Estratégias de Modalização Verbal

# Estratégias de Modalização Verbal [Sequence 4] Nas aulas anteriores, eu e você exploramos como o modo imperativo funciona e como o grau de formalidade muda o tom de um enunciado. Agora vamos dar um passo adiante: entender que o imperativo é apenas uma das estratégias que temos para modalizar o discurso, ou seja, para revelar a nossa atitude, intenção e posicionamento em relação ao que dizemos. ## O Sermão da Sexagésima, de Padre Antonio Vieira Antes de formalizar os conceitos, quero que você leia um dos textos mais importantes da nossa língua. Padre Antonio Vieira (1608–1697), jesuíta, escritor e orador barroco, era reconhecido pela força persuasiva de suas palavras. No trecho abaixo, do *Sermão da Sexagésima* (pregado em Lisboa, 1655), observe como Vieira usa os verbos para mover, instruir e convencer — como se fossem um feitiço lançado sobre quem ouve. --- **Sermão da Sexagésima** (trecho) Padre Antonio Vieira, 1655 Estamos às portas da Quaresma, que é o tempo em que principalmente se semeia a palavra de Deus na Igreja, e em que ela se arma contra os vícios. *Preguemos e armemo-nos todos contra os pecados, contra as soberbas, contra os ódios, contra as ambições, contra as invejas, contra as cobiças, contra as sensualidades.* Veja o Céu que ainda tem na terra quem se põe da sua parte. *Saiba o Inferno que ainda há na terra quem lhe faça guerra com a palavra de Deus, e saiba a mesma terra que ainda está em estado de reverdecer e dar muito fruto.* […] Assim há-de ser o pregar. Hão-de cair as coisas e hão-de nascer; tão naturais que vão caindo, tão próprias que venham nascendo. A queda é para as coisas, a cadência para as palavras, o caso para a disposição. A queda é para as coisas, porque hão-de vir bem trazidas e em seu lugar; hão-de ter queda. A cadência é para as palavras, porque não hão-de ser escabrosas nem dissonantes; hão-de ter cadência. O caso é para a disposição, porque há-de ser tão natural e tão desafectada que pareça caso e não estudo. --- *Fonte: Padre Antonio Vieira. "Sermão da Sexagésima". Lisboa, 1655. (Texto em português arcaico, reproduzido conforme original.)* [chapter-section: Perfil] **Padre Antonio Vieira (1608–1697)** nasceu em Lisboa, mas viveu grande parte da vida no Brasil. Jesuíta, missionário e orador, foi uma das vozes mais influentes do barroco lusófono. Suas pregações combinavam erudição bíblica com retórica elaborada. O *Sermão da Sexagésima* é considerado uma aula de técnica oratória e permanece como texto fundamental da língua portuguesa. --- Agora, antes de receber qualquer definição, eu quero que você investigue o texto como um detetive investiga uma cena. Responda mentalmente: - Em "Preguemos e armemo-nos todos", Vieira inclui a si mesmo na ordem. Que efeito isso produz em quem ouve? - "Veja o Céu", "Saiba o Inferno", "saiba a mesma terra" — a quem Vieira está ordenando? O que muda quando a ordem é dirigida a entidades não humanas? - "Hão-de cair as coisas e hão-de nascer" — isso é uma ordem ou uma previsão? Como você distingue os dois? --- ## Modalização: Muito Além do Imperativo Chegou o momento de nomear o que você já intuiu no texto de Vieira. Em linguagem, chamamos de **modalização** o mecanismo pelo qual o enunciador revela sua atitude em relação ao que diz: certeza ou dúvida, obrigação ou possibilidade, intenção ou afastamento. Como se fosse um ajuste fino no feitiço — a mesma frase, lançada com ingredientes diferentes, produz efeitos completamente distintos. O **modalizador** é o elemento linguístico que carrega essa marca de atitude. Pode ser um verbo no modo imperativo, uma perífrase verbal, um advérbio, um adjetivo ou até um sinal de pontuação. Cada um desses recursos orienta o leitor sobre *como* interpretar o enunciado. Veja como funciona na prática usando o próprio sermão: | Trecho do texto | Recurso de modalização | Efeito de sentido | |---|---|---| | "Preguemos e armemo-nos todos" | Imperativo na 1ª pessoa do plural | Inclui o pregador na obrigação; cria solidariedade e urgência coletiva | | "Saiba o Inferno que..." | Imperativo na 3ª pessoa | Ordem dirigida a uma entidade abstrata; reforça autoridade solene do pregador | | "Hão-de cair as coisas e hão-de nascer" | Perífrase de obrigação ("hão-de + infinitivo") | Exprime necessidade inevitável, quase uma lei natural do sermão | | "há-de ser tão natural e tão desafectada" | Perífrase + advérbio de intensidade | Combina obrigação com gradação — ressalta o ideal de estilo pregado | Perceba que Vieira não usa apenas o imperativo direto. Ele alterna entre o imperativo, as perífrases e os advérbios para criar variação de intensidade — como um músico que alterna entre piano e forte sem nunca perder a melodia. ### Tipos de Modalização Verbal As estratégias de modalização verbal se dividem em grupos conforme o efeito que produzem. No texto de Vieira, três delas são especialmente visíveis: **Modalização deôntica** expressa obrigação, permissão ou proibição. É o tipo mais ligado ao modo imperativo. Aparece em "Saiba o Inferno", "Preguemos" e também nas perífrases com *dever*, *ter de*, *precisar de*. Quando alguém usa modalização deôntica, está exercendo poder sobre o comportamento do outro — ou convocando-o a uma ação. **Modalização epistêmica** expressa certeza, dúvida ou probabilidade em relação ao conteúdo do que se diz. Em "será porventura o estilo que hoje se usa nos púlpitos?", Vieira usa *será* (futuro do presente) e *porventura* (advérbio de dúvida) para introduzir uma hipótese com aparência de dúvida, antes de descartá-la em seguida. Essa oscilação entre certeza e incerteza é uma estratégia retórica poderosa. **Modalização apreciativa** revela a avaliação do enunciador sobre o que diz — aprovação, reprovação, ironia. Em "Que diferente é o estilo violento e tirânico que hoje se usa!", o adjetivo *tirânico* carrega julgamento explícito. [chapter-section: Comparando...] No próprio *Sermão da Sexagésima*, Vieira alterna entre recursos de modalização com intensidades bem distintas. Compare os três trechos abaixo, retirados do mesmo texto: > **1.** "Saiba o Inferno que ainda há na terra quem lhe faça guerra." *(imperativo de 3ª pessoa — deôntico, ordem solene)* > **2.** "Hão-de cair as coisas e hão-de nascer." *(perífrase "hão-de + infinitivo" — deôntico inevitável, quase prescritivo)* > **3.** "Será porventura o estilo que hoje se usa nos púlpitos?" *(futuro do presente + advérbio "porventura" — epistêmico, dúvida hipotética)* O que muda de um para o outro não é a intenção de convencer, mas o grau de obrigação e a postura do pregador diante do que diz. No primeiro, Vieira ordena; no segundo, aponta uma lei inevitável; no terceiro, finge duvidar antes de responder com ironia. Quanto mais modalizado e indireto, mais o enunciador negocia sentidos com seu interlocutor. --- [INTERACTIVE: a1-mm | Explore o mapa mental interativo sobre estratégias de modalização verbal na plataforma Teachy] ## Na prática [Sequence 5] Agora vou te convidar a praticar com o próprio texto de Vieira ao seu lado. Como eu aprendi em Hogwarts, não basta conhecer o feitiço — é preciso saber quando e como usá-lo. Nos exercícios a seguir, você vai identificar efeitos de sentido do imperativo em diferentes gêneros, comparar graus de formalidade e reconhecer perífrases verbais e outros modalizadores como estratégias de atribuir obrigação, dúvida ou possibilidade ao discurso. [P1] **1.** Leia as frases abaixo e identifique, em cada uma, qual efeito de sentido o verbo no modo imperativo produz: **ordem**, **pedido**, **conselho** ou **instrução**. a) "Adicione o sal e mexa por dois minutos." *(receita culinária)* b) "Não perca essa oferta! Compre agora!" *(anúncio publicitário)* c) "Descanse bastante e beba muita água." *(orientação médica)* d) "Me passa o caderno, por favor?" *(mensagem de texto entre colegas)* --- [P2] **2.** Leia o trecho do *Sermão da Sexagésima*, de Padre Antonio Vieira: > "Preguemos e armemo-nos todos contra os pecados, contra as soberbas, contra os ódios, contra as ambições, contra as invejas, contra as cobiças, contra as sensualidades." O verbo "preguemos" está no modo imperativo. Explique de que forma a escolha desse modo verbal contribui para o efeito de sentido do trecho — considerando quem fala, para quem fala e em qual contexto. *Dica: Pense no grau de formalidade do sermão e na relação que Vieira estabelece com sua congregação ao usar a 1ª pessoa do plural no imperativo.* --- [P3] **3.** Compare os dois enunciados abaixo, que expressam a mesma intenção comunicativa: > **Versão A:** "Entregue o relatório até sexta-feira." > **Versão B:** "Gostaríamos que o relatório fosse entregue até sexta-feira." a) Classifique o grau de formalidade de cada versão (mais formal / menos formal / igualmente formal). b) Identifique a estratégia de modalização usada na Versão B em lugar do imperativo direto. *Dica: Observe o tempo e o modo verbal utilizados na Versão B. Que efeito essa escolha produz na relação entre quem fala e quem ouve?* --- [chapter-section: Nossa língua na rua] Observe textos ao redor — bulas de remédio, manuais de instruções, posts de redes sociais, receitas culinárias. Em cada um, o imperativo aparece de forma diferente: mais direto, mais suavizado, acompanhado de perífrases ou de advérbios. Traga um exemplo para a sala e discuta com os colegas: qual estratégia de modalização o texto usa? Que efeito ela produz? --- ## Exercícios [Sequence 6] É hora de aplicar o que aprendemos em novos contextos. Nos exercícios a seguir, você vai analisar estratégias de modalização em textos de gêneros e situações comunicativas variadas — como Vieira fazia ao dominar cada audiência com precisão cirúrgica. [I1] **1.** Leia o trecho a seguir, retirado do *Sermão da Sexagésima* (1655), de Padre Antonio Vieira, pregado em Lisboa: > "Veja o Céu que ainda tem na terra quem se põe da sua parte. Saiba o Inferno que ainda há na terra quem lhe faça guerra com a palavra de Deus, e saiba a mesma terra que ainda está em estado de reverdecer e dar muito fruto." Nesse trecho, a repetição da forma verbal "saiba" — conjugada no imperativo — produz um efeito de sentido específico no discurso religioso de Vieira. Esse uso do imperativo pode ser classificado como estratégia de modalização porque (A) substitui o modo indicativo, atenuando a certeza das afirmações e introduzindo dúvida sobre os fatos relatados. (B) expressa uma ordem dirigida simultaneamente ao Céu, ao Inferno e à terra, construindo uma argumentação que interpela forças além do auditório humano. (C) converte o sermão em um texto instrucional, com funções semelhantes às de uma bula de medicamento ou manual técnico. (D) demonstra que Vieira preferia formas informais de discurso, aproximando-se do vocabulário cotidiano do povo português do século XVII. (E) indica incerteza e dúvida do pregador em relação ao conteúdo do sermão, funcionando como modalizador epistêmico de baixa certeza. **Gabarito:** B --- [I2] **2.** Na tabela a seguir, estão registradas três formas de transmitir a mesma mensagem em contextos comunicativos diferentes: | Versão | Enunciado | Contexto | |--------|-----------|----------| | 1 | "Silêncio!" | Placa em biblioteca pública | | 2 | "Faz silêncio aí, gente." | Mensagem de voz em grupo de WhatsApp | | 3 | "Solicitamos que seja mantido o silêncio durante o evento." | Comunicado oficial de evento corporativo | Analise de que forma o grau de formalidade se reflete na escolha das estratégias de modalização em cada versão, explicando como isso altera a relação entre quem emite e quem recebe a mensagem. [LINES: 6] --- [I3] **3.** Leia este trecho de uma bula de medicamento: > "Guarde o medicamento em local seco e arejado. Não deixe ao alcance de crianças. Consulte o médico antes de usar." As três frases usam verbos no modo imperativo com função instrucional. Identifique a estratégia de modalização predominante nesse gênero textual e explique por que o imperativo direto, sem atenuadores, é adequado a esse contexto. [LINES: 5] --- [I4] **4.** Leia os dois fragmentos abaixo, extraídos de situações comunicativas distintas: **Fragmento 1 — publicação em rede social de influenciador digital:** > "Segue aí, curte esse post e manda pra galera! Não deixa de ver o vídeo completo no canal!" **Fragmento 2 — trecho do *Sermão da Sexagésima*, de Padre Antonio Vieira:** > "Não gostem e abrandem-se; não gostem e quebrem-se; não gostem e frutifiquem." Ambos os textos empregam o modo imperativo como estratégia central de modalização, mas produzem efeitos de sentido muito diferentes. Considerando o gênero textual, o contexto comunicativo e os recursos linguísticos que acompanham o imperativo em cada fragmento, explique as semelhanças e diferenças nos efeitos de modalização produzidos nos dois textos. [LINES: 8] --- [INTERACTIVE: d-rp | Escaneie para responder estes exercícios na Teachy e receber correção automática com feedback personalizado] --- [Sequence 8] ## Para fechar o capítulo Chegamos ao fim de uma jornada que começou com uma pergunta simples lá na primeira aula: quando alguém diz *"Faça isso"* ou *"Você poderia fazer isso?"*, a intenção pode ser a mesma, mas o efeito é diferente. Por quê? Agora você tem resposta para isso. A diferença está nas **estratégias de modalização**: os recursos linguísticos que o enunciador usa para revelar sua atitude, ajustar o grau de obrigação, aproximar-se ou distanciar-se do interlocutor. O modo imperativo é uma dessas estratégias — talvez a mais direta — mas não é a única. Perífrases verbais, advérbios, adjetivos e até a pontuação trabalham em conjunto para produzir sentidos que vão muito além de simples ordens. No *Sermão da Sexagésima*, Padre Antonio Vieira nos mostrou isso com maestria: o mesmo imperativo que convoca a congregação ("Preguemos") se transforma em ordem cósmica quando dirigido ao Inferno ("Saiba o Inferno"). E as perífrases com *hão-de* conferem um tom de inevitabilidade quase mística à sua teoria do sermão perfeito. Em resumo, analisar a modalização é aprender a ouvir não apenas o que é dito, mas *como* e *por que* é dito dessa forma. **Auto-avaliação — O que eu aprendi?** Antes de avançar, reserve um momento para verificar seu próprio aprendizado. Para cada habilidade abaixo, marque como você se sente: | Habilidade | Ainda preciso praticar | Já consigo fazer | Domino completamente | |:---|:---:|:---:|:---:| | Identificar o modo imperativo em diferentes gêneros textuais e explicar seu efeito de sentido (ordem, pedido, conselho, instrução) | ( ) | ( ) | ( ) | | Analisar como o grau de formalidade e o contexto comunicativo influenciam a escolha do imperativo | ( ) | ( ) | ( ) | | Reconhecer perífrases verbais e outros modalizadores como estratégias de modalização e explicar seus efeitos de sentido | ( ) | ( ) | ( ) | Relendo o trecho do *Sermão da Sexagésima* que abrimos no início, você consegue agora nomear pelo menos três estratégias de modalização diferentes usadas por Vieira? Escreva sua resposta em uma ou duas frases. [INTERACTIVE: a2-fc | Revise os conceitos de modalização verbal com os flash cards interativos na plataforma Teachy] --- **Images:** - https://storage.googleapis.com/teachy-classroom-contents/images-v2/e3657178-ae17-41bf-af86-9d30ae22bb0d/generated/v2_0_13.jpg — Dois homens conversando em rua urbana, com gestos que ilustram comunicação informal e uso do imperativo no cotidiano | Attribution: Fonte: Imagem gerada por IA - https://storage.googleapis.com/teachy-classroom-contents/images-v2/9b60bb12-14b3-4a49-ad0a-5ec2c47f1a15/generated/v2_0_21.jpg — Grupo de profissionais em reunião formal, ilustrando o contexto de uso do imperativo formal e perífrases de cortesia | Attribution: Fonte: Imagem gerada por IA - [GENERATE] Tabela visual comparativa mostrando um continuum de formalidade com exemplos de modalização: do imperativo direto ("Faça isso!") até perífrase atenuada ("Gostaríamos que..."), com setas indicando grau crescente de cortesia | modalizacao-continuum.png | 16:9


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