Adjuntos Adnominais

# Adjuntos Adnominais [Sequence 1: (a) Contextualized Situation] Eu, Harry Potter, aprendi em Hogwarts que as palavras têm poderes que vão muito além do que parecem à primeira vista. Assim como um feitiço muda completamente de efeito dependendo das palavras que o compõem, uma frase muda radicalmente de sentido dependendo das palavras que acompanham seus substantivos. Por que a frase "um homem entrou na sala" desperta uma imagem completamente diferente de "o homem misterioso entrou na sala"? Vamos investigar isso juntos, como se fosse um feitiço que precisamos decifrar. As palavras que acompanham um substantivo colorem, especificam e transformam o que imaginamos ao ler — e entender como elas funcionam é essencial para ler e escrever com muito mais precisão e força. Em resumo, quem domina esses elementos tem nas mãos uma ferramenta poderosa para qualquer texto. --- [Sequence 2] Antes de mergulhar no conteúdo novo, vamos ativar o que você já sabe, como se fosse um aquecimento antes de um duelo de feitiços. Você já percebeu, com certeza, que certas palavras "colam" ao lado de um substantivo e mudam o que ele significa — mesmo sem saber ainda o nome técnico disso. [D1] Leia as duas frases abaixo: > "Um homem entrou na sala." > "O homem misterioso entrou na sala." O que muda na imagem que você cria na cabeça ao ler cada frase? O que as palavras ao redor de "homem" acrescentam à sua compreensão? Em resumo, sua intuição linguística já trabalha com esses elementos — agora vamos dar nome e forma a esse conhecimento. --- [Sequence 4] ## O que são os adjuntos adnominais? Em Hogwarts, aprendi que todo feitiço precisa de ingredientes certos para funcionar. Na língua portuguesa, o substantivo é como o ingrediente principal de uma frase, mas são as palavras que o acompanham que dão a ele sabor e precisão. Essas palavras acompanhantes têm um nome técnico: **adjunto adnominal**. O adjunto adnominal é o termo que caracteriza ou determina um substantivo. É chamado de "acessório" porque pode ser retirado sem destruir a estrutura da oração; no entanto, sua remoção empobrece o texto e apaga nuances de sentido importantíssimas. É fundamental compreender, ainda, que o adjunto adnominal não é uma classe de palavras: é uma **função sintática**, o que significa que diferentes tipos de palavras podem exercê-la, dependendo do contexto. ## Que palavras exercem essa função? Vamos investigar cada tipo de elemento que pode funcionar como adjunto adnominal, usando sempre exemplos extraídos do texto de Machado de Assis que estudaremos neste capítulo. **Artigos** (definidos: *o, a, os, as*; indefinidos: *um, uma, uns, umas*) são os adjuntos adnominais mais frequentes da língua. O artigo definido especifica um ser já determinado no contexto; o indefinido introduz um ser não identificado. Observe a diferença: "**A** promessa, feita com fervor, aceita com misericórdia, foi guardada por ela" — o artigo *a* determina "promessa" como algo único e conhecido na narrativa. Já em "**Um** cochilo da fé teria resolvido a questão", o artigo indefinido apresenta um cochilo apenas imaginado, hipotético. **Adjetivos** são palavras que qualificam o substantivo, atribuindo-lhe uma característica. No texto de Machado de Assis: "a fé **pura** que as animava" — o adjetivo *pura* qualifica "fé", revelando sua natureza sincera; e "os seus **grandes** olhos **ingênuos**" — dois adjetivos que juntos constroem uma imagem vívida da fé personificada. **Expressões adjetivas** (locuções adjetivas) são grupos de palavras que funcionam como um adjetivo, geralmente formados por preposição + substantivo. Exemplos do texto: "práticas **religiosas**" — o adjetivo é equivalente à locução "de religião"; "carreira **eclesiástica**" — equivalente a "da Igreja". Essas expressões ampliam o poder descritivo do substantivo de forma equivalente ao adjetivo simples. **Pronomes adjetivos** também exercem a função de adjunto adnominal quando acompanham um substantivo (em vez de substituí-lo). No texto: "**minha** carreira eclesiástica", "**meu** pai", "os **seus** projetos" — os pronomes possessivos *minha*, *meu* e *seus* determinam o substantivo, indicando posse. [chapter-section: Nossa língua na rua] Observe propagandas, manchetes de jornais e postagens nas redes sociais ao longo do seu dia. Você vai perceber que os adjuntos adnominais estão em toda parte: "promoção **imperdível**", "**nova** coleção", "produto **de qualidade** comprovada". Que efeito de sentido cada um desses adjuntos produz no leitor? ## O adjunto adnominal e o substantivo que ele modifica Qual substantivo o adjunto adnominal modifica — e qual é a função sintática desse substantivo na oração? Para identificar o adjunto adnominal com precisão, é preciso primeiro localizar o substantivo ao qual ele se refere e verificar se esse substantivo funciona como **sujeito** ou como **complemento verbal** (objeto direto ou objeto indireto). Observe este período do texto: "**A esperança íntima e secreta** entrou a invadir o coração de minha mãe." O núcleo do sujeito é "esperança"; os adjuntos adnominais são *a* (artigo), *íntima* (adjetivo) e *secreta* (adjetivo). Todos modificam o sujeito "esperança", caracterizando-o como algo profundo e escondido. Já neste exemplo: "começou a adiar **a minha entrada no seminário**" — o núcleo do objeto direto é "entrada"; os adjuntos adnominais são *a* (artigo), *minha* (pronome possessivo) e *no seminário* (expressão adjetiva). Juntos, especificam exatamente de que entrada se trata. Em resumo, identificar adjuntos adnominais exige dois passos: localizar o substantivo e verificar quais termos ao redor dele o caracterizam ou determinam. **Images:** - [GENERATE] Esquema visual com duas colunas: à esquerda, um substantivo isolado ("esperança"); à direita, o mesmo substantivo com adjuntos adnominais coloridos por tipo (artigo em azul, adjetivos em verde, expressão adjetiva em laranja, pronome em roxo), com setas ligando cada adjunto ao núcleo | adjunto-adnominal-esquema.png | 3:2 [INTERACTIVE: a1-mm | Explore o mapa mental interativo sobre os tipos de adjuntos adnominais na plataforma Teachy] --- ## O texto como laboratório: *Dom Casmurro*, de Machado de Assis Agora vamos mergulhar no texto que será nosso laboratório de análise. Pense nisso como magia real: ao observarmos o texto com atenção, descobriremos como Machado de Assis usa os adjuntos adnominais para construir personagens e sentimentos com poucas palavras. [chapter-section: Perfil] **Machado de Assis** (1839–1908) é o maior nome da literatura brasileira. Filho de um operário mestiço e de uma portuguesa, nasceu no morro do Livramento, no Rio de Janeiro, e, de forma autodidata, tornou-se o escritor mais refinado do país. Fundador da Academia Brasileira de Letras, criou obras fundamentais do Realismo brasileiro, como *Dom Casmurro* (1899) e *Memórias Póstumas de Brás Cubas* (1881). Seu estilo é marcado pela ironia, pela precisão vocabular e pelo uso cuidadoso dos termos que modificam o substantivo para construir efeitos de sentido profundos. --- *Dom Casmurro*, cap. IX (fragmento) Minha mãe era temente a Deus; sabes disto, das suas práticas religiosas, e da fé pura que as animava. Nem ignoras que a minha carreira eclesiástica era objeto de promessa feita quando fui concebido. Tudo está contado oportunamente. Outrossim, sabes que para o fim de apertar o vínculo moral da obrigação, confiou os seus projetos e motivos a parentes e familiares. A promessa, feita com fervor, aceita com misericórdia, foi guardada por ela, com alegria, no mais íntimo do coração. Penso que lhe senti o sabor da felicidade no leite que me deu a mamar. Meu pai, se vivesse, é possível que alterasse os planos, e, como tinha a vocação da política, é provável que me encaminhasse somente à política, embora os dous ofícios não fossem nem sejam inconciliáveis, e mais de um padre entre na luta dos partidos e no governo dos homens. Mas meu pai morrera sem saber nada, e ela ficou diante do contrato, como única devedora. Um dos aforismos de Franklin é que, para quem tem de pagar na páscoa, a quaresma é curta. A nossa quaresma não foi mais longa que as outras, e minha mãe, posto me mandasse ensinar latim e doutrina, começou a adiar a minha entrada no seminário. É o que se chama, comercialmente falando, reformar uma letra. O credor era arquimilionário, não dependia daquela quantia para comer, e consentiu nas transferências de pagamento, sem sequer agravar a taxa do juro. Um dia, porém, um dos familiares que serviam de endossantes da letra, falou da necessidade de entregar o preço ajustado; está num dos Capítulos primeiros. Minha mãe concordou e recolhi-me a S. José. Ora, nesse mesmo Capítulo, verteu ela umas lágrimas, que enxugou sem explicar, e que nenhum dos presentes nem tio Cosme, nem prima Justina, nem o agregado José Dias entendeu absolutamente: eu, que estava atrás da porta, não as entendi mais que eles. Bem examinadas, apesar da distancia, vê-se que eram saudades prévias, a mágoa da separação — e pode ser também (é o princípio do ponto), pode ser que arrependimento da promessa. Católica e devota, sentia muito bem que as promessas se cumprem; a questão é se é oportuno e adequado fazê-las todas, e naturalmente inclinava-se à negativa. Por que é que Deus a puniria, negando-lhe um segundo filho? A vontade divina podia ser a minha vida, sem necessidade de lhe dedicar ab ovo. Era um raciocínio tardio: devia ter sido feito no dia em que fui gerado. Em todo caso, era uma conclusão primeira; mas, não bastando concluir para destruir, tudo se manteve, e eu fui para o seminário. Um cochilo da fé teria resolvido a questão a meu favor, mas a fé velava com os seus grandes olhos ingênuos. Minha mãe faria, si pudesse, uma troca de promessa, dando parte dos seus anos para conservar-me consigo, fora do clero, casado e pai: é o que presumo, assim como suponho que rejeitou tal idéia, por lhe parecer uma deslealdade. Assim a senti sempre na corrente da vida ordinária. Sucedeu que a minha ausência foi logo temperada pela assiduidade de Capitu. Esta começou a fazer-se-lhe necessária. Pouco a pouco veio-lhe a persuasão de que a pequena me faria feliz. Então (é o final do ponto anunciá-lo), a esperança de que o nosso amor, tornando-me absolutamente incompatível com o seminário, me levasse a não ficar lá nem por Deus nem pelo Diabo, esta esperança íntima e secreta entrou a invadir o coração de minha mãe. Neste caso, eu romperia o contrato sem que ela tivesse culpa. Ela ficava comigo sem ato propriamente seu. Era como se, tendo confiado a alguém a importância de uma dívida para levá-la ao credor, o portador guardasse o dinheiro consigo e não levasse nada. Na vida comum, o ato de terceiro não desobriga o contratante; mas a vantagem de contratar com o céu é que intenção vale dinheiro. Hás de ter tido conflitos parecidos com esse, e, se és religioso, haverás buscado alguma vez conciliar o céu e a terra, por modo idêntico ou análogo. O céu e a terra acabam conciliando-se; eles são quase irmãos gêmeos, tendo o céu sido feito no segundo dia e a terra no terceiro. (ASSIS, Machado de. *Dom Casmurro*. Rio de Janeiro: Garnier, 1899.) --- Relendo o texto, eu percebi algo fascinante: Machado de Assis não descreve os sentimentos diretamente — ele os constrói por meio dos adjuntos adnominais. A "esperança" não é qualquer esperança: ela é "íntima e secreta", guardada só para si. A "fé" não é genérica: ela é "pura" — e mais adiante aparece com "grandes olhos ingênuos", expressão que a personifica e sugere uma crença que aceita sem questionar. Em resumo, o adjunto adnominal é a ferramenta que revela a psicologia dos personagens sem precisar explicá-la diretamente ao leitor. --- ## Na prática Você consegue sentir como cada adjunto adnominal muda o peso de uma palavra? Agora é hora de praticar junto comigo — como se fosse um feitiço que ficamos aperfeiçoando até acertar. Os exercícios abaixo partem dos trechos de *Dom Casmurro* que lemos juntos. [P1] (DOK 1) Leia o trecho de *Dom Casmurro*, de Machado de Assis: > "A promessa, feita com fervor, aceita com misericórdia, foi guardada por ela, com alegria, no mais íntimo do coração." No trecho, o substantivo "promessa" é acompanhado por duas expressões que o caracterizam. Identifique essas duas expressões. (A) "feita com fervor" e "aceita com misericórdia" (B) "foi guardada" e "com alegria" (C) "com alegria" e "no mais íntimo" (D) "com misericórdia" e "foi guardada por ela" **Gabarito:** A [P2] (DOK 2) Releia o trecho abaixo: > "Um cochilo da fé teria resolvido a questão a meu favor, mas a fé velava com os seus grandes olhos ingênuos." O substantivo "fé" aparece duas vezes no trecho. Na segunda ocorrência, ele é acompanhado por modificadores que formam uma imagem. Analise: o que a expressão "grandes olhos ingênuos", ligada a "fé", revela sobre o modo como o narrador enxerga a própria crença religiosa? [LINES: 5] *Dica: Pense no que significa "ingênuo" e em como essa palavra caracteriza a fé — ela é apresentada como algo que questiona ou que aceita sem duvidar?* [P3] (DOK 2) Leia o período a seguir: > "Então a esperança íntima e secreta entrou a invadir o coração de minha mãe." a) Identifique o substantivo que funciona como sujeito da oração e os adjuntos adnominais que o acompanham. b) Explique o efeito de sentido produzido pelos adjetivos escolhidos para caracterizar esse substantivo. *Dica: Observe que "íntima" e "secreta" são dois adjetivos. O que eles dizem sobre a natureza dessa esperança? Ela é algo que a mãe revela ou esconde?* Em resumo, os exercícios acima mostram que identificar adjuntos adnominais é, antes de tudo, um exercício de leitura atenta: perceber como cada palavra ao redor do substantivo contribui para o sentido do todo. --- ## Exercícios Agora você vai trabalhar de forma mais autônoma — sem a minha ajuda, como quando eu e meus amigos enfrentávamos desafios sozinhos. Você consegue aplicar o que aprendeu a trechos que examinaremos com um olhar ainda mais analítico? [I1] (DOK 3) Leia o trecho de *Dom Casmurro*: > "Minha mãe era temente a Deus; sabes disto, das suas práticas religiosas, e da fé pura que as animava." Na frase, o substantivo "fé" é modificado pelo adjetivo "pura". Considerando o contexto da narrativa — em que a mãe de Bentinho cumpre fielmente uma promessa religiosa mesmo sentindo conflitos internos —, o uso do adjetivo "pura" em relação a "fé" tem o efeito de: (A) indicar que a fé da personagem é simples e sem profundidade, o que diminui sua importância na trama. (B) mostrar que a fé da personagem não é influenciada por interesses pessoais, reforçando sua sinceridade religiosa. (C) sugerir que a personagem pratica a religião apenas por obrigação, sem sentimento genuíno. (D) contrapor a fé religiosa à fé afetiva, criando uma oposição central no enredo. (E) classificar a fé da personagem como ingênua e facilmente manipulável pelas circunstâncias. **Gabarito:** B [I2] (DOK 2) Leia o trecho abaixo: > "A nossa quaresma não foi mais longa que as outras, e minha mãe, posto me mandasse ensinar latim e doutrina, começou a adiar a minha entrada no seminário." No trecho, o substantivo "entrada" é acompanhado pela expressão "no seminário". Além disso, o pronome possessivo "minha" antecede esse substantivo. Identifique o substantivo que funciona como complemento verbal (objeto direto) no trecho e liste todos os adjuntos adnominais que o acompanham. [LINES: 4] [I3] (DOK 3) Releia os dois trechos de *Dom Casmurro*: > **Trecho 1:** "Minha mãe era temente a Deus; sabes disto, das suas práticas religiosas, e da fé pura que as animava." > > **Trecho 2:** "Mas a fé velava com os seus grandes olhos ingênuos." Nos dois trechos, o substantivo "fé" recebe caracterizações diferentes por meio de adjuntos adnominais. Analise como as escolhas de modificadores em cada trecho constroem imagens distintas da fé e o que essa variação revela sobre a visão do narrador em relação à crença religiosa ao longo do capítulo. [LINES: 8] Em resumo, identificar e analisar adjuntos adnominais em textos literários é uma porta de entrada para compreender as escolhas que os autores fazem e os efeitos que produzem em quem lê. [INTERACTIVE: d-rp | Escaneie para responder estes exercícios na Teachy e receber correção automática]


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