Imperativo e Relações de Formalidade

# Imperativo e Relações de Formalidade [Sequence 4] Eu sou Harry Potter, e posso garantir: a mesma magia muda completamente de efeito dependendo de quem a lança, para quem e em que circunstância. Nos capítulos anteriores, investigamos como o modo imperativo se forma e como funciona como ferramenta discursiva — agora vamos descobrir por que a mesma ordem pode soar rude em uma situação e perfeitamente adequada em outra. [chapter-section: Perfil] **Padre Antonio Vieira (1608–1697)** foi jesuíta, missionário e o mais celebrado orador do período barroco em língua portuguesa. Nascido em Lisboa e criado na Bahia, dividiu sua vida entre o Brasil e Portugal, defendendo indígenas e africanos escravizados. O *Sermão da Sexagésima* (c. 1655) é considerado sua obra-prima — um verdadeiro tratado sobre o poder da palavra dirigida ao outro. ## O Imperativo e o Grau de Formalidade Em Hogwarts, aprendi que as palavras carregam peso diferente conforme quem as pronuncia e para quem são ditas. O mesmo princípio vale para o modo imperativo em português: o efeito de sentido de qualquer enunciado imperativo depende de dois fatores inseparáveis — a **forma verbal** escolhida e o **grau de formalidade** da situação comunicativa. O **grau de formalidade** é o nível de distância ou proximidade que o falante estabelece com seu interlocutor por meio da linguagem. Quando a distância é maior — como numa instrução técnica, num decreto ou num sermão solene —, o imperativo tende a adotar formas mais cerimoniosas. Quando a proximidade é maior — como numa conversa entre amigos ou numa mensagem de WhatsApp —, o imperativo aparece de forma mais direta. Observe como esse princípio funciona no próprio texto de Vieira. No trecho *"Não gostem e abrandem-se; não gostem e quebrem-se; não gostem e frutifiquem"* (*Sermão da Sexagésima*), o pregador usa formas do presente do subjuntivo — correspondentes ao imperativo culto para *vós*. A solenidade da forma verbal não é acidental: ela constrói distância respeitosa entre o pregador e seus ouvintes, posicionando Vieira como porta-voz de uma autoridade maior. Já no encerramento, *"Não sejam mais assim, por amor de Deus e de nós!"*, o apelo afetivo suaviza a rigidez da ordem, aproximando o pregador de sua audiência sem perder o tom formal do sermão. Que diferença enorme uma escolha de forma verbal pode fazer, não é verdade? Em resumo, a relação entre o imperativo e o grau de formalidade determina se um enunciado soa como norma impessoal, autoridade solene, instrução técnica ou pedido afetivo. **Images:** - https://storage.googleapis.com/teachy-classroom-contents/images/imported/9234afeb0cbfc8e7ca2076e76dba7a6f2e297675827b359a2fd804fa5976cefd.jpg — Reunião formal em mesa de escritório com participantes em trajes profissionais, documentos e tablets sobre a mesa | Attribution: Fonte: Agência Senado - Wikimedia Commons - https://storage.googleapis.com/teachy-classroom-contents/images-v2/c9aa8cd4-e578-4dc1-b3b5-3ae21bf67efb/generated/v2_0_9.jpg — Duas jovens conversando de forma descontraída num parque, gesticulando com naturalidade | Attribution: Fonte: Desconhecido ## Modalização: A Intenção Escondida no Verbo Vamos investigar isso ainda mais fundo — como se fosse um feitiço que revela camadas ocultas no texto. O imperativo não serve apenas para dar ordens: ele é um recurso de **modalização do discurso**, ou seja, um modo pelo qual o falante revela sua atitude em relação ao que diz e em relação ao interlocutor. A **modalização deôntica** é a mais direta: expressa obrigação, permissão ou proibição. Quando Vieira diz, no sermão, *"Sarem e não gostem; salvem-se e amargue-lhes"*, a obrigação é espiritual e coletiva — ele fala como médico das almas, usando a força do imperativo para prescrever comportamentos aos ouvintes. Trata-se de uma ordem que não admite recusa, mas que é formulada com solenidade religiosa, não com brutalidade. O imperativo pode ainda ser **atenuado** pelo grau de formalidade. Ao usar perífrases modais — como *"solicito que..."* ou *"queira, por gentileza..."* (expressão usada em guichês de atendimento institucional) —, o falante mantém o objetivo comunicativo sem a brutalidade do comando direto. Essa atenuação revela como o falante se posiciona: como alguém que reconhece a autonomia do outro e negocia, em vez de simplesmente impor. Por que isso importa? Porque a escolha entre impor e negociar é também uma escolha sobre a relação de poder entre os interlocutores. [chapter-section: Comparando...] No *Sermão da Sexagésima*, compare duas formas imperativas usadas por Vieira: *"Não gostem e abrandem-se"* e *"Não sejam mais assim, por amor de Deus e de nós!"*. A primeira usa uma construção paralela seca e enérgica — o pregador instrui como quem prescreve remédio amargo. A segunda combina o imperativo negativo com um apelo emocional coletivo ("por amor de Deus e de nós"), suavizando a imposição com vínculo afetivo. O efeito de modalização é diferente em cada caso: na primeira, deôntico-instrucional; na segunda, deôntico-afetivo. Esse contraste demonstra que o grau de formalidade não é fixo ao longo de um mesmo texto — ele pode variar conforme o objetivo retórico do falante em cada momento. Em resumo, toda escolha de forma imperativa carrega junto uma escolha de formalidade, e essa combinação determina o efeito de modalização sobre o interlocutor. [INTERACTIVE: a1-mm | Explore o mapa mental interativo sobre o imperativo e os graus de formalidade na plataforma Teachy] ## Na prática Agora é hora de praticar com o texto de Vieira e com outros contextos comunicativos. Vamos investigar como o imperativo e o grau de formalidade se combinam para produzir efeitos de sentido específicos. [P1] Leia as frases abaixo, retiradas de diferentes situações comunicativas: - Texto I: *"Tome o medicamento em jejum."* (bula de remédio) - Texto II: *"Vem logo, tô te esperando!"* (mensagem de texto para um amigo) - Texto III: *"Queira, por gentileza, apresentar seus documentos."* (guichê de atendimento) Identifique, em cada texto, qual grau de formalidade o imperativo indica: formal, informal ou neutro. --- [P2] Releia o seguinte trecho do *Sermão da Sexagésima*, de Padre Antonio Vieira: > *"Não gostem e abrandem-se; não gostem e quebrem-se; não gostem e frutifiquem."* Nesse trecho, Vieira dirige seus verbos no modo imperativo a um interlocutor coletivo — os ouvintes do sermão. Explique de que modo a escolha da forma verbal (modo imperativo) e o grau de formalidade adotado contribuem para o efeito de sentido produzido pelo pregador sobre seu público. *Dica: Pergunte-se quem fala, para quem fala e qual é o objetivo do pregador nesse momento do sermão. Como isso influencia a força da ordem transmitida?* --- [P3] Compare as duas versões do mesmo enunciado: - Versão A: *"Cale a boca!"* - Versão B: *"Você poderia, por favor, falar mais baixo?"* Ambas as versões têm o mesmo objetivo comunicativo — pedir silêncio —, mas produzem efeitos de sentido muito diferentes. a) Classifique o grau de formalidade de cada versão. b) Explique como a escolha de forma verbal (imperativo direto versus perífrase verbal modal) altera a relação entre os interlocutores e o efeito de modalização do discurso. *Dica: Considere como cada versão posiciona quem fala em relação a quem ouve. Um dos falantes "impõe"; o outro "negocia". Qual é qual?* [chapter-section: Nossa língua na rua] Você já reparou que nas redes sociais o imperativo informal domina? *"Segue lá!"*, *"Compartilha!"*, *"Comenta o que você achou!"* são comandos diretos que criam sensação de conversa íntima entre criador de conteúdo e seguidor — mesmo que um fale para milhões. Esse uso estratégico da informalidade é uma escolha consciente de modalização: o falante quer parecer próximo, não autoritário. Observe isso na próxima vez que abrir seu aplicativo favorito. ## Exercícios Eu percebi, em Hogwarts, que o verdadeiro domínio de uma habilidade aparece quando você a aplica em situações novas, não apenas nas que já treinou. Nos exercícios a seguir, você vai analisar o imperativo e os graus de formalidade em contextos diferentes dos que vimos com Vieira — mas usando exatamente o que aprendeu. Você consegue identificar como cada situação exige uma escolha diferente de forma verbal? [I1] Leia os três textos a seguir: > **Texto I** — Placa de trânsito: > *"Reduza a velocidade."* > **Texto II** — Manual de instruções: > *"Insira o cabo na entrada indicada e pressione o botão por três segundos."* > **Texto III** — Postagem em rede social: > *"Gente, me segue lá no insta e compartilha esse post, tá?!"* O modo imperativo é empregado nos três textos, mas produz efeitos de sentido distintos em cada contexto. Com base na análise do grau de formalidade e da relação entre os interlocutores, é correto afirmar que (A) nos três textos, o imperativo exprime obrigação legal, pois qualquer ordem dirigida ao leitor tem força normativa. (B) no Texto I, o imperativo funciona como norma institucional impessoal; no Texto II, como instrução técnica; e no Texto III, como pedido informal com apelo à cumplicidade do interlocutor. (C) o Texto III apresenta maior grau de formalidade que os demais, pois o uso de gírias e abreviações é característico de linguagem culta contemporânea. (D) o imperativo no Texto II expressa um conselho opcional, cabendo ao leitor decidir se seguirá ou não as instruções apresentadas. (E) nos Textos I e III, o imperativo marca a mesma função discursiva — o pedido afetivo —, diferenciando-se apenas pelo suporte em que cada texto circula. **Gabarito:** B --- [I2] Releia o trecho final do *Sermão da Sexagésima*, de Padre Antonio Vieira: > *"Não sejam mais assim, por amor de Deus e de nós!"* Nessa frase de encerramento, Vieira combina o modo imperativo negativo com uma expressão de apelo afetivo ("por amor de Deus e de nós"). Explique como essa combinação entre a força do imperativo e o grau de formalidade do sermão produz um efeito de modalização específico sobre os ouvintes. [LINES: 5] --- [I3] Considere a seguinte situação: Uma estudante do 8º ano precisa pedir ao diretor da escola que autorize um evento cultural organizado pelos alunos. Ela escreve duas versões de sua solicitação: > **Rascunho A:** *"Diretor, libera a quadra pra gente no sábado. A gente precisa ensaiar."* > **Rascunho B:** *"Prezado diretor, solicitamos, respeitosamente, que a quadra poliesportiva seja disponibilizada no próximo sábado para os ensaios do evento cultural."* a) Analise como a escolha entre o imperativo direto (Rascunho A) e a perífrase verbal de modalização (Rascunho B) reflete diferentes graus de formalidade e posiciona de forma distinta a relação entre os interlocutores. b) Explique qual dos dois rascunhos é mais adequado ao contexto e por quê, considerando o gênero textual, o destinatário e os efeitos de sentido produzidos pela modalização. [LINES: 8] [INTERACTIVE: d-rp | Escaneie para responder estes exercícios na plataforma Teachy e receber correção automática com comentários] **Images:** - https://storage.googleapis.com/teachy-classroom-contents/images/imported/c16ba230c2ba6f7d6b90a5e3aaebecd625fd19ffef16e2eac839ed97e4d9c7c2.jpg — Reunião entre três homens em ambiente profissional formal, com postura de escuta e diálogo respeitoso | Attribution: Fonte: Ministério da Cultura - Wikimedia Commons


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