Conjunções Coordenativas

# Conjunções Coordenativas [Sequence 1: (a) Contextualized Situation] Eu, Harry Potter, aprendi desde cedo que uma única palavra pode transformar o feitiço inteiro. Em Hogwarts, mudar uma sílaba num encantamento significava a diferença entre acender uma vela e explodir o castiçal. Você já reparou que o mesmo acontece nas frases do dia a dia? Veja este exemplo: *"Estudei muito **e** passei na prova."* *"Estudei muito **mas** não passei na prova."* As frases são quase idênticas, porém produzem efeitos completamente opostos. A palavra que muda tudo é pequena, quase invisível no meio do texto, e ainda assim carrega um poder enorme de alterar o sentido. Por que isso acontece? Vamos investigar isso juntos. [Sequence 2] Antes de seguir adiante, eu gostaria de investigar o que você já percebe sobre esse fenômeno. Como se fosse um feitiço que precisamos entender antes de lançar, pense nesta questão com calma. [D1] Leia as frases abaixo e responda: o que diferencia o sentido de uma frase para a outra? — "Estudei muito **e** passei na prova." — "Estudei muito **mas** não passei na prova." O que a palavra destacada faz em cada caso? Escreva com suas próprias palavras. [Sequence 4] ## Dom Casmurro — Machado de Assis *Uma noite destas, vindo da cidade para o Engenho Novo, encontrei num trem da Central um rapaz aqui do bairro, que eu conheço de vista e de chapéu. Cumprimentou-me, sentou-se ao pé de mim, falou da lua e dos ministros, **e** acabou recitando-me versos. A viagem era curta, **e** os versos pode ser que não fossem inteiramente maus. Sucedeu, porém, que, como eu estava cansado, fechei os olhos três ou quatro vezes; tanto bastou para que ele interrompesse a leitura e metesse os versos no bolso.* *— Continue, disse eu acordando.* *— Já acabei, murmurou ele.* *— São muito bonitos.* *Vi-lhe fazer um gesto para tirá-los outra vez do bolso, **mas** não passou do gesto; estava amuado. No dia seguinte entrou a dizer de mim nomes feios, **e** acabou alcunhando-me Dom Casmurro. Os vizinhos, que não gostam dos meus hábitos reclusos e calados, deram curso à alcunha, que afinal pegou. **Nem** por isso me zanguei. Contei a anedota aos amigos da cidade, **e** eles, por graça, chamam-me assim, alguns em bilhetes.* *Não consultes dicionários. Casmurro não está aqui no sentido que eles lhe dão, **mas** no que lhe pôs o vulgo de homem calado e metido consigo. Dom veio por ironia, para atribuir-me fumos de fidalgo. Tudo por estar cochilando!* *Vivo só, com um criado. A casa em que moro é própria; fi-la construir de propósito, levado de um desejo tão particular que me vexa imprimi-lo, **mas** vá lá.* *Machado de Assis, Dom Casmurro (1899), capítulo I — "Do Título"* [chapter-section: Perfil] **Machado de Assis** (1839–1908) é o maior escritor da literatura brasileira. Nascido no Rio de Janeiro, filho de um pintor mestiço e de uma portuguesa humilde, tornou-se autodidata e fundou a Academia Brasileira de Letras. *Dom Casmurro* (1899), do Realismo, é narrado em primeira pessoa por Bentinho, que conta sua história à sua própria maneira, tornando o leitor cúmplice de cada escolha de linguagem. Releia o trecho com atenção. Observe as palavras destacadas em negrito — **e**, **mas**, **nem**, **porém** — e responda mentalmente: o que cada uma faz na frase? Algumas somam ações, outras criam surpresa ou contraste. Você consegue perceber a diferença? ## O que são conjunções coordenativas? Eu percebi em Hogwarts que magia e linguagem compartilham uma lógica: existe sempre uma estrutura por trás do encantamento. No texto de Machado de Assis, as palavras **e**, **mas**, **nem** e **porém** funcionam como conectores entre orações que têm sentido completo cada uma por si mesma. Quando unidas, revelam uma relação de sentido entre elas. Essas palavras são as **conjunções coordenativas**: palavras invariáveis que unem termos ou orações independentes, expressando diferentes relações lógicas. A conjunção não é apenas uma "cola" entre frases: ela é o sinal que indica ao leitor *como* interpretar a relação entre as ideias. **Images:** - https://storage.googleapis.com/teachy-classroom-contents/images/imported/91e12d9a02d00b98617aaf698f9707eb.png — Imagem mostrando duas orações em português ("Ele abriu o livro" e "leu a história") unidas pela conjunção "e", ilustrando coordenação entre orações | Attribution: Fonte: Teachy - "Coordinated Sentences in Portuguese" - Teachy ## Os cinco tipos de conjunções coordenativas Vamos investigar os cinco tipos que aparecem no texto de Machado de Assis. **Aditivas** — expressam adição, somam ideias ou ações. As principais são: *e*, *nem*, *não só... mas também*, *bem como*. No texto: *"Cumprimentou-me, sentou-se ao pé de mim, falou da lua e dos ministros, **e** acabou recitando-me versos."* O "e" encadeia as ações do rapaz como numa sequência de feitiços: uma após a outra, sem pausa, sem contraste. **Adversativas** — expressam oposição ou contraste. As principais são: *mas*, *porém*, *contudo*, *todavia*, *entretanto*, *no entanto*. No texto: *"Vi-lhe fazer um gesto para tirá-los outra vez do bolso, **mas** não passou do gesto."* O "mas" cria uma quebra de expectativa: o leitor aguardava que ele tirasse os versos, porém a ação não se completou. **Alternativas** — expressam alternância ou exclusão: apenas uma das possibilidades ocorre. As principais são: *ou*, *ou... ou*, *ora... ora*, *quer... quer*. O narrador poderia ter escrito: *"Ou o rapaz continuava a recitar os versos, ou os guardava no bolso para sempre."* Apenas uma das saídas se realizaria de fato. **Conclusivas** — expressam conclusão ou consequência lógica. As principais são: *logo*, *portanto*, *por isso*, *por conseguinte*, *assim*, *pois* (posposto). O narrador dormiu durante a leitura dos versos; por isso, o rapaz ficou ofendido. A relação "por isso" é a mesma que "portanto" ou "logo" — a segunda ideia decorre naturalmente da primeira. **Explicativas** — expressam explicação ou justificativa. As principais são: *pois* (anteposto ao verbo), *porque*, *que*. O trecho *"como eu estava cansado, fechei os olhos"* expressa uma causa: era de se esperar que o narrador dormisse, pois estava cansado. O "pois" explica a razão da ação. [chapter-section: Evidências] Releia este trecho: > *"Não consultes dicionários. Casmurro não está aqui no sentido que eles lhe dão, **mas** no que lhe pôs o vulgo de homem calado e metido consigo."* O narrador usa "mas" para opor dois significados: o sentido oficial do dicionário e o sentido popular atribuído pelos vizinhos. O "mas" indica que a segunda ideia substitui ou corrige a primeira. Em que outros textos você já encontrou essa estratégia de "rejeitar para então afirmar"? [INTERACTIVE: a1-mm | Explore o mapa mental interativo sobre os tipos de conjunções coordenativas e seus efeitos de sentido na plataforma Teachy] ## Na prática Assim como em Hogwarts eu precisava reconhecer cada ingrediente antes de dominar qualquer poção, aqui vamos do reconhecimento à análise: identificar a conjunção, nomear seu tipo, inferir o efeito de sentido que ela produz no texto. [chapter-section: Nossa língua na rua] Você já percebeu como as conjunções aparecem em manchetes e slogans? *"Economia cresce, **mas** desemprego persiste."* O "mas" direciona a leitura para o lado negativo, mesmo que a primeira parte traga informação positiva. Na próxima vez que ler uma notícia, observe qual conjunção foi escolhida e pergunte: por que não usaram outra? [P1] (DOK 1) Leia o trecho de *Dom Casmurro*, de Machado de Assis: > "Cumprimentou-me, sentou-se ao pé de mim, falou da lua e dos ministros, **e** acabou recitando-me versos." A conjunção destacada nesse trecho estabelece entre as ações descritas uma relação de: (A) oposição — as ações se contradizem. (B) adição — as ações se somam em sequência. (C) conclusão — a última ação resulta das anteriores. (D) alternância — apenas uma das ações ocorre de cada vez. **Gabarito:** B [P2] (DOK 2) Leia os dois pares de frases abaixo: **Par 1:** — "A viagem era curta, **e** os versos podem não ter sido ruins." — "A viagem era curta, **mas** os versos podem não ter sido ruins." Explique como a troca de "e" por "mas" no Par 1 altera o sentido da frase. *Dica: Pense no efeito que cada conjunção cria entre as duas ideias — elas somam informações ou colocam uma ideia em contraste com a outra?* [LINES: 5] [P3] (DOK 2) Releia este trecho do capítulo inicial de *Dom Casmurro*: > "Os vizinhos, que não gostam dos meus hábitos reclusos e calados, deram curso à alcunha, que afinal pegou. **Nem** por isso me zanguei." A expressão "nem por isso" conecta as duas ideias do trecho. Que efeito de sentido ela produz entre elas? (A) Indica que a segunda ação é consequência direta da primeira. (B) Indica que a segunda ação ocorre apesar do que foi dito antes — uma ideia de concessão/oposição. (C) Indica que as duas ações acontecem ao mesmo tempo. (D) Indica que a segunda ação é uma explicação para a primeira. *Dica: Se a alcunha "pegou" entre os vizinhos, qual seria a reação esperada? O narrador teve essa reação?* **Gabarito:** B ## Exercícios Agora vamos investigar conjunções em novos contextos — como um detetive que já aprendeu os padrões e precisa aplicá-los em casos desconhecidos. Você consegue transferir o que aprendeu para além de *Dom Casmurro*? [I2] (DOK 2) Em debates, campanhas publicitárias e discursos políticos, a escolha das conjunções pode influenciar a percepção do leitor ou ouvinte sobre os fatos apresentados. Considere os dois slogans hipotéticos abaixo: > (1) "O prefeito construiu escolas **e** reformou hospitais." > (2) "O prefeito construiu escolas, **mas** não reformou hospitais." Explique de que forma a conjunção utilizada em cada slogan direciona a avaliação que o leitor faz do prefeito, mesmo que os fatos mencionados sejam os mesmos. [LINES: 6] [I1] (DOK 3) Leia o texto a seguir: > "Não consultes dicionários. Casmurro não está aqui no sentido que eles lhe dão, **mas** no que lhe pôs o vulgo de homem calado e metido consigo. Dom veio por ironia, para atribuir-me fumos de fidalgo. Tudo por estar cochilando!" > > — Machado de Assis, *Dom Casmurro* (1899) O narrador usa a conjunção "mas" para organizar sua explicação sobre o apelido "Casmurro". Com base na função dessa conjunção no trecho, é correto inferir que ela: (A) soma dois significados equivalentes da palavra, reforçando a definição do dicionário. (B) introduz uma alternativa ao significado do dicionário, opondo-o ao sentido popular adotado pelo narrador. (C) indica que o narrador chegou à conclusão de que os dicionários estão certos. (D) sugere que os dois significados da palavra podem ser usados de forma intercambiável. (E) estabelece uma relação de causa e efeito entre a consulta ao dicionário e o apelido recebido. **Gabarito:** B [I3] (DOK 3) Leia o trecho abaixo. Nele, o narrador conta que mandou construir uma réplica exata da casa em que viveu na infância — um desejo que ele considera tão íntimo que hesita em confessar: > "Vivo só, com um criado. A casa em que moro é própria; fi-la construir de propósito, levado de um desejo tão particular que me vexa imprimi-lo, **mas** vá lá." > > — Machado de Assis, *Dom Casmurro* (1899) O narrador utiliza "mas" para revelar esse desejo. Considerando o modo como as conjunções adversativas funcionam no português, identifique a tensão presente na fala do narrador e explique como a conjunção "mas" contribui para revelar o seu caráter nesse momento. [LINES: 8] [INTERACTIVE: d-rp | Escaneie para responder estes exercícios na plataforma Teachy e receber correção automática com feedback personalizado] --- ## Referência de Imagens ### Do banco de dados | Imagem | URL | Uso | |--------|-----|-----| | Orações compostas por coordenação (Teachy) | https://storage.googleapis.com/teachy-classroom-contents/images/imported/91e12d9a02d00b98617aaf698f9707eb.png | Seção de formalização — ilustrar coordenação entre orações | ### Para gerar | Descrição | Nome sugerido | Proporção | |-----------|--------------|-----------| | Infográfico colorido com os cinco tipos de conjunções coordenativas em cinco caixas coloridas (aditivas, adversativas, alternativas, conclusivas, explicativas), cada caixa com exemplos curtos extraídos do texto de Dom Casmurro e uma seta indicando o efeito de sentido produzido | conjuncoes-tipos-infografico.png | 16:9 | --- ## Checklist de Conformidade - [x] Sequências corretas para `chapter_start`: 0 (YAML), 1, 2, 4, 5, 6 - [x] Sequências 3, 7, 8 omitidas - [x] Texto de referência real: Machado de Assis, *Dom Casmurro* (1899) - [x] Texto de referência apresentado integralmente na abertura da Seção 4 - [x] Questões do QUESTIONS_FILE usadas verbatim (D1, P1, P2, P3, I1, I2, I3) - [x] Par 2 removido do P2 (estava órfão sem pergunta correspondente) - [x] Ordem de exercícios em Seção 6: I2 (DOK 2) → I1 (DOK 3) → I3 (DOK 3) - [x] Seção 5 intitulada "Na prática" (Hard rule) - [x] Seção 6 intitulada "Exercícios" (Hard rule) - [x] Labels de exam removidos do texto estudantil - [x] Narrador Harry Potter em primeira pessoa em todas as seções, com expressões do universo mágico - [x] Pelo menos uma pergunta retórica por seção - [x] Pelo menos uma expressão do universo do narrador por seção (Hogwarts, feitiço, poção, detetive) - [x] Máximo 3 chapter-section labels: Perfil, Evidências, Nossa língua na rua - [x] Interactive blocks: a1-mm (após formalização) e d-rp (após exercícios) - [x] Exemplos de Conclusivas e Explicativas ancorados no texto de referência - [x] Mínimo 60% dos exercícios da Seção 5 usam o texto de referência (100%) - [x] Imagem decorativa (Loyola Brandão) removida da Seção 6 - [x] Contexto sobre a casa da infância adicionado ao stem de I3 - [x] Sem jargão pedagógico visível ao aluno - [x] Sem nomes de exames no texto do aluno


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