Efeitos de Sentido das Vozes Verbais
# Efeitos de Sentido das Vozes Verbais [Section 4] ## Quem age, quem sofre — e o que isso revela Nos capítulos anteriores, você aprendeu a reconhecer a voz ativa e a voz passiva e a identificar o agente da passiva. Agora o desafio é ir além da identificação: trata-se de compreender **por que** um autor escolhe uma voz ou outra, e o que essa escolha provoca no leitor. Releia este trecho do "Conto de Escola", de Machado de Assis: --- > Piquei o passo para que ninguém chegasse antes de mim à escola; ainda assim não andei tão depressa que amarrotasse as calças. Não, que elas eram bonitas! Mirava-as, fugia aos encontros, ao lixo da rua... > > Na rua encontrei uma companhia do batalhão de fuzileiros, tambor à frente, rufando. Não podia ouvir isto quieto. Os soldados vinham batendo o pé rápido, igual, direita, esquerda, ao som do rufo; vinham, passaram por mim, e foram andando. Eu senti uma comichão nos pés, e tive ímpeto de ir atrás deles. [...] Não fui à escola, acompanhei os fuzileiros, depois enfiei pela Saúde, e acabei a manhã na Praia da Gamboa. Voltei para casa com as calças enxovalhadas, sem pratinha no bolso nem ressentimento na alma. > > [...] Entrou com o andar manso do costume, em chinelas de cordovão, com a jaqueta de brim lavada e desbotada, calça branca e tesa e grande colarinho caído. Chamava-se Policarpo e tinha perto de cinqüenta anos ou mais. Uma vez sentado, extraiu da jaqueta a boceta de rapé e o lenço vermelho, pô-los na gaveta; depois relanceou os olhos pela sala. Os meninos, que se conservaram de pé durante a entrada dele, tornaram a sentar-se. Tudo estava em ordem; começaram os trabalhos. > > [...] fui recebendo os bolos com tal firmeza, que o mestre ficou ainda mais espantado. **MACHADO DE ASSIS.** *Conto de Escola*. In: *Várias histórias*. Rio de Janeiro: Laemmert & C., 1896. --- Observe o que acontece nesse trecho. Verbos como *entrou*, *extraiu*, *pô-los*, *relanceou* colocam o mestre Policarpo como sujeito que age — ele controla, decide, organiza. Já a frase "os meninos tornaram a sentar-se" coloca os alunos em posição de reação. E a expressão "fui recebendo os bolos" — uma voz passiva — retira do narrador o controle sobre o que lhe acontece: ele simplesmente recebe, sofre, é objeto da ação do mestre. Você percebe alguma diferença de foco entre as frases em que Policarpo é sujeito e as frases em que os alunos aparecem? O que essa diferença constrói na nossa percepção de quem detém o poder naquele espaço? Agora compare dois modos de narrar o mesmo evento do conto (construções baseadas nos eventos da narrativa): > **Versão A:** "O mestre castigou Raimundo duramente." (voz ativa) > > **Versão B:** "Raimundo foi castigado duramente." (voz passiva analítica, agente omitido) Na versão A, a voz ativa coloca o mestre como sujeito da frase — ele aparece em primeiro lugar, é o foco. Na versão B, a voz passiva desloca Raimundo para o início: agora é ele quem recebe atenção, e o mestre pode nem aparecer. Essa mudança não altera o fato ocorrido, mas transforma completamente a perspectiva: o leitor é levado a se identificar com quem sofre, não com quem age. ## A voz verbal como escolha discursiva A voz verbal não é apenas uma questão gramatical — é uma escolha de sentido. Quando um autor escreve na voz ativa, ele dirige o olhar do leitor para o agente: quem pratica a ação ocupa o centro da cena. Quando escreve na voz passiva, esse foco se desloca: o que importa é a ação sofrida ou o resultado produzido. Essa escolha está sempre a serviço de uma intenção comunicativa. Em narrativas literárias, a voz ativa cria ritmo, dinamismo e presença do narrador. Em textos jornalísticos e científicos, a voz passiva é frequente porque neutraliza a voz individual, dando a impressão de imparcialidade ou de que o resultado vale mais do que o responsável. A tabela a seguir sintetiza os principais efeitos produzidos por cada voz: | Escolha | O que é destacado | Efeito típico | |---|---|---| | Voz ativa | O agente — quem faz | Responsabilização, dinamismo, presença | | Voz passiva com agente expresso | A ação + o responsável | Ênfase no resultado, agente identificado | | Voz passiva sem agente (omitido) | Somente a ação ou o resultado | Neutralidade, impessoalidade, diluição de responsabilidade | [chapter-callout-label: Perfil] **Machado de Assis** (1839–1908) é considerado o maior escritor da literatura brasileira. Nascido no Rio de Janeiro, filho de um pintor mestiço e de uma açoriana, tornou-se um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras e criou obras que ainda hoje desafiam o leitor. No *Conto de Escola* (1884), publicado na coletânea *Várias Histórias*, Machado usa a memória de infância para explorar temas como corrupção, medo e poder — e as escolhas linguísticas do narrador são parte essencial dessa construção. ## Omitir o agente: uma escolha com consequências Uma das decisões mais poderosas no uso da voz passiva é a omissão do agente. Quando dizemos "as casas foram demolidas" em vez de "a prefeitura demoliu as casas", retiramos da frase o responsável pela ação. Esse recurso produz efeitos muito diferentes conforme o contexto em que aparece. Em textos científicos, a omissão reforça a objetividade: "a amostra foi aquecida a 100°C" coloca o método em foco, não o cientista que o executou. Em textos jornalísticos, no entanto, essa mesma omissão pode diluir a responsabilidade: quando se escreve "benefícios foram cortados" sem identificar quem cortou, o leitor perde informação crucial sobre quem deve responder por aquela decisão. Em narrativas literárias, o agente omitido pode criar suspense ou ampliar o sentimento de vulnerabilidade de personagens. No *Conto de Escola*, a expressão "fui recebendo os bolos" coloca o narrador em posição passiva sem nomear o agente do castigo — e esse apagamento intensifica a sensação de impotência, tornando a brutalidade ainda mais sufocante do que se o nome do mestre aparecesse. [chapter-callout-label: Nossa língua na rua] Preste atenção em manchetes de notícias ou comunicados escolares. Quando você lê "Prova cancelada" ou "Obras iniciadas na Avenida Central", nenhum responsável aparece. Esses títulos usam a voz passiva sem agente — o foco está no fato, não em quem o causou. Essa escolha é neutra ou pode favorecer alguém? No *Conto de Escola*, você consegue identificar um trecho em que o agente também some e o efeito é semelhante? Identificar esse mecanismo é ler de forma mais crítica. [INTERACTIVE: A1 | mapa mental | Acesse o mapa mental interativo sobre efeitos de sentido das vozes verbais na plataforma Teachy] ## Na prática [Section 5] Exercite seu olhar sobre o texto de Machado de Assis com as atividades a seguir. [P1] (DOK 1) Leia os dois trechos a seguir, retirados do conto "Conto de Escola", de Machado de Assis: > **Trecho A:** "O mestre castigou Raimundo duramente." > **Trecho B:** "Raimundo foi castigado duramente." a) Identifique a voz verbal em cada um dos trechos. b) Em qual dos trechos o verbo está na voz ativa? E na voz passiva analítica? --- [P2] (DOK 1) Releia este trecho do conto: > "Os meninos, que se conservaram de pé durante a entrada dele, tornaram a sentar-se." Identifique, na oração "que se conservaram de pé durante a entrada dele", se o verbo está na voz ativa, na voz passiva sintética ou na voz reflexiva. Justifique sua resposta com base na estrutura da oração. _Dica: Observe quem realiza a ação e quem a sofre. Quando o sujeito age sobre si mesmo, temos a voz reflexiva; quando o pronome "se" indica que o sujeito é o paciente da ação, temos a voz passiva sintética._ --- [P3] (DOK 2) Compare as duas versões de uma mesma informação jornalística: > **Versão 1:** "A prefeitura demoliu as casas do bairro." > **Versão 2:** "As casas do bairro foram demolidas." a) Identifique a voz verbal em cada versão. b) Explique o efeito de sentido produzido pela ausência do agente da passiva na Versão 2: de que forma essa escolha altera o foco da informação? _Dica: Pense em quem ocupa a posição de destaque em cada versão — o responsável pela ação ou o que sofreu a ação._ --- [P4] (DOK 2) Leia o trecho do conto: > "Voltei para casa com as calças enxovalhadas, sem pratinha no bolso nem ressentimento na alma." Imagine que um repórter reescrevesse esse momento em uma notícia, usando a voz passiva analítica, com o agente da passiva expresso. a) Reescreva a ideia central da ação "voltei para casa" em voz passiva analítica, criando um agente da passiva plausível para o contexto do conto. b) Explique como essa mudança altera a perspectiva narrativa: o que passa a ser enfatizado? _Dica: Na voz passiva analítica, o sujeito recebe a ação. Pense em quem poderia ser responsabilizado pelo retorno do narrador._ --- ## Exercícios [Section 6] Nos exercícios a seguir, você vai aplicar o que aprendeu em contextos novos — de manchetes jornalísticas a comunicados escolares e trechos literários. O objetivo é interpretar, com argumentos, os efeitos de sentido produzidos pelas escolhas de voz. [I1] (DOK 3 — ENEM-style) Leia os dois títulos de reportagem a seguir: > **Manchete A:** "Governo suspende benefício de mil famílias no interior do Pará." > **Manchete B:** "Benefício de mil famílias no interior do Pará é suspenso." Considerando os efeitos de sentido produzidos pela escolha da voz verbal em textos jornalísticos, é correto afirmar que: (A) A Manchete A, por estar na voz ativa, compromete a objetividade do texto jornalístico e deve ser evitada. (B) A Manchete B omite o agente da passiva, deslocando o foco para quem sofre a ação e reduzindo a visibilidade do responsável. (C) Ambas as manchetes são equivalentes em sentido, pois transmitem a mesma informação sem nenhuma diferença de ênfase. (D) A Manchete B, por usar a voz passiva analítica, indica que o benefício foi suspenso por decisão espontânea, sem agente humano envolvido. (E) A Manchete A enfatiza as famílias afetadas, tornando-as o centro discursivo da notícia. **Gabarito:** B --- [I2] (DOK 2) No "Conto de Escola", Machado de Assis narra a cena do castigo com esta frase: > "fui recebendo os bolos" Essa construção coloca o narrador como sujeito paciente da ação. Reescreva a frase na voz ativa, tornando o agente do castigo o sujeito da oração. Em seguida, explique como essa mudança de voz altera o foco narrativo e o efeito emocional para o leitor. [LINES: 5] --- [I3] (DOK 2) Leia o trecho a seguir, adaptado de um comunicado escolar fictício: > "Os alunos foram informados sobre as novas regras. A suspensão foi aplicada a três estudantes. Nenhum recurso foi aceito pela direção." Nesse comunicado, duas orações ocultam o agente da passiva e uma o explicita. a) Identifique qual oração apresenta o agente da passiva expresso e qual é esse agente. b) Nas orações em que o agente foi omitido, interprete o efeito de sentido dessa escolha: o que ela revela sobre o posicionamento de quem escreveu o comunicado? [LINES: 6] --- [I4] (DOK 3 — síntese) Releia o trecho do "Conto de Escola": > "Entrou com o andar manso do costume, em chinelas de cordovão, com a jaqueta de brim lavada e desbotada, calça branca e tesa e grande colarinho caído. [...] Uma vez sentado, extraiu da jaqueta a boceta de rapé e o lenço vermelho, pô-los na gaveta; depois relanceou os olhos pela sala." Nesse trecho, Machado de Assis usa predominantemente a voz ativa para descrever as ações do mestre Policarpo. Interprete o efeito de sentido produzido por essa escolha: de que forma o uso sistemático da voz ativa para descrever o mestre contribui para construir sua imagem na narrativa? Considere o contraste com a posição dos alunos ao longo do conto. [LINES: 8] --- [INTERACTIVE: D | responda na plataforma | Escaneie para responder estes exercícios na Teachy e receber correção automática, incluindo nas questões discursivas] ## O que a língua revela [Section 8] Ao longo deste capítulo, você percorreu um caminho: começou reconhecendo as estruturas da voz ativa e passiva, aprendeu a localizar o agente da passiva e chegou a perceber que essas escolhas não são neutras — elas constroem sentidos, direcionam o olhar do leitor e revelam o posicionamento de quem escreve. Machado de Assis não colocou o mestre Policarpo na voz ativa e os alunos na voz passiva por acidente. "Por que um mesmo evento pode parecer mais ou menos responsabilizador dependendo de como a frase é construída?" Porque a língua não é transparente — ela posiciona, destaca, esconde e ilumina. A voz verbal é um desses recursos. Saber reconhecê-la, identificar o agente da passiva quando ele aparece ou desaparece, e interpretar por que o autor fez essa escolha: essas são as ferramentas de quem lê o mundo com consciência crítica. Antes de avançar, verifique o que você aprendeu neste capítulo: | Habilidade | Ainda preciso praticar | Já consigo fazer | Domino completamente | |---|---|---|---| | Identificar a voz verbal (ativa, passiva analítica, passiva sintética) em textos | ( ) | ( ) | ( ) | | Localizar e nomear o agente da passiva em orações passivas analíticas | ( ) | ( ) | ( ) | | Explicar o efeito de sentido produzido pela escolha da voz ativa ou passiva | ( ) | ( ) | ( ) | | Interpretar por que um autor omite ou mantém o agente da passiva | ( ) | ( ) | ( ) | Para encerrar, responda às duas perguntas abaixo: 1. Complete a frase: "Quando o autor escolhe a voz passiva sem o agente, ele está dizendo que..." 2. Qual é a diferença estrutural entre a voz passiva analítica e a voz passiva sintética? Dê um exemplo de cada. **Images:** - https://storage.googleapis.com/teachy-classroom-contents/images-v2/ce7c83fe-51c9-4a09-b323-edfeaa512054/generated/v2_0_5.jpg — Livro aberto com lupa sobre texto, representando análise e interpretação de escolhas linguísticas - https://storage.googleapis.com/teachy-classroom-contents/images/imported/4950b57913513d5250964740a26f23ad3ebb2dadabdf6e8a1e6b8d14f9b15a76.jpg — Duas pessoas em diálogo em frente a um portão, ilustrando como perspectiva e posição de quem fala ou sofre a ação mudam o foco da comunicação **Para gerar:** | Descrição | Tag | Proporção | |---|---|---| | Ilustração esquemática mostrando duas orações lado a lado: voz ativa (sujeito em destaque com seta apontando para o objeto) e voz passiva (sujeito em destaque como receptor da ação), com holofote indicando o foco discursivo em cada versão | diagrama-vozes-foco-discursivo | 16:9 |
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