Foco Narrativo e Marcas de Subjetividade

# Foco Narrativo e Marcas de Subjetividade [Section 4] Na aula anterior, você identificou como a crônica se organiza em situação inicial, conflito cotidiano e desfecho. Agora, vamos olhar para dentro dessa estrutura e perguntar: *de onde* o narrador está contando a história? Essa pergunta nos leva ao conceito de foco narrativo — e, mais fundo ainda, às marcas que revelam a presença do "eu" no texto. ## Quem está contando? Leia com atenção este fragmento da crônica "A semana", de Machado de Assis: --- > Se há, porém, ilusão da minha parte, e se a assembléia dos quinhentos pode fazer o que o autor promete, então retiro a palavra e assino a proposta. Aparentemente é pouco prática, mas a teoria também é deste mundo. Os seus fins, ainda que árduos, são sublimes: trata-se de recomeçar a história. [...] Daí pode ser que eu entenda tanto de economia política, como de medicina política. Efetivamente, vereador era o meu sonho. > > **Machado de Assis.** *A semana.* Série de crônicas publicadas em *Gazeta de Notícias*, Rio de Janeiro, 1892–1900. --- Perceba que o texto não apenas informa — ele opina, hesita, confessa. Machado não diz "o narrador achava"; ele diz "eu entenda" e "meu sonho". Esse "eu" que aparece no texto é o **foco narrativo em primeira pessoa**: o narrador participa da cena, fala de dentro dela e carrega consigo suas próprias crenças, dúvidas e afetos. O **foco narrativo** é o ponto de vista adotado na narrativa — a posição de onde os acontecimentos são vistos e contados. Ele se manifesta de forma concreta na língua: nos pronomes pessoais, nos verbos conjugados e nas marcas que revelam se o narrador está *dentro* ou *fora* da história. Quando o narrador usa "eu", "meu", "me", "comigo", ele se coloca como participante dos eventos — é a narração em **primeira pessoa**. Quando usa "ele", "ela", "eles", posiciona-se como observador externo — é a narração em **terceira pessoa**. Na crônica brasileira, a primeira pessoa predomina, mas os dois focos coexistem e produzem efeitos muito diferentes sobre o leitor. [chapter-callout-label: Perfil] **Machado de Assis** (1839–1908) é considerado o maior escritor da literatura brasileira. Fundou a Academia Brasileira de Letras em 1897 e escreveu romances, contos, peças de teatro e centenas de crônicas publicadas nos principais jornais do Rio de Janeiro. Em *A semana*, série publicada na *Gazeta de Notícias* entre 1892 e 1900, comentou política, costumes e vida urbana com ironia fina e perspectiva crítica aguçada. ## A voz que se revela: marcas de subjetividade O foco narrativo em primeira pessoa abre caminho para um fenômeno fundamental na crônica: a **subjetividade** — a expressão das opiniões, sentimentos e posições pessoais do narrador no texto, manifestada por meio de rastros linguísticos identificáveis, chamados **marcas de subjetividade**. Dentre as principais, destacam-se os pronomes pessoais e possessivos da primeira pessoa ("eu", "meu", "me", "comigo"), que indicam que o narrador está presente como sujeito da experiência; os comentários opinativos e reflexivos, como "Aparentemente é pouco prática, mas a teoria também é deste mundo"; os adjetivos e substantivos emotivos, que carregam julgamento de valor ("sublimes", "sonho"); as perguntas retóricas que provocam reflexão sem esperar resposta direta ("O que é que salva o Sr. Maia?"); e as confissões pessoais, como "vereador era o meu sonho". Para analisar essas marcas em qualquer crônica, observe em que pessoa gramatical o narrador fala, se ele emite opiniões ou apenas descreve, que adjetivos e verbos de sentimento aparecem, e se há perguntas ou exclamações que revelam envolvimento emocional — cada um desses elementos é uma pista sobre o grau de subjetividade do texto. ## Diferentes cronistas, diferentes graus de subjetividade Nem toda crônica tem o mesmo nível de subjetividade. Comparar textos de autores diferentes ajuda a perceber como o foco narrativo molda o que o leitor percebe. Leia agora dois fragmentos, um de João do Rio e um de Olavo Bilac: --- > Voltei-me e de novo fiquei maravilhado. Aquele café não era café, era uma catedral dos grandes fatos. [...] Se os outros, que não eram famosos e não eram de Xavier, tanta admiração me haviam causado, imaginem esse, sendo de Xavier e sendo famoso. > > **João do Rio.** *Alma Encantadora das Ruas.* Rio de Janeiro: Secretaria Municipal de Cultura, 1987 [1908]. --- > Na torre baixa, coberta de folhagens e de flores, o sino canta. Nos morros de em torno, as minas descansam, sem trabalhadores. Às margens dos riachos, nas bacias que as enxurradas cavaram nas rochas, os gorgulhos repousam. Nem uma bateia se agita. > > **Olavo Bilac.** *Crônicas e Novelas.* Rio de Janeiro: Livraria Editora de Laemmert, 1894. --- [chapter-callout-label: Perfil] **João do Rio** (1881–1921), pseudônimo de Paulo Barreto, foi jornalista e cronista carioca que percorreu os cantos menos visíveis do Rio de Janeiro para registrar a vida das ruas, dos cafés e das personagens esquecidas. **Olavo Bilac** (1865–1918), poeta parnasiano e também cronista, publicou em jornais cariocas uma prosa cuidadosa que misturava descrição detalhada com reflexão sobre o Brasil de sua época. --- João do Rio narra em primeira pessoa: "voltei-me", "fiquei maravilhado", "me haviam causado". O leitor está ao lado do narrador, experimenta o espanto com ele. Olavo Bilac, por sua vez, usa a terceira pessoa: "o sino canta", "as minas descansam", "os gorgulhos repousam". O narrador observa de fora, como uma câmera que registra a cena sem se inserir nela. O efeito é de maior distância e, como consequência, de menor subjetividade explícita — ainda que a escolha dos detalhes e das imagens revele, de forma mais velada, o olhar de quem escreve. **Images:** - https://storage.googleapis.com/teachy-classroom-contents/images/imported/d9e33ebdf3a265af6b37c8f776cbfa04a887a9e65e12f3f0405c8cb008cf7581.jpg — Narradora expressiva e conectada com a história que conta, exemplificando como a voz do narrador molda a experiência do leitor [chapter-callout-label: Comparando...] | | João do Rio | Olavo Bilac | |---|---|---| | **Pessoa gramatical** | Primeira pessoa ("eu") | Terceira pessoa ("ele/ela/eles") | | **Posição do narrador** | Participante da cena | Observador externo | | **Nível de subjetividade** | Alto — opiniões e emoções explícitas | Mais velado — subjetividade nas escolhas descritivas | | **Efeito no leitor** | Cumplicidade, proximidade | Distância contemplativa | [INTERACTIVE: A1 | mapa mental | Explore o mapa mental interativo sobre foco narrativo e marcas de subjetividade na crônica na plataforma Teachy] Agora que você conhece as marcas de subjetividade e sabe como o foco narrativo funciona nos textos, é hora de colocar esse conhecimento em prática. [Section 5] [P1] (DOK 1) Leia o trecho a seguir, retirado da crônica "O Nascimento da Crônica", de Machado de Assis: > "Há um meio certo de começar a crônica por uma trivialidade. É dizer: Que calor! que desenfreado calor! Diz-se isto, agitando as pontas do lenço, bufando como um touro, ou simplesmente sacudindo a sobrecasaca." Qual pronome e qual forma verbal indicam que o narrador se inclui entre os que praticam a ação descrita no trecho? (A) "há" e "diz-se" — formas impessoais que excluem qualquer narrador específico. (B) "Há" e "É" — verbos de estado que indicam fatos universais, sem sujeito definido. (C) "Diz-se" e "agitando" — o uso do "se" apassivador e o gerúndio aproximam o narrador do leitor, incluindo ambos na cena. (D) "É dizer" e "bufando" — infinitivo e gerúndio que indicam ação futura sem relação com o narrador. (E) "Que calor!" e "sobrecasaca" — exclamação e substantivo que revelam o estado emocional do narrador de forma direta. **Gabarito:** C --- [P2] (DOK 2) Releia este fragmento de "A semana", de Machado de Assis: > "Daí pode ser que eu entenda tanto de economia política, como de medicina política. Efetivamente, vereador era o meu sonho." a) Identifique as marcas de subjetividade presentes nesse fragmento. b) Explique de que forma essas marcas revelam a perspectiva do narrador sobre o assunto tratado. *Dica: Observe os pronomes pessoais e os adjetivos possessivos utilizados. Pergunte-se: o narrador está apenas informando ou também expressando sua opinião e seus sentimentos?* [LINES: 6] --- [P3] (DOK 2) Leia o trecho abaixo, de "Alma Encantadora das Ruas", de João do Rio: > "Voltei-me e de novo fiquei maravilhado. Aquele café não era café, era uma catedral dos grandes fatos." Em que pessoa gramatical está o narrador? Transcreva duas expressões do trecho que comprovem essa afirmação e indiquem subjetividade. *Dica: Procure verbos conjugados na primeira pessoa do singular e adjetivos ou metáforas que expressem a reação pessoal do narrador diante da cena.* [LINES: 5] --- [P4] (DOK 2) Observe o trecho de Olavo Bilac, de "Crônicas e Novelas": > "Na torre baixa, coberta de folhagens e de flores, o sino canta. Nos morros de em torno, as minas descansam, sem trabalhadores." Diferentemente dos outros cronistas estudados, Bilac utiliza predominantemente a terceira pessoa neste trecho. Explique como essa escolha de foco narrativo altera o grau de subjetividade em relação aos fragmentos de Machado de Assis e João do Rio analisados anteriormente. *Dica: Pense na distância entre o narrador e os acontecimentos: quando o narrador observa de fora, sem usar "eu", o leitor percebe a mesma intimidade? Que efeito isso cria?* [LINES: 6] --- [Section 6] ## Exercícios [I1] (DOK 3) *Leia o trecho a seguir, de "O Nascimento da Crônica" (1877), de Machado de Assis:* > "Há um meio certo de começar a crônica por uma trivialidade. É dizer: Que calor! que desenfreado calor! [...] Mas, leitor amigo, esse meio é mais velho ainda do que as crônicas, que apenas datam de Esdras. Antes de Esdras, antes de Moisés, antes de Abraão, Isaque e Jacó, antes mesmo de Noé, houve calor e crônicas." Ao se dirigir ao "leitor amigo" e ao reconstituir a história humana de forma bem-humorada, o narrador de Machado de Assis demonstra uma estratégia característica da crônica. Considerando o foco narrativo e as marcas de subjetividade do trecho, é correto afirmar que o narrador: (A) adota distância objetiva dos fatos, descrevendo eventos históricos sem emitir opiniões. (B) faz uso de ironia e intimidade com o leitor para construir uma reflexão subjetiva sobre a origem do gênero crônica. (C) apresenta informações históricas de forma imparcial, sem revelar sua perspectiva pessoal. (D) utiliza exclusivamente a terceira pessoa para generalizar experiências humanas e evitar subjetividade. (E) abandona o tom coloquial ao mencionar figuras bíblicas, adotando registro formal típico de textos históricos. **Gabarito:** B --- [I2] (DOK 2) *Releia o trecho de João do Rio em "Alma Encantadora das Ruas":* > "Se os outros, que não eram famosos e não eram de Xavier, tanta admiração me haviam causado, imaginem esse, sendo de Xavier e sendo famoso." *O narrador encerra seu relato de visita aos cafés da cidade com esse comentário irônico.* Identifique a marca de subjetividade presente nessa frase e explique qual efeito ela produz na relação entre o narrador e o leitor. [LINES: 5] --- [I3] (DOK 2) *A crônica "A semana", de Machado de Assis, mistura comentário político com confissão pessoal. Em determinado momento, o narrador revela:* > "Efetivamente, vereador era o meu sonho." *Esse tipo de revelação pessoal é uma das marcas mais características do gênero crônica.* Explique por que a inserção de confissões pessoais, como essa de Machado de Assis, é considerada uma marca de subjetividade e de que forma ela diferencia a crônica de um texto jornalístico informativo. [LINES: 6] --- [I4] (DOK 3) *Considere os três cronistas estudados neste capítulo: Machado de Assis, João do Rio e Olavo Bilac. Cada um escolheu uma forma de foco narrativo e um modo diferente de expressar (ou atenuar) sua subjetividade.* Com base nos fragmentos lidos, compare o foco narrativo adotado por pelo menos dois desses cronistas. a) Identifique em qual pessoa gramatical cada um narra e cite uma marca textual que comprove sua resposta. b) Explique como a escolha do foco narrativo influencia o grau de subjetividade percebido pelo leitor em cada crônica. [LINES: 10] [INTERACTIVE: D | responda na plataforma | Escaneie para responder estes exercícios na Teachy e receber correção automática, inclusive com feedback nas questões abertas]


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