Emprego de Mas e Mais
# Emprego de *Mas* e *Mais* [Sequence 1] Olá! Eu sou Harry Potter, e antes de chegar a Hogwarts aprendi que uma única palavra pode mudar tudo: o rumo de um feitiço, o destino de uma batalha, a vida de uma pessoa. No mundo da língua portuguesa, a mesma magia acontece. Você já parou para pensar que uma única palavra pode mudar completamente o sentido de uma frase? Imagine que você manda a seguinte mensagem para um amigo: *"Quero ir ao show, mas não tenho ingresso."* Agora leia esta outra: *"Quero ir ao show e quero mais alguém para me acompanhar."* Percebe como a sensação que cada frase desperta é completamente diferente? A primeira traz uma frustração, uma barreira entre o desejo e a realidade. A segunda, ao contrário, expressa entusiasmo e busca por companhia. Essa diferença toda nasce de duas palavrinhas que soam quase igual: **mas** e **mais**. Em resumo, ao longo deste capítulo vamos investigar juntos como essas duas palavras constroem sentidos opostos — e por que escolher a errada pode transformar completamente o que você quis dizer. [Sequence 2] Antes de mergulharmos nessa investigação, quero saber o que você já carrega dessa experiência. Pense: quando você conta para um amigo que queria fazer algo e algo atrapalhou, que palavras você usa para marcar essa virada? Em Hogwarts, eu aprendi que as melhores lições começam justamente com o que a gente já sabe — e você provavelmente já usa "mas" o tempo todo sem perceber. [D1] Pense em uma situação do seu dia a dia em que você quis fazer algo, mas algo atrapalhou. Como você contaria essa história para um amigo? Escreva duas ou três frases descrevendo o que aconteceu. Em resumo, o exercício acima revela que você já domina intuitivamente a ideia de oposição — agora vamos dar nome e forma a essa intuição. [Sequence 4] ## Um conto, uma moeda e uma escolha Para investigarmos como **mas** funciona na construção do sentido, vamos ler um trecho do conto **"Conto de Escola"**, do escritor brasileiro **Machado de Assis**, publicado na coletânea *Várias Histórias* em 1896. --- > Compreende-se que o ponto da lição era difícil, e que o Raimundo, não o tendo aprendido, recorria a um meio que lhe pareceu útil para escapar ao castigo do pai. Se me tem pedido a coisa por favor, alcançá-la-ia do mesmo modo, como de outras vezes, **mas** parece que era lembrança das outras vezes, o medo de achar a minha vontade frouxa ou cansada, e não aprender como queria, — e pode ser mesmo que em alguma ocasião lhe tivesse ensinado mal, — parece que tal foi a causa da proposta. O pobre-diabo contava com o favor, — **mas** queria assegurar-lhe a eficácia, e daí recorreu à moeda que a mãe lhe dera e que ele guardava como relíquia ou brinquedo; pegou dela e veio esfregá-la nos joelhos, à minha vista, como uma tentação... Realmente, era bonita, fina, branca, muito branca; e para mim, que só trazia cobre no bolso, quando trazia alguma coisa, um cobre feio, grosso, azinhavrado... > > Não queria recebê-la, e custava-me recusá-la. Olhei para o mestre, que continuava a ler, com tal interesse, que lhe pingava o rapé do nariz. "Ande, tome", dizia-me baixinho o filho. E a pratinha fuzilava-lhe entre os dedos, como se fora diamante... Em verdade, se o mestre não visse nada, que mal havia? E ele não podia ver nada, estava agarrado aos jornais, lendo com fogo, com indignação... > > Relancei os olhos pela sala, e dei com os do Curvelo em nós; disse ao Raimundo que esperasse. Pareceu-me que o outro nos observava, então dissimulei; **mas** daí a pouco deitei-lhe outra vez o olho, e — tanto se ilude a vontade! — não lhe vi mais nada. Então cobrei ânimo. > > Raimundo deu-me a pratinha, sorrateiramente; eu meti-a na algibeira das calças, com um alvoroço que não posso definir. Cá estava ela comigo, pegadinha à perna. Restava prestar o serviço, ensinar a lição e não me demorei em fazê-lo, nem o fiz mal, ao menos conscientemente; passava-lhe a explicação em um retalho de papel que ele recebeu com cautela e cheio de atenção. Sentia-se que despendia um esforço cinco ou seis vezes maior para aprender um nada; **mas** contanto que ele escapasse ao castigo, tudo iria bem. > > De repente, olhei para o Curvelo e estremeci; tinha os olhos em nós, com um riso que me parecia mau. Disfarcei; **mas** daí a pouco, voltando-me outra vez para ele, achei-o do mesmo modo, com o mesmo ar, acrescendo que entrava a remexer-se no banco, impaciente. > > — Precisamos muito cuidado, disse eu ao Raimundo. > — Diga-me isto só, murmurou ele. > > Fiz-lhe sinal que se calasse; **mas** ele instava, e a moeda, cá no bolso, lembrava-me o contrato feito. *(Machado de Assis. "Conto de Escola". In: Várias Histórias. Rio de Janeiro: Garnier, 1896.)* --- Releia o trecho prestando atenção em cada ocorrência da palavra **mas**. Em cada caso, o que acontece com a história logo depois que ela aparece? A ação segue na mesma direção, ou algo muda, contraria o que veio antes? [chapter-section: Perfil] **Machado de Assis** (1839–1908) é o maior nome da literatura brasileira. Nascido no Rio de Janeiro, filho de um pintor de paredes e de uma imigrante portuguesa, tornou-se autodidata e conquistou o mais alto prestígio literário de seu tempo. Fundou a Academia Brasileira de Letras em 1897 e a presidiu até sua morte. Em "Conto de Escola", Machado narra a memória de uma transgressão da infância com a ironia sutil e o olhar preciso que marcam toda a sua obra. ## *Mas*: quando as ideias se opõem Você notou que, toda vez que o narrador usa **mas** no conto, a frase seguinte contraria ou restringe o que acabou de ser dito? Isso acontece porque **mas** é uma **conjunção coordenativa adversativa**: ela liga duas ideias estabelecendo entre elas uma relação de **oposição, contraste ou restrição**. Observe diretamente no texto: *"O pobre-diabo contava com o favor, — **mas** queria assegurar-lhe a eficácia."* Raimundo confiava no favor do narrador, mas não confiava plenamente. A segunda parte da frase não confirma a primeira — ela a restringe, revela uma dúvida que a primeira parte não deixava ver. Esse é o efeito fundamental de "mas": ele **interrompe a expectativa** criada pela primeira ideia e introduz um ângulo novo, contrário ou limitador. Outros elementos da língua exercem função semelhante: **porém**, **contudo**, **todavia**, **entretanto** e **no entanto** são articuladores textuais adversativos que podem substituir "mas" em muitos contextos, especialmente em textos mais formais. ## *Mais*: quando as ideias se somam Agora veja a diferença. **Mais** não é uma conjunção — é um **advérbio** (ou adjetivo) que expressa **adição, intensidade ou quantidade**. Quando dizemos *"Preciso de mais tempo"*, estamos indicando quantidade. Quando dizemos *"Ele se dedicou e aprendeu mais ainda"*, estamos intensificando e somando ao que já foi dito. Enquanto "mas" gera uma quebra, uma virada na direção do texto, "mais" gera uma **acumulação**: a ideia cresce, se amplia, se intensifica. Imagine duas setas: "mais" aponta na mesma direção, somando força; "mas" aponta em sentido oposto, criando atrito entre as ideias. [chapter-section: Comparando...] | Aspecto | **MAS** | **MAIS** | |---|---|---| | Classe gramatical | Conjunção coordenativa adversativa | Advérbio / adjetivo | | Relação estabelecida | Oposição, contraste, restrição | Adição, intensidade, quantidade | | Efeito de sentido | Interrompe a expectativa; introduz virada | Acumula, amplia, intensifica | | Exemplo (do conto) | *"Contava com o favor, — **mas** queria assegurar-lhe a eficácia."* | — | | Substitutos textuais | porém, contudo, todavia, entretanto | além disso, ainda, também | ## Como não confundir os dois Vou te ensinar o truque que eu mesmo uso para distinguir palavras que soam parecido — como se fosse um feitiço de identificação. Para não trocar "mas" por "mais" (ou vice-versa), aplique dois testes diretamente na frase: **Teste 1 — Substituição por "porém":** Se a frase mantiver sentido com "porém" no lugar, use **mas**. Relembre o conto: *"Fiz-lhe sinal que se calasse; porém ele instava."* Funcionou? Então é **mas**. **Teste 2 — Sentido de quantidade ou intensidade:** Se a palavra indicar soma, reforço ou quantidade, use **mais**. Pergunte: a frase expressa "quanto?" ou "o quanto?"? Exemplo: *"Sentia-se que despendia um esforço cinco ou seis vezes maior para aprender um nada."* O "maior" aí funciona como intensificador — é a lógica de "mais". Se trocar por "porém" não funciona e a ideia é de soma ou grau, é **mais**. Em resumo, a escolha entre "mas" e "mais" não é questão de sonoridade, mas de qual relação lógica você quer estabelecer: oposição ou adição. **Images:** - https://storage.googleapis.com/teachy-classroom-contents/images/imported/91e12d9a02d00b98617aaf698f9707eb.png — Ilustração de orações compostas por coordenação, com a conjunção "E" em destaque entre duas frases em português | Attribution: Fonte: Teachy - Teachy - [GENERATE] Ilustração mostrando duas setas: uma vermelha apontando em sentido oposto (rotulada "MAS — oposição") e uma verde apontando para frente e acima (rotulada "MAIS — adição/intensidade"), com exemplos de frases ao lado de cada seta, fundo branco, estilo didático | mas-mais-setas.png | 4:3 [INTERACTIVE: a1-sl | Explore os slides interativos sobre conjunções e articuladores textuais na plataforma Teachy] ## Na prática Vamos testar juntos se você já consegue perceber como "mas" e "mais" produzem efeitos de sentido diferentes. Eu aprendi em Hogwarts que praticar com exemplos reais é sempre o melhor caminho — então usaremos o próprio texto de Machado de Assis como ponto de partida. Será que você consegue identificar a diferença mesmo quando as frases parecem bem parecidas? [P1] Leia as frases abaixo e identifique qual delas usa "mas" corretamente para expressar oposição: (A) Estudei muito mais para a prova de matemática. (B) Ela queria ir à festa, mas estava com febre. (C) Preciso de mais tempo para terminar o trabalho. (D) Comeu mais do que devia no jantar. *Resposta: B* [P2] Observe o par de frases a seguir: - Frase 1: "Ele é inteligente, **mas** não se dedica aos estudos." - Frase 2: "Ele é inteligente e quer aprender **mais** a cada dia." Qual das alternativas descreve corretamente o efeito de sentido produzido pelo uso de "mas" na Frase 1? (A) Reforça a ideia de que ele é inteligente e dedica-se muito. (B) Indica que a inteligência é insuficiente; há uma restrição ou contraste. (C) Acrescenta uma nova qualidade positiva ao personagem. (D) Aumenta a intensidade da ideia expressa na primeira parte da frase. *Resposta: B* [P3] Leia o trecho do conto "Conto de Escola", de Machado de Assis: > "Fiz-lhe sinal que se calasse; **mas** ele instava, e a moeda, cá no bolso, lembrava-me o contrato feito." a) Qual relação de sentido é estabelecida pelo uso de "mas" neste trecho? b) Reescreva a frase substituindo "mas" por "e mais ainda". O sentido se mantém? Explique em uma frase. *Dica: Pergunte-se: a segunda parte da frase contraria ou complementa a primeira?* Em resumo, as questões acima mostram que o efeito de "mas" é sempre o mesmo: introduzir uma virada, um "porém" que reorienta a leitura. ## Exercícios Eu também enfrentei desafios que pareciam simples mas exigiam atenção ao detalhe — e é exatamente isso que estes exercícios vão pedir de você. Cada questão traz um contexto diferente; antes de responder, pergunte-se: as ideias se opõem ou se somam? [I1] *Leia o trecho a seguir, retirado do conto "Conto de Escola", de Machado de Assis (1884):* > "O pobre-diabo contava com o favor, — **mas** queria assegurar-lhe a eficácia, e daí recorreu à moeda que a mãe lhe dera e que ele guardava como relíquia ou brinquedo." No trecho acima, o narrador usa "mas" para articular duas informações sobre o personagem Raimundo. O emprego desse articulador textual produz o seguinte efeito de sentido: (A) Indica que Raimundo confiava plenamente no favor do colega, sem nenhuma reserva. (B) Reforça e amplia a ideia de que Raimundo dependia da generosidade do narrador. (C) Estabelece uma contradição: ao mesmo tempo que contava com o favor, Raimundo buscava garantias adicionais por meio do dinheiro. (D) Sugere que Raimundo desistiu de pedir o favor e optou apenas pela solução financeira. (E) Acrescenta uma informação que intensifica o sentimento de gratidão de Raimundo pelo narrador. *Resposta: C* [I2] *Leia o diálogo a seguir:* > — Você vai me ajudar com o projeto? > — Quero muito te ajudar, ___ tenho três provas esta semana. > — Entendo. Preciso de ___ uma semana para entregar, posso esperar. Identifique qual palavra ("mas" ou "mais") preenche corretamente cada lacuna e explique o efeito de sentido produzido em cada caso. [LINES: 5] [I3] *Leia as duas versões de uma mesma frase:* > Versão A: "A professora explicou a matéria, **mas** os alunos não entenderam." > Versão B: "A professora explicou a matéria e pediu **mais** exemplos para facilitar a compreensão." Analise como a troca entre "mas" e "mais" altera o efeito de sentido produzido em cada versão. Em sua resposta, identifique a relação lógica estabelecida em cada frase. [LINES: 5] [I4] *Leia o trecho do "Conto de Escola", de Machado de Assis:* > "Sentia-se que despendia um esforço cinco ou seis vezes maior para aprender um nada; **mas** contanto que ele escapasse ao castigo, tudo iria bem." O narrador usa "mas" para organizar as ideias do personagem Raimundo nesse momento da narrativa. Com base no contexto do trecho e no efeito de sentido produzido pelo articulador textual, explique de que forma o uso de "mas" revela a lógica interna do personagem diante da situação em que se encontra. [LINES: 8] Em resumo, os exercícios acima mostram que reconhecer "mas" e "mais" em textos literários e cotidianos é o mesmo que decifrar a intenção do autor — e essa é uma habilidade que você carregará em toda leitura que fizer. [chapter-section: Nossa língua na rua] Nos textos que circulam em redes sociais, nas manchetes de jornal e nas letras de música, "mas" e "mais" aparecem o tempo todo. Da próxima vez que você ler uma notícia ou uma postagem, marque as ocorrências dessas duas palavras e pergunte-se: a frase traz uma virada, uma oposição? Então é **mas**. Indica soma, intensidade ou quantidade? Então é **mais**. Traga um exemplo encontrado para discutir com a turma. [INTERACTIVE: d-rp | Escaneie para responder estas questões na plataforma Teachy e receber correção automática com feedback] [Sequence 8] ## O que uma palavra pode fazer Agora que você conhece o papel de "mas" e "mais" como articuladores do sentido, eu te convido a reler a pergunta que abrimos no começo: *uma única palavra pode mudar completamente o sentido de uma frase?* Em Hogwarts, aprendi que sim — e o "Conto de Escola" prova isso em cada parágrafo. Machado de Assis usou "mas" várias vezes em poucas linhas, e cada ocorrência revela algo novo sobre os personagens: as hesitações, as contradições, os medos que movem cada decisão. Perceber esse detalhe transforma a maneira como você lê e escreve. Você acha que, se Machado tivesse trocado um desses "mas" por "e mais ainda", a história teria o mesmo efeito sobre o leitor? **Auto-avaliação:** Marque seu nível de confiança em cada habilidade trabalhada neste capítulo: | Habilidade | Ainda preciso praticar | Já consigo fazer | Domino completamente | |:---|:---|:---|:---| | Identificar "mas" como conjunção adversativa (oposição) | ( ) | ( ) | ( ) | | Identificar "mais" como advérbio/adjetivo (adição/intensidade) | ( ) | ( ) | ( ) | | Inferir o efeito de sentido produzido por cada um em textos | ( ) | ( ) | ( ) | | Aplicar os testes de substituição para não confundir os dois | ( ) | ( ) | ( ) | Em resumo, a escolha de "mas" ou "mais" nunca é aleatória: cada uma dessas palavras constrói uma relação lógica diferente entre as ideias, e dominar essa diferença é parte essencial de ler e escrever com precisão. Em uma frase, complete: "Quando um texto usa 'mas', o leitor deve esperar..."
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