Gênero Narrativo: Crônica
# Gênero Narrativo: Crônica [Sequence 1: (a) Contextualized Situation] Você já parou para observar o que acontece ao redor quando está no ônibus, na fila do mercado ou no recreio da escola? Imagine que, em vez de simplesmente viver aquele momento, você começasse a anotá-lo: quem estava ali, o que aconteceu de inesperado, o que esse pequeno episódio revelou sobre as pessoas e sobre você mesmo. Esse é exatamente o olhar do **cronista** — alguém que transforma um fragmento comum do dia a dia em texto literário. Pense nesta cena: uma segunda-feira de manhã, metrô lotado. Um senhor de terno tenta dobrar o jornal em quatro para conseguir ler. Do outro lado do vagão, uma adolescente com fone de ouvido sorri para a tela do celular. Ninguém se olha. E então o trem para entre estações. O senhor baixa o jornal. A adolescente tira um fone. Os dois se entreolham, sem saber o que fazer com aquele momento obrigatório de pausa. O que essa cena simples revela sobre como vivemos nas grandes cidades brasileiras? Que pergunta ela deixa sem resposta? Esse tipo de questionamento é o coração da crônica — e é o que vamos investigar neste capítulo. **Images:** - https://storage.googleapis.com/teachy-classroom-contents/images/imported/fd4ed026d5260c9351d16047b9c2ea26db59a3466d2119d3d95a682798753af4.jpg — Rua histórica de Paraty, Rio de Janeiro: pessoas conversando, bicicletas encostadas, arquitetura colonial — uma cena do cotidiano que poderia inspirar uma crônica | Attribution: Fonte: Deni Williams from São Paulo, Brasil - "Historic Streets of Paraty, Rio de Janeiro" - Wikimedia Commons [Sequence 2] Antes de avançar, vamos acionar o que vocês já sabem. Pense em textos que você já leu — livros, sites, redes sociais, jornais — e responda mentalmente, ou em dupla: - Você já leu algum texto curto que contava uma situação do cotidiano com humor ou reflexão? Onde você o encontrou? - Que diferença você percebe entre uma notícia de jornal e um texto que narra o mesmo fato com a voz pessoal do autor? - Quando você conta para alguém um episódio engraçado que viveu, você apenas descreve os fatos ou também dá a sua opinião? Compartilhe uma resposta com a turma. Esse movimento de trazer o olhar pessoal para um acontecimento do dia a dia é justamente o que distingue a crônica de outros gêneros. Vocês já praticam isso o tempo todo — a crônica é, em certo sentido, a forma literária desse gesto cotidiano. Com isso em mente, vamos conhecer melhor como esse gênero se organiza. [Sequence 4] ## O que é a crônica? A crônica é um gênero narrativo curto que tem o **cotidiano** como seu principal motor[[5]]. Ela nasce da observação de cenas, situações e pessoas comuns — não busca os grandes acontecimentos históricos nem personagens extraordinários, mas sim aquilo que normalmente passaria despercebido: a espera no ponto de ônibus, o ruído da chuva numa tarde de semana, uma conversa banal que de repente revela algo inesperado. A palavra "crônica" vem de *Cronos*, o personagem da mitologia grega que representa o tempo[[2]]. Essa origem não é por acaso: a crônica é, essencialmente, um registro literário do seu tempo — o tempo presente, o cotidiano de quem escreve e de quem lê. O cronista se coloca entre o jornalismo e a literatura[[2]], usando os acontecimentos do dia a dia como matéria-prima e imprimindo neles seu olhar pessoal[[1]]. **Images:** - https://storage.googleapis.com/teachy-classroom-contents/images/imported/fa52ebddec1b33119f53d4f7328a24b0205a9bbe2553bd60ab1a5600147b145d.jpg — Retrato de Machado de Assis, um dos maiores nomes da literatura brasileira e cronista renomado | Attribution: Fonte: Unknown - Wikimedia Commons [chapter-section: Perfil] **Machado de Assis (1839–1908)** foi um dos maiores escritores brasileiros de todos os tempos. Filho de um operário e de uma lavadeira, nasceu no Rio de Janeiro e, por meio da literatura, tornou-se o fundador da Academia Brasileira de Letras. Publicou centenas de crônicas em jornais cariocas ao longo de sua carreira, observando com ironia fina os costumes e contradições da sociedade de seu tempo. **Rubem Braga (1913–1990)** é considerado o maior cronista da literatura brasileira. Durante quase 60 anos escreveu para a imprensa brasileira, publicando mais de 3.000 crônicas[[5]]. Nascido no Espírito Santo, Braga encontrou na simplicidade do cotidiano urbano e rural a matéria-prima para reflexões sobre a vida, o tempo e as pessoas — transformando o ordinário em algo que vale a pena ler. ## Os três elementos estruturais A crônica narrativa se organiza em torno de três elementos que formam seu esqueleto[[1]][[4]]: **Situação inicial** — A crônica abre apresentando uma cena ou momento do dia a dia. O cronista contextualiza o leitor: onde estamos, quem está presente, qual é a rotina. É o ponto de partida, simples e reconhecível[[4]]. **Conflito cotidiano** — A partir da situação inicial, emerge uma pequena tensão, questão ou ruptura. Esse "conflito" raramente é dramático: pode ser uma gafe social, uma contradição humana, uma pergunta que surge do nada. É o motor que faz a narrativa se mover[[1]]. **Desfecho** — A crônica se encerra com uma reflexão, insight ou perspectiva nova sobre o que foi apresentado. O desfecho não precisa "resolver" tudo; muitas vezes ele abre uma nova questão ou deixa o leitor pensando[[1]]. > Pense nesses três elementos como uma conversa. A situação inicial é o "sabe o que aconteceu comigo hoje?" — a abertura que situa quem ouve. O conflito cotidiano é o "aí, de repente..." — o momento que dá sentido à história. O desfecho é a conclusão reflexiva: "e fiquei pensando que..." — o ponto de vista que transforma o episódio em algo significativo. [chapter-section: Vamos investigar juntos] Em grupos de três, leiam o trecho a seguir e, juntos, identifiquem os três elementos estruturais. Cada integrante assume um elemento — situação inicial, conflito cotidiano ou desfecho — e anota em poucas palavras qual trecho corresponde ao seu e por quê. Depois, comparem com outros grupos: há divergências? Discutam o que causou cada diferença. > *Toda tarde, Dona Lurdes atravessa a mesma calçada esburacada do bairro com suas sacolas de feira. Conhece cada buraco, cada pedra solta. É quase uma dança — a dança de quem aprendeu a conviver com o descaso.* > > *Naquela terça-feira, uma das sacolas rasgou bem no meio da rua. Laranjas rolaram pelo asfalto em todas as direções. Os carros buzinaram. Ninguém parou.* > > *Dona Lurdes recolheu as laranjas uma a uma, devagar. E enquanto recolhia, sorriu — não de alegria, mas daquele sorriso de quem sabe que a cidade é grande demais para se importar com uma sacola rasgada. Mas ela se importava. Sempre se importou.* [chapter-section: Você acredita?] A crônica existe como gênero literário há mais de um século no Brasil, mas o cronista que talvez mais influenciou gerações foi Rubem Braga — que nunca escreveu um romance. Para ele, um fragmento do cotidiano bem observado valia mais do que qualquer enredo elaborado. Isso faz sentido para vocês? Que tipo de momento do seu dia a dia poderia virar uma crônica? [INTERACTIVE: a1-mm | Explore o mapa mental interativo sobre os elementos estruturais da crônica na plataforma Teachy] [Sequence 5] ## Na prática **1.** Um texto que narra um acontecimento do cotidiano com um toque de subjetividade, reflexão e, por vezes, humor, é conhecido como: A) Conto B) Artigo de opinião C) Crônica D) Notícia **Resposta:** C **Comentário:** A crônica se caracteriza por abordar temas do dia a dia com linguagem leve e olhar pessoal do autor, combinando elementos narrativos com reflexão subjetiva sobre o cotidiano. --- **2.** Qual a sequência correta dos elementos estruturais que compõem a narrativa de uma crônica? A) Desfecho, conflito cotidiano, situação inicial. B) Conflito cotidiano, desfecho, situação inicial. C) Situação inicial, conflito cotidiano, desfecho. D) Desfecho, situação inicial, conflito cotidiano. **Resposta:** C **Comentário:** A estrutura narrativa da crônica segue uma progressão lógica: a situação inicial apresenta a cena cotidiana; o conflito cotidiano introduz uma tensão ou questão; o desfecho traz uma reflexão, insight ou novo ponto de vista. --- **3.** [I1] Releia a cena do metrô apresentada no início do capítulo. Qual dos três elementos estruturais da crônica corresponde ao momento em que o trem para entre estações? Marque a alternativa correta e justifique em uma frase. A) Situação inicial B) Conflito cotidiano C) Desfecho D) Nenhum dos três, pois é apenas uma descrição **Resposta:** B — A parada inesperada do trem rompe com a rotina e força uma situação de tensão entre os passageiros, cumprindo a função do conflito cotidiano. [Sequence 6] ## Exercícios **1.** [P1] Leia com atenção o trecho a seguir, que descreve uma cena típica de uma crônica brasileira: > *Era segunda-feira de manhã, e o metrô estava mais lotado do que nunca. Entre cotovelos e mochilas, um senhor de terno tentava ler o jornal dobrado em quatro. Do outro lado do vagão, uma adolescente com fone de ouvido sorria para a tela do celular. Ninguém se olhava. Ninguém falava. E, de repente, o trem parou entre estações. Um minuto de silêncio — mas não aquele silêncio confortável. O senhor baixou o jornal. A adolescente tirou um fone. Os dois se entreolharam, sem saber bem o que fazer com aquele momento obrigatório de pausa.* Identifique, nesse trecho, os três elementos estruturais da crônica: a situação inicial, o conflito cotidiano e o desfecho (ou sua abertura). Para cada elemento, indique o trecho correspondente e explique por que ele cumpre essa função na narrativa. **Resposta esperada:** A situação inicial é a apresentação do metrô lotado na segunda-feira de manhã, com a descrição dos personagens e do contexto cotidiano do isolamento urbano. O conflito cotidiano é a parada inesperada do trem entre estações, que rompe com a rotina e força um momento de atenção involuntária entre os passageiros. A abertura do desfecho é o instante em que os dois personagens se entreolham sem saber o que fazer — sugerindo uma reflexão sobre o quanto nos fechamos uns para os outros no cotidiano. --- **2.** [P2] Uma crônica é frequentemente descrita como um texto que captura fragmentos do cotidiano e os apresenta sob uma perspectiva pessoal. Explique como a escolha de temas e a abordagem subjetiva contribuem para a identificação do leitor com o gênero crônica, utilizando exemplos de situações comuns do dia a dia que poderiam inspirar um cronista. **Resposta esperada:** A crônica aborda temas do cotidiano — uma fila, uma conversa no ônibus, um momento no intervalo — o que facilita a identificação do leitor. A perspectiva subjetiva do cronista transforma o ordinário em algo reflexivo ou poético, permitindo que o leitor veja sua própria realidade sob uma nova luz. Isso cria uma conexão emocional e intelectual, tornando o texto mais próximo e significativo. --- **3.** [P3] Leia o trecho abaixo, retirado de uma crônica sobre a vida num bairro do interior paulista: > *Seu Benedito abria a farmácia às oito da manhã todos os dias, pontual como o sino da igrejinha ao lado. Naquela quinta-feira, porém, eram oito e vinte e a persiana continuava fechada. Os vizinhos foram chegando aos poucos — primeiro Dona Cida, depois o rapaz da padaria, depois a professora Marta. Ficaram ali parados na calçada, sem se falar muito, olhando para a persiana. Ninguém ligou para a polícia. Ninguém foi embora. Esperaram.* > > *Às oito e quarenta, a persiana subiu. Seu Benedito apareceu com um sorriso envergonhado: "O despertador falhou." A turma dispersou sem dizer nada, como se a vigília nunca tivesse acontecido.* Identifique e explique qual é o conflito cotidiano nesse trecho. Em seguida, responda: o desfecho resolve completamente a tensão criada, ou deixa algo em aberto? O que esse final revela sobre as relações entre as pessoas naquele bairro? **Resposta esperada:** O conflito cotidiano é a ausência inesperada de Seu Benedito — a farmácia fechada rompe com a rotina do bairro e gera uma tensão silenciosa entre os vizinhos. O desfecho (o despertador que falhou) resolve a situação de forma simples, mas deixa em aberto a pergunta sobre por que aquelas pessoas esperaram juntas sem se falar — o que revela uma solidariedade implícita e discreta entre os moradores, característica das pequenas comunidades. --- **4.** [I1] Muitas crônicas começam com uma observação simples do dia a dia, como uma pessoa esperando o ônibus ou o barulho da chuva. Que função esse tipo de introdução exerce na crônica para cativar o leitor? **Resposta esperada:** Essa introdução simples e cotidiana serve para criar uma identificação imediata com o leitor, pois aborda situações universais que ele também vivencia. Isso estabelece um ambiente de familiaridade e convida o leitor a entrar na reflexão que o cronista irá desenvolver a partir daquele ponto comum. --- **5.** [D1] Rubem Braga escreveu durante quase 60 anos para a imprensa brasileira, encontrando em cenas do dia a dia o material para suas reflexões. Com base no que você sabe sobre a crônica como gênero, responda: por que o **cotidiano** é considerado o "motor" da crônica? O que diferencia o olhar do cronista do olhar de quem simplesmente vive aquele mesmo cotidiano sem transformá-lo em texto? **Resposta esperada:** O cotidiano é o motor da crônica porque é justamente o material ordinário e aparentemente insignificante que o cronista eleva à condição de objeto de reflexão literária. A diferença está no olhar: o cronista seleciona, recorta e interpreta um fragmento da realidade, imprimindo nele sua subjetividade — seu ponto de vista, seus valores, sua sensibilidade. Esse processo transforma um momento banal em algo que convida o leitor a enxergar sua própria vida de um novo ângulo. [INTERACTIVE: d-rp | Escaneie para responder os exercícios discursivos na plataforma Teachy e receber comentários automáticos sobre suas respostas] [Sequence 7] ## Seu olhar sobre o cotidiano Você acabou de estudar como o cronista transforma um fragmento simples do dia a dia em reflexão literária, usando a situação inicial, o conflito cotidiano e o desfecho para dar forma ao que observa. Agora é a sua vez de exercitar esse olhar. Em duplas ou individualmente, escolha uma das opções abaixo: **(a) Mapeie uma cena do seu cotidiano.** Durante os próximos dois dias, fique atento a um momento que normalmente passaria despercebido: uma fila, um silêncio no intervalo, um gesto entre pessoas, uma situação no transporte ou na rua. Registre em um bloco de notas (papel ou digital) os três elementos — situação inicial, conflito e reflexão final. Traga esse registro para compartilhar com a turma: conte brevemente o que observou e por que aquele momento chamou sua atenção. **(b) Identifique os três elementos em uma crônica real.** Pesquise uma crônica publicada em jornal ou revista brasileira — de autores como Rubem Braga, Conceição Evaristo, Luis Fernando Verissimo ou outro cronista de sua escolha. Leia o texto completo e, em um parágrafo para cada elemento, identifique e explique onde está a situação inicial, o conflito cotidiano e o desfecho. Anote também: qual é o ponto de vista do narrador? Como você percebe isso no texto? **(c) Crie um esboço de crônica.** A partir de uma cena real que você viveu ou observou, escreva de 150 a 200 palavras cobrindo os três elementos estruturais. Não precisa ser perfeito — o objetivo é experimentar o gênero na prática. **Compartilhamento:** Em qualquer das opções, prepare-se para apresentar brevemente o resultado à turma (2 a 3 minutos). O que vocês observaram? Que situações escolheram e por quê?
Precisa de slides customizados para suas aulas?
Eu consigo gerar slides, atividades, resumos e 60+ tipos de materiais. Isso mesmo, nada de noites mal dormidas por aqui :)
Faça parte de uma comunidade de professores direto no seu WhatsApp
Conecte-se com outros professores, receba e compartilhe materiais, dicas, treinamentos, e muito mais!
Soluções
2026 - Todos os direitos reservados