Derivação: Como as Palavras se Transformam

# Derivação: Como as Palavras se Transformam [Section 1: (a) Contextualized Situation] Você já parou para perceber que, em um único parágrafo, um escritor pode usar dezenas de palavras que parecem familiares mas não são exatamente as mesmas? Machado de Assis, em seu conto "Conto de Escola", descreve o professor assim: *"Entrou com o andar manso do costume, em chinelas de cordovão, com a jaqueta de brim lavada e desbotada."* A palavra **desbotada** não existia sozinha quando a língua portuguesa nasceu. Ela foi construída — tijolos adicionados ao redor de uma raiz — para dar ao leitor uma imagem exata: uma cor que perdeu sua vitalidade. Esse processo de construção de palavras, que acontece a todo momento na nossa língua, é chamado de derivação. Quando uma palavra nova aparece numa história, de onde ela veio? [Section 2: (a) Recall Diagnostic Questions] [D1] Pense em palavras do seu dia a dia que têm um pedacinho no começo ou no final que parece "repetir" em muitas outras palavras — como "des-", "-eiro" ou "-ção". Anote dois exemplos que você conhece e tente explicar o que esses pedacinhos parecem acrescentar ao significado. [Section 4] ## Conto de Escola — Machado de Assis Na semana anterior tinha feito dois suetos, e, descoberto o caso, recebi o pagamento das mãos de meu pai, que me deu uma sova de vara de marmeleiro. As sovas de meu pai doíam por muito tempo. Era um velho empregado do Arsenal de Guerra, ríspido e intolerante. Sonhava para mim uma grande posição comercial, e tinha ânsia de me ver com os elementos mercantis, ler, escrever e contar, para me meter de caixeiro. Citava-me nomes de capitalistas que tinham começado ao balcão. Ora, foi a lembrança do último castigo que me levou naquela manhã para o colégio. Não era um menino de virtudes. Subi a escada com cautela, para não ser ouvido do mestre, e cheguei a tempo; ele entrou na sala três ou quatro minutos depois. Entrou com o andar manso do costume, em chinelas de cordovão, com a jaqueta de brim lavada e desbotada, calça branca e tesa e grande colarinho caído. Chamava-se Policarpo e tinha perto de cinqüenta anos ou mais. Uma vez sentado, extraiu da jaqueta a boceta de rapé e o lenço vermelho, pô-los na gaveta; depois relanceou os olhos pela sala. Os meninos, que se conservaram de pé durante a entrada dele, tornaram a sentar-se. Tudo estava em ordem; começaram os trabalhos. — Seu Pilar, eu preciso falar com você, disse-me baixinho o filho do mestre. Chamava-se Raimundo este pequeno, e era mole, aplicado, inteligência tarda. Raimundo gastava duas horas em reter aquilo que a outros levava apenas trinta ou cinqüenta minutos; vencia com o tempo o que não podia fazer logo com o cérebro. Reunia a isso um grande medo ao pai. Era uma criança fina, pálida, cara doente; raramente estava alegre. Entrava na escola depois do pai e retirava-se antes. O mestre era mais severo com ele do que conosco. — O que é que você quer? — Logo, respondeu ele com voz trêmula. Começou a lição de escrita. Custa-me dizer que eu era dos mais adiantados da escola; mas era. Não digo também que era dos mais inteligentes, por um escrúpulo fácil de entender e de excelente efeito no estilo, mas não tenho outra convicção. Note-se que não era pálido nem mofino: tinha boas cores e músculos de ferro. Na lição de escrita, por exemplo, acabava sempre antes de todos, mas deixava-me estar a recortar narizes no papel ou na tábua, ocupação sem nobreza nem espiritualidade, mas em todo caso ingênua. Naquele dia foi a mesma coisa; tão depressa acabei, como entrei a reproduzir o nariz do mestre, dando-lhe cinco ou seis atitudes diferentes, das quais recordo a interrogativa, a admirativa, a dubitativa e a cogitativa. Não lhes punha esses nomes, pobre estudante de primeiras letras que era; mas, instintivamente, dava-lhes essas expressões. Os outros foram acabando; não tive remédio senão acabar também, entregar a escrita, e voltar para o meu lugar. Com franqueza, estava arrependido de ter vindo. Agora que ficava preso, ardia por andar lá fora, e recapitulava o campo e o morro, pensava nos outros meninos vadios, o Chico Telha, o Américo, o Carlos das Escadinhas, a fina flor do bairro e do gênero humano. — Fui um bobo em vir, disse eu ao Raimundo. — Não diga isso, murmurou ele. *ASSIS, Machado de. "Conto de escola". In: Várias histórias. Rio de Janeiro: Garnier, 1896.* --- Antes de nomear qualquer processo, observe o texto. As palavras **intolerante**, **desbotada** e **recapitulava** têm algo em comum: todas nasceram de outras palavras, com pedaços acrescentados ao início ou ao final. Que pedaços são esses? O que cada um deles faz com o sentido original? ## Os Blocos que Constroem Palavras Toda língua cria palavras novas o tempo todo. Uma das formas mais produtivas de fazer isso no português é a **derivação**: o processo pelo qual novas palavras são formadas a partir de uma **palavra primitiva** (também chamada de base ou radical), com o acréscimo de elementos chamados **afixos**. Os afixos que aparecem antes da base chamam-se **prefixos**; os que aparecem depois, **sufixos**. Olhando para o conto de Machado, a palavra **intolerante** parte da base *tolerante* e recebe o prefixo *in-*, que indica negação. Já **desbotada** parte do verbo *desbotar*, em que o prefixo *des-* indica a inversão da ação — perder a cor, desfazer o estado de botada. Cada afixo carrega um significado que se soma à base, e reconhecer esses blocos permite ao leitor compreender palavras novas mesmo sem consultá-las no dicionário. Os tipos de derivação se distinguem pelo modo como os afixos são acrescentados: ### Derivação Prefixal Ocorre quando apenas um **prefixo** é adicionado à palavra-base. O prefixo modifica o sentido, mas não altera a classe gramatical da palavra. No conto, *recapitulava* é formado pelo prefixo *re-* (repetição) acrescido ao verbo *capitular*: o narrador revisitava mentalmente o que havia vivido fora da escola. Da mesma forma, *intolerante* une *in-* (negação) a *tolerante*, e *desbotada* usa *des-* (reversão) sobre o verbo *botar*. Os três casos têm em comum que a retirada do prefixo deixa uma palavra válida: *tolerante*, *botada*, *capitulava*. **Imagens:** - https://storage.googleapis.com/teachy-classroom-contents/images/imported/aef23d8ada126c33cbee9c8d71f3b365.png — Ilustração da derivação prefixal: "feliz" → "infeliz" pelo acréscimo do prefixo "in-" ### Derivação Sufixal Ocorre quando apenas um **sufixo** é adicionado à palavra-base. O sufixo frequentemente muda a classe gramatical: transforma adjetivos em substantivos, verbos em adjetivos, e assim por diante. No conto, **inteligência** nasce do adjetivo *inteligente* com o sufixo *-ência*, que cria substantivos abstratos indicando qualidade. Do mesmo modo, *espiritualidade* deriva de *espiritual* pelo sufixo *-idade*, e as quatro expressões desenhadas pelo narrador — *interrogativa*, *admirativa*, *dubitativa*, *cogitativa* — são adjetivos formados por sufixo *-iva* acrescido a bases verbais. [chapter-callout-label: Zoom] Releia: *"dando-lhe cinco ou seis atitudes diferentes, das quais recordo a interrogativa, a admirativa, a dubitativa e a cogitativa."* Que classe gramatical têm essas quatro palavras nesse contexto? Qual sufixo as une? O que ele acrescenta ao sentido da base? ### Derivação Parassintética Ocorre quando um **prefixo e um sufixo são acrescentados simultaneamente** à palavra-base, sendo os dois obrigatórios. O critério decisivo é este: se qualquer um dos afixos for removido isoladamente, a palavra resultante não existe na língua. Tome *adestrado*, por exemplo — palavra da mesma família semântica que aparece em textos de educação da época: retire *a-* e sobra *destrado* (inexistente); retire *-ado* e sobra *adestrar* (verbo válido, mas a base adjetival original *destro* já é outra palavra). O melhor teste é verificar se ambas as remoções isoladas produzem palavras inválidas. No cotidiano, *amanhecer* (*a- + manhã + -ecer*) e *entristecer* (*en- + triste + -ecer*) são exemplos clássicos desse padrão. | Processo | O que é acrescentado | Exemplo do conto ou da língua | Teste para verificar | |---|---|---|---| | Prefixal | Só prefixo | *intolerante* (in- + tolerante) | Retire o prefixo: sobra palavra válida? | | Sufixal | Só sufixo | *inteligência* (inteligente + -ência) | Retire o sufixo: sobra palavra válida? | | Parassintética | Prefixo + sufixo simultâneos | *amanhecer* (a- + manhã + -ecer) | Retire qualquer um dos dois: a palavra desaparece | ### Derivação Regressiva Na derivação regressiva, o caminho é inverso: a língua **reduz** o verbo para criar um substantivo que indica a ação ou seu resultado. No conto, a palavra **suetos** é um caso exemplar — trata-se de um substantivo formado a partir do verbo *suar* (no sentido antigo de escapulir), com redução do material fônico em vez de acréscimo. O mesmo processo origina *compra* (de *comprar*), *choro* (de *chorar*) e *beijo* (de *beijar*): em todos eles, o substantivo é mais curto que o verbo de origem. ### Derivação Imprópria A derivação imprópria ocorre quando uma palavra **muda de classe gramatical sem nenhuma alteração em sua forma**. A mesma sequência de letras passa a exercer outra função sintática na frase. No conto, as expressões *a interrogativa*, *a admirativa*, *a dubitativa* e *a cogitativa* são originalmente adjetivos, mas funcionam aí como substantivos — indicam as próprias feições desenhadas, não qualidades de algo. O artigo *a* que as precede é o sinal inequívoco de que mudaram de classe. **Imagens:** - https://storage.googleapis.com/teachy-classroom-contents/images/imported/d49bd9a6b6b35e178025ebf8622714c4.png — Ilustração da derivação imprópria: "belo" e "o belo" — a mesma palavra, classes gramaticais diferentes [chapter-callout-label: Perfil] **Machado de Assis** (Rio de Janeiro, 1839–1908) é considerado o maior nome da literatura brasileira. Filho de um pintor negro e de uma portuguesa, autodidata e epilético, tornou-se fundador e primeiro presidente da Academia Brasileira de Letras. Sua obra abrange romances, contos, poesias e crônicas — e seu domínio preciso do vocabulário faz de seus textos um laboratório vivo para o estudo da língua portuguesa. [INTERACTIVE: A1 | mapa mental | Acesse o mapa mental interativo com todos os tipos de derivação e exemplos adicionais na plataforma Teachy] [Section 5] [P1] Leia o trecho do conto de Machado de Assis: > "Era um velho empregado do Arsenal de Guerra, ríspido e intolerante." A palavra **intolerante** é formada a partir da palavra-base "tolerante". Que elemento foi acrescentado a ela para criar a nova palavra? Classifique esse elemento como prefixo ou sufixo. [P2] Observe as palavras retiradas do mesmo conto: - **desbotada** ("a jaqueta de brim lavada e desbotada") - **arrependido** ("estava arrependido de ter vindo") - **recapitulava** ("recapitulava o campo e o morro") Para cada palavra, identifique o prefixo presente e explique de que maneira ele modifica o sentido da palavra-base. _Dica: Pense no que a palavra significaria sem o prefixo — isso ajuda a perceber o que o prefixo está acrescentando._ [P3] No trecho abaixo, Machado de Assis usa substantivos formados por derivação sufixal: > "Não digo também que era dos mais inteligentes, por um escrúpulo fácil de entender e de excelente efeito no estilo." a) Identifique, nesse trecho, uma palavra formada com sufixo e aponte qual é esse sufixo. b) Explique que classe gramatical a palavra-base pertencia antes de receber o sufixo. _Dica: Tente retirar o sufixo e verificar o que sobra — essa "sobra" é a base, e analisar sua classe ajuda a responder à letra b._ [Section 6] ## Palavras em Ação [I1] _Leia o trecho a seguir, extraído do conto "Conto de escola", de Machado de Assis (1884):_ > "Chamava-se Raimundo este pequeno, e era mole, aplicado, inteligência tarda. Raimundo gastava duas horas em reter aquilo que a outros levava apenas trinta ou cinqüenta minutos; vencia com o tempo o que não podia fazer logo com o cérebro." No trecho, a palavra **inteligência** é formada a partir do adjetivo latino "inteligente" por meio de um sufixo que cria um substantivo abstrato. Esse mesmo processo de formação — em que um sufixo muda a classe gramatical da palavra-base — está presente em qual das alternativas a seguir? (A) "pálido" → "palidez": sufixo -ez transforma adjetivo em substantivo abstrato, indicando qualidade. (B) "brim" → "brim lavado": adição de adjetivo ao substantivo sem alteração morfológica da palavra-base. (C) "andar" → "andaime": formação por composição de duas bases distintas unidas pelo sentido. (D) "morro" → "morros": acréscimo de -s como marca de plural, sem mudança de classe gramatical. (E) "escola" → "escolar": sufixo -ar que cria adjetivo a partir de substantivo, sem relação com abstração. --- [I2] _O trecho do conto traz a palavra **suetos**, usada para designar as faltas que o narrador dava à escola:_ > "Na semana anterior tinha feito dois suetos, e, descoberto o caso, recebi o pagamento das mãos de meu pai." A palavra "sueto" é um exemplo de **derivação regressiva**: ela foi formada a partir do verbo "suar" (no sentido antigo de "escapulir, evadir-se"), perdendo material fônico em vez de ganhar. Com base nesse processo, leia as palavras abaixo e identifique quais também são formadas por derivação regressiva, justificando sua escolha. I. *beijo* (de "beijar") II. *desbotada* (de "desbotar") III. *choro* (de "chorar") IV. *caixeiro* (de "caixa") [LINES: 5] --- [I3] _Considere o seguinte parágrafo do conto:_ > "Subi a escada com cautela, para não ser ouvido do mestre, e cheguei a tempo; ele entrou na sala três ou quatro minutos depois. Entrou com o andar manso do costume, em chinelas de cordovão, com a jaqueta de brim lavada e desbotada, calça branca e tesa e grande colarinho caído." Nesse parágrafo, Machado de Assis constrói a cena por meio de escolhas lexicais precisas. Analise as palavras **desbotada**, **manso** e **colarinho** quanto ao seu processo de formação. a) Para cada uma das três palavras, indique o processo de formação (derivação prefixal, sufixal, parassintética, regressiva ou imprópria — ou composição, se for o caso) e identifique o elemento morfológico responsável por esse processo. b) Escolha uma das três palavras e explique como o processo de formação identificado contribui para construir a imagem do personagem descrito. [LINES: 8] [INTERACTIVE: D | responda na plataforma | Escaneie para responder as questões I2 e I3 na Teachy e receber correção com feedback personalizado] [chapter-callout-label: Nossa língua na rua] **Derivação no seu dia a dia:** Você usa derivação toda vez que escreve "zoação" (*zoar* + *-ção*), "turminha" (*turma* + *-inha*) ou "deletou" (raiz do inglês *delete* adaptada com sufixo verbal *-ou*). A derivação não é só coisa de livro antigo — ela é o mecanismo vivo pelo qual a língua inventa palavras novas a cada geração.


Iara Tip

Precisa de slides customizados para suas aulas?

Eu consigo gerar slides, atividades, resumos e 60+ tipos de materiais. Isso mesmo, nada de noites mal dormidas por aqui :)

Community img

Faça parte de uma comunidade de professores direto no seu WhatsApp

Conecte-se com outros professores, receba e compartilhe materiais, dicas, treinamentos, e muito mais!