Gênero Narrativo: Crônica

# Gênero Narrativo: Crônica [Section 1: (a) Contextualized Situation] Você está folheando um jornal numa tarde qualquer. Na contracapa, há um texto curto que fala sobre um homem que vai a um enterro num dia de sol escaldante. Poucas linhas depois, ele descreve trabalhadores cavando covas de cabeça descoberta, sob o mesmo sol que os outros se protegem. O texto termina com uma pergunta — e você percebe que ela não tem resposta fácil. Esse texto não é uma notícia, não é um conto. Mas prende atenção, faz pensar e deixa algo inacabado. O que faz um texto curto como esse — tirado da vida real, publicado num jornal — conseguir isso com o leitor? **Imagens:** - https://storage.googleapis.com/teachy-classroom-contents/images-v2/d066b6af-a2d9-4174-8748-9bf393b77ad0/generated/v2_0_2.png — Cena urbana com diversas pessoas interagindo em espaços públicos, ilustrando o cotidiano que alimenta as crônicas --- [Section 2: (a) Recall Diagnostic Questions] [D1] Você já leu algum texto de jornal, revista ou blog que contava uma cena do dia a dia de forma divertida ou reflexiva? Como era esse texto — tinha personagens? Tinha um problema para resolver? Descreva brevemente como ele era. Se não lembrar de nenhum texto assim, descreva um vídeo, podcast ou conversa que comentou algo do cotidiano de forma reflexiva. --- [Section 4] O tipo de texto descrito na abertura tem um nome — crônica — e você vai conhecer agora como ele funciona, a partir de um texto escrito há mais de cem anos que continua sendo lido até hoje. ### O Nascimento da Crônica — Machado de Assis > Fui há dias a um cemitério, a um enterro, logo de manhã, num dia ardente como todos os diabos e suas respectivas habitações. Em volta de mim ouvia o estribilho geral: — Que calor! que sol! é de rachar passarinho! é de fazer um homem doido! > > Íamos em carros! apeamo-nos à porta do cemitério e caminhamos um longo pedaço. O sol das onze horas batia de chapa em todos nós; mas sem tirarmos os chapéus, abríamos os de sol e seguíamos a suar até o lugar onde devia verificar-se o enterramento. Naquele lugar esbarramos com seis ou oito homens ocupados em abrir covas: estavam de cabeça descoberta, a erguer e fazer cair a enxada. Nós enterramos o morto, voltamos nos carros, e daí às nossas casas ou repartições. E eles? Lá os achamos; lá os deixamos, ao sol, de cabeça descoberta, a trabalhar com a enxada. Se o sol nos fazia mal, que não faria àqueles pobres-diabos, durante todas as horas quentes do dia? **MACHADO DE ASSIS.** *O Nascimento da Crônica.* Publicado originalmente na Gazeta de Notícias, Rio de Janeiro, 1877. Antes de continuar, observe o texto com atenção. Qual cena ele apresenta no início? Em que ponto algo muda no olhar do narrador? E como termina — com uma resposta ou com uma pergunta? Guarde essas impressões: elas serão o caminho para entender como a crônica é construída. --- ## A Estrutura da Crônica A crônica é um texto narrativo curto, publicado principalmente em jornais e revistas, que parte de um fato do cotidiano para construir uma reflexão. Ao contrário da notícia, ela não se limita a informar: interpreta, questiona e imprime a visão pessoal de quem escreve. Essa combinação de brevidade, tema corriqueiro e perspectiva subjetiva é o que caracteriza o gênero. Toda crônica se organiza em torno de três elementos estruturais que sustentam sua narrativa. A **situação inicial** é o ponto de partida: apresenta o narrador, o cenário e as circunstâncias que abrem o texto. É o panorama que situa o leitor antes de qualquer tensão aparecer. Em Machado de Assis, a situação inicial está no primeiro parágrafo — o narrador está num enterro, num dia de calor intenso, e todos ao redor comentam o mesmo desconforto. O **conflito cotidiano** é o elemento que movimenta a narrativa. Surge quando algo quebra a normalidade da situação inicial: não necessariamente uma briga ou um drama, mas uma contradição, uma estranheza ou uma tensão que força o narrador a olhar diferente para o que está à sua frente. Na crônica de Machado, o conflito emerge quando o narrador percebe os coveiros trabalhando de cabeça descoberta sob o mesmo sol do qual os demais se protegem. Essa contradição social — entre os que podem se abrigar e os que não podem — transforma a cena banal em crítica. O **desfecho** encerra a crônica, mas nem sempre resolve o problema. Pode ser uma solução, uma descoberta ou apenas uma pergunta que fica sem resposta direta — uma pergunta feita não para ser respondida de imediato, mas para provocar reflexão. Machado fecha seu texto com essa estratégia: "Se o sol nos fazia mal, que não faria àqueles pobres-diabos, durante todas as horas quentes do dia?" O silêncio é parte da resposta. O leitor precisa completar o raciocínio. **Imagens:** - [GENERATE] Diagrama em forma de arco narrativo com três etapas conectadas por setas: "Situação Inicial" (narrador, cenário e contexto apresentados), "Conflito Cotidiano" (tensão ou estranheza que movimenta a história), "Desfecho" (conclusão aberta ou fechada), com exemplos curtos de cada etapa extraídos da crônica de Machado de Assis | arco-cronica.png | 16:9 [chapter-callout-label: Perfil] **Machado de Assis (1839–1908)** é considerado o maior nome da literatura brasileira. Nascido no Rio de Janeiro, de família humilde, tornou-se jornalista, contista, romancista e cronista. Escreveu crônicas por décadas em jornais como a *Gazeta de Notícias* e o *Diário do Rio de Janeiro*, transformando situações banais em reflexões sobre a sociedade de seu tempo. *O Nascimento da Crônica* é um de seus textos mais citados quando se estuda o gênero. [INTERACTIVE: A1 | mapa mental | Explore o mapa mental interativo sobre a estrutura da crônica e os elementos narrativos na plataforma Teachy] --- [Section 5] Com os três elementos em mente, volte ao texto e veja se consegue localizá-los. Os exercícios a seguir partem da identificação direta até a interpretação mais aprofundada. [P1] (DOK 1) Leia o trecho abaixo, extraído da crônica "O Nascimento da Crônica", de Machado de Assis: > "Fui há dias a um cemitério, a um enterro, logo de manhã, num dia ardente como todos os diabos e suas respectivas habitações. Em volta de mim ouvia o estribilho geral: — Que calor! que sol! é de rachar passarinho! é de fazer um homem doido!" Esse trecho corresponde a qual elemento estrutural da crônica? (A) Conflito cotidiano, pois apresenta o problema que o narrador irá enfrentar. (B) Desfecho, porque encerra a história com uma observação final. (C) Situação inicial, pois apresenta o narrador, o cenário e as circunstâncias da cena. (D) Clímax, porque é o momento de maior tensão do texto. **Gabarito:** C [P2] (DOK 2) Releia o final da crônica "O Nascimento da Crônica", de Machado de Assis: > "Se o sol nos fazia mal, que não faria àqueles pobres-diabos, durante todas as horas quentes do dia?" a) Identifique o elemento estrutural da crônica representado por esse trecho. b) Explique de que forma esse elemento se conecta à situação inicial apresentada no início do texto. *Dica: releia o primeiro parágrafo do texto e o último. O que muda entre eles — e quem é afetado por essa mudança?* [P3] (DOK 2) Leia o fragmento da crônica "Alma Encantadora das Ruas", de João do Rio: > "Era domingo, dia em que o trabalho é castigar o corpo com as diversões menos divertidas. Saí, devagar e a pé, a visitar bodegas reles, lugares bizarros, botequins inconcebíveis, e vim arrasado de confusão cerebral e de encanto." Em seguida, considere que o conflito cotidiano dessa crônica se desenvolve quando o narrador depara com uma pintura mural num botequim e tenta entender quem a criou e o que ela representa. Com base nessa estrutura, indique qual trecho do fragmento acima funciona como situação inicial e justifique sua resposta usando elementos presentes no texto. *Dica: a situação inicial deve apresentar o narrador em ação e o cenário — antes de qualquer problema ou tensão aparecer.* [chapter-callout-label: Nossa língua na rua] **A crônica no cotidiano brasileiro** A crônica circula em jornais impressos, sites de notícias, podcasts e redes sociais. Cronistas contemporâneos como Eliane Brum, Luis Fernando Verissimo e Conceição Evaristo publicam regularmente em grandes veículos. Se você pesquisar "crônica" num jornal como *O Globo*, *Folha de S.Paulo* ou *El País Brasil*, vai encontrar novos textos toda semana. Experimente: leia uma crônica atual e veja se consegue identificar os três elementos estruturais que aprendeu aqui. --- [Section 6] ## Exercícios [I1] (DOK 3) Leia com atenção o trecho da crônica "O Nascimento da Crônica", de Machado de Assis: > "Íamos em carros! apeamo-nos à porta do cemitério e caminhamos um longo pedaço. O sol das onze horas batia de chapa em todos nós; mas sem tirarmos os chapéus, abríamos os de sol e seguíamos a suar até o lugar onde devia verificar-se o enterramento. Naquele lugar esbarramos com seis ou oito homens ocupados em abrir covas: estavam de cabeça descoberta, a erguer e fazer cair a enxada. Nós enterramos o morto, voltamos nos carros, e daí às nossas casas ou repartições. E eles? Lá os achamos; lá os deixamos, ao sol, de cabeça descoberta, a trabalhar com a enxada." Nesse trecho, o conflito cotidiano da crônica se constrói a partir do contraste entre dois grupos de pessoas presentes na cena. Considerando os elementos estruturais da crônica e o modo como Machado de Assis desenvolve esse conflito, é correto afirmar que: (A) O conflito é puramente climático: o narrador se incomoda com o calor e descreve seu próprio sofrimento para provocar empatia no leitor. (B) O conflito se manifesta na contradição social entre os que podem se proteger do sol e os que trabalham expostos a ele, revelando uma crítica implícita à desigualdade. (C) O conflito cotidiano é resolvido no mesmo trecho, quando o narrador e os outros passantes decidem ajudar os trabalhadores. (D) A tensão narrativa é criada pelo enterro em si, que representa o conflito central entre a vida e a morte no cotidiano urbano. (E) O narrador apresenta o conflito de forma neutra e impessoal, sem tomar partido ou sugerir qualquer reflexão ao leitor. **Gabarito:** B [I2] (DOK 2) Leia o trecho abaixo, da crônica "Alma Encantadora das Ruas", de João do Rio: > "Era domingo, dia em que o trabalho é castigar o corpo com as diversões menos divertidas. Saí, devagar e a pé, a visitar bodegas reles, lugares bizarros, botequins inconcebíveis, e vim arrasado de confusão cerebral e de encanto. [...] Estávamos na Rua do Núncio. O meu excelente amigo fez-me entrar num botequim da esquina da Rua de S. Pedro e os meus olhos logo se pregaram na parede da casa [...]. Eu estava diante de uma grande pintura mural comemorativa. [...] Indaguei, rouco: — Quem fez isto? — O Paiva, pintor cuja fama é extraordinária entre os colegas." **JOÃO DO RIO.** *A alma encantadora das ruas.* Rio de Janeiro: Secretaria Municipal de Cultura, 1987. (Texto original de 1908.) Com base nessa estrutura narrativa, identifique os três elementos estruturais da crônica — situação inicial, conflito cotidiano e desfecho — e indique, para cada um, o trecho ou momento do texto ao qual ele corresponde. [LINES: 6] [I3] (DOK 3) Leia o fragmento da crônica de Olavo Bilac, publicada em *Crônicas e Novelas*. O narrador visita o bairro histórico do Padre Faria, em Ouro Preto (MG), e, sentado diante de uma cruz antiga, imagina como era aquele lugar tempos atrás: > "Sentado ao pé da cruz, comecei a reconstruir em sonho um dia de festa religiosa no bairro do padre Faria, ao tempo em que ainda, saindo do seu presbitério, ele vinha, entre os fiéis ajoelhados, atravessando a larga ponte de pedra que dá acesso para o adro, oficiar no templo [...]. Mas, os tempos mudaram. Um ervaçal rasteiro e mau acolchoou a terra em torno da igreja." **Nota:** *presbitério* = residência do padre; *adro* = espaço em frente à igreja; *ervaçal* = vegetação rasteira e descuidada. **OLAVO BILAC.** *Crônicas e novelas.* Rio de Janeiro: Livraria Moderna, 1894. Nesse fragmento, o conflito cotidiano não se apresenta como uma briga ou um problema explícito, mas como uma tensão entre passado e presente. a) Explique de que forma essa tensão entre passado e presente funciona como conflito cotidiano nessa crônica. b) Identifique no fragmento ao menos uma marca textual que indica a passagem do tempo e justifique sua escolha. [LINES: 8] [INTERACTIVE: D | responda na plataforma | Escaneie para responder estes exercícios na Teachy e receber correção automática com comentários do tutor]


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