Discurso Reportado na Resenha
# Discurso Reportado na Resenha [Sequence 4] Eu, Harry Potter, aprendi em Hogwarts que as palavras têm poder — e que atribuir mal uma fala pode causar confusão tão grave quanto um feitiço errado. No capítulo anterior, você planejou a estrutura de uma resenha crítica, separando as informações sobre a obra das suas próprias análises. Agora vem o próximo passo: aprender a manejar as vozes que circulam no texto, deixando sempre claro para o leitor de quem é cada ideia. Quando escrevemos uma resenha, não falamos sozinhos. Há pelo menos três vozes em jogo: a do resenhador, que analisa e argumenta; a do autor da obra resenhada, que criou o texto comentado; e, em muitos casos, a de outros críticos que já escreveram sobre aquela obra. Saber distinguir e articular essas vozes é o que transforma um simples resumo em uma resenha crítica de verdade — como se fosse um feitiço que dá vida própria ao texto. Para praticar esse manejo, vamos trabalhar com um trecho do conto "A Cartomante", de Machado de Assis. Observe, ao longo do texto, como o narrador apresenta os pensamentos e as falas das personagens: é exatamente esse movimento que o resenhador precisa reproduzir, com suas próprias ferramentas, ao escrever sobre a obra. --- **A Cartomante** (trecho) **Machado de Assis** No dia seguinte, estando na repartição, recebeu Camilo este bilhete de Vilela: "Vem já, já, à nossa casa; preciso falar-te sem demora." Era mais de meio-dia. Camilo saiu logo; na rua, advertiu que teria sido mais natural chamá-lo ao escritório; por que em casa? Tudo indicava matéria especial, e a letra, fosse realidade ou ilusão, afigurou-se-lhe trêmula. Ele combinou todas essas cousas com a notícia da véspera. — Vem já, já, à nossa casa; preciso falar-te sem demora, — repetia ele com os olhos no papel. Imaginariamente, viu a ponta da orelha de um drama, Rita subjugada e lacrimosa, Vilela indignado, pegando da pena e escrevendo o bilhete, certo de que ele acudiria, e esperando-o para matá-lo. Camilo estremeceu, tinha medo: depois sorriu amarelo, e em todo caso repugnava-lhe a ideia de recuar, e foi andando. Camilo ia andando inquieto e nervoso. Não relia o bilhete, mas as palavras estavam decoradas, diante dos olhos, fixas; ou então, — o que era ainda pior, — eram-lhe murmuradas ao ouvido, com a própria voz de Vilela. "Vem já, já, à nossa casa; preciso falar-te sem demora." Ditas assim, pela voz do outro, tinham um tom de mistério e ameaça. "Quanto antes, melhor, pensou ele; não posso estar assim..." Mas o mesmo trote do cavalo veio agravar-lhe a comoção. O tempo voava, e ele não tardaria a entestar com o perigo. Quase no fim da Rua da Guarda Velha, o tílburi teve de parar; a rua estava atravancada com uma carroça, que caíra. Camilo, em si mesmo, estimou o obstáculo, e esperou. No fim de cinco minutos, reparou que ao lado, à esquerda, ficava a casa da cartomante, a quem Rita consultara uma vez, e nunca ele desejou tanto crer na lição das cartas. Camilo fechava os olhos, pensava em outras cousas; mas a voz do marido sussurrava-lhe às orelhas as palavras da carta: "Vem, já, já..." E ele via as contorções do drama e tremia. *Fonte: Machado de Assis. "A Cartomante". In: Várias Histórias. Rio de Janeiro: Garnier, 1896.* --- Antes de entrarmos nos conceitos, observe como Machado de Assis maneja as vozes no trecho: a frase de Vilela ("Vem já, já, à nossa casa") aparece primeiro entre aspas, depois como fala em voz alta com travessão, e por fim como eco na mente de Camilo. O narrador não precisa dizer "agora é Vilela quem fala": as marcas textuais fazem esse trabalho. Quais dessas marcas você consegue identificar? [chapter-section: Perfil] **Images:** - https://storage.googleapis.com/teachy-classroom-contents/images/imported/fa52ebddec1b33119f53d4f7328a24b0205a9bbe2553bd60ab1a5600147b145d.jpg — Retrato de Machado de Assis, maior nome da literatura brasileira | Attribution: Fonte: Wikimedia Commons Joaquim Maria Machado de Assis (Rio de Janeiro, 1839–1908) é considerado o maior escritor da literatura brasileira. Fundador e primeiro presidente da Academia Brasileira de Letras, escreveu em praticamente todos os gêneros: romances, contos, crônicas e crítica literária. "A Cartomante" é um de seus contos mais estudados pela forma como explora a psicologia das personagens por meio do discurso interno. ## As vozes na resenha Na resenha crítica, quem escreve precisa costurar ao menos três vozes de forma coerente. A primeira é a **voz do resenhador**: ela aparece nas análises, nas opiniões fundamentadas e nos argumentos sobre o que a obra significa. A segunda é a **voz do autor da obra**: ela surge quando o resenhador apresenta o enredo, os temas e as escolhas estilísticas do texto original. A terceira, quando presente, é a **voz de outros críticos ou pesquisadores**: ela dá respaldo a determinadas interpretações. O grande desafio é deixar sempre claro para o leitor de quem é cada voz. Para isso, o resenhador conta com recursos chamados de **discurso reportado**, que permitem introduzir palavras e pensamentos alheios no próprio texto sem apagar a fronteira entre o que é do autor original e o que é análise de quem escreve a resenha. **Images:** - [GENERATE] Diagrama com três balões de fala em cores distintas (azul, verde, laranja), rotulados "Voz do resenhador (análise e argumento)", "Voz do autor da obra (conteúdo e estilo)" e "Voz de outros críticos (respaldo interpretativo)", com setas mostrando como se articulam num trecho de resenha | vozes-na-resenha.png | 16:9 ## Citação direta: a palavra exata do autor A citação direta consiste em reproduzir literalmente as palavras do texto original, usando aspas para marcar a fronteira entre o que é do autor e o que é análise do resenhador. Esse recurso é indicado quando o trecho original é especialmente preciso ou literariamente significativo, e qualquer reformulação perderia algo essencial. Observe como uma resenha de "A Cartomante" poderia empregar citação direta: > Machado de Assis captura a tensão crescente de Camilo com uma imagem auditiva de grande poder: as palavras do bilhete "eram-lhe murmuradas ao ouvido, com a própria voz de Vilela." Essa escolha narrativa transforma a escrita de outro em presença física, tornando o medo da personagem tangível para o leitor. As aspas marcam que aquelas palavras pertencem ao texto de Machado de Assis; a análise que as envolve é inteiramente do resenhador. Note o verbo **"captura"**, que atribui a escolha narrativa ao autor. Verbos como esse, chamados de **verbos introdutórios**, são as principais marcas linguísticas que sinalizam ao leitor que uma voz alheia está sendo apresentada. [chapter-section: Glossário] **verbo introdutório:** palavra que apresenta a voz de outro no texto, indicando a atribuição da ideia ou fala. Exemplos comuns em resenhas: *afirma, descreve, questiona, sugere, aponta, destaca, mostra, revela.* ## Paráfrase e discurso indireto: reescrever sem copiar A paráfrase é a reescrita das ideias do autor com as próprias palavras do resenhador, mantendo o sentido sem reproduzir o texto literalmente. Não usa aspas, mas exige marcas linguísticas que deixem claro que a ideia pertence ao texto comentado, como "Machado de Assis mostra que..." ou "Segundo o autor...". Veja como o mesmo momento do conto pode ser parafrasado: > Machado de Assis mostra que Camilo tenta se distrair, mas é assombrado pela voz de Vilela repetindo as palavras do bilhete. O resenhador reescreveu a ideia com estrutura e vocabulário próprios, integrando a voz do autor à análise sem interromper o fluxo do texto. O discurso indireto é um recurso semelhante, mas mantém relação mais próxima com o enunciado original, adaptando tempos verbais, pronomes e articuladores com a conjunção *que*. O pensamento de Camilo ("não posso estar assim...") poderia aparecer assim em discurso indireto: "O narrador revela que Camilo já não suportava aquela angústia." Em ambos os casos, o verbo introdutório atribui a ideia ao texto original. A tabela a seguir resume os três recursos: | Recurso | Marca no texto | Quando usar | |---|---|---| | Citação direta | Aspas + verbo introdutório | Trechos literariamente significativos | | Paráfrase | Verbo introdutório (sem aspas) | Reescrita livre; integração fluida ao argumento | | Discurso indireto | Verbo introdutório + *que* + ajustes verbais | Síntese de falas ou pensamentos | Em resumo, cada um desses recursos cumpre uma função: a citação direta preserva a palavra exata, a paráfrase integra a ideia com liberdade de reescrita, e o discurso indireto sintetiza enunciados adaptando-os gramaticalmente ao texto da resenha. [INTERACTIVE: a1-sl | Acesse os slides interativos sobre vozes na resenha e discurso reportado na plataforma Teachy] [chapter-section: Nossa língua na rua] Eu percebo isso em todo lugar: jornais, sites de notícias e podcasts de cultura usam discurso reportado o tempo todo — como se fosse magia invisível. Quando um crítico de cinema escreve "Para a diretora, o filme explora a ideia de que...", ele está usando o mesmo recurso que você vai aplicar na resenha. Vale observar: que verbos introdutórios aparecem com mais frequência nas críticas que você lê? --- ## Na prática [Sequence 5] Agora é a hora de investigar os recursos do discurso reportado diretamente no texto que eu trouxe para você. Como aprendi em Hogwarts, a prática é o melhor feitiço contra o erro. Vamos identificar e analisar o uso das vozes no trecho de "A Cartomante" que você leu. **[P1]** Leia o trecho de resenha abaixo: > "Machado de Assis apresenta um narrador que descreve os pensamentos de Camilo com detalhes minuciosos. Segundo o autor, o personagem 'tinha medo' e buscava sinais de ameaça em cada detalhe do bilhete recebido." Na frase "Segundo o autor, o personagem 'tinha medo'", identifique qual recurso do discurso reportado está sendo usado para introduzir a voz do autor da obra. **[P2]** Releia este trecho extraído de "A Cartomante", de Machado de Assis: > "Camilo ia andando inquieto e nervoso. Não relia o bilhete, mas as palavras estavam decoradas, diante dos olhos, fixas; ou então, — o que era ainda pior, — eram-lhe murmuradas ao ouvido, com a própria voz de Vilela." Um estudante produziu o seguinte trecho de resenha: > "No conto, o personagem não consegue parar de pensar nas palavras do bilhete, que voltam a ele como se fossem ditas pelo próprio Vilela." Explique se esse trecho usa citação direta, paráfrase ou discurso indireto para reportar o conteúdo do texto original. *Dica: Observe se as palavras originais aparecem entre aspas ou se foram reescritas com sentido equivalente.* **[P3]** Compare os dois trechos de resenha a seguir, que comentam o mesmo momento do conto: **Versão A:** > "O autor escreve que o personagem 'fechava os olhos, pensava em outras cousas; mas a voz do marido sussurrava-lhe às orelhas as palavras da carta'." **Versão B:** > "Machado de Assis mostra que Camilo tenta se distrair, mas é assombrado pela voz de Vilela repetindo as palavras do bilhete." Indique qual versão usa citação direta e qual usa paráfrase. Em seguida, explique qual das duas deixa mais clara a separação entre a voz do resenhador e a voz do autor da obra. *Dica: Pense em como as aspas funcionam para marcar a fronteira entre o que é do texto original e o que é do resenhador.* Em resumo, nos três exercícios acima você praticou identificar e diferenciar os recursos do discurso reportado em trechos retirados do próprio conto que lemos juntos — e isso é exatamente o que um bom resenhador faz antes de escrever. --- ## Exercícios [Sequence 6] Nos exercícios a seguir, você vai aplicar o que aprendeu em novas situações, analisando e produzindo trechos de resenha com manejo adequado das vozes. Será que você consegue manter as fronteiras entre as vozes tão claras quanto as fronteiras entre os andares de Hogwarts? **[I1]** Leia o trecho a seguir, retirado de uma resenha do conto "A Cartomante", de Machado de Assis: > "A habilidade de Machado reside em fazer o leitor acompanhar cada oscilação da mente de Camilo. O narrador descreve como o personagem 'combinou todas essas cousas com a notícia da véspera', deixando claro que a desconfiança não é instintiva, mas construída racionalmente. Para Alfredo Bosi, em *História Concisa da Literatura Brasileira*, o Realismo machadiano distingue-se justamente pela 'lucidez implacável' com que analisa os movimentos internos das personagens." Nesse trecho de resenha, o resenhador articula três vozes distintas. Qual alternativa descreve corretamente como esse manejo de vozes é realizado? (A) O resenhador apaga sua própria voz ao citar Machado de Assis e Alfredo Bosi, deixando os dois autores falarem diretamente ao leitor sem mediação crítica. (B) O resenhador usa citação direta de Machado para evidenciar o raciocínio da personagem e citação de Bosi para fundamentar sua interpretação, mantendo sua própria voz como fio condutor da análise. (C) O resenhador usa apenas paráfrase ao longo do trecho, evitando citações diretas para não interromper o fluxo da argumentação crítica. (D) A voz do resenhador se confunde com a de Machado de Assis, pois ambos descrevem os pensamentos de Camilo sem distinção clara entre ficção e crítica literária. (E) O trecho demonstra que citações de críticos literários devem sempre substituir a análise do resenhador, tornando o texto mais objetivo e impessoal. *Gabarito: B* *(uso interno — não exibir ao estudante)* --- **[I2]** Leia o trecho original do conto: > "'Quanto antes, melhor, pensou ele; não posso estar assim...'" Um resenhador precisa incorporar esse momento ao seu texto crítico sem usar citação direta. Reescreva esse trecho do conto na forma de uma paráfrase, mantendo o sentido e indicando claramente que a ideia pertence ao texto de Machado de Assis. [LINES: 4] --- **[I3]** Leia o fragmento de resenha abaixo, escrito por um estudante: > "O conto mostra Camilo com medo. Ele pensa em coisas. Vilela manda um bilhete. Camilo fica nervoso e vai até a cartomante." Esse trecho apresenta problemas no manejo das vozes e no uso do discurso reportado. a) Identifique dois problemas presentes nesse trecho em relação ao uso adequado do discurso reportado em uma resenha crítica. b) Reescreva o trecho incorporando ao menos uma citação direta ou paráfrase de um momento do conto lido neste capítulo, tornando visível a voz do resenhador como analista do texto. [LINES: 8] Em resumo, os exercícios desta seção exigiram que você não apenas reconhecesse os recursos, mas os empregasse: identificar é o primeiro passo, mas produzir com manejo adequado das vozes é o que transforma o texto em uma resenha crítica de verdade. [INTERACTIVE: d-rp | Escaneie para responder estes exercícios na Teachy e receber correção automática com feedback personalizado] --- **Images:** - https://storage.googleapis.com/teachy-classroom-contents/images/imported/fa52ebddec1b33119f53d4f7328a24b0205a9bbe2553bd60ab1a5600147b145d.jpg — Retrato de Machado de Assis, escritor brasileiro, autor de "A Cartomante" | Attribution: Fonte: Wikimedia Commons - [GENERATE] Diagrama com três balões de fala em cores distintas (azul, verde, laranja), rotulados "Voz do resenhador (análise e argumento)", "Voz do autor da obra (conteúdo e estilo)" e "Voz de outros críticos (respaldo interpretativo)", com setas mostrando como se articulam num trecho de resenha | vozes-na-resenha.png | 16:9
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