Escrita de Crônica
# Escrita de Crônica [Section 4] No capítulo anterior, você planejou sua crônica: escolheu o tema, definiu o ponto de vista do narrador e decidiu o tom que queria imprimir ao texto. Agora chega o momento de colocar essas escolhas em movimento — transformar o planejamento em palavras, parágrafos, em crônica. Para isso, vamos partir dos textos de dois grandes cronistas brasileiros. --- **Bons dias** | Machado de Assis *(publicado no Jornal do Brasil, 1888)* No dia seguinte, chamei o Pancrácio e disse-lhe com rara franqueza: — Tu és livre, podes ir para onde quiseres. Aqui tens casa amiga, já conhecida e tens mais um ordenado, um ordenado que... — Oh! meu senhô! Fico. — ... Um ordenado pequeno, mas que há de crescer. Tudo cresce neste mundo; tu cresceste imensamente. Quando nasceste, eras um pirralho deste tamanho; hoje estás mais alto que eu. Deixa ver; olha, és mais alto quatro dedos... — Artura não qué dizê nada, não, senhô... — Pequeno ordenado, repito, uns seis mil-réis; mas é de grão em grão que a galinha enche o seu papo. Tu vales muito mais que uma galinha. — Eu vaio um galo, sim senhô. — Justamente. Pois seis mil-réis. No fim de um ano, se andares bem, conta com oito. Oito ou sete. Pancrácio aceitou tudo; aceitou até um peteleco que lhe dei no dia seguinte, por me não escovar bem as botas; efeitos da liberdade. Mas eu expliquei-lhe que o peteleco, sendo um impulso natural, não podia anular o direito civil adquirido por um título que lhe dei. Ele continuava livre, eu de mau humor; eram dois estados naturais, quase divinos. --- **Esquina** | Mário de Andrade *(publicado em jornal, décadas de 1930–40)* Contemplando essa gente do segundo andar, me ponho imaginando a classe a que pertence. É um lento exército de infiéis, que fazem todos os esforços para não pertencer à classe operária. Mas é fácil verificar que não chegam a ser essa pequena burguesia que vive agarrada ao seu bem-bom e indiferente a tudo mais. Não. É uma casta de inclassificáveis, cuja forma essencial de vida é a instabilidade. Enorme parte dela é pessoal do biscate, que a audácia faz pegar qualquer serviço, qualquer. Ou são empregados baratos que insistem em bancar alturas, e só começam vivendo quando de noite, no sábado, se transfiguram na roupa cinza e no sapato de praia, e vão por aí, feito gatos, buscando amor. Ou são costureirinhas, bordadeiras, chapeleiras que não trabalham na oficina, isso não! trabalhar "particular", menos vivendo do seu recato ou tradição renitente que da espera de algum príncipe que as eleve a frequentadoras de bar. --- Antes de avançar para a teoria, observe os dois textos. Em "Bons dias", quem fala? Que relação existe entre as duas personagens? E em "Esquina", o narrador participa da cena ou a contempla de fora? Que palavra ou expressão em cada texto revela mais claramente a posição do narrador diante do que narra? ## Da observação ao texto: a etapa de textualização Textualizar significa dar forma escrita ao que estava apenas na mente. Em uma crônica, esse processo começa pela **abertura**: o parágrafo inicial que situa o leitor no tempo, no espaço e na situação que será narrada. Machado inicia diretamente com um diálogo que nos joga dentro de uma cena doméstica — "chamei o Pancrácio e disse-lhe com rara franqueza" —, e nessa única linha o leitor já sabe quem fala, a quem se dirige e que há uma relação de poder disfarçada de generosidade. A abertura, portanto, não precisa ser longa: precisa ser precisa. Depois da abertura, vem o **enredo**: o desenvolvimento da situação observada. Diferentemente do conto, a crônica raramente constrói um conflito dramático intenso; em vez disso, ela aprofunda um olhar, acumula detalhes reveladores ou deixa que a cena se desdobre em reflexão. Em "Esquina", Mário de Andrade não narra um acontecimento — ele observa tipos humanos e vai nomeando cada um com ironia cuidadosa: "pessoal do biscate", "empregados baratos que insistem em bancar alturas", "costureirinhas... da espera de algum príncipe". A cena existe para revelar algo sobre a sociedade, e é esse olhar crítico que sustenta o texto até o final. [chapter-callout-label: Perfil] **Machado de Assis** (Rio de Janeiro, 1839–1908) foi romancista, contista, poeta e cronista, considerado o maior nome da literatura brasileira. Fundador e primeiro presidente da Academia Brasileira de Letras, publicou crônicas em jornais ao longo de toda a sua carreira. "Bons dias" foi escrita no dia seguinte à assinatura da Lei Áurea (1888) e usa o cotidiano doméstico para denunciar, com ironia, que a abolição não garantiu liberdade real ao povo negro. **Mário de Andrade** (São Paulo, 1893–1945) foi poeta, romancista, musicólogo e cronista, e uma das figuras centrais do Modernismo brasileiro. Publicou crônicas em jornais como a *Folha da Manhã*, transformando as ruas paulistanas em matéria literária e apontando, com ironia precisa, as contradições de uma sociedade urbana em formação. ## Recursos expressivos: como o cronista faz você sentir a cena A diferença entre um relato comum e uma crônica está, em boa parte, nos **recursos expressivos** — escolhas de linguagem que conferem beleza, precisão ou intensidade ao texto. Esses recursos não são enfeites: cada um deles serve a um propósito específico dentro do texto. Entre os mais frequentes na crônica, destacam-se: - **Ironia**: dizer o contrário do que se pensa, ou colocar lado a lado realidades que se contradizem. Quando Machado escreve que Pancrácio "aceitou até um peteleco que lhe dei no dia seguinte, por me não escovar bem as botas; efeitos da liberdade", a ironia corta com precisão: o mesmo homem que acabou de receber a liberdade ainda apanha do antigo senhor. - **Metáfora**: comparação implícita que cria uma imagem nova. Em "Esquina", Mário descreve homens que "vão por aí, feito gatos, buscando amor" — a comparação evoca discrição, oportunismo e algo de noturno, sem precisar dizer nada disso diretamente. - **Oralidade**: marcas da fala que aproximam narrador e leitor. Machado registra a fala de Pancrácio com grafia fonética ("meu senhô", "Artura não qué dizê nada"), criando efeito de realidade e evidenciando a distância social entre as personagens ao mesmo tempo. - **Descrição sensorial**: detalhes que ativam os sentidos — o que se vê, ouve ou sente na cena — para aproximar o leitor da experiência narrada. Em "Esquina", a "roupa cinza e o sapato de praia" do sábado à noite pintam, sem explicação adicional, toda a aspiração e a precariedade desses tipos sociais. O uso consciente desses recursos é o que transforma uma observação cotidiana em literatura. Trata-se de escolher, a cada frase, qual palavra ou imagem serve melhor ao efeito desejado — não de acumular figuras de linguagem por acumular. [chapter-callout-label: Zoom] Releia: *"Ele continuava livre, eu de mau humor; eram dois estados naturais, quase divinos."* Que recurso expressivo Machado usa nessa frase? Que efeito ele produz no leitor? ## O ponto de vista como escolha fundamental Uma das decisões mais importantes da textualização é o **ponto de vista do narrador**. Na crônica em primeira pessoa, o narrador aparece como "eu" e participa da cena: vemos o mundo pelos seus olhos, sentimos seus julgamentos. É o caso de "Bons dias" — Machado narra como o próprio senhor que libertou Pancrácio, e essa escolha é o que torna a ironia tão afiada, porque o narrador não percebe (ou finge não perceber) o absurdo do que diz. Na crônica em terceira pessoa, o narrador observa de fora, como quem descreve uma cena da janela. Em "Esquina", Mário contempla "essa gente do segundo andar" como um etnógrafo irônico, classificando tipos sem se incluir na cena. Esse distanciamento permite generalizar a observação, transformando personagens individuais em comentário sobre a sociedade inteira. Em ambos os casos, o ponto de vista carrega a perspectiva do cronista e orienta a leitura do leitor — por isso, definir o foco narrativo no planejamento e mantê-lo com consistência durante a textualização é essencial para que o texto ganhe coesão e personalidade. **Images:** - https://storage.googleapis.com/teachy-classroom-contents/images/imported/fa52ebddec1b33119f53d4f7328a24b0205a9bbe2553bd60ab1a5600147b145d.jpg — Retrato de Machado de Assis, fundador da Academia Brasileira de Letras e autor de "Bons dias", crônica que usa o cotidiano doméstico para revelar contradições sociais com ironia precisa [chapter-callout-label: Nossa língua na rua] O cronista vive de observar. Antes de escrever, ele presta atenção no que a maioria ignora: a frase que alguém diz esperando o ônibus, o gesto de um desconhecido, a expressão no rosto do vendedor. Da próxima vez que você sair de casa, anote, com o máximo de detalhes, uma cena de que ninguém mais pareceu se importar. Esse pode ser o começo da sua crônica. [INTERACTIVE: a1-sl | Acesse os slides interativos na Teachy para revisar as etapas da textualização e os principais recursos expressivos da crônica] [Section 5] ## Na prática Com os dois textos em mãos, é hora de praticar as escolhas que fazem parte da textualização. [P1] Leia o trecho abaixo, da crônica "Bons dias" de Machado de Assis: > "Pancrácio aceitou tudo; aceitou até um peteleco que lhe dei no dia seguinte, por me não escovar bem as botas; efeitos da liberdade." Na etapa de **planejamento** de uma crônica, o cronista precisa definir alguns elementos antes de começar a escrever. Assinale a alternativa que apresenta corretamente três elementos que devem ser definidos nessa etapa: (A) Tema, ponto de vista do narrador e tom do texto. (B) Número de parágrafos, quantidade de diálogos e tamanho das frases. (C) Revisão ortográfica, escolha do título definitivo e formatação final. (D) Publicação, circulação e recepção pelo leitor. **Gabarito:** A [P2] Releia o trecho da crônica "Esquina", de Mário de Andrade: > "É uma casta de inclassificáveis, cuja forma essencial de vida é a instabilidade. Enorme parte dela é pessoal do biscate, que a audácia faz pegar qualquer serviço, qualquer." O autor observou pessoas comuns em uma esquina e transformou essa observação cotidiana em crônica. Na etapa de **textualização**, que estratégias o cronista empregou para transformar uma cena urbana em texto literário? a) Identifique o ponto de vista adotado pelo narrador nesse trecho. b) Explique de que modo esse ponto de vista contribui para criar um efeito de proximidade com o leitor. _Dica: Observe as marcas verbais que indicam quem está falando e a quem o texto se dirige._ [P3] Releia o trecho de "Esquina" em que Mário de Andrade descreve os empregados baratos: > "Ou são empregados baratos que insistem em bancar alturas, e só começam vivendo quando de noite, no sábado, se transfiguram na roupa cinza e no sapato de praia, e vão por aí, feito gatos, buscando amor." Agora leia a versão simplificada abaixo, escrita sem recursos expressivos: > "Ou são empregados com pouco dinheiro. Eles saem no sábado à noite. Usam roupas arrumadas. Saem para encontrar pessoas." Na etapa de **reescrita**, o que se perde ao suprimir os recursos expressivos de Mário de Andrade? a) Aponte dois recursos expressivos presentes no trecho original que desapareceram na versão simplificada. b) Explique qual é o efeito de sentido produzido por cada um desses recursos no texto original. _Dica: Pergunte-se: o leitor consegue sentir a cena na versão simplificada, ou apenas entendê-la racionalmente?_ [P4] Releia o início da crônica "Bons dias" de Machado de Assis: > "No dia seguinte, chamei o Pancrácio e disse-lhe com rara franqueza: – Tu és livre, podes ir para onde quiseres." Antes de escrever essa crônica, Machado de Assis precisou fazer escolhas de planejamento. Com base no trecho lido, identifique: a) O tema central abordado pelo autor. b) O tom predominante — irônico, dramático, lírico ou informativo — e justifique sua resposta com uma expressão retirada do texto. _Dica: Atente ao significado da expressão "rara franqueza" e ao que se segue a ela no texto._ [Section 6] ## Exercícios [I1] Leia o trecho a seguir, retirado da crônica "Esquina", de Mário de Andrade: > "Ou são costureirinhas, bordadeiras, chapeleiras que não trabalham na oficina, isso não! trabalhar 'particular', menos vivendo do seu recato ou tradição renitente que da espera de algum príncipe que as eleve a frequentadoras de bar." O cronista observa tipos sociais com precisão irônica, usando escolhas lexicais que revelam um julgamento velado. Considerando o processo de produção de uma crônica — planejamento, textualização e reescrita —, a escolha da expressão "algum príncipe" no trecho acima demonstra que o autor: (A) Planejou o texto para narrar uma história de amor entre personagens de classes sociais diferentes. (B) Utilizou, na textualização, uma referência intertextual aos contos de fadas para intensificar a crítica social com ironia. (C) Reescreveu o trecho eliminando a linguagem cotidiana para substituí-la por registro mais formal e literário. (D) Definiu, no planejamento, que o ponto de vista seria o das próprias costureirinhas, relatando seus sonhos. (E) Empregou recursos expressivos típicos da crônica de ficção científica, afastando-se do cotidiano observado. **Gabarito:** B [I2] Leia o trecho abaixo, escrito por uma estudante do 8º ano durante a primeira versão de sua crônica sobre o recreio escolar: > "O recreio começou. Todo mundo saiu correndo. A lanchonete ficou cheia. A fila era grande. Demorou muito. O sinal bateu. Todo mundo voltou para a sala." Durante a etapa de **reescrita**, a estudante recebeu o seguinte critério de revisão: *"A crônica precisa de um ponto de vista definido, recursos expressivos e encadeamento entre as frases."* Com base nesse critério, reescreva o trecho acima produzindo uma versão mais expressiva da cena. Mantenha o tema (o recreio), mas empregue: um narrador com ponto de vista claro, ao menos um recurso expressivo (metáfora, personificação ou comparação) e conectivos que garantam a coesão entre as frases. [LINES: 8] [I3] A crônica "Bons dias", de Machado de Assis, aborda a Abolição da Escravidão de forma aparentemente cotidiana e pessoal, narrando a libertação de um escravizado chamado Pancrácio. Observe como o autor constrói seu planejamento: o tema é histórico, mas o foco recai sobre uma cena doméstica íntima, narrada em primeira pessoa com tom irônico. Imagine que você vai escrever uma crônica sobre um acontecimento recente em sua cidade ou escola — uma celebração coletiva, uma situação inusitada no transporte, ou outro evento cotidiano à sua escolha. a) Descreva o planejamento da sua crônica: indique o tema, o ponto de vista do narrador (primeira ou terceira pessoa), o tom (irônico, lírico, humorístico, reflexivo) e o público-alvo. b) Escreva o parágrafo de abertura da crônica planejada, aplicando as escolhas feitas no item anterior. [LINES: 10] [I4] Leia os dois excertos a seguir: **Texto 1 — "Bons dias", Machado de Assis:** > "Tu és livre, podes ir para onde quiseres. Aqui tens casa amiga, já conhecida e tens mais um ordenado, um ordenado que... – Oh! meu senhô! Fico." **Texto 2 — "Esquina", Mário de Andrade:** > "É uma casta de inclassificáveis, cuja forma essencial de vida é a instabilidade." Ambos os cronistas partem de observações do cotidiano para construir um olhar crítico sobre a sociedade brasileira. Considerando o processo de produção textual de uma crônica — planejamento, textualização e reescrita —, analise de que maneira cada autor faz escolhas expressivas distintas para abordar desigualdades sociais. a) Identifique em cada texto ao menos um recurso expressivo utilizado. b) Explique o efeito que esse recurso produz no leitor de cada crônica. [LINES: 12] [INTERACTIVE: d-rp | Escaneie para responder estes exercícios na Teachy e receber correção automática com comentários sobre suas escolhas expressivas]
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