Conjunções Subordinativas de Uso Frequente

[Sequence 4] Agora que já sabemos reconhecer uma oração subordinada e entendemos que ela depende da oração principal para ter sentido completo, o próximo passo é descobrir como elas se conectam. Eu, Harry Potter, aprendi em Hogwarts que uma varinha tem diferentes núcleos, e cada núcleo produz um efeito diferente; a conjunção subordinativa funciona exatamente assim: é ela quem determina o tipo de relação que a oração subordinada estabelece com a principal. Naquele trecho de *Dom Casmurro* que você já conhece, Machado de Assis usa várias dessas conjunções para tecer o relato de Marcolini sobre a criação do mundo como uma ópera. Vamos investigar isso juntos, olhando com cuidado para as palavras que unem as orações. ## O que é uma conjunção subordinativa? A conjunção subordinativa é a palavra ou locução que introduz a oração subordinada e indica qual relação semântica ela mantém com a oração principal. Ao ler um período composto, identificar essa conjunção é como encontrar a chave que revela o sentido da conexão entre as ideias. Por isso, reconhecer a conjunção não é só uma tarefa gramatical: é um ato de compreensão de texto. ## O texto como laboratório Leia, com atenção redobrada, o trecho de *Dom Casmurro* (1899), de Machado de Assis, que abre esta unidade: --- > Rival de Miguel, Rafael e Gabriel, não tolerava a precedência que eles tinham na distribuição dos prêmios. Pode ser também que a música em demasia doce e mística daqueles outros condiscípulos fosse aborrecível ao seu gênio essencialmente trágico. Tramou uma rebelião que foi descoberta a tempo, e ele expulso do conservatório. **Tudo se teria passado sem mais nada, se Deus não houvesse escrito um libreto de ópera do qual abrira mão**, por entender que tal gênero de recreio era impróprio da sua eternidade. Satanás levou o manuscrito consigo para o inferno. **Com o fim de mostrar que valia mais que os outros**, e acaso para reconciliar-se com o céu, compôs a partitura, e **logo que a acabou** foi levá-la ao Padre Eterno. [...] Foi talvez um mal esta recusa; dela resultaram alguns desconcertos **que a audiência prévia e a colaboração amiga teriam evitado** — com efeito, há lugares **em que o verso vai para a direita e a música, para a esquerda**. *ASSIS, Machado de. Dom Casmurro. Rio de Janeiro: Garnier, 1899. Cap. IX.* --- Você percebeu quantas vezes as orações se encaixam umas nas outras? Que relações cada conjunção em destaque indica? Antes de prosseguir, tente identificar as palavras que introduzem as orações subordinadas nesse trecho. [chapter-section: Perfil] **Machado de Assis** (1839–1908) é considerado o maior escritor da literatura brasileira. Fundador e primeiro presidente da Academia Brasileira de Letras, publicou *Dom Casmurro* em 1899. Filho de um pintor e de uma lavadeira, nascido no Rio de Janeiro, Machado de Assis superou diversas dificuldades — entre elas a epilepsia e a origem humilde — para se tornar um dos maiores nomes da prosa em língua portuguesa. Sua obra é marcada pelo humor fino, pela crítica social e pelo uso sofisticado da linguagem. ## Os tipos de conjunções subordinativas mais frequentes Agora vamos sistematizar. As conjunções subordinativas de uso frequente se organizam por grupos, cada um indicando um tipo diferente de relação entre as orações. Veja como elas aparecem no texto de Machado de Assis e em situações do cotidiano: **Causais** — indicam a causa ou o motivo da ação da oração principal. As conjunções mais comuns são *porque*, *pois*, *visto que*, *uma vez que* e *como* (no sentido de "pelo fato de"). Exemplo do cotidiano: *"A cidade ficou alagada porque as chuvas estavam muito intensas."* No texto de Machado, a expressão *"por entender que tal gênero de recreio era impróprio"* também carrega sentido causal, ainda que em forma reduzida. **Temporais** — situam a ação da oração subordinada no tempo em relação à principal. As conjunções mais usadas são *quando*, *assim que*, *logo que*, *depois que*, *antes que* e *desde que*. Exemplo do texto: *"logo que a acabou foi levá-la ao Padre Eterno"* — a ação de levar a partitura ocorre imediatamente após o término da composição. Você não acha fascinante como uma única palavra muda a ordem dos acontecimentos? **Concessivas** — admitem um fato contrário ao esperado, mas incapaz de impedir o resultado. As principais conjunções são *embora*, *ainda que*, *mesmo que* e *conquanto*. Um exemplo próximo à realidade dos estudantes: *"Embora estivesse com sono, terminou toda a lição de casa."* A concessão é o reconhecimento de um obstáculo que, apesar de real, não muda o resultado. **Condicionais** — indicam uma condição necessária para que a ação da principal aconteça. A conjunção mais frequente é *se*, além de *a menos que*, *desde que* e *no caso de que*. Do próprio texto de Machado: *"Tudo se teria passado sem mais nada, se Deus não houvesse escrito um libreto"*: a condição estava na decisão divina de ter escrito (e depois abandonado) o libreto. **Finais** — indicam o objetivo ou finalidade da ação da oração principal. As conjunções mais frequentes são *para que*, *a fim de que* e *para*. No texto: *"Com o fim de mostrar que valia mais que os outros"* revela a finalidade da ação de Satanás. **Integrantes** — introduzem orações subordinadas substantivas, que exercem função de sujeito, objeto direto ou predicativo na oração principal. As conjunções integrantes são *que* e *se*. Exemplo do texto: *"Pode ser também que a música fosse aborrecível ao seu gênio"*: aqui, *que* introduz a oração que funciona como sujeito de "pode ser". | Tipo | Conjunções frequentes | Pergunta-chave | |---|---|---| | Causal | porque, pois, visto que, uma vez que | Por que aconteceu? | | Temporal | quando, assim que, logo que, depois que | Quando aconteceu? | | Concessiva | embora, ainda que, mesmo que | Apesar de quê? | | Condicional | se, a menos que, desde que | Em que condição? | | Final | para que, a fim de que, para | Com que objetivo? | | Integrante | que, se | O quê? / Quem? | Em resumo, cada grupo de conjunções subordinativas funciona como uma diferente "cor de magia" que colore a relação entre as orações, e reconhecer essa cor é reconhecer o sentido do texto. [chapter-section: Nossa língua na rua] Veja como as conjunções subordinativas aparecem naturalmente em manchetes de notícias brasileiras: *"Chuvas intensas causam alagamentos porque o sistema de drenagem está saturado"* (causal), *"Prefeitura abre abrigos para que moradores possam dormir em segurança"* (final), *"Embora o alerta de tempestade tenha sido emitido, muitos moradores não evacuaram a área"* (concessiva). Que tipo de relação cada conjunção estabelece nessas manchetes? Tente identificar mais exemplos em um jornal ou site de notícias da sua cidade. [INTERACTIVE: a1-mm | Acesse o mapa mental interativo sobre os tipos de conjunções subordinativas e suas funções na plataforma Teachy] [Sequence 5] ## Na prática Agora vamos trabalhar diretamente com o texto de Machado de Assis para consolidar o que aprendemos. Em Hogwarts, eu só entendia de verdade uma magia quando a praticava, e com conjunções subordinativas é exatamente igual: só fixamos o sentido de cada tipo quando o encontramos em uso. Em resumo, identificar a conjunção certa em um texto literário é a prova de que o conceito saiu da teoria e entrou na prática. [P1] Leia o trecho de *Dom Casmurro*, de Machado de Assis, trabalhado neste capítulo: > "Tudo se teria passado sem mais nada, **se** Deus não houvesse escrito um libreto de ópera do qual abrira mão." A palavra destacada em negrito — "se" — introduz uma oração subordinada. Qual das alternativas indica corretamente a função dessa conjunção no período? (A) Indica uma relação de adição entre as duas orações. (B) Indica uma relação de condição: o fato da oração principal só seria possível se a condição expressa na subordinada fosse atendida. (C) Indica uma relação de causa: a oração introduzida por "se" explica o motivo da oração principal. (D) Indica uma relação de concessão: algo ocorre mesmo diante de um obstáculo. **Gabarito:** B --- [P2] Releia este outro trecho do mesmo texto: > "Rival de Miguel, Rafael e Gabriel, não tolerava a precedência que eles tinham na distribuição dos prêmios." a) Identifique a oração subordinada presente nesse período e indique a conjunção (ou pronome relativo) que a introduz. b) Explique qual é a relação semântica que essa oração estabelece com a principal. *Dica: Pergunte-se o que a oração introduzida por "que" acrescenta ao substantivo "precedência" — ela o especifica ou simplesmente acrescenta uma nova ideia?* [LINES: 5] --- [P3] Compare os dois períodos abaixo: **Versão 1:** "Satanás levou o manuscrito. Ele queria mostrar que valia mais que os outros." **Versão 2:** "Satanás levou o manuscrito **para que** pudesse mostrar que valia mais que os outros." Explique de que forma o uso da conjunção "para que" na Versão 2 transforma a relação entre as duas ideias em comparação com a Versão 1. *Dica: Observe se, na Versão 2, as orações mantêm a mesma independência que tinham na Versão 1 ou se uma passa a depender da outra para completar seu sentido.* [LINES: 5] [Sequence 6] ## Exercícios Chegou o momento de eu ver o quanto você realmente domina o feitiço das conjunções subordinativas. Nos exercícios a seguir, você vai aplicar o que aprendeu de forma mais independente: parte deles parte diretamente do texto de Machado de Assis, e outra parte pede que você transfira esse conhecimento para novos contextos. Será que você consegue identificar a relação semântica de uma conjunção sem a minha dica ao lado? Em resumo, este é o teste da autonomia: reconhecer as conjunções subordinativas onde quer que elas apareçam, como um detetive de Hogwarts em campo. [I1] Leia o trecho a seguir, extraído de *Dom Casmurro* (1899), de Machado de Assis: > "Foi talvez um mal esta recusa; dela resultaram alguns desconcertos que a audiência prévia e a colaboração amiga teriam evitado — com efeito, há lugares em que o verso vai para a direita e a música, para a esquerda." No período destacado, Machado de Assis emprega orações subordinadas para articular as ideias do narrador. Analisando a função das conjunções subordinativas nesse trecho, é correto afirmar que (A) a conjunção "que" introduz uma oração com sentido completo e independente da oração anterior, funcionando como coordenada explicativa. (B) a locução "em que" retoma o substantivo "lugares" e introduz uma oração que especifica e restringe o sentido desse termo na oração principal. (C) as conjunções subordinativas do trecho estabelecem exclusivamente relações de causa e consequência entre as orações do período. (D) a oração introduzida por "que" poderia ser suprimida sem qualquer prejuízo ao sentido global do período. (E) o uso de "que" e "em que" no mesmo período é um recurso de coordenação que adiciona informações sem criar dependência sintática. **Gabarito:** B --- [I2] Leia o fragmento de crônica a seguir, elaborado para fins didáticos: > "A professora percebeu que os alunos estavam distraídos. Ela resolveu mudar a dinâmica da aula. Os alunos se engajaram mais depois disso." Reescreva esse fragmento em um único período composto, utilizando pelo menos duas conjunções subordinativas de uso frequente (como *porque*, *quando*, *embora*, *para que*, *que*, *se*, *depois que*). Sua reescrita deve preservar o sentido original e tornar explícitas as relações entre as ideias. [LINES: 6] --- [I3] Releia o trecho de *Dom Casmurro* abaixo: > "Pode ser também que a música em demasia doce e mística daqueles outros condiscípulos fosse aborrecível ao seu gênio essencialmente trágico." a) Identifique a oração subordinada presente no período e indique a conjunção que a introduz. b) Explique de que maneira a relação de dependência criada pela conjunção contribui para o efeito de sentido pretendido pelo narrador nesse trecho. [LINES: 8] [INTERACTIVE: d-rp | Escaneie para responder estes exercícios na Teachy e receber correção automática] --- **Images:** - [https://storage.googleapis.com/teachy-classroom-contents/images/imported/91e12d9a02d00b98617aaf698f9707eb.png](https://storage.googleapis.com/teachy-classroom-contents/images/imported/91e12d9a02d00b98617aaf698f9707eb.png) — Exemplo visual de orações compostas por coordenação, com as frases "Ele abriu o livro" e "leu a história" ligadas pela conjunção "E" em destaque | Attribution: Fonte: Teachy - [https://storage.googleapis.com/teachy-classroom-contents/images/imported/3c9d85d2f0d8810254b42de3e9ab5c60.png](https://storage.googleapis.com/teachy-classroom-contents/images/imported/3c9d85d2f0d8810254b42de3e9ab5c60.png) — Cena de sala de aula com professora explicando o subjuntivo e aluno dizendo "se eu falasse...", ilustrando o uso de conjunção condicional "se" em contexto de aprendizagem | Attribution: Fonte: Teachy - GENERATE: Diagrama visual com seis balões coloridos, cada um representando um tipo de conjunção subordinativa (causal, temporal, concessiva, condicional, final, integrante), com a conjunção mais frequente de cada tipo e uma seta indicando a relação semântica que ela estabelece | conjuncoes-subordinativas-tipos.png | 4:3


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