Formulação de Problematizações e Perguntas
# Formulação de Problematizações e Perguntas [Sequence 4] No capítulo anterior, você estudou como organizar e apresentar um seminário com postura argumentativa — adequando linguagem, postura corporal e sequência de ideias. Agora chegou o momento de explorar o outro lado do seminário: o papel de quem ouve e pergunta. Uma boa pergunta pode abrir caminhos que o apresentador não havia previsto, aprofundar o debate e revelar pontos que ficaram obscuros. Mas o que torna uma pergunta realmente pertinente? Para refletir sobre isso, vamos ler um trecho do conto "O Imortal", de Machado de Assis. Nele, personagens conversam em torno de uma história extraordinária, e cada um reage de maneira diferente ao que ouve. Leia com atenção e observe como cada personagem se posiciona diante do que é narrado. --- [chapter-section: Perfil] **Machado de Assis** (1839–1908) é considerado o maior escritor da literatura brasileira. Nascido no Rio de Janeiro, filho de um pintor mulato e de uma lavadeira açoriana, tornou-se um dos maiores prosadores de língua portuguesa. Fundou e presidiu a Academia Brasileira de Letras e é autor de obras fundamentais como *Dom Casmurro* e *Memórias Póstumas de Brás Cubas*. O conto "O Imortal" foi publicado em 1882 e explora, com ironia fina, temas como imortalidade, crença e razão. --- **O Imortal** (trecho) Machado de Assis, 1882. > — Não posso demorar-me em pormenores, disse o Dr. Leão aceitando o café que o coronel mandara trazer. São quase dez horas... > — Que tem? perguntou o coronel. A noite é nossa; e, para o que temos de fazer amanhã, podemos dormir quando bem nos parecer. Eu por mim não tenho sono. E você, Sr. João Linhares? > — Nem um pingo, respondeu o tabelião. > > E teimou com o Dr. Leão para contar tudo, acrescentando que nunca ouvira nada tão extraordinário. Note-se que o tabelião presumia ser lido em histórias antigas, e passava na vila por um dos homens mais ilustrados do Império; não obstante, estava pasmado. Ele contou ali mesmo, entre dois goles de café, o caso de Matusalém, que viveu novecentos e sessenta e nove anos, e o de Lameque que morreu com setecentos e setenta e sete; mas, explicou logo, porque era um espírito forte, que esses e outros exemplos da cronologia hebraica não tinham fundamento científico... > — Vamos, vamos ver agora o que aconteceu a seu pai, interrompeu o coronel. > > O vento, de esfalfado, morrera; e a chuva começava a rufar nas folhas das árvores, a princípio com intermitências, depois mais contínua e basta. A noite refrescou um pouco. O Dr. Leão continuou a narração, e, apesar de dizer que não podia demorar-se nos pormenores, contou-os com tanta miudeza, que não me atrevo a pô-los tais quais nestas páginas; seria fastidioso. O melhor é resumi-lo. **Fonte:** ASSIS, Machado de. *O Imortal*. Publicado em *A Estação*, 1882. --- Antes de avançar, observe o comportamento dos personagens. O tabelião, considerado homem ilustrado, apresenta exemplos históricos — e em seguida os desqualifica, afirmando que "não tinham fundamento científico". Que tipo de postura esse personagem assume diante do que ouviu? E o narrador, que diz "não me atrevo a pô-los tais quais nestas páginas; seria fastidioso" — ele está sendo transparente com o leitor, ou está omitindo algo? ## O que é uma pergunta pertinente? Em qualquer situação de oralidade — uma aula, um seminário, uma roda de conversa — quem ouve tem um papel ativo. Não se trata apenas de escutar e concordar, mas de participar criticamente, identificando o que foi afirmado, o que ficou em aberto e o que merece ser questionado. É nesse contexto que surgem as **perguntas pertinentes** e as **problematizações**. Uma **pergunta pertinente** é um questionamento fundamentado, diretamente relacionado ao tema da apresentação, que contribui para o aprofundamento do debate. Ela não surge do desconhecimento do assunto, mas emerge de uma escuta atenta e de uma análise crítica do que foi apresentado — por isso difere de uma pergunta superficial, que pode ser respondida de forma genérica ou que não avança a discussão. **Images:** - https://storage.googleapis.com/teachy-classroom-contents/images/imported/a04dff45721fa8d7c77947424f2e8a8c957503cee2b2f5a9960d305f60786983.jpg — Apresentadora ao microfone em seminário formal, com outros participantes ao fundo | Attribution: Fonte: Senado Federal - "Seminar on Brazilian Social Security" - Wikimedia Commons Uma **problematização** vai um passo além: é uma reflexão crítica que questiona as bases, os limites ou as implicações de uma conclusão apresentada. No conto de Machado de Assis, o tabelião apresenta exemplos históricos e em seguida os descarta por falta de "fundamento científico" — uma problematização pertinente questionaria se esse critério único é suficiente para invalidar todas as evidências levantadas. Assim, enquanto a pergunta busca esclarecer ou aprofundar, a problematização desafia premissas e abre espaço para que o debate se torne mais rico. ## Como distinguir perguntas superficiais de perguntas críticas Nem toda pergunta tem o mesmo valor argumentativo. Perguntas superficiais costumam pedir informações desconectadas do conteúdo central da apresentação, ou que poderiam ser facilmente obtidas em outro contexto. Já as perguntas críticas tomam como ponto de partida algo que foi efetivamente dito pelo apresentador e avançam sobre isso, explorando contradições, limites ou consequências não abordadas. Observe a diferença: | Tipo | Exemplo | |---|---| | **Superficial** | "Quanto tempo levou para preparar a apresentação?" | | **Crítica** | "Você mencionou que as emissões de CO₂ aumentaram 50% desde 1990 — quais setores econômicos brasileiros são os maiores responsáveis por essa tendência?" | No trecho de "O Imortal", se alguém afirmasse em um seminário que "o narrador machadiano é sempre confiável e transparente com o leitor", uma pergunta crítica seria: o próprio narrador diz que não se atreve a contar os pormenores porque "seria fastidioso" — isso é transparência, ou é uma escolha narrativa que omite informações ao leitor? [chapter-section: Zoom] No trecho lido, o coronel interrompe o tabelião dizendo "Vamos, vamos ver agora o que aconteceu a seu pai". Essa intervenção é uma pergunta pertinente, uma problematização crítica ou simplesmente uma tentativa de redirecionar o tema? O que ela revela sobre o papel do coronel nessa conversa? ## Como formular e apresentar uma boa problematização Além da qualidade da pergunta, o **momento** e a **forma** em que ela é apresentada são fundamentais. Em um seminário, interrupções durante a fala do apresentador devem ser evitadas, pois quebram o raciocínio e podem ser percebidas como desrespeitosas. O espaço reservado para perguntas — geralmente ao final de cada seção ou da apresentação completa — é o momento adequado para desenvolver uma problematização sem atrapalhar o andamento. A forma da pergunta também importa: uma boa problematização é formulada em tom respeitoso, parte sempre do que foi dito — não do que o ouvinte supõe que o apresentador quis dizer — e cita, quando possível, o trecho ou dado específico a que se refere. Para construir esse tipo de pergunta, o processo envolve quatro passos: **1. Escuta ativa:** prestar atenção genuína ao que está sendo apresentado, anotando pontos centrais, dados citados e conclusões do grupo. **2. Identificar a afirmação-alvo:** localizar a conclusão, premissa ou dado que merece ser aprofundado — não por ser errado, mas por poder ser explorado de outro ângulo. **3. Relacionar com conhecimentos prévios:** verificar se a afirmação tem limites, contradições ou aspectos não abordados que você conhece ou percebe. **4. Formular a questão de forma aberta:** transformar a observação crítica em uma pergunta que não possa ser respondida apenas com "sim" ou "não", e que convide o apresentador a aprofundar seu raciocínio. **Images:** - GENERATE: Diagrama visual em formato de fluxograma horizontal com 4 etapas numeradas e ícones simples: 1) ouvido (escuta ativa), 2) lupa sobre texto (afirmação-alvo), 3) livro aberto (conhecimentos prévios), 4) balão de fala com interrogação (formular questão aberta). Estilo clean e didático, fundo branco, paleta azul e laranja. | passo-a-passo-problematizacao.png | 16:9 [INTERACTIVE: a1-sl | Explore os slides interativos sobre como formular perguntas críticas em um seminário na plataforma Teachy] ## Na prática Vamos treinar a identificação e a formulação de perguntas pertinentes usando situações de seminário — algumas delas com base no conto de Machado de Assis que você acabou de ler. [P1] Durante um seminário, um colega termina sua fala afirmando: "Portanto, a poluição dos rios é um problema exclusivamente industrial." Leia as perguntas abaixo e identifique qual delas é uma **problematização pertinente** ao tema apresentado. (A) Você gostou de pesquisar esse assunto? (B) Quanto tempo levou para preparar a apresentação? (C) Outras fontes de poluição, como o esgoto doméstico, não contribuem igualmente para esse problema? (D) O grupo usou quais fontes bibliográficas? **Gabarito:** C [P2] Releia o trecho a seguir, retirado de um conto de Machado de Assis: > "Ele contou ali mesmo, entre dois goles de café, o caso de Matusalém, que viveu novecentos e sessenta e nove anos [...] mas, explicou logo, porque era um espírito forte, que esses e outros exemplos da cronologia hebraica não tinham fundamento científico..." Em um seminário sobre literatura do século XIX, um aluno apresenta esse trecho como prova de que personagens machadianos são sempre céticos e racionais. Qual problematização seria mais pertinente para questionar essa conclusão? (A) Por que Machado de Assis escolheu esse conto e não outro? (B) Todos os personagens de Machado de Assis são assim, ou essa característica é específica do tabelião nessa cena? (C) Em que ano o conto foi publicado? (D) Quantas páginas tem o conto original? **Gabarito:** B *Dica: Pense se a conclusão do colega vale para todos os casos ou apenas para o exemplo apresentado. Uma boa problematização testa os limites de uma afirmação.* [P3] Um grupo apresenta um seminário sobre sustentabilidade e conclui que "reciclar é a única solução para o problema do lixo". Um estudante quer formular uma pergunta crítica, mas precisa escolher o momento certo para fazê-la. a) Identifique em qual momento da apresentação é mais adequado fazer uma pergunta problematizadora: durante a fala do apresentador, sem que ele tenha terminado; ou no espaço reservado para perguntas ao final da apresentação. b) Elabore uma pergunta problematizadora para a conclusão desse grupo, questionando se a reciclagem é de fato a única solução possível. *Dica: Para a letra (a), pense no impacto que interromper alguém causa no andamento do seminário. Para a letra (b), considere outras estratégias de gestão de resíduos que possam complementar ou substituir a reciclagem.* [LINES: 5] ## Exercícios Agora você aplicará o que aprendeu em situações mais complexas, transferindo o raciocínio crítico para contextos novos — incluindo um retorno ao conto de Machado de Assis. [I1] *Durante um seminário escolar sobre desigualdade social no Brasil, o grupo apresentador afirma: "A desigualdade diminuiu nos últimos anos porque mais pessoas têm celular e acesso à internet." Um estudante na plateia quer formular uma problematização pertinente que questione essa conclusão sem ser desrespeitoso.* Qual das alternativas representa a problematização mais pertinente e argumentativamente consistente para esse momento? (A) Você tem certeza de que a pesquisa está correta? (B) Acesso a celular e internet são indicadores suficientes para medir desigualdade social, ou existem outros fatores — como renda, educação e saúde — que precisam ser considerados? (C) Qual foi a fonte que o grupo usou para essa afirmação? (D) Por que o grupo escolheu esse tema para o seminário? (E) Não seria melhor falar sobre outro tipo de desigualdade? **Gabarito:** B **Images:** - https://storage.googleapis.com/teachy-classroom-contents/images-v2/804323ae-224e-4837-ab02-9881f52d0978/imported/v2_0_22.jpg — Cena de debate formal com múltiplos participantes ao redor de uma mesa, exemplificando troca argumentativa e escuta ativa | Attribution: Fonte: Desconhecido - "Debate during Dilma Rousseff's Government" [I2] *Em um seminário sobre saúde mental na adolescência, o grupo apresentador defende que "o uso excessivo de redes sociais é a principal causa da ansiedade entre jovens". Ao término da apresentação, a professora abre espaço para perguntas da turma.* Formule uma problematização pertinente que questione a relação de causalidade apresentada pelo grupo. Sua pergunta deve demonstrar pensamento crítico sem invalidar todo o argumento. [LINES: 4] [I3] *Releia o trecho do conto "O Imortal", de Machado de Assis:* > "O vento, de esfalfado, morrera; e a chuva começava a rufar nas folhas das árvores [...] O Dr. Leão continuou a narração, e, apesar de dizer que não podia demorar-se nos pormenores, contou-os com tanta miudeza, que não me atrevo a pô-los tais quais nestas páginas; seria fastidioso." *Em um seminário literário, uma aluna apresenta esse trecho e conclui: "O narrador de Machado de Assis é sempre confiável e transparente com o leitor."* a) Formule uma problematização que questione a conclusão da aluna com base em elementos do próprio trecho. b) Explique por que essa pergunta contribui para aprofundar o debate em vez de apenas contradizer a apresentadora. [LINES: 8] [INTERACTIVE: d-rp | Escaneie para responder estes exercícios na Teachy e receber correção automática com feedback detalhado]
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