Dom Casmurro
# Complementos Verbais [Sequence 4] Eu sou Harry Potter, e posso te garantir: investigar as frases da língua portuguesa é tão emocionante quanto explorar os corredores de Hogwarts — cada verbo esconde uma pista que você precisa decifrar. Na última aula, você descobriu que certos verbos exigem complemento para fechar o sentido — e outros não. Agora chegou a hora de ir mais fundo: quando um verbo pede complemento, esse complemento pode chegar de dois jeitos bem diferentes. Vou te mostrar, a partir do próprio texto de Machado de Assis, como identificar cada um. Antes de mergulhar nas definições, leia com atenção o trecho de *Dom Casmurro* que vamos usar como ponto de partida neste capítulo: --- > Pois, senhor, não consegui recompor o que foi nem o que fui. Em tudo, se o rosto é igual, a fisionomia é diferente. Se só me faltassem os outros, vá — um homem consola-se mais ou menos das pessoas que perde; mais falto eu mesmo, e esta lacuna é tudo. Os amigos que me restam são de data recente; todos os antigos foram estudar a geologia dos campos-santos. Quanto às amigas, algumas datam de quinze anos, outras de menos, e quase todas crêem na mocidade. Duas ou três fariam crer nela aos outros, mas a língua que falam obriga muita vez a consultar os dicionários, e tal freqüência é cansativa. > > Quis variar, e lembrou-me escrever um livro. Jurisprudência, filosofia e política acudiram-me, mas não me acudiram as forças necessárias. Foi então que os bustos pintados nas paredes entraram a falar-me e a dizer-me que, uma vez que eles não alcançavam reconstituir-me os tempos idos, pegasse da pena e contasse alguns. Fiquei tão alegre com esta idéia, que ainda agora me treme a pena na mão. Ia entrar na sala de visitas, quando ouvi proferir o meu nome e escondi-me atrás da porta. > > José Dias, depois de alguns instantes de concentração, veio ver se havia alguém no corredor; não deu por mim, voltou e, abafando a voz, disse que a dificuldade estava na casa ao pé, a gente do Pádua. Não me parece bonito que o nosso Bentinho ande metido nos cantos com a filha do Tartaruga, e esta é a dificuldade, porque se eles pegam de namoro, a senhora terá muito que lutar para separá-los. **Machado de Assis.** *Dom Casmurro*. Rio de Janeiro: Garnier, 1899. (Adaptado.) --- [chapter-section: Perfil] **Machado de Assis (1839–1908)** nasceu no Rio de Janeiro, filho de um mulato e uma lavadeira portuguesa. Autodidata, tornou-se o maior nome da literatura brasileira, fundador da Academia Brasileira de Letras e mestre do Realismo. *Dom Casmurro* (1899) é sua obra mais lida — um romance narrado em primeira pessoa cujo narrador não confia em si mesmo, criando uma das maiores ambiguidades da ficção em língua portuguesa. --- Antes de nomear qualquer coisa, observe dois verbos no texto: **"crêem"** e **"consultar"**. Na frase "quase todas crêem na mocidade", o verbo pede alguma coisa depois dele? Sim — pede "em quê?": crêem *na mocidade*. Já no trecho "obriga muita vez a consultar os dicionários", o verbo "consultar" pede "o quê?": consultar *os dicionários*. Perceba que num caso há preposição obrigatória ("na"), e no outro não há preposição. Essa diferença é exatamente o que você vai aprender a nomear e identificar agora. ## O complemento verbal e sua chegada ao verbo Eu aprendi isso investigando as frases como se fossem passagens secretas de Hogwarts: cada verbo transitivo abre uma porta, e o complemento é quem entra por ela. Mas há dois tipos de porta — uma que se abre diretamente, sem obstáculo, e outra que exige uma chave específica: a preposição. O **objeto direto** é o complemento que entra pela porta sem chave. Ele se liga ao verbo *sem preposição obrigatória*, respondendo às perguntas "o quê?" ou "quem?" feitas diretamente ao verbo. No trecho de Machado de Assis, "consultar *os dicionários*" é um exemplo: consultou o quê? *Os dicionários* — sem preposição, direto ao verbo. O **objeto indireto**, por sua vez, exige a chave. Ele é o complemento que se liga ao verbo *com preposição obrigatória* — as preposições mais comuns são *a*, *de*, *em*, *para* e *com*. No mesmo texto, "crêem *na mocidade*" mostra isso com clareza: crêem em quê? *Na mocidade* — a preposição "em" (contraída em "na") é obrigatória; sem ela, a frase simplesmente não funciona. **Images:** - https://storage.googleapis.com/teachy-classroom-contents/images/imported/22bf9a3e36f5e6eb9e53e6465b4c502e.png — Professora diante do quadro-negro explicando conjugação verbal para alunos atentos | Attribution: Fonte: Teachy - "Classroom Conjugation Lesson" - Teachy ## Como distinguir objeto direto de objeto indireto Mas como, na prática, eu sei se estou diante de um ou do outro? Vamos investigar isso juntos com um método em três passos, usando sempre o texto de Machado de Assis como campo de treino. **Passo 1 — Identifique o verbo transitivo.** Localize o verbo e confirme que ele exige complemento. Se a frase parecer "no ar" sem o termo que o segue, o verbo é transitivo. **Passo 2 — Faça a pergunta ao verbo.** Pergunte ao verbo: "o quê?" ou "quem?" — se a resposta vier sem preposição, é objeto direto. Se a pergunta natural incluir preposição ("a quem?", "de quê?", "em quem?", "para quem?"), é objeto indireto. **Passo 3 — Confirme a preposição.** Se houver preposição entre o verbo e o complemento, verifique se ela é *exigida pelo verbo* (= objeto indireto) ou apenas indica lugar, tempo ou modo (= adjunto adverbial). Preposição exigida pelo verbo → objeto indireto. Preposição que indica circunstância → não é objeto. Aplicando o método ao texto: na frase "não consegui recompor o que foi", o verbo "recompor" pede "o quê?" — a resposta "o que foi" chega sem preposição. Objeto direto. Já em "lembrou-me escrever um livro", o pronome "me" funciona como objeto indireto — é a pessoa *a quem* lembra, com preposição implícita na forma do pronome oblíquo. [chapter-section: Comparando...] **Objeto direto vs. objeto indireto — em síntese:** | | Objeto Direto | Objeto Indireto | |---|---|---| | **Preposição** | Não há preposição obrigatória | Preposição obrigatória (a, de, em, para...) | | **Pergunta ao verbo** | "o quê?" / "quem?" | "a quem?" / "de quê?" / "em quem?" | | **Exemplo do texto** | consultar *os dicionários* | crêem *na mocidade* | | **Pronome substituto** | o, a, os, as | lhe, lhes | --- Em resumo, o segredo está em fazer a pergunta certa ao verbo: se a resposta vier sem preposição, você tem um objeto direto; se a preposição for obrigatória para a ligação fazer sentido, você tem um objeto indireto. ## Verbos que pedem os dois: bitransitividade Alguns verbos são particularmente exigentes — pedem tanto objeto direto quanto objeto indireto ao mesmo tempo. Eles constroem frases com dois complementos e são chamados de verbos bitransitivos. O verbo "dizer", que aparece no texto de Machado de Assis, é um exemplo: no trecho "disse que a dificuldade estava na casa ao pé", José Dias *diz algo* (objeto direto) *a alguém* (objeto indireto implícito no contexto). O mesmo ocorre com verbos como *dar*, *enviar* e *explicar*, que pedem o quê foi dado/enviado/explicado (OD) e a quem (OI). [chapter-section: Nossa língua na rua] Observe conversas ao seu redor — em grupos de mensagem, em sala de aula, no mercado. Você certamente já ouviu frases como "Ela comprou o pão" (objeto direto, sem preposição) ou "Ele gosta de música" (objeto indireto, com preposição obrigatória). A língua viva está cheia desses dois tipos de complemento. Escolha uma conversa do seu cotidiano e transcreva duas frases: uma com objeto direto e outra com objeto indireto. Depois, compartilhe com a turma — você vai perceber que os verbos do dia a dia já revelam essa distinção o tempo todo. --- [INTERACTIVE: a1-sl | Acesse os slides interativos sobre complementos verbais na plataforma Teachy e veja mais exemplos com verbos do cotidiano] --- [Sequence 5] ## Na prática Como eu aprendi em Hogwarts: a teoria só vira habilidade quando você a coloca em prática. Você consegue identificar, nos próprios trechos de *Dom Casmurro*, qual complemento chega com preposição e qual chega sem ela? Nos exercícios a seguir, você vai testar exatamente isso — identificar complementos verbais e classificá-los, sempre fazendo as perguntas certas ao verbo. Em resumo, o caminho é sempre o mesmo: localizar o verbo, perguntar "o quê?" ou "a quem?", e observar se há preposição obrigatória. --- [P1] (DOK 1) Leia o trecho a seguir, retirado de *Dom Casmurro*, de Machado de Assis: > "Fiquei tão alegre com esta ideia, que ainda agora me treme a pena na mão." No trecho, o verbo **"alegre"** não é verbo — mas identifique o verbo principal da oração e classifique o complemento sublinhado em cada par de frases abaixo: Analise as frases e identifique, em cada uma, se o complemento do verbo em destaque é **objeto direto** (sem preposição) ou **objeto indireto** (com preposição obrigatória): a) "Bentinho **adorava** Capitu." b) "José Dias **falava** mal **do rapaz**." c) "D. Glória **queria** o melhor para o filho." d) "Bentinho **gostava** **de Capitu** desde criança." _Para cada item, pergunte ao verbo: "o quê?" ou "de quê?/a quem?" — a resposta vai revelar se há preposição obrigatória._ --- [P2] (DOK 2) Leia o fragmento abaixo, também de *Dom Casmurro*: > "José Dias, depois de alguns instantes de concentração, veio ver se havia alguém no corredor; não deu por mim, voltou e, abafando a voz, disse que a dificuldade estava na casa ao pé, a gente do Pádua." O verbo **"disse"** aparece seguido de uma oração que funciona como seu complemento. a) Identifique o complemento do verbo "disse" na frase acima. b) Esse complemento é objeto direto ou objeto indireto? Justifique sua resposta indicando se há preposição obrigatória. _Dica: substitua o complemento pela palavra "isso" ou "que isso" — se "que isso" funcionar naturalmente, o complemento é direto._ --- [P3] (DOK 2) Considere os dois empregos do verbo **"consultar"** abaixo: 1. "Bentinho consultou o dicionário várias vezes." 2. "O médico consultou com o especialista antes de decidir." a) Em qual das frases o verbo "consultar" é transitivo direto? Identifique o objeto direto. b) Em qual das frases o verbo "consultar" apresenta complemento introduzido por preposição? Qual é a preposição usada? _Dica: observe se o complemento aparece diretamente ligado ao verbo ou se precisa de uma preposição para se conectar a ele._ --- [Sequence 6] ## Exercícios Vamos investigar isso em novos textos — como se fosse uma missão que eu mesmo adoraria enfrentar. Você consegue aplicar o que aprendeu a contextos diferentes dos que já vimos juntos? Agora você vai praticar com manchetes, novas passagens de *Dom Casmurro* e situações do cotidiano, transferindo o método para além do que já foi apresentado. Em resumo, dominar os complementos verbais é perceber que, em qualquer texto, os verbos sempre pedem — ou não pedem — algo de um jeito muito específico. --- [I1] (DOK 2) No trecho de *Dom Casmurro* a seguir, Machado de Assis usa verbos que pedem diferentes tipos de complemento: > "Os amigos que me restam são de data recente; todos os antigos foram estudar a geologia dos campos-santos. Quanto às amigas, algumas datam de quinze anos, outras de menos, e quase todas crêem na mocidade." Com base no trecho, responda: a) Identifique o complemento do verbo **"crêem"** na última frase. b) Esse complemento é objeto direto ou objeto indireto? Justifique indicando a preposição utilizada e o papel que ela desempenha. [LINES: 5] --- [I2] (DOK 2) Leia as manchetes de jornal abaixo e analise a transitividade dos verbos em destaque: > **Manchete 1:** "Governo **anuncia** novas medidas para a educação." > **Manchete 2:** "Atleta **aspira** **ao** título mundial pela terceira vez." > **Manchete 3:** "Prefeitura **entregou** **às** escolas os novos materiais didáticos." a) Em qual(is) manchete(s) o verbo possui objeto direto? Transcreva o objeto direto identificado. b) Em qual(is) manchete(s) o verbo possui objeto indireto? Transcreva o objeto indireto e indique a preposição que o introduz. [LINES: 6] --- [I3] (DOK 3) Leia o trecho a seguir, de *Dom Casmurro*, de Machado de Assis: > "Quis variar, e lembrou-me escrever um livro. Jurisprudência, filosofia e política acudiram-me, mas não me acudiram as forças necessárias." Na frase "lembrou-me escrever um livro", o verbo **"lembrar"** está construído de forma que o pronome "me" funciona como complemento indireto. No entanto, em registros coloquiais do português brasileiro, é comum dizer "eu lembrei de escrever um livro" ou mesmo "eu lembrei escrever um livro". Sobre as diferenças entre essas construções, assinale a alternativa correta: (A) As três construções são equivalentes porque o verbo "lembrar" é sempre intransitivo e não admite nenhum tipo de complemento. (B) Em "lembrou-me escrever um livro", o verbo "lembrar" é transitivo indireto, pois o pronome "me" é objeto indireto na função de pessoa que se recorda. (C) Em "eu lembrei de escrever um livro", o complemento "de escrever um livro" é objeto direto, porque toda preposição "de" introduz objetos diretos preposicionados. (D) O verbo "lembrar" é exclusivamente transitivo direto, razão pela qual as construções com preposição são consideradas erros gramaticais em qualquer variedade do português. (E) Em "eu lembrei escrever um livro", o verbo "lembrar" é intransitivo, pois a ausência de preposição indica que não há complemento na oração. **Gabarito:** B --- [I4] (DOK 2) Leia a tirinha descrita a seguir: _[Imagem: tirinha com dois personagens conversando. No primeiro quadro, um diz: "Eu obedeci a ordem!". No segundo quadro, o outro responde: "Você obedeceu à ordem ou obedeceu a ordem?" No terceiro quadro, o primeiro fica confuso e pergunta: "Tem diferença?"]_ A cena da tirinha explora a diferença entre dois usos do verbo **"obedecer"**. Com base no que você aprendeu sobre transitividade e complementos verbais: a) Explique por que "obedecer" pede objeto indireto na norma-padrão da língua portuguesa. b) Identifique a preposição que esse verbo exige e transcreva o objeto indireto presente nas falas. [LINES: 6] --- [I5] (DOK 3 — síntese) Releia este trecho de *Dom Casmurro*: > "Não me parece bonito que o nosso Bentinho ande metido nos cantos com a filha do Tartaruga, e esta é a dificuldade, porque se eles pegam de namoro, a senhora terá muito que lutar para separá-los." Na frase "pegam de namoro", o verbo **"pegar"** aparece com complemento introduzido pela preposição "de". Em outro contexto, poderíamos dizer "pegar o namoro" ou "pegar algo", sem preposição. Explique como a presença ou ausência de preposição altera o tipo de complemento verbal e, consequentemente, o sentido que o verbo "pegar" assume em cada construção. Use exemplos do trecho ou crie os seus próprios para apoiar sua resposta. [LINES: 8] --- [INTERACTIVE: d-rp | Escaneie para responder estes exercícios na Teachy e receber correção automática com feedback detalhado]
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