Complemento Nominal vs. Adjunto Adnominal
# Complemento Nominal vs. Adjunto Adnominal [Sequence 4] Eu, Harry Potter, aprendi em Hogwarts que nem toda magia é óbvia: alguns feitiços só revelam seu poder quando você os compara com outros parecidos. No capítulo anterior, descobrimos que o complemento nominal é um termo integrante — ele completa o sentido de um nome e não pode ser retirado sem deixar um buraco semântico. Agora chegou a hora de enfrentar o grande desafio: por que retirar uma palavra de uma frase pode destruir o sentido de um nome, mas não de outra? Essa pergunta vai guiar tudo o que vamos investigar juntos daqui para a frente. Machado de Assis nos deixou, em *Dom Casmurro*, um texto repleto de nomes que exigem complementação e de nomes que simplesmente recebem qualificações. Vamos investigar isso juntos, relendo um trecho do romance para observar como as palavras se comportam na prática. --- *Texto de referência:* **Dom Casmurro** (trecho do capítulo de abertura) Machado de Assis, 1899. > O mais do tempo é gasto em hortar, jardinar e ler; como bem e não durmo mal. Ora, como tudo cansa, esta monotonia acabou por exaurir-me também. Quis variar, e lembrou-me escrever um livro. Jurisprudência, filosofia e política acudiram-me, mas não me acudiram as forças necessárias. Depois, pensei em fazer uma "História dos Subúrbios" menos seca que as memórias do Padre Luís Gonçalves dos Santos relativas à cidade; era obra modesta, mas exigia documentos e datas como preliminares, tudo árido e longo. Foi então que os bustos pintados nas paredes entraram a falar-me e a dizer-me que, uma vez que eles não alcançavam reconstituir-me os tempos idos, pegasse da pena e contasse alguns. Talvez a narração me desse a ilusão, e as sombras viessem perpassar ligeiras, como ao poeta, não o do trem, mas o do Fausto. > > Fiquei tão alegre com esta ideia, que ainda agora me treme a pena na mão. Sim, Nero, Augusto, Massinissa, e tu, grande César, que me incitas a fazer os meus comentários, agradeço-vos o conselho, e vou deitar ao papel as reminiscências que me vierem vindo. > > —D. Glória, a senhora persiste na ideia de meter o nosso Bentinho no seminário? Não me parece bonito que o nosso Bentinho ande metido nos cantos com a filha do Tartaruga. > > —Há algum tempo estou para lhe dizer isto, mas não me atrevia. A pequena é uma desmiolada; o pai faz que não vê. Compreendo o seu gesto; a senhora não crê em tais cálculos, parece-lhe que todos têm a alma candida. *Fonte: ASSIS, Machado de. Dom Casmurro. Rio de Janeiro: Garnier, 1899. Domínio público.* --- Relendo esse trecho com atenção, você já percebe algo curioso? Observe dois sintagmas presentes no texto: *"a ilusão"* e *"a filha do Tartaruga"*. Em ambos, há um substantivo seguido de um acompanhante. Mas será que os dois funcionam do mesmo modo? Você consegue perceber alguma diferença na relação que cada acompanhante tem com o nome? [chapter-section: Perfil] **Machado de Assis** (1839–1908) é considerado o maior escritor brasileiro. Nascido no Rio de Janeiro, filho de um pintor de paredes e de uma lavadeira portuguesa, superou origens humildes para fundar a Academia Brasileira de Letras e escrever obras como *Dom Casmurro* (1899) e *Memórias Póstumas de Brás Cubas* (1881). Sua prosa é admirada pela ironia precisa e pelo domínio absoluto da língua portuguesa. ## O adjunto adnominal: o qualificador que acompanha o nome Antes de comparar os dois termos, é preciso que eu te apresente o adjunto adnominal com clareza, já que você já conhece bem o complemento nominal. O adjunto adnominal é um **termo acessório** da oração: ele modifica, qualifica ou determina um substantivo, mas o sentido desse substantivo não depende dele para estar completo. Pense no exemplo do texto de Machado de Assis: em *"a filha do Tartaruga"*, o sintagma *"do Tartaruga"* identifica de qual filha se fala, mas o substantivo *"filha"* não fica semanticamente vazio sem ele. Da mesma forma, *"forças necessárias"* e *"os meus comentários"* trazem qualificações ao substantivo — mas *"forças"* e *"comentários"* continuam sendo nomes completos mesmo sem esses acompanhantes. Por isso, todos são adjuntos adnominais: o nome não os exige por regência, eles apenas enriquecem a informação. **Images:** - https://storage.googleapis.com/teachy-classroom-contents/images-v2/1221d491-4afa-48a6-b19f-288bb5ec6c93/generated/v2_0_14.png — Ilustração com personagens representando conceitos de complemento e adjunto em gramática | Attribution: Fonte: Teachy ## A diferença fundamental: integrante ou acessório? A diferença entre complemento nominal e adjunto adnominal está na **relação de exigência** que o nome estabelece com o termo que o acompanha — e é exatamente essa relação que preciso que você compreenda bem. O **complemento nominal** é exigido pelo nome por regência: existe uma preposição determinada pela própria natureza semântica do nome. Pergunte *"de quê?"*, *"a quem?"*, *"por quem?"* ao nome, e a resposta com preposição é o complemento nominal. Sem ele, o sentido do nome fica incompleto. O **adjunto adnominal** com preposição, por sua vez, não é exigido por regência — ele apenas acrescenta uma informação descritiva ou identificadora. O teste definitivo é este: tente retirar o termo. Se o **nome** ficar semanticamente vazio, é complemento nominal. Se o nome continuar com sentido pleno e você perdeu apenas uma qualificação, é adjunto adnominal. Em resumo, a chave está em perguntar se o nome *exige* aquele acompanhante ou apenas o *aceita*: o complemento nominal é convocado pelo nome, enquanto o adjunto adnominal é bem-vindo, mas dispensável. Observe a tabela abaixo, que contrasta as características dos dois termos com exemplos extraídos do texto de Machado de Assis: | Aspecto | Complemento Nominal | Adjunto Adnominal | |---|---|---| | **Função** | Completar o sentido de um nome (integrante) | Qualificar, caracterizar ou determinar um nome (acessório) | | **Caráter** | Essencial — o nome fica semanticamente vazio sem ele | Dispensável — o nome conserva sentido completo sem ele | | **Preposição** | Obrigatória, determinada pela regência do nome | Facultativa; quando existe, não é exigida pela regência | | **Pergunta-teste** | *"de quê?"*, *"a quem?"*, *"por quem?"* ao nome | *"qual?"*, *"que tipo?"*, *"de qual?"* ao nome | | **Exemplos do texto** | *"a ilusão"* (ilusão de quê? → o nome exige completação) | *"forças necessárias"* (que tipo de forças? → qualificação) | | **Outros exemplos** | *"certeza da vitória"*, *"ansioso pela aprovação"* | *"a filha do Tartaruga"*, *"os meus comentários"* | **Images:** - [GENERATE] Diagrama de fluxo mostrando o processo de identificação: "O nome exige o termo por regência?" → Sim → Complemento Nominal / Não → Adjunto Adnominal. Visual limpo com setas e cores contrastantes, fundo claro, em português | complemento-vs-adjunto-fluxograma.png | 3:2 [INTERACTIVE: a1-mm | Explore o mapa mental interativo comparando complemento nominal e adjunto adnominal na plataforma Teachy] [Sequence 5] ## Na prática Eu, Harry Potter, sei que aprender a diferença entre dois feitiços parecidos exige treino — e é por isso que vamos praticar com os próprios exemplos de Machado de Assis. Em resumo, o que você já sabe é que o complemento nominal completa o nome (integrante) e o adjunto adnominal apenas o qualifica (acessório); agora use esse conhecimento nos exercícios a seguir. [P1] (DOK 1) Leia a frase abaixo, retirada de *Dom Casmurro*, de Machado de Assis: > "Depois, pensei em fazer uma 'História dos Subúrbios'… mas exigia documentos e datas como preliminares." Na frase "exigia documentos e datas como preliminares", o trecho **"de documentos e datas"** não aparece explicitamente, mas em muitas frases similares o complemento nominal está presente. Observe agora esta versão adaptada: > "Sentia a necessidade de documentos para continuar." Identifique o complemento nominal na frase adaptada acima e explique por que ele não pode ser retirado sem que o sentido do nome fique incompleto. *Dica: Pergunte "necessidade de quê?" e veja se a resposta é essencial para o sentido do substantivo.* --- [P2] (DOK 2) Leia os dois grupos de frases abaixo: **Grupo A** 1. A menina tem medo de escuro. 2. O aluno demonstrava interesse pelos livros. **Grupo B** 1. A menina tem um medo enorme. 2. O aluno demonstrava interesse genuíno. a) Nas frases do Grupo A, identifique os termos sublinhados como complemento nominal ou adjunto adnominal, justificando sua escolha com base na necessidade semântica. b) Nas frases do Grupo B, identifique os termos em destaque e explique por que eles recebem uma classificação diferente dos termos do Grupo A. *Dica: Verifique o que acontece com o sentido do nome quando você retira cada termo destacado. O termo é essencial (completa o nome) ou apenas acrescenta uma qualidade (acessório)?* --- [P3] (DOK 2) Leia o trecho de *Dom Casmurro*: > "Não me parece bonito que o nosso Bentinho ande metido nos cantos com a filha do Tartaruga." Na frase acima, há dois sintagmas nominais com estrutura semelhante: **"nos cantos"** (ligado a verbo) e **"a filha do Tartaruga"** (sintagma nominal). Considere agora a frase adaptada com estrutura de complemento nominal: > "José Dias tinha certeza da influência do Pádua sobre a família." a) Identifique os complementos nominais presentes nessa frase adaptada. b) Explique como o termo preposicionado se liga ao nome (e não ao verbo) em cada caso. *Dica: Substitua mentalmente o nome pelo pronome "isso" e veja se a frase ainda faz sentido sem a preposição — se não fizer, o termo é complemento nominal.* [chapter-section: Nossa língua na rua] Os complementos nominais aparecem o tempo todo em manchetes de jornal e em redes sociais. Frases como *"o aumento do custo de vida"*, *"a redução dos impostos"* e *"a indiferença às mudanças climáticas"* estão repletas deles. Machado de Assis era mestre nessa precisão: ele sabia quando um nome exigia um complemento e quando bastava um qualificador. Na próxima vez que você ler uma notícia, tente identificar quais sintagmas preposicionados são complementos nominais (essenciais ao nome) e quais são adjuntos adnominais (apenas qualificam). Você vai se surpreender com a frequência deles! [Sequence 6] ## Exercícios Eu, Harry Potter, sempre acreditei que o verdadeiro teste de um feitiço é aplicá-lo em situações novas — e é isso que vamos fazer agora. Vamos investigar se você consegue identificar e diferenciar os dois termos em contextos que você ainda não viu. [I1] (DOK 3 — estilo ENEM) Leia o trecho a seguir, retirado do capítulo de abertura de *Dom Casmurro*: > "Fiquei tão alegre com esta ideia, que ainda agora me treme a pena na mão. Sim, Nero, Augusto, Massinissa, e tu, grande César, que me incitas a fazer os meus comentários, agradeço-vos o conselho." Em gramática normativa, o **complemento nominal** é um termo integrante que completa o sentido de um **nome** (substantivo, adjetivo ou advérbio) por meio de preposição. O **adjunto adnominal**, por sua vez, é um termo acessório que qualifica ou determina o nome, sem ser exigido pelo seu sentido. Considerando esses conceitos e analisando a frase: *"que me incitas a fazer os meus comentários"*, identifique a natureza do termo destacado. Em seguida, avalie as alternativas: (A) "os meus comentários" é adjunto adnominal porque o pronome possessivo "meus" determina o substantivo sem ser exigido por sua regência. (B) "a fazer os meus comentários" é complemento nominal porque completa o sentido do verbo "incitas", funcionando como objeto indireto. (C) "meus comentários" é complemento nominal porque está ligado ao nome por preposição e preenche uma lacuna semântica obrigatória. (D) "os meus comentários" contém um adjunto adnominal ("meus"), pois é um modificador acessório do substantivo "comentários", que não depende dele para ter sentido. (E) "a fazer os meus comentários" é adjunto adverbial de finalidade, pois indica o propósito da ação verbal, não a completando como nome. **Gabarito:** D --- [I2] (DOK 2) Leia o trecho de *Dom Casmurro*: > "O mais do tempo é gasto em hortar, jardinar e ler; como bem e não durmo mal. Ora, como tudo cansa, esta monotonia acabou por exaurir-me também. Quis variar, e lembrou-me escrever um livro." Com base nesse trecho, um estudante elaborou as frases abaixo para explicar o estado do narrador: - Frase 1: *"O narrador sentia cansaço da monotonia."* - Frase 2: *"O narrador sentia um cansaço profundo."* Diferencie o termo preposicionado de **Frase 1** do termo em destaque de **Frase 2**, classificando cada um como complemento nominal ou adjunto adnominal e justificando sua resposta. [LINES: 6] --- [I3] (DOK 2) Analise a tirinha abaixo: *[Descrição da imagem: Uma tirinha em três quadrinhos. No primeiro, uma personagem diz: "Tenho saudade." Outra personagem responde: "Saudade de quê?" No segundo quadrinho, a primeira personagem pensa em silêncio. No terceiro quadrinho, ela responde: "De tudo." A segunda personagem comenta: "Aí você usou um complemento nominal!"]* a) Explique por que o termo "de tudo", na última fala, é classificado como complemento nominal do substantivo "saudade". b) Reescreva a frase substituindo "de tudo" por um adjunto adnominal, sem usar preposição que exprima relação de complementação. Justifique a mudança sintática realizada. [LINES: 7] --- [I4] (DOK 3 — síntese) Leia o parágrafo abaixo, adaptado do contexto de *Dom Casmurro*: > "Bentinho crescia com a consciência da proximidade de Capitu e com a necessidade constante de sua presença. Capitu, por sua vez, demonstrava indiferença às convenções sociais e gratidão às atenções que recebia. Ambos nutriam um afeto silencioso, mas repleto de significados." *Nota: Parágrafo elaborado para fins didáticos com base nos personagens e temas de Dom Casmurro, de Machado de Assis.* Nesse parágrafo, há vários termos que se ligam a nomes por meio de preposição. a) Identifique todos os complementos nominais presentes no parágrafo. b) Escolha dois deles e explique, para cada um, como você distinguiu o complemento nominal de um possível adjunto adnominal presente no mesmo trecho. [LINES: 10] [INTERACTIVE: d-rp | Escaneie para responder estes exercícios na Teachy e receber correção automática] [Sequence 8] Eu, Harry Potter, sei o que é chegar ao fim de uma jornada difícil — e você chegou ao fim deste capítulo. Lembra da pergunta que abriu tudo isso: por que retirar uma palavra pode destruir o sentido de um nome, mas não de outra? Agora você tem a resposta: quando um nome *exige* um complemento por regência, esse complemento é integrante e indispensável; quando um termo apenas *qualifica* o nome sem ser convocado por ele, é um adjunto acessório. Você aprendeu, ao longo dos dois subchapters, a reconhecer o complemento nominal em substantivos abstratos, adjetivos e advérbios, e agora também a diferenciá-lo do adjunto adnominal pelo critério da exigência semântica. Em resumo, complemento nominal e adjunto adnominal podem parecer feitiços iguais, mas seus efeitos são completamente diferentes: um é indispensável, o outro é enriquecedor. Relendo o trecho de *Dom Casmurro* estudado neste capítulo, você consegue identificar pelo menos um complemento nominal e um adjunto adnominal? O que essa distinção revela sobre as escolhas linguísticas de Machado de Assis — por que ele escolheu, em certos momentos, completar o nome e, em outros, apenas qualificá-lo? **Auto-avaliação:** Para cada habilidade abaixo, marque seu nível de confiança: | Habilidade | Ainda preciso praticar | Já consigo fazer | Domino completamente | |:---|:---|:---|:---| | Reconhecer o complemento nominal como termo integrante do nome, distinguindo-o do objeto indireto | ( ) | ( ) | ( ) | | Identificar o complemento nominal em frases com substantivos abstratos, adjetivos e advérbios | ( ) | ( ) | ( ) | | Diferenciar o complemento nominal do adjunto adnominal em textos, considerando regência e essencialidade | ( ) | ( ) | ( ) | Em uma frase, complete: "A principal diferença entre complemento nominal e adjunto adnominal é..." [chapter-section: Biblioteca cultural] Para continuar explorando a língua de Machado de Assis e aprofundar seu contato com a literatura brasileira, procure a edição completa de *Dom Casmurro* em bibliotecas escolares ou em domínio público na internet. Outra obra acessível do mesmo autor é *O Alienista* (1882), uma novela curta e cheia de ironia que também pode ser encontrada gratuitamente em formato digital. [INTERACTIVE: a2-fc | Revise os conceitos de complemento nominal e adjunto adnominal com os flash cards na plataforma Teachy]
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