São Paulo usando um traje, de sua autoria, do “novo
homem” dos trópicos.
c) não deve ser relacionado, nem mesmo no campo teórico, ao conceito de Deriva, elaborado pelos Situacionistas sediados na França,
o que demandaria um encontro presencial nunca ocorrido com Guy Débord.
d) Não tem implicações com a História da Arte propriamente dita, e seu estudo está restrito a um campo de atuação denominado estu-
dos culturais.
e) Fez parte, declaradamente, do movimento cultural a que se chamou de Tropicália, embora sem o devido reconhecimento por parte
dos historiadores da música brasileira, como José Ramos Tinhorão.
Teste seu conhecimento: 5 e 6
336
A dança como diálogo do corpo
A partir da segunda metade do século XX, diversos coreógrafos
ao redor do mundo passaram a buscar diferentes formas de pensar
o movimento e o uso do corpo na composição de uma coreografia.
Nesse sentido, a dança contemporânea não é uma escola ou
uma técnica específica, mas um modo de pensar a dança que es-
tabeleceu novos diálogos com o corpo para além da hegemonia do
balé clássico.
As possibilidades criativas da dança contemporânea são tão
abrangentes que não delimitam estilos de roupas, músicas, espaços
ou movimentos. Não há uma técnica única e predefinida, mas sim
processos e formas de criação. O que se busca é uma nova noção
de corporeidade, com um sentido mais experimental. Não existe um
corpo ideal, e sim um corpo multicultural, com várias referências.
O estilo butô
O ankoku butô, posteriormente conhecido apenas como butô,
foi um estilo de dança que nasceu no Japão, em meados da dé-
cada de 1950, em uma época marcada pelas consequências do
pós-guerra e pela abertura do país às influências estrangeiras.
Tatsumi Hijikata (1928-1986) iniciou um movimento que criaria
o butô pelo uso do corpo como meio de expressão de sentimen-
tos e sentidos através de colaborações artísticas e contato com
outras linguagens, como a literatura, a música, as artes plásticas
e o cinema. O Ocidente conheceu a dança butô somente nos úl-
timos anos da década de 1970, através do dançarino Kazuo Ohno
(1906-2010), que trabalhou com Tatsumi Hijikata ajudando a con-
solidar o estilo e levá-lo a outros países.
A inspiração para a criação do butô partiu da mistura de van-
guardas europeias, como o expressionismo, o cubismo e o surrealis-
mo, com danças japonesas, como nô e bugaku. O estilo buscava uma
forma de expressão que não seria necessariamente coreografada,
nem presa aos movimentos definitivos que remetam a uma técnica
específica. O que se buscava era a expressão da individualidade.
No Japão e em diversos países do mundo, muitos grupos, dan-
çarinos e performers assumiram a dança butô como matriz poé-
tica de suas práticas artísticas, incorporando novos elementos e
criando derivações do estilo. No Brasil, os principais expoentes da
dança foram Takao Kusuno (1945-2001) e sua esposa Felicia Ogawa
(1945-1997). Kusuno foi responsável pela difusão do butô no Brasil,
trazendo aspectos da cultura brasileira às suas performances.
A Técnica Klauss Viana
Klauss Viana (1928-1992) foi um bailarino brasileiro que se em-
penhou em criar uma identidade para o balé nacional que fugisse
de reproduções e inadequações de técnicas e métodos provenien-
tes de outros países, como a Rússia e a França.
Uma de suas contribuições para a dança e o teatro nacionais foi
o desenvolvimento da Técnica do Movimento Consciente, também
conhecida como Técnica Klauss Viana, resultado de um dos mais
importantes estudos sobre o corpo e a dança no Brasil. Em parceria
com a sua esposa, a também bailarina Angel Vianna (1928-), Klauss
buscou aprofundar a consciência do corpo e do movimento em
função de ampliar as possibilidades de movimento e expressão.
O que Angel e Klauss buscavam em sua técnica era a sensibi-
lização do corpo, a percepção dos seus estados corporais, com o
intuito de entender as relações entre a mecânica do movimento
e a expressão. A soma da atenção, da consciência e da presença
diante do espaço eram necessárias para a geração de um movi-
mento que viria de dentro do bailarino, diferentemente do que
propunham as escolas clássicas, que pensavam o movimento em
primeiro lugar, fazendo com que o corpo se enquadrasse a um
ideal de gesto a ser seguido.
A dança contemporânea no Brasil
Como apresentado no início deste tópico, a dança contem-
porânea tem um aspecto multidisciplinar e diverso, não sendo
possível, portanto, reduzi-la a uma única escola ou movimento.
A construção de uma coreografia pode estabelecer diferentes
diálogos e envolver diferentes processos criativos que utilizem
diversas matrizes culturais. A criação de um espetáculo de dança
contemporânea pode utilizar também os recursos da iluminação,
da trilha sonora, do espaço cênico, dos figurinos e do vídeo como
contribuintes para a narrativa a ser apresentada.
Espaço cênico: espaço definido para a encenação de uma apresentação de
dança ou de teatro.
Nesse sentido, o Brasil se tornou um forte berço para a cria-
ção de grupos e escolas que ganharam o mundo com propostas
de movimentos que romperam com concepções clássicas da dan-
ça e das artes cênicas como um todo.
O Grupo Corpo é um exemplo da capacidade de fundir e adap-
tar diferentes estilos das mais variadas fontes de aspectos da
cultura nacional e int ernacional. O coreógrafo do grupo, Rodrigo
Pederneiras, trabalha a sobreposição de formas e gestos, pen-
sando uma nova existência na cena. A mistura de elementos da
cultura brasileira é traduzida e reinterpretada pela articulação
entre a coreografia, a música, a iluminação e o figurino.
Já a companhia da coreógrafa Deborah Colker conseguiu
Kazuo Ohno (1906-2010),
dançarino japonês de
butô, apresentando Suiren
(Water Lilies) no Asia
Society, em Nova York, 1988.
criar um registro novo e popular para a dança no país. Movi-
mentos virtuosos se combinam a sequências atléticas e cená-
rios inusitados, promovendo uma interação entre o gesto e a
cena que desafia a gravidade e o tempo. Em seus espetáculos,
é comum a presença de estruturas que permitem a criação de
diferentes movimentos na dança apresentada pelos bailarino
Prof. Rosane Araujo Martins
-
Outro
Intervenções Artísticas
Prof. Rosane Araujo Martins
-
Flashcards
Flashcards: Espaços legitimadores da arte
Ao tratarmos de quais espaços tornam a arte legítima, é tam-
bém importante pensar quem a torna legítima e quais critérios
são adotados para elevar um trabalho artístico ao patamar de
arte. Essas escolhas são feitas por diferentes atores, com diferen-
tes práticas e olhares e em variados períodos e espaços.
Desde a Antiguidade, as artes estavam relacionadas a pessoas
de poder e status. Na Grécia Antiga, eram produzidas para servir
à arquitetura e tinham finalidades, em sua maioria, religiosas. As
obras eram patrocinadas pelo Estado. Na Roma Antiga, a produ-
ção artística também estava a serviço da religião e da arquitetura,
sendo patrocinadas pelos imperadores da época. Na Idade Mé-
dia, os artistas estavam a serviço da igreja, sendo remunerados
pelo clero ou por ricos proprietários de terras. Nesse período, os
artesãos se organizavam em associações corporativas, chamadas
de guildas. No Renascimento, as artes eram promovidas pela no-
breza, pelos políticos e pelo clero.
artesãos de um grau superior. Com o tempo, esses artistas
passaram a ganhar destaque e prestígio social. Muitos, para
garantir sua sobrevivência, ligavam-se à nobreza, aos gover-
nantes ricos e às famílias burguesas, atuando como mestres e
preceptores de jovens.
O surgimento dos mecenas
O surgimento da burguesia fez nascer também uma nova
classe social. Os burgueses, geralmente comerciantes abastados,
passaram a investir na construção de seus suntuosos palacetes,
com capelas e jardins, situados no centro das cidades. A burgue-
sia também investia na construção de igrejas e de estátuas, que
eram colocadas nas praças das grandes cidades. Encomendavam
ainda brasões para valorizar o nome de suas famílias. Nos edi-
fícios públicos, eram colocados quadros também patrocinados
pela burguesia, por governantes e integrantes do alto clero, que
queriam se destacar.
A contratação dos serviços de artistas pela burguesia lhe con-
feriu o caráter de financiadores de arte, garantindo prestígio e
reconhecimento para quem produzia as obras durante os sécu-
los XV e XVI, período do Renascimento Cultural.
Fique por dentro
A palavra “mecenas” foi originada na Roma Antiga. No século I a.C., o
conselheiro do imperador Otávio Augusto investiu na produção artística
de vários escultores, pintores e poetas
da época. Seu nome era Caio Mecenas,
e seu sobrenome passou a designar os
patrocinadores dos artistas. Um dos
mais notáveis mecenas foi Lorenzo de
Médici (1449-1492).
Retrato de Lorenzo de MŽdici,
de Girolamo Macchietti,
século XVI. Óleo sobre tela.
Os mecenas foram de extrema importância para o desenvol-
Gravura do século XIX mostrando artesãos confeccionando vitrais da
catedral de Chartres, França.
Guildas: associações que surgiram na Europa durante a Idade Média
com a finalidade de agrupar pessoas que tinham interesses comuns,
como negociantes, artesãos e artistas. As guildas tinham como objetivo
proporcionar assistência e proteção aos seus integrantes.
Durante muito tempo, o trabalho artístico foi equiparado
com qualquer outro trabalho manual, ou seja, o artista exer-
cia suas atividades tal como o artesão, o carpinteiro, o oleiro,
entre outros. Somente no século XIV, na Itália, é que alguns
pintores e escultores foram diferenciados dos artesãos. Os
artistas italianos Andrea del Verrocchio (1435-1488), Donatello
(1386-1466) e Sandro Botticelli (1445-1510) eram considerados
vimento das artes plásticas, da literatura e da arquitetura. Eles
legitimaram a arte definindo o valor artístico pelo prestígio da
assinatura do artista. Giorgio Vasari (1511-1574), intelectual ita-
liano, foi o primeiro a diferenciar e valorizar a atividade artística
das demais atividades manuais. Vasari era escritor, arquiteto,
pintor e escultor de grande prestígio. Tornou-se conhecido por
escrever biografias dos artistas da Renascença italiana e criou a
primeira Academia de Desenho, em Florença, que é a mais anti-
ga escola de belas-artes do mundo.
A contribuição de Vasari para a promoção de artistas, como
Michelangelo, foi importante, pois os mecenas passaram a in-
vestir em arte, tornando a atividade competitiva e bem remune-
rada. As grandes coleções agora não ficavam confinadas apenas
dentro de palácios, igrejas e edifícios públicos: elas estavam
também nas mãos de investidores privados, que as negociavam
ou construíam espaços privados para sua exibição.
15
Morphart Creation/Shutterstock
De Agostini/Getty Images
A
O espaço dos museus
Os museus são espaços institucionais legitimadores da arte.
A primeira instituição a receber a denominação de “museu” foi
a Biblioteca de Alexandria, que foi destruída por um incêndio
em 640 d.C. Durante a Idade Média, os gabinetes de raridades e
tesouros eram espaços mantidos pela Igreja e pela realeza, que
abrigavam grandes acervos culturais.
Os museus como conhecemos atualmente foram criados no
século XVII a partir da doação de obras de coleções particulares.
O primeiro museu criado foi o Ashmolean Museum, na Inglaterra,
constituído a partir da coleção de arte do antiquário e político
Elias Ashmole, posteriormente doada à Universidade de Oxford.
O primeiro museu público foi o Museu do Louvre, em Paris,
criado em 1793 pelo governo da França. O Louvre possui cole-
ções acessíveis a todos, tendo, além da finalidade de preservação
científica, finalidade recreativa e cultural.
Parte do acervo do Museu do Índio, em Manaus (AM). Foto de 2019.
Projetar um museu é um desafio do ponto de vista arquitetôni-
co e de como a instituição vai representar as identidades e os valo-
res coletivos para que sejam vistos e pesquisados, tendo em vista
as demandas sociais do século XXI. Atualmente, esses espaços
possuem suas próprias necessidades, e alguns precisam ser proje-
tados tendo em vista as coleções de arte contemporânea que abri-
gam. Essa organização é também um elemento legitimador da arte,
pois a coloca em um ambiente que a valoriza ou a contextualiza.
Museu do Louvre, Paris, França. Foto de 2019.
No século XIX, importantes museus foram criados em todo o
mundo. Esse fato se deu devido a muitas coleções particulares
terem se tornado públicas mediante dívidas dos colecionadores
com o governo, doações ou mesmo investimento dos órgãos pú-
blicos do governo na área cultural. São exemplos de museus des-
se período o Museu do Prado, na Espanha, e o Museu Mauritshuis,
na Holanda.
Até o início do século XX, o sistema dos museus foi sempre
pautado no modelo europeu, que privilegiava a pesquisa elitis-
ta e a erudição, atingindo uma pequena parcela da população.
Porém, a partir da década de 1970, a função do museu começou
a ser repensada e sedimentada nos pressupostos de uma nova
museologia, que incentiva a fundação de museus regionais para
fomentar a diversidade artística histórica e cultural, promovendo
os artistas e a cultura da região onde estão inseridos e convidan-
do à participação da comunidade. Essa nova metodologia, além
de agregar legitimidade à arte, a coloca como elemento primor-
dial de educação estética.
1166
Narcissus garden, de Yayoi Kusama, 2009. Instalação em aço inoxidável.
Instituto Inhotim, Brumadinho, Minas Gerais.
Investigue
Quem são os mecenas na atualidade?
No século XXI, figuras que lembram os postos ocupados pelos mecenas
ainda decidem sobre tipos de arte e quais artistas querem patrocinar.
Os artistas, em uma disputa competitiva, lutam para conseguir quem
patrocine seus trabalhos. O papel do mecenato atual está nas mãos do
governo, dos bancos e dos empresários. No Brasil, a cultura geralmente
é operada pela Secretaria da Cultura, que propõe leis de incentivos
fiscais para que as empresas, bancos ou mesmo pessoas físicas possam
patrocinar artistas.
Diante dessas informações, investigue quais leis de incentivo fiscal para
fins culturais existem ou já existiram no Brasil e qual é o benefício que
os investidores recebem para realizar os patrocínios. Em seguida, troque
ideias com seus colegas e compartilhe suas descobertas.
MSMondadori/Shutterstock
Ksenia RagozinaShutterstock
A
Parada obrigatória
3. O artista Daniel Spoerri criou uma série de obras com colagem de objetos próprios de
mesas de jantares em grandes tábuas de madeira, pendurando-as nas paredes. As pro-
duções incluíam pratos, talheres, guardanapos e até restos de comida.
Diante da imagem da obra e das informações apresentadas, o que você imagina que
legitimou o trabalho do artista?
Resposta pessoal. Espera-se que os alunos comentem que a obra do artista ganha
destaque por apresentar materiais do cotidiano em uma linguagem contemporânea.
A turma pode comentar que algumas obras também são relevantes de acordo com
a trajetória do artista, a inovação de materiais utilizados, os espaços em que a obra está
exposta ou a partir do impacto da obra com o público.
Tableau-piége: Restaurante da Galeria da
Cidade, de Daniel Spoerri, 1965. 82 cm 3 82 cm,
Coleção Helga Haln, Colônia.
Parada complementar
Verifi que as respostas no Manual do Professor.
5. Mona Lisa, pintura de valor inigualável, se tornou o quadro mais valioso e famoso do mundo. Observe e procure elencar quais foram
os fatores fundamentais para a valorização da pintura de Leonardo da Vinci.
Mona Lisa (ou A Gioconda),
de Leonardo da Vinci.
1503-1506. Óleo sobre
madeira, 77 cm 3 53 cm.
Museu do Louvre, Paris.
6. Qual é a importância dos mecenas para a arte? Cite um exemplo tendo em vista o que você conhece.
Teste seu conhecimento: 5 e 6
17
Reprodução/Museu do Louvre, Paris, França
Daniel Spoerri/AUTVIS Brasil, 2021
A
Acervos, conservação e documentação
A concepção atual dos museus vai além de guardar antiguidades e fazer o recolhimento, a res-
Museologia: ciência
contemporânea que estuda
o museu, seus objetivos,
sua organização e seu
funcionamento. A museologia
consiste em uma plataforma
de metodologias distintas que
estruturam seu papel primordial
na preservação patrimonial e na
sua divulgação.
tauração e a exposição de objetos que compõem seu patrimônio. Atualmente, os museus procuram
também fomentar um discurso que é incorporado pelo visitante, tornando-o emissor, propagador e
construtor de cultura. Em linhas gerais, a relação entre o ser humano e o objeto no espaço institu-
cional é denominada fato museal. O estudo dessa relação é feito por um campo de conhecimento
chamado de museologia.
A museologia surgiu na França a partir da segunda metade do século XX e propagou-se internacio-
nalmente a partir da Declaração de Quebec de 1984, documento que registrou os princípios e bases para
uma nova museologia. Esses princípios influenciaram de forma ampla a museologia da década de 1980,
privilegiando o compromisso social dos museus e a sua forma interdisciplinar de estar presente em va-
riadas esferas do conhecimento, visando à preservação e à recriação da memória.
Os museus precisam ser vivos, estando presentes e ativos nas dimensões das realidades sociais.
Precisam também ser espaços de provocação, no qual o visitante se sinta instigado e fascinado pelas
experiências ali vivenciadas. Os espaços precisam estar vinculados à realidade tecnológica, garantindo o
melhor aproveitamento por diferentes setores da sociedade.
A museologia também atua de forma colaborativa com outras ciências, como a História, a Sociologia,
a Filosofia e a Antropologia, sendo, portanto, uma área de conhecimento teórico e prático. A diversidade
de atuação profissional no espaço dos museus fez surgir áreas de especialização na museologia, con-
templando as áreas de acervo das coleções, a conservação preventiva e a documentação museológica.
O acervo
Na museologia, acervo significa um conjunto geral, que pode ser artístico, bibliográfico, fotográfico,
científico, histórico e documental. O acervo artístico possui um corpo mais amplo, muitas vezes consti-
tuído por várias e diferentes coleções. A palavra “coleção” significa um corpo mais específico e possui um
sistema que segue critérios e normas de escolha e de organização específica de cada espaço.
Os acervos públicos ou privados podem estar ainda desorganizados, ou já institucionalizados e siste-
matizados em formato de museu ou sob outros formatos. Acervo, portanto, se refere a todo o patrimônio
material e imaterial, é o conjunto dos bens dinâmicos, em constante transformação em uma comunidade,
e não somente uma coleção. Coleção é uma parte específica do acervo e pode ser composta de objetos
materiais ou imateriais, ser mantida por uma pessoa física ou pertencer a uma nação.
Na coleção, os itens que a com-
põem precisam formar um conjunto
coerente e significativo, visto que o
ato de colecionar é um ato de escolher.
Essa escolha não é aleatória, mas sim
uma identificação com alguns teste-
munhos materiais, objetos ou coisas
com as quais o colecionador estabele-
ceu uma relação.
Por serem específicas, as coleções
têm diferentes possibilidades de sele-
ção, não sendo possível estipular uma
quantidade necessária de objetos para
a sua constituição (isso dependerá do
local onde ela se acumulou e do estado
da sociedade de origem). Quando incor-
poradas a uma coleção, as peças adqui-
rem um status diferenciado, perdendo
sua função de origem e passando a ter
uma função de memória. A peça passa
a ser protegida pela instituição e não
pode mais circular comercialmente.
1188
Parte do Acervo do Masp, em São Paulo (SP). Foto de 2018.
M
A conservação
A conservação é um conjunto de providências tomadas pre-
ventivamente e diariamente em um museu com o objetivo de
manter a integridade física e histórica do acervo para aumentar
a vida útil das peças, diminuindo riscos de degradação. Vale lem-
brar que o acervo de um museu é composto de peças expostas
de forma permanente e peças que ficam guardadas, mostradas
ao público somente em exposições temporárias. Essas peças pre-
cisam estar bem acondicionadas, respeitando normas e regula-
mentos de conservação preventiva.
Fique por dentro
Em 2018, um incêndio dominou o Museu Nacional, no Rio de Janeiro
(RJ). Naquele ano, a instituição também completava 200 anos de histó-
ria, sendo o maior museu de história natural do Brasil. O fogo também
destruiu mais de 20 milhões de itens, desde fósseis até livros raros,
com grandes acervos em áreas de estudo como botânica, arqueologia,
zoologia, e muitas outras.
Acima, Primeira Missa no Brasil, de Victor Meirelles, 1860. Óleo sobre tela,
270 cm 3 357 cm. Abaixo, processo de restauração da pintura, em 2006.
Incêndio no Museu Nacional do Rio de Janeiro, em setembro de 2018.
O espaço de conservação precisa ter mobiliário seguro, contro-
le de clima e de segurança, higienização das peças e controle de
pragas, como cupins e traças. A conservação preventiva é interdisci-
plinar e exige profissionais qualificados. Assim, o principal objetivo
desse trabalho é conservar e preservar para não ter que restaurar.
A conservação preventiva deve ser sempre a prioridade de
qualquer instituição museológica, porém, em muitos casos, o
restauro é a solução para a recuperação da peça.
Restauro: conjunto de procedimentos técnicos de intervenção realizado em
uma obra de arte quando se faz necessário recuperar sua integridade.
O trabalho de restauro exige um conhecimento técnico mui-
to apurado acerca de materiais artísticos, produtos químicos,
técnicas artísticas e sobre a história da peça, a técnica original
utilizada pelo autor, sua origem, sua idade e também o tipo de
dano e o local de exposição. Caso o museu opte pelo restauro de
uma peça, deve-se fazer a intervenção o mínimo possível, para
não descaracterizar a obra.
19
Buda Mendes/Getty Images
Reprodução/Museu Nacional de Belas Artes – Iphan/Ministério da Cidadania,
Rio de Janeiro, RJ.
Reprodução/Museu Nacional de Belas Artes – Iphan/Ministério da Cidadania, Rio de Janeiro, RJ.
A
De olho
A curadoria é um cargo que um
profissional desempenha para cuidar
e preservar uma exposição de arte,
da ideia até o gerenciamento. O
objetivo é determinar o conteúdo da
exposição, geralmente organizado por
meio de agrupamentos e relações de
semelhança ou diferença em temáticas,
procedimentos ou conceitos visuais.
O fio condutor de todo o processo de
curadoria geralmente é um tema ou um
conceito que garantirá a identidade e a
unidade da exposição.
A documentação
A documenta•‹o, por sua vez, é a área da museologia que visa à identificação, à organiza-
ção e à contextualização das informações relativas aos objetos do acervo de acordo com as
suas especi ficidades.
Os museus lidam com objetos de cultura material, porém essa materialidade não se
torna suficiente para conhecer o significado das manifestações culturais, práticas cientí-
ficas, históricas e os princípios artísticos que motivaram sua criação. Há também a mu-
dança do papel dos objetos ao longo do tempo. O museólogo deve ter domínio e clareza
de todos os procedimentos que configuram o sistema das ações documentais para que o
processo de consulta seja simples, eficiente e acessível.
Os objetos de um museu são documentos, considerados fontes primárias. São registros
e testemunhos da existência humana e da sua trajetória ao longo do tempo.
Os registros dos objetos podem orientar processos de conservação e restauração, au-
xiliando o monitoramento dos acervos e a orientação das curadorias, visando divulgar o
acervo por meio de exposições e das ações educativas destinadas ao público.
Prof. Rosane Araujo Martins
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Outro
Espaços legitimadores da arte
Prof. Rosane Araujo Martins
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Resumo
Espaços e agentes legitimadores da arte
Prof. Rosane Araujo Martins
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Apresentação
Legitimando a Arte
Prof. Rosane Araujo Martins
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Atividade
Danças Populares Brasileiras
Prof. Rosane Araujo Martins
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