Construção da Crônica Narrativa
# Construção da Crônica Narrativa [Section 4] Nos capítulos anteriores, você estudou como a crônica narrativa se organiza e como o narrador constrói seu ponto de vista. Agora chegou o momento de aprofundar o que diferencia uma crônica de uma simples descrição de fatos: os **recursos expressivos** que transformam o cotidiano em literatura. Para isso, vamos ler um texto de Lima Barreto que condensa, em poucos parágrafos, humor, ironia e inversão de expectativas. [chapter-callout-label: Perfil] **Lima Barreto** (1881–1922) foi escritor carioca, filho de um tipógrafo e de uma professora. Com linguagem direta e tom crítico, produziu romances, contos e crônicas sobre a vida urbana do Rio de Janeiro do início do século XX. Colaborou em periódicos como a revista *Careta*, onde publicou crônicas marcadas por humor e sátira social. --- **Uma anedota** *Lima Barreto* > (...) Eu morava num quarto pobre, na Rua de São Pedro. Era uma espécie de sepultura, e eu só ia lá para dormir. Mais da metade do dia, passava eu na rua a perambular. Certa noite, recolhi-me mais cedo e deitei-me no meu catre com muito sono. Aí pelas tantas, despertei e vi que tinha um companheiro no quarto. Quem seria? Não tive dúvidas! Agarrei um enorme "Nagant" que não sei onde arranjara e ameacei o intruso. > > — Ele resistiu? > > — Não. Rendeu-se logo, prendi-o e acompanhei-o para entregá-lo à polícia. > > — Para quê? > > — Ouve. Saímos e, no caminho, pus-me a conversar com o rapaz. Gostei dele. Ao passar por um café, ele me convidou para entrar e tomar alguma cousa. Aceitei. Dentro em pouco, eu me esquecia que tinha diante de mim um sujeito que me queria roubar. Quando nos despedimos, ele me perguntou: "Estás sem dinheiro?". Respondi-lhe: "Estou". Sabes o que ele fez? > > — Não. > > — Passou-me uma prata de dois mil-réis. *Publicada originalmente na revista Careta, 1920.* --- Antes de nomear os recursos que Lima Barreto utiliza, observe o texto por um momento. O narrador prende um ladrão — e termina recebendo dinheiro dele. Quem sai prejudicado nessa situação? Em que ponto a história deixa de seguir o que esperávamos? ## Os recursos expressivos que dão vida à crônica **Humor** é o recurso que provoca riso ou leveza por meio de situações inesperadas, linguagem descontraída ou observações perspicazes sobre o cotidiano. Em "Uma anedota", o humor não vem de piadas: vem da naturalidade com que o narrador aceita o café do ladrão, como se isso fosse a coisa mais razoável do mundo. **Ironia** ocorre quando a situação ou o texto contraria radicalmente as expectativas. No desfecho da crônica, quem deveria ser a vítima — o narrador que teve o quarto invadido — sai recebendo dinheiro de quem deveria ser o culpado. Lima Barreto não precisa dizer que a sociedade trata mal as pessoas pobres; a estrutura da situação já comunica a crítica. **Inversão de expectativas** é o movimento narrativo que sustenta tanto o humor quanto a ironia: o texto constrói uma expectativa no leitor e deliberadamente a contraria. Esperamos a prisão do ladrão; o que acontece é um café e dois mil-réis. Esse giro no desfecho não é acidente — é escolha do cronista para revelar algo sobre a sociedade. **Exagero** aparece quando o texto amplifica uma situação ou detalhe além do realista, criando efeito cômico ou crítico. O "enorme Nagant" que o narrador afirma não saber de onde tirou é um exemplo: a grandiosidade da arma contrasta com a situação banal de um quarto pobre, gerando um efeito de absurdo que prepara o leitor para o desfecho inesperado. [chapter-callout-label: Zoom] **Releia a frase:** *"Gostei dele."* Com apenas três palavras, o narrador revela sua posição afetiva em relação ao ladrão. Como essa escolha expressiva prepara o desfecho da história? O que ela diz sobre os valores do narrador? Esses recursos não agem em isolamento: eles se encaixam dentro da estrutura do enredo e ganham força por meio da voz narrativa que você já estudou. Em "Uma anedota", a ironia e a inversão de expectativas só funcionam porque o cronista as posiciona no desfecho — o momento de maior impacto — e porque a primeira pessoa cria cumplicidade com o leitor ao longo de toda a cena. Saber *onde* e *como* inserir cada recurso expressivo é parte do ofício do cronista. **Images:** - https://storage.googleapis.com/teachy-classroom-contents/images/imported/937ef804ae413dc8fe8e908466f827f2ff0f859ee4423a595e702ef729e9287f.jpg — Retrato de Lima Barreto, escritor carioca que utilizou humor e ironia para fazer crítica social em suas crônicas publicadas em periódicos populares do início do século XX | Attribution: Fonte: Wikimedia Commons [INTERACTIVE: a1-sl | Acesse os slides interativos sobre recursos expressivos na crônica narrativa na plataforma Teachy] ## Na prática [Section 5] Com o texto de Lima Barreto em mãos, você vai identificar e analisar os recursos expressivos em ação. Cada questão parte da crônica para aprofundar sua compreensão antes de avançar para a escrita. [P1] Leia o trecho da crônica "Uma anedota", de Lima Barreto: > "Aí pelas tantas, despertei e vi que tinha um companheiro no quarto. Quem seria? Não tive dúvidas! Agarrei um enorme 'Nagant' que não sei onde arranjara e ameacei o intruso." O enredo desta crônica apresenta uma situação inicial de tensão que se resolve de forma inesperada. Identifique o elemento do enredo que marca a virada na narrativa — o momento em que a tensão começa a se desfazer. [LINES: 3] [P2] Na crônica, o narrador é personagem da própria história — ele vive o que conta. Considere que essa escolha narrativa é intencional: o narrador não apenas relata os fatos, mas revela suas reações ("Gostei dele") e aceita sem hesitar o convite do ladrão para tomar café. a) De que forma essa proximidade do narrador com os acontecimentos contribui para o efeito de humor da crônica? Justifique com uma passagem do texto. b) Como a reação afetiva do narrador ("Gostei dele") prepara o leitor para aceitar o desfecho surpreendente? _Dica: Pense em como um narrador que vive o que conta passa impressões diferentes de um que apenas observa de longe. O leitor tende a confiar nas reações de quem está dentro da cena._ [LINES: 5] [P3] Releia o desfecho da crônica: o ladrão — o "intruso" — pergunta se o narrador está sem dinheiro e lhe oferece dois mil-réis. Explique de que maneira esse desfecho faz uso da ironia como recurso expressivo. Em sua resposta, indique quem seria o "verdadeiro prejudicado" da situação e por que isso causa efeito cômico. _Dica: A ironia aparece quando o que acontece contraria o que esperaríamos. Pergunte-se: quem deveria sair perdendo nessa história e quem sai ganhando?_ [LINES: 5] ## Exercícios [Section 6] Agora você vai aplicar o que aprendeu sobre recursos expressivos em novos contextos — analisando escolhas narrativas em outros textos e, em seguida, planejando sua própria crônica. [I1] _Leia o trecho a seguir, de uma crônica escrita por uma aluna do 8º ano:_ > "Segunda-feira de manhã, o metrô estava tão cheio que eu precisei respirar pelo nariz de outra pessoa. Tentei reclamar, mas percebi que o nariz também era meu — eu só não sabia. Saí na próxima estação com o nariz de ninguém e cheguei à escola como se nada tivesse acontecido." O texto acima utiliza o exagero e o absurdo como recursos expressivos para criar um efeito específico no leitor. Assinale a alternativa que melhor descreve a função desses recursos dentro da estrutura da crônica narrativa: (A) Criar suspense e manter o leitor em dúvida sobre o desfecho da história. (B) Ampliar o realismo da situação, tornando o cotidiano mais verossímil. (C) Produzir humor ao distorcer uma situação comum de modo inesperado e absurdo. (D) Substituir o conflito narrativo, tornando o enredo desnecessário para a crônica. (E) Marcar o ponto de vista de um narrador onisciente que conhece todos os fatos. --- [I2] _Uma cronista quer escrever sobre o caos de uma fila de banco. Qual perspectiva narrativa — primeira ou terceira pessoa — seria mais adequada para provocar identificação e humor no leitor?_ Explique sua escolha e apresente um exemplo concreto de como essa perspectiva se manifestaria no início da crônica (escreva uma ou duas frases de abertura como ilustração). [LINES: 6] --- [I3] _Em "Uma anedota", Lima Barreto organiza o enredo em três momentos: a situação de ameaça (o narrador encontra o intruso), o desenvolvimento (os dois conversam e tomam café) e o desfecho surpreendente (o ladrão oferece dinheiro ao narrador)._ Você vai escrever o esboço de uma crônica narrativa a partir de uma situação cotidiana de sua escolha (um ônibus atrasado, uma discussão por um guarda-chuva, um encontro inesperado). Organize seu esboço identificando, em tópicos breves: a) A situação inicial (quem, onde, quando). b) O conflito ou elemento que quebra a rotina. c) O desfecho — que pode ser surpreendente, irônico ou bem-humorado. [LINES: 8] --- [I4] _Leia o trecho abaixo, de uma crônica de Carlos Drummond de Andrade publicada no Correio da Manhã:_ > "O homem que esperava o bonde havia uma hora olhou o relógio pela décima vez. O bonde não vinha. Tudo bem: era um bonde de verdade, logo não podia vir. O homem consultou a tabela — havia bondes a cada oito minutos. Certamente, aquele demorava mais para compensar os outros que tinham passado depressa demais." > > *(Carlos Drummond de Andrade, crônica publicada no Correio da Manhã — texto adaptado para fins didáticos)* Com base no trecho acima, analise como o humor e a ironia funcionam nessa crônica. Em sua resposta, indique: qual recurso expressivo predomina no trecho, de que forma ele constrói o ponto de vista do narrador sobre o cotidiano, e que efeito ele pretende provocar no leitor. Relacione sua análise ao que você observou em "Uma anedota". [LINES: 10] [INTERACTIVE: d-rp | Escaneie para responder estes exercícios na Teachy e receber correção automática — as questões discursivas contam com feedback gerado por inteligência artificial] [Section 8] ## O que fica desta jornada Você começou este capítulo lendo uma crônica em que um ladrão termina sendo o mais generoso da história. Agora você sabe por que isso funciona: não é magia literária — é a combinação deliberada de ironia, inversão de expectativas e exagero, operando dentro de um enredo bem estruturado e sustentados por uma voz narrativa que guia o leitor com naturalidade e cumplicidade. Os recursos expressivos que você estudou não são enfeites decorativos: são as ferramentas com que o cronista transforma uma situação simples em um texto que faz o leitor rir, pensar e, às vezes, rever seus próprios preconceitos. Lima Barreto não precisou declarar sua crítica social — ele mostrou um ladrão mais generoso do que o sistema esperava que ele fosse, e deixou o leitor tirar a conclusão. **Reflita:** Releia o esboço que você fez no exercício I3. Qual recurso expressivo você usou, mesmo sem perceber? Onde está a virada que pode fazer o leitor sentir algo? [chapter-callout-label: Biblioteca cultural] **Para ler mais crônicas brasileiras:** *A descoberta do mundo* (Clarice Lispector, 1984) reúne crônicas publicadas no Jornal do Brasil com reflexões íntimas e tom meditativo. *Boca de luar* (Carlos Drummond de Andrade, 1984) traz crônicas sobre o cotidiano com humor delicado e observação social precisa. As duas obras mostram como diferentes cronistas constroem recursos expressivos muito distintos a partir do mesmo material — o dia a dia. **Auto-avaliação — o que você já sabe fazer:** | Habilidade | Ainda preciso praticar | Já consigo fazer | Domino completamente | |:---|:---|:---|:---| | Identificar recursos expressivos como humor, ironia e exagero em uma crônica | ( ) | ( ) | ( ) | | Explicar como a ironia e a inversão de expectativas produzem efeito no leitor | ( ) | ( ) | ( ) | | Planejar o enredo de uma crônica com situação inicial, conflito e desfecho expressivo | ( ) | ( ) | ( ) | Complete a frase: *"Um recurso expressivo que pretendo usar na minha crônica é ______, porque ele vai provocar no leitor ______."*
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