Efeitos de Sentido na Paródia
# Efeitos de Sentido na Paródia [Section 4] No capítulo anterior, você conheceu os dois poemas que estão no centro desta jornada: a "Canção do Exílio", de Gonçalves Dias, e o "Canto de Regresso à Pátria", de Oswald de Andrade. Você identificou que o segundo texto retoma e subverte o primeiro. Agora chegou o momento de aprofundar essa análise: quando uma paródia transforma o texto original, que efeitos de sentido ela produz — e como exatamente esses efeitos chegam ao leitor? Leia os dois poemas com atenção antes de avançar. --- **Canção do Exílio** Gonçalves Dias, 1843 *Em cismar, sozinho, à noite,* *Mais prazer encontro eu lá;* *Minha terra tem palmeiras,* *Onde canta o Sabiá.* *Minha terra tem primores,* *Que tais não encontro eu cá;* *Em cismar — sozinho, à noite —* *Mais prazer encontro eu lá;* *Minha terra tem palmeiras,* *Onde canta o Sabiá.* *Não permita Deus que eu morra,* *Sem que volte para lá;* *Sem que desfrute os primores* *Que não encontro por cá;* *Sem qu'inda aviste as palmeiras,* *Onde canta o Sabiá.* *DIAS, Gonçalves. Canção do Exílio. In: Primeiros Cantos. Rio de Janeiro: Laemmert, 1846.* --- **Canto de Regresso à Pátria** Oswald de Andrade, 1925 *Não permita Deus que eu morra* *Sem que volte pra São Paulo* *Sem que veja a Rua 15* *E o progresso de São Paulo* *ANDRADE, Oswald de. Canto de Regresso à Pátria. In: Pau Brasil. Paris: Sans Pareil, 1925.* --- Antes de receber qualquer definição, observe os textos por conta própria. O que você notou que os dois poemas têm em comum? E o que claramente se transformou? Essas perguntas — sobre o que permanece e o que muda — são exatamente o ponto de partida para analisar os efeitos de sentido. ## O que a paródia preserva — e por quê isso importa Toda paródia começa por uma escolha estratégica: manter o suficiente do texto original para que o leitor o reconheça imediatamente. Sem esse reconhecimento, o efeito não acontece. Oswald de Andrade reproduziu quase palavra por palavra a estrofe final de Gonçalves Dias: a construção "Não permita Deus que eu morra / Sem que volte... / Sem que..." é idêntica em ritmo, sintaxe e movimento emocional. Ao preservar essa estrutura, Oswald garante que o leitor traga consigo toda a carga afetiva do original — a saudade, a solenidade, a súplica — para o momento em que o chão vai se romper. Esse é o primeiro mecanismo dos efeitos de sentido na paródia: a **retenção das marcas reconhecíveis**. O leitor ativa a memória do texto original justamente para que a transformação seguinte cause impacto. [chapter-callout-label: Evidências] **Para observar:** Releia os dois últimos versos de cada poema. Em Gonçalves Dias, o eu lírico quer rever "as palmeiras / onde canta o Sabiá" — uma imagem de natureza pura, carregada de beleza e pertencimento. Em Oswald, ele quer ver "a Rua 15 / e o progresso de São Paulo". O que essas duas escolhas revelam sobre o que cada poeta considera digno de saudade? Qual das duas versões soa mais sincera? E qual parece estar, de alguma forma, ironizando? ## Como o sentido se transforma: mecanismos da paródia A paródia de Oswald de Andrade produz seus efeitos por meio de três operações principais. A primeira é a **substituição de imagens**. No lugar das "palmeiras" e do "Sabiá" — símbolos de uma natureza brasileira idealizada pelo Romantismo —, surgem a "Rua 15" e o "progresso de São Paulo". A troca não é aleatória: ela desloca o objeto de desejo do eu lírico da natureza para a cidade, do simbólico para o concreto e cotidiano. Com isso, o poema deixa de ser uma elegia à pátria e se torna um retrato irônico de um Brasil em acelerada modernização. A segunda operação é a **mudança de registro e tom**. A "Canção do Exílio" é um poema de elevado lirismo romântico: as escolhas lexicais são solenes ("primores", "desfrute", "aviste"), o ritmo é regular e a emoção é tratada com seriedade. O "Canto de Regresso" introduz a expressão coloquial "pra São Paulo" (em vez de "para lá"), que rebaixa imediatamente o registro. Essa pequena contração revela uma voz que fala de modo descontraído sobre algo que, no original, era tratado com máxima seriedade. O contraste entre a forma emprestada e o conteúdo renovado é o coração da ironia paródica. A terceira operação é a **compressão e reduplicação**. Oswald usa apenas uma estrofe — a última do poema de Gonçalves Dias — e, dentro dela, repete duas vezes a expressão "São Paulo". A repetição cria um efeito de exagero que ressoa de forma humorística: parece que o eu lírico está obcecado pela cidade, ou que está imitando a retórica grandiloquente de quem elogia "o progresso" com entusiasmo excessivo. Esse exagero intencional é um recurso típico da ironia: dizer algo com tanta ênfase que soa falso. **Images:** - https://storage.googleapis.com/teachy-classroom-contents/images/imported/e4c0be8fbdeb47ae7b6aa9307d441caffb5d43167a705b498b743df6a298a4af.jpg — Página original de Os Lusíadas, de Luís de Camões — obra da literatura em língua portuguesa que, como a "Canção do Exílio", tornou-se referência clássica sujeita a releituras e paródias ao longo dos séculos. ## Efeitos de sentido: humor, ironia e crítica Os efeitos de sentido são os **resultados que a leitura do texto produz no leitor** — sensações, interpretações, posicionamentos. Na paródia, esses efeitos emergem do contraste entre o que o leitor espera (com base no original) e o que o novo texto de fato entrega. No caso dos dois poemas, os efeitos principais são três. O **humor** nasce da incongruência: espera-se solenidade romântica e chega-se à "Rua 15". A **ironia** surge quando o leitor percebe que Oswald não está simplesmente atualizando o poema de Gonçalves Dias, mas questionando os valores que esse poema celebrava. O terceiro efeito é a **crítica cultural**: ao colocar o "progresso de São Paulo" no lugar do sabiá, Oswald comenta a ideologia do modernismo paulistano — aquele entusiasmo com a industrialização e a urbanização que marcou os anos 1920 no Brasil. O poema pode, ao mesmo tempo, celebrar e zombar desse entusiasmo, deixando ambígua a intenção do eu lírico. Essa ambiguidade é uma característica avançada da paródia: ela pode operar em mais de um registro ao mesmo tempo, e cabe ao leitor decidir — com base em seu conhecimento do contexto histórico e do texto original — qual interpretação é mais sustentável. [chapter-callout-label: Perfil] **Gonçalves Dias** (1823–1864) foi o principal poeta do Romantismo brasileiro. Filho de pai português e mãe de origem indígena e afrodescendente, nasceu no Maranhão. Escreveu a "Canção do Exílio" enquanto estudava em Coimbra, Portugal, aos 20 anos — circunstância que explica a saudade real que permeia o poema. Sua obra celebra a natureza brasileira e os povos indígenas, tornando-se símbolo da identidade nacional. **Oswald de Andrade** (1890–1954) foi escritor, dramaturgo e um dos líderes do Modernismo brasileiro. Paulistano de família abastada, participou da Semana de Arte Moderna de 1922 e desenvolveu a teoria do "Canibalismo Cultural": a ideia de que a arte brasileira deveria "devorar" influências estrangeiras e nacionais para criar algo radicalmente novo. Seu "Canto de Regresso à Pátria" faz exatamente isso com o poema de Gonçalves Dias. [INTERACTIVE: A1 | mapa mental | Acesse o mapa mental interativo sobre efeitos de sentido na paródia — ironia, humor, crítica e os mecanismos de transformação — na plataforma Teachy] [Section 5] ## Na prática Agora que você compreendeu os mecanismos de transformação e os efeitos de sentido produzidos pela paródia, é hora de praticá-los diretamente com os poemas que estudamos. Os exercícios a seguir pedem que você localize, identifique e explique o que acontece quando Oswald de Andrade "conversa" com Gonçalves Dias. [P1] (DOK 1) Leia os versos abaixo, retirados do poema "Canto de Regresso à Pátria", de Oswald de Andrade: > *Não permita Deus que eu morra* > *Sem que volte pra São Paulo* > *Sem que veja a Rua 15* > *E o progresso de São Paulo* Identifique dois elementos que Oswald de Andrade retomou diretamente do poema "Canção do Exílio", de Gonçalves Dias. [LINES: 3] --- [P2] (DOK 2) Leia este trecho da "Canção do Exílio", de Gonçalves Dias: > *Minha terra tem palmeiras,* > *Onde canta o Sabiá.* No poema de Oswald de Andrade, a imagem das palmeiras é substituída pela referência à Rua 15 e ao "progresso de São Paulo". Explique como essa substituição transforma o sentido do texto original. _Dica: Pense na diferença entre o que Gonçalves Dias valoriza como símbolo da pátria e o que Oswald coloca no lugar disso._ [LINES: 4] --- [P3] (DOK 2) O quadro abaixo apresenta duas afirmações sobre a relação entre os poemas de Gonçalves Dias e Oswald de Andrade. Indique qual das afirmações descreve corretamente uma paródia e explique por quê. **Afirmação A:** O poema de Oswald retoma a estrutura e o vocabulário do poema de Gonçalves Dias para confirmar e reforçar o mesmo sentimento de saudade e amor à pátria. **Afirmação B:** O poema de Oswald retoma elementos do poema de Gonçalves Dias, mas os transforma com ironia, substituindo imagens naturais por referências urbanas e críticas ao progresso. _Dica: Lembre-se da diferença entre paráfrase (confirma o sentido do original) e paródia (subverte esse sentido)._ [LINES: 4] --- [P4] (DOK 2) Analise o verso de Oswald "E o progresso de São Paulo", que repete por duas vezes a expressão "São Paulo" — uma para indicar o lugar e outra para elogiar seu "progresso". Que efeito de sentido esse recurso cria em relação ao tom do poema de Gonçalves Dias, que expressa saudade sincera da pátria? _Dica: Considere se a repetição soa como admiração genuína ou como exagero irônico._ [LINES: 4] [Section 6] ## Exercícios Nos exercícios a seguir, você irá transferir o que aprendeu para novos contextos. Ao analisar textos que vão além dos dois poemas estudados, você exercita a capacidade de reconhecer paródias em diferentes situações e de nomear, com precisão, os efeitos de sentido que elas produzem. [I1] (DOK 2) Leia o trecho a seguir, adaptado da "Canção do Exílio", de Gonçalves Dias, e a paródia de Oswald de Andrade: > **Canção do Exílio (Gonçalves Dias, 1843)** > *Não permita Deus que eu morra,* > *Sem que volte para lá;* > *Sem que desfrute os primores* > *Que não encontro por cá.* > **Canto de Regresso à Pátria (Oswald de Andrade, 1925)** > *Não permita Deus que eu morra* > *Sem que volte pra São Paulo* > *Sem que veja a Rua 15* > *E o progresso de São Paulo* No poema de Gonçalves Dias, "os primores" que o eu lírico deseja reencontrar são os da natureza tropical. Ao substituir esses "primores" pela "Rua 15" e pelo "progresso de São Paulo", Oswald de Andrade produz um efeito de sentido que pode ser descrito como: (A) Reafirmação do amor romântico à pátria, ampliando a imagem da natureza para incluir também as conquistas urbanas do Brasil. (B) Paráfrase fiel ao original, pois o desejo de retornar ao país permanece o mesmo, com apenas uma atualização de referências geográficas. (C) Subversão irônica do sentimento de saudade, substituindo a natureza idealizada por imagens urbanas que deflacionam o tom elevado do romantismo. (D) Crítica direta ao Romantismo de Gonçalves Dias, negando a existência de qualquer sentimento de pertencimento nacional no eu lírico modernista. (E) Pastiche do estilo romântico, que imita a linguagem e o tom do original sem transformar nem questionar o seu significado. **Gabarito:** C --- [I2] (DOK 2) Paródias não existem só na literatura. Músicas populares, memes e propagandas frequentemente retomam textos conhecidos e os transformam com humor ou crítica. Pense em um exemplo de paródia que você já viu ou ouviu fora da sala de aula — pode ser uma música, um meme, um vídeo ou uma campanha. Descreva brevemente esse exemplo e explique qual elemento do texto ou obra original foi retomado e como ele foi transformado para criar um novo efeito de sentido. [LINES: 6] --- [I3] (DOK 3) Leia os dois poemas na íntegra: > **Canção do Exílio (Gonçalves Dias)** > *Em cismar, sozinho, à noite,* > *Mais prazer encontro eu lá;* > *Minha terra tem palmeiras,* > *Onde canta o Sabiá.* > > *Minha terra tem primores,* > *Que tais não encontro eu cá;* > *Em cismar — sozinho, à noite —* > *Mais prazer encontro eu lá;* > *Minha terra tem palmeiras,* > *Onde canta o Sabiá.* > > *Não permita Deus que eu morra,* > *Sem que volte para lá;* > *Sem que desfrute os primores* > *Que não encontro por cá;* > *Sem qu'inda aviste as palmeiras,* > *Onde canta o Sabiá.* > **Canto de Regresso à Pátria (Oswald de Andrade)** > *Não permita Deus que eu morra* > *Sem que volte pra São Paulo* > *Sem que veja a Rua 15* > *E o progresso de São Paulo* No poema de Gonçalves Dias, escrito durante o exílio do poeta em Portugal, a pátria é representada como um paraíso natural, e o sentimento dominante é a saudade idealizada. No poema de Oswald de Andrade, escrito no contexto do Modernismo brasileiro, esse mesmo modelo é retomado e transformado. a) Identifique dois recursos linguísticos ou imagens do poema de Gonçalves Dias que Oswald de Andrade retoma em seu texto. b) Analise como cada um desses recursos foi transformado e que efeito de sentido — irônico, crítico ou humorístico — essa transformação produz no leitor. [LINES: 10] --- [I4] (DOK 3 — síntese) A paródia é uma forma de intertextualidade que depende do conhecimento prévio do leitor: sem saber o texto original, o leitor não consegue perceber a transformação nem o novo sentido produzido. Com base nos dois poemas estudados neste capítulo, analise de que forma o efeito de sentido da paródia de Oswald de Andrade depende do conhecimento do leitor sobre a "Canção do Exílio" de Gonçalves Dias. Em sua resposta, aponte pelo menos um elemento concreto dos poemas que exemplifique essa dependência. [LINES: 8] [INTERACTIVE: D | responda na plataforma | Escaneie para responder os exercícios desta seção na plataforma Teachy e receber correção e comentários automáticos] [Section 8] ## O que a paródia nos ensina sobre leitura Chegamos ao final deste capítulo. Você percorreu um longo caminho desde a primeira vez que encontrou os dois poemas: identificou a intertextualidade, distinguiu paródia de paráfrase, e agora analisou em detalhe os mecanismos pelos quais a paródia transforma os sentidos do texto original. Mas há uma pergunta que ficou no ar desde o início do capítulo — aquela que abrimos com a "Canção do Exílio": *quando um texto imita outro mudando seu tom e sentido, o que exatamente se transforma?* Agora você tem condições de responder. O que se transforma não é apenas a letra do texto — são os valores, as intenções e os efeitos que ele produz no leitor. Oswald de Andrade não mudou apenas as palavras de Gonçalves Dias: ele virou de cabeça para baixo a ideia de pátria, trocou a natureza pelo concreto urbano e transformou a saudade sincera em ironia. E fez tudo isso usando a própria estrutura do poema original como espelho. Isso é o poder da paródia: ela usa o passado para falar do presente. Mais do que imitar, ela questiona. [chapter-callout-label: Zoom] **Para refletir:** Você conseguiria identificar a ironia no poema de Oswald sem ter lido o poema de Gonçalves Dias? E se não conseguisse, o que isso diz sobre a importância do repertório de leituras para compreender textos paródicos? **Auto-avaliação — O que você aprendeu neste capítulo:** | Habilidade | Ainda estou aprendendo | Já consigo fazer | Domino bem | |:-----------|:----------------------|:-----------------|:-----------| | Identificar elementos que a paródia retoma do texto original | ( ) | ( ) | ( ) | | Explicar como a substituição de imagens muda o sentido de um poema | ( ) | ( ) | ( ) | | Reconhecer os efeitos de sentido (ironia, humor, crítica) produzidos pela paródia | ( ) | ( ) | ( ) | | Diferenciar paródia de paráfrase com base na intenção e no efeito produzido | ( ) | ( ) | ( ) | | Analisar como o conhecimento do texto original influencia a leitura da paródia | ( ) | ( ) | ( ) | Em uma frase, complete: "Uma paródia só funciona porque..." [LINES: 2] [INTERACTIVE: A2 | tutor de revisao | Acesse o tutor de revisão interativo na Teachy para revisar os conceitos de paródia e efeitos de sentido trabalhados neste capítulo]
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