Gênero Narrativo: Crônica

# Gênero Narrativo: Crônica [Sequence 1: (a) Contextualized Situation] Imagine uma tarde comum de quarta-feira. Um escritor senta-se diante da janela do seu apartamento e observa uma cena que qualquer pessoa poderia ter ignorado: um passarinho pousado na calçada, bicando algo invisível no asfalto quente. Bastaria esse instante para que ele tomasse a caneta e transformasse aquele fragmento ordinário do dia em palavras capazes de tocar quem as lesse. Não era uma história de grandes heróis, nem de conflitos épicos — era simplesmente a vida, vista de perto, com atenção e carinho. Esse é o retrato de um cronista — e é exatamente assim que Rubem Braga, considerado por muitos críticos o maior cronista brasileiro, construiu décadas de obra: encontrando profundidade no que é pequeno. Essa capacidade de parar o tempo de um instante cotidiano e convertê-lo em literatura é o que torna a crônica um gênero singular. Você já parou para perceber quantas histórias existem numa única manhã de escola, num trajeto de ônibus, numa conversa rápida com alguém na fila? Um cronista é, antes de tudo, alguém que aprende a ver — e que acredita que o que vê merece ser dito. **Images:** - [https://storage.googleapis.com/teachy-classroom-contents/images/imported/bc92207a69e78de69627fc631fe697c169a2fe53f031fde7fa12b961c2d97aaf.png](https://storage.googleapis.com/teachy-classroom-contents/images/imported/bc92207a69e78de69627fc631fe697c169a2fe53f031fde7fa12b961c2d97aaf.png) — Encontro literário com Fayga Ostrower, Carlos Drummond de Andrade e Marcos André: o tipo de troca intelectual e humana que alimenta o olhar do cronista | Attribution: Fonte: Wikimedia Commons [Sequence 2] Antes de avançarmos, pense um pouco sobre o que você já sabe. Você já leu algum texto publicado em jornal ou revista que contava uma pequena história do dia a dia, com um olhar pessoal e reflexivo? Como você descreveria esse tipo de leitura? Pense nas narrativas que você conhece — contos, novelas, filmes. O que você entende por *situação inicial*, *conflito* e *desfecho* em uma história? Escreva em poucas linhas como você imagina que esses três elementos funcionam em uma narrativa curta. Guarde sua resposta: ao final deste capítulo, você poderá compará-la com o que aprendeu. [Sequence 4] ## A estrutura que organiza o olhar A crônica é um gênero literário que narra fatos do cotidiano em linguagem leve e próxima do leitor.[[5]] O próprio nome do gênero já revela algo essencial: ele vem do grego *khronos*, que significa "tempo"[[5]] — e é exatamente com o tempo presente, com o instante vivido, que a crônica dialoga. O que diferencia a crônica de outros gêneros narrativos — como o conto ou a novela — não é apenas o tamanho do texto, mas a forma como ela se relaciona com o cotidiano. A crônica é constituída pelos tipos narrativo e dissertativo[[1]], e se caracteriza pela informalidade e por efeitos dialógicos entre autor e leitor.[[1]] Ela é, ao mesmo tempo, texto literário e voz pessoal: nela, o cronista empresta ao leitor o seu modo de enxergar o mundo. Para ler e interpretar uma crônica com mais profundidade, é útil reconhecer três elementos que organizam sua estrutura narrativa: a **situação inicial**, o **conflito cotidiano** e o **desfecho**.[[4]] Conheça a seguir o escritor que, mais do que qualquer outro no Brasil, elevou esses elementos a arte. [chapter-section: Perfil] **Rubem Braga** (1913–1990) nasceu em Cachoeiro de Itapemirim, no Espírito Santo, e é considerado o maior cronista da literatura brasileira. Ao longo de décadas, publicou crônicas em jornais e revistas com uma voz inconfundível: intimista, lírica e profundamente atenta às pequenas cenas da vida. Seus textos mostram que o cotidiano, quando olhado com cuidado, revela camadas de beleza e de sentido que muitas vezes passam despercebidas. **Images:** - [https://storage.googleapis.com/teachy-classroom-contents/images/imported/8cab8fc4312e03f296991d8f192e1b3938bcf5a4e773dd93ff0a262cb752740e.jpg](https://storage.googleapis.com/teachy-classroom-contents/images/imported/8cab8fc4312e03f296991d8f192e1b3938bcf5a4e773dd93ff0a262cb752740e.jpg) — Texto manuscrito de Ignácio de Loyola Brandão sobre o poder transformador da leitura — testemunho autêntico da voz pessoal que caracteriza a escrita cronística | Attribution: Fonte: Prefeitura Municipal Itanhaém - Wikimedia Commons ### Situação inicial: o ponto de partida A situação inicial é o momento em que o cronista apresenta ao leitor os elementos fundamentais da narrativa: os **personagens**, o **tempo** (quando a história ocorre), o **espaço** (onde ela se passa) e o **contexto geral** da situação.[[4]] É aqui que o leitor reconhece — ou se surpreende ao não reconhecer — o universo cotidiano que o texto vai explorar. Na crônica, a situação inicial costuma ser direta e próxima. O cronista não precisa de um longo prólogo para situar o leitor: uma frase, uma imagem, um detalhe concreto já são suficientes para criar o contexto. Essa abertura rápida é uma marca do gênero, que nasce da imprensa e precisa conquistar o leitor desde as primeiras linhas. ### Conflito cotidiano: a tensão que move o texto O conflito cotidiano é o núcleo dinâmico da crônica: trata-se de uma tensão, problema ou observação que emerge de situações ordinárias da vida diária.[[4]] Diferentemente dos conflitos épicos de romances ou novelas, o conflito da crônica é geralmente sutil — uma ironia, uma contradição, um momento de estranhamento diante do que é familiar. É importante notar que **nem toda crônica narrativa precisa ter conflito**.[[4]] Quando ele está ausente, o texto pode fluir como uma reflexão ou uma observação poética, sem que isso comprometa sua identidade como crônica. Quando o conflito existe, o cronista não precisa resolvê-lo de modo dramático: muitas vezes, basta apontar a tensão e oferecê-la ao leitor como convite à reflexão. ### Desfecho: a última palavra — ou a ausência dela O desfecho é o encerramento da crônica. Ao contrário do que ocorre em muitas narrativas tradicionais, o desfecho da crônica **não precisa resolver o conflito** de modo definitivo.[[4]] Ele pode ser reflexivo, aberto ou inconclusivo — e é justamente essa abertura que convida o leitor a continuar pensando depois que o texto termina. Esse tipo de encerramento é uma escolha estética e comunicativa do cronista: em vez de fechar todas as questões, ele deixa uma fresta aberta, por onde o leitor pode entrar com sua própria experiência e interpretação. [chapter-section: Biblioteca cultural] Para conhecer crônicas como as estudadas neste capítulo, você pode procurar o livro *O conde e o passarinho*, de Rubem Braga, ou *A mulher do vizinho*, de Fernando Sabino — dois títulos clássicos e acessíveis em bibliotecas escolares. Se preferir uma voz mais contemporânea, Martha Medeiros publica regularmente crônicas sobre relacionamentos e sociedade em jornais de grande circulação. Use o mapa mental a seguir para revisar os três elementos estruturais antes de partir para a prática. [INTERACTIVE: a1-mm | Acesse o mapa mental interativo sobre os elementos estruturais da crônica na plataforma Teachy] [Sequence 5] ## Na prática Os três elementos que você acabou de estudar — situação inicial, conflito cotidiano e desfecho — aparecem de formas diferentes em cada crônica. A seguir, você vai praticar a identificação desses elementos e verificar o que já compreendeu sobre o gênero. **1.** Leia as afirmações abaixo sobre a crônica e escreva **V** (verdadeiro) ou **F** (falso) em cada parêntese. Depois, assinale a alternativa que corresponde à sequência correta, de cima para baixo. ( ) Pertence somente ao jornalismo opinativo e tem sempre como motivo as notícias do cotidiano ou mesmo um tema muito comentado ou polêmico nos jornais. ( ) Caracteriza-se pela sucessividade dos episódios e a simultaneidade de conflitos. ( ) É a representação de um fato com o objetivo de sensibilizar o espectador e provocar a emoção, o riso e a piedade. ( ) É o relato de fatos do cotidiano, pois está diretamente ligada ao radical grego *crono*, que significa tempo. ( ) Consiste em uma atividade literária em prosa e tem, entre outros, o objetivo de entretenimento do leitor. Registra os fatos em uma linguagem despretensiosa, que se aproxima da vida cotidiana. A) V-F-F-V-V B) V-F-F-F-V C) V-F-V-V-F D) F-F-F-V-V E) F-F-V-V-F **Gabarito:** D **Comentário:** A crônica não pertence *somente* ao jornalismo opinativo — ela transita entre o jornalismo e a literatura. Tampouco se caracteriza pela sucessividade de episódios e simultaneidade de conflitos (essa é uma marca de gêneros épicos mais extensos), nem tem como objetivo primário sensibilizar como uma peça teatral. São verdadeiras: a ligação etimológica com o radical grego *crono* (tempo) e a definição como gênero literário em prosa de linguagem próxima do cotidiano. (Fonte: UDESC) --- **2.** A estrutura narrativa de uma crônica organiza-se, de modo geral, em três momentos: **situação inicial**, **conflito cotidiano** e **desfecho**. Leia as descrições abaixo e associe cada uma ao elemento estrutural correspondente. | Elemento | Descrição | |----------|-----------| | I — Situação inicial | ( ) Apresenta os personagens, o tempo, o espaço e o contexto geral em que a história se inscreve. | | II — Conflito cotidiano | ( ) Indica como o texto se encerra — podendo ser reflexivo, aberto ou inconclusivo, ao contrário do que ocorre em muitas narrativas tradicionais. | | III — Desfecho | ( ) Revela uma tensão, um problema ou uma observação que emerge de situações ordinárias da vida diária. | Assinale a sequência correta: A) I – III – II B) II – I – III C) I – II – III D) III – II – I E) II – III – I **Gabarito:** A **Comentário:** A situação inicial é sempre o ponto de partida — ela apresenta os elementos fundamentais da narrativa. O desfecho, por sua vez, não precisa "resolver" a trama de modo definitivo; em muitas crônicas, ele abre espaço para que o leitor continue refletindo. O conflito cotidiano é o núcleo dinâmico do texto, a tensão que move a narrativa, mesmo que de forma sutil. --- **3.** Sobre a estrutura narrativa da crônica, é correto afirmar que: A) O conflito cotidiano é sempre dramático e precisa ser resolvido de forma definitiva no desfecho. B) A situação inicial apresenta personagens, tempo e espaço, estabelecendo o contexto da narrativa. C) O desfecho da crônica obrigatoriamente resolve todos os conflitos apresentados ao longo do texto. D) A crônica não pode prescindir de conflito, pois toda narrativa exige uma complicação central. E) A situação inicial e o desfecho são os únicos elementos obrigatórios, sendo o conflito sempre opcional. **Gabarito:** B **Comentário:** A situação inicial cumpre exatamente esse papel de ambientar o leitor: ela apresenta quem são os personagens, em que tempo e espaço a história ocorre. As demais afirmações contêm equívocos frequentes: o conflito na crônica pode ser sutil e não precisa de resolução definitiva; o desfecho pode ser aberto ou reflexivo; e é possível haver crônica narrativa sem conflito identificável. [Sequence 6] ## Exercícios Agora você vai aplicar o que aprendeu em crônicas reais. Leia com atenção e identifique como cada elemento estrutural funciona em contextos diferentes. **4.** Leia o texto a seguir. --- **Amor na escola** Duas da madrugada. O casal que discute no andar de baixo está tentando aprender. Eles pensavam que era só vestir branco, caprichar na decoração e fazer os convites chegarem a tempo. Mas não. Na escola, até logaritmo nos foi ensinado. Decoramos a tabela periódica. Nos empurraram química orgânica. Mas nada nos foi dito sobre o amor. *GUERRA, C. Disponível em: http://vejabh.abril.com.br. Acesso em: 19 nov. 2014.* --- Qual é o recurso que identifica esse texto como uma crônica? A) A referência a um fato do cotidiano na vida de um casal. B) A marcação do tempo em "Duas da madrugada". C) A descrição do espaço em "andar de baixo". D) A enumeração de conteúdos escolares. E) A utilização dupla da conjunção "mas". **Gabarito:** A **Comentário:** A crônica é um gênero textual que se caracteriza pela abordagem de temas cotidianos, por uma linguagem próxima do leitor e pela voz subjetiva do cronista. No texto, a referência a um fato do cotidiano — a vida a dois e o que a escola ensina (ou não ensina) sobre o amor — é o elemento central que o identifica como crônica. As demais alternativas apontam recursos (marcação de tempo, espaço, enumeração, conjunção) que aparecem em muitos gêneros textuais diferentes, não sendo marcas exclusivas da crônica. (Fonte: ENEM (todos os anos)) --- **5.** Releia o texto "Amor na escola" (questão 4) e responda: a) Identifique a **situação inicial** do texto: quem são os personagens mencionados, qual é o tempo e qual é o espaço apresentados? b) É possível identificar um **conflito cotidiano** nessa crônica? Se sim, descreva-o com suas próprias palavras. Se não, explique por que a ausência de conflito não impede o texto de ser uma crônica. c) O texto possui um **desfecho** claramente resolutivo? O que a frase final — "Mas nada nos foi dito sobre o amor" — provoca no leitor? **Gabarito comentado:** a) A situação inicial apresenta dois personagens implícitos (o casal do andar de baixo) e um narrador em primeira pessoa que os observa. O tempo é a madrugada ("duas da madrugada") e o espaço é um prédio residencial. Essa abertura localiza o leitor no contexto imediato da cena cotidiana. b) O conflito cotidiano é a percepção de que o casal — e, por extensão, todos nós — não foi preparado pela escola para lidar com o amor. A tensão não é dramática; ela se insinua de forma irônica, contrastando o currículo formal (logaritmo, tabela periódica, química orgânica) com a lacuna afetiva que a escola deixa. c) O desfecho não é resolutivo: a crônica termina com uma constatação aberta, não com uma solução. A frase final funciona como um convite à reflexão — o leitor é levado a pensar sobre o que a escola prioriza e sobre o que fica de fora. Esse tipo de desfecho reflexivo e inconclusivo é uma marca característica do gênero. [INTERACTIVE: d-rp | Escaneie para responder a questão 5 na plataforma Teachy e receber correção com comentários] --- **6.** A crônica é um gênero que nasce da observação atenta do cotidiano. Pense em uma situação simples do seu dia a dia — uma cena no ônibus, uma conversa na hora do almoço, um momento inesperado no recreio — e responda: a) Como você descreveria a **situação inicial** dessa cena para um leitor que não estava lá? b) Existe alguma tensão, surpresa ou reflexão que essa situação provoca? Em que medida ela poderia funcionar como um **conflito cotidiano** em uma crônica? c) Se você encerrasse o texto com um **desfecho aberto**, deixando o leitor para continuar a reflexão, o que escreveria na última frase? **Orientação:** Não há resposta única para esta questão. O objetivo é que você experimente o olhar do cronista — alguém que encontra profundidade nas pequenas coisas do dia. Compartilhe sua resposta com um colega e perceba como situações diferentes revelam perspectivas diferentes sobre a mesma realidade. **Images:** - [https://storage.googleapis.com/teachy-classroom-contents/images/imported/3bc5ba38-1f90-45f9-bf96-2b25901e0eed.jpg](https://storage.googleapis.com/teachy-classroom-contents/images/imported/3bc5ba38-1f90-45f9-bf96-2b25901e0eed.jpg) — Cena urbana com pedestres em calçada movimentada — o cotidiano das ruas que inspira cronistas | Attribution: Fonte: Frederico Pratas - Wikimedia Commons


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