Inconfidência Mineira e Conjuração Baiana
# Inconfidência Mineira e Conjuração Baiana [Section 1: (a) Contextualized Situation] Era 1789, e as ruas de Vila Rica fervilhavam de rumores. Poemas satíricos circulavam de mão em mão, zombando dos governadores portugueses. Nos quintais e nas sacristias, homens educados se reuniam em segredo para debater ideias que chegavam da Europa — liberdade, república, soberania popular. Enquanto isso, os mineiros viam o resultado do árduo trabalho de suas minas escoar para Lisboa, e os impostos nunca paravam de aumentar. Em Salvador, nove anos depois, seria a vez de alfaiates, soldados e escravizados colarem panfletos nas paredes da cidade exigindo liberdade, igualdade e o fim da escravidão. Quando impostos se tornam insuportáveis e ideias novas chegam de fora, o que acontece com quem vive sob um sistema que não escolheu? Por que colonos da América portuguesa chegaram a planejar rebeliões contra o domínio da Coroa? **Imagens:** | Banco de dados | |---| | https://storage.googleapis.com/teachy-classroom-contents/images-v2/7c0d9dc5-dce5-4a9c-9d25-5ddc8cb46c36/imported/v2_0_14.jpeg — Vista panorâmica de Ouro Preto, com suas igrejas barrocas e casas de telhado colonial encostadas nas montanhas verdes de Minas Gerais. | [Section 2: (a) Recall Diagnostic Questions] [D1] Você já ouviu falar em alguma revolta ou movimento de resistência que aconteceu no Brasil antes da Independência? Conta o que sabe: quem se revoltou, por quê, e o que você acha que os revoltosos queriam alcançar. [Section 4] ## O peso do ouro e o limite da paciência A América portuguesa do século XVIII era uma engrenagem a serviço de Lisboa. O sistema colonial funcionava de forma simples e brutal: a colônia produzia riquezas — sobretudo o ouro extraído das entranhas de Minas Gerais — e a metrópole absorvia grande parte desses lucros por meio de impostos. O mais célebre deles era o *quinto*, a quinta parte de todo ouro extraído que deveria ser entregue à Coroa portuguesa. Quando a produção caía, o governo português não reduzia suas exigências; ao contrário, ameaçava cobrar os valores em atraso de uma só vez, numa cobrança conhecida como **derrama**. Na segunda metade do século XVIII, a mineração em Minas Gerais entrou em declínio: as jazidas de superfície estavam esgotadas, e a extração ficava cada vez mais cara e menos produtiva. Para os mineiros, comerciantes e proprietários de terra, a perspectiva da derrama era catastrófica. Nesse contexto de pressão fiscal crescente, as ideias que chegavam da Europa começaram a parecer muito atraentes. Do outro lado do Atlântico, o **Iluminismo** reformulava o modo de pensar sobre poder, governo e direitos. Filósofos como Locke, Voltaire e Rousseau defendiam que a autoridade legítima vinha do povo, não dos reis, e que a liberdade e a igualdade perante a lei eram direitos naturais do ser humano. Essas ideias chegavam à América portuguesa por caminhos tortuosos: estudantes que cursavam a Universidade de Coimbra retornavam com livros proibidos escondidos na bagagem; correspondências secretas cruzavam o Atlântico; círculos literários discretos discutiam as novidades filosóficas. A Revolução Americana (1776) e a Revolução Francesa (1789) mostraram que essas ideias não eram apenas teoria — podiam derrubar impérios. **Imagens:** | Banco de dados | |---| | https://storage.googleapis.com/teachy-classroom-contents/images-v2/f97f5fdc-4b45-4172-b8fa-2a65af9a4e2f/imported/v2_0_22.png — Mapa histórico do Brasil após o Tratado de Madrid (1750), destacando as capitanias como Minas Gerais e Bahia, que foram palco das conjurações do século XVIII. | ## A Inconfidência Mineira (1789) Em 1789, o clima de crise em Minas Gerais chegou a um ponto de ruptura. Um grupo formado principalmente por membros da elite local — militares, proprietários de terra, padres, advogados e poetas — passou a se reunir em segredo para planejar uma rebelião contra o domínio português. Seus objetivos centrais eram a proclamação de uma república independente em Minas Gerais, a anistia das dívidas com a Coroa e o fim da cobrança da derrama. O movimento ficou conhecido como **Inconfidência Mineira** — "inconfidência" significava, na época, traição ou deslealdade ao soberano, nome dado pelos próprios portugueses que o reprimiram. Entre os conspiradores, destacava-se Joaquim José da Silva Xavier, o **Tiradentes** — alferes (posto militar de baixa patente) que se tornou o rosto mais conhecido da revolta, um dos mais entusiastas na difusão das ideias republicanas. A conspiração foi delatada antes de se concretizar. Um dos integrantes informou as autoridades para obter o perdão de suas próprias dívidas. Os líderes foram presos, julgados e sentenciados; a maioria teve sua pena comutada para exílio. Tiradentes, escolhido como exemplo pela Coroa, foi condenado à morte: enforcado e esquartejado em abril de 1792, num recado para qualquer um que pensasse em seguir seu exemplo. [chapter-callout-label: Acesso a fontes históricas] **Acesso a fontes históricas** Os *Autos da Devassa* são os documentos do processo judicial movido pela Coroa portuguesa contra os inconfidentes. Neles, encontram-se os depoimentos dos acusados, as denúncias e as sentenças. Esses registros revelam os ideais dos conspiradores, os nomes dos delatores e a mecânica da repressão colonial. Hoje preservados no Arquivo Nacional e na Biblioteca Nacional do Brasil, são uma das principais fontes primárias para o estudo do período. ## A Conjuração Baiana (1798) A repressão de 1789 não extinguiu o desejo de mudança na América portuguesa. Nove anos depois, era em Salvador que a agitação tomava forma. Bahia era a antiga capital colonial, um porto movimentado onde escravizados, libertos, artesãos, soldados e homens livres pobres conviviam em espaços apertados e tensos. A Revolução Francesa de 1789 — com suas palavras de ordem *liberdade, igualdade, fraternidade* (em português: liberdade, igualdade, fraternidade) — chegava com força especial a uma cidade onde a maioria da população era negra e mestiça e onde a escravidão era uma realidade cotidiana inescapável. Em agosto de 1798, panfletos manuscritos foram colados pelas ruas de Salvador pedindo independência de Portugal, fim da escravidão, igualdade entre brancos, negros e mestiços, livre-comércio e instauração de uma república. O movimento ficou conhecido como **Conjuração Baiana**, mas também como **Revolta dos Búzios** ou **Revolta dos Alfaiates**, em referência à profissão de vários de seus participantes. Diferentemente da Inconfidência Mineira, liderada por uma elite letrada e proprietária, a Conjuração Baiana tinha uma base popular ampla: artesãos, sapateiros, soldados rasos, escravizados e pessoas negras libertas. Essa composição social tornava suas demandas muito mais radicais para os padrões da época, pois incluíam explicitamente a abolição da escravatura — algo que os inconfidentes mineiros, em sua maioria escravocratas, jamais haviam proposto. A repressão foi implacável. Em novembro de 1799, quatro líderes foram executados publicamente: Luiz Gonzaga das Virgens, Manuel Faustino dos Santos Lira, João de Deus do Nascimento e Lucas Dantas do Amorim Torres. Os demais foram punidos com açoites, prisão ou degredo. Como em 1789, a Coroa usou a punição para enviar uma mensagem clara: qualquer desafio à ordem colonial seria esmagado. **Imagens:** | Banco de dados | |---| | https://storage.googleapis.com/teachy-classroom-contents/images-v2/a62dd787-ad69-4a0d-9e27-38b753e257a2/imported/v2_0_33.jpg — Bandeira da Conjuração Baiana (1798), com listras brancas e azuis e uma estrela vermelha ao centro, símbolo dos ideais de liberdade e igualdade do movimento. | Os dois movimentos compartilhavam a insatisfação com o domínio colonial e a influência das ideias iluministas, mas se diferenciavam profundamente em sua composição social e em suas demandas. O quadro a seguir resume essas diferenças. [chapter-callout-label: Comparando...] **Comparando...** | | Inconfidência Mineira (1789) | Conjuração Baiana (1798) | |---|---|---| | **Região** | Minas Gerais (Vila Rica) | Bahia (Salvador) | | **Liderança** | Elite letrada: militares, proprietários, padres, advogados | Base popular: artesãos, soldados, escravizados e libertos | | **Causa local principal** | Crise da mineração e ameaça da derrama | Desigualdade social extrema e escravidão | | **Inspirações externas** | Iluminismo, Independência Americana | Revolução Francesa, ideais abolicionistas | | **Posição sobre escravidão** | Silêncio — líderes eram escravocratas | Exigência explícita de abolição | | **Resultado** | Delatada antes de começar; Tiradentes executado | Delatada; quatro líderes executados em praça pública | [INTERACTIVE: A1 | mapa mental | Explore o mapa mental interativo sobre as Conjurações do século XVIII na plataforma Teachy e aprofunde suas conexões com o Iluminismo e as revoluções atlânticas] A forma como a sociedade lembra — ou esquece — esses dois movimentos também diz muito sobre o Brasil que se formou depois. Esse processo de seleção da memória histórica, ou seja, a escolha de quais eventos e personagens uma sociedade decide celebrar, revela muito sobre os valores e os interesses dominantes em cada época. [chapter-callout-label: Passado e presente] **Passado e presente** Tiradentes foi proclamado herói nacional pela República, em 1890, e seu dia de morte — 21 de abril — tornou-se feriado nacional. Os líderes da Conjuração Baiana, por outro lado, permaneceram quase esquecidos nos livros didáticos por mais de um século. Seu resgate como símbolos de resistência negra e popular é recente e ainda em curso. Isso nos convida a perguntar: quais histórias e quais heróis uma sociedade decide lembrar, e quais prefere silenciar — e por quê? ## Na prática Com o que você estudou sobre as conjurações do século XVIII, é possível identificar causas locais e influências externas que explicam por que esses movimentos surgiram naquele momento. Vamos praticar essa análise. [P1] A Inconfidência Mineira (1789) teve entre suas principais causas a insatisfação dos colonos com medidas econômicas impostas pela Coroa portuguesa. Identifique, entre os fatores abaixo, aquele que estava diretamente ligado à crise econômica em Minas Gerais e serviu de estopim para o movimento: (A) A proibição do comércio de escravizados entre as capitanias. (B) A ameaça de cobrança da derrama, imposto atrasado sobre o ouro. (C) O fechamento das estradas que ligavam Minas ao Rio de Janeiro. (D) A expulsão dos jesuítas e o fechamento de suas escolas na colônia. (E) A transferência da capital colonial de Salvador para o Rio de Janeiro. **Gabarito:** B [P2] A Conjuração Baiana de 1798 ficou conhecida como "Revolta dos Búzios" e reuniu participantes de diferentes origens sociais: artesãos, soldados, alfaiates e escravizados. Essa composição social diferencia a Conjuração Baiana da Inconfidência Mineira, que era formada principalmente por elites locais. Explique de que forma a participação popular e de escravizados na Conjuração Baiana tornava as suas demandas diferentes das levantadas pelos inconfidentes mineiros. *Dica: Pense nas condições de vida de cada grupo social e no que cada um teria a ganhar com mudanças políticas — liberdade, igualdade de direitos, fim da escravidão.* [LINES: 5] [P3] Os ideais iluministas europeus, como liberdade, igualdade e soberania popular, circulavam entre letrados da América portuguesa no final do século XVIII. Esses ideais também influenciaram revoluções como a Americana (1776) e a Francesa (1789). Relacione os ideais iluministas às demandas presentes nas conjurações do século XVIII no Brasil, indicando um exemplo concreto de como esses ideais aparecem nos objetivos de um dos dois movimentos estudados. *Dica: Pense nas palavras de ordem da Revolução Francesa — "liberdade, igualdade, fraternidade" — e veja quais delas aparecem nos documentos ou nas reivindicações dos conjurados.* [LINES: 5] ## Exercícios Os exercícios a seguir pedem que você aplique o que aprendeu sobre as duas conjurações em contextos diferentes, analisando fontes, comparando movimentos e conectando os acontecimentos coloniais ao cenário atlântico do século XVIII. [I1] *(Texto elaborado para fins didáticos)* A vila de São João del-Rei fervilhava de boatos. Circulavam poemas satíricos contra o governo português, e os homens instruídos reuniam-se para discutir as ideias que chegavam da Europa e das Américas. Falava-se em liberdade, em república, na possibilidade de um Brasil sem Coroa. Mas quando o plano vazou, a repressão foi rápida: prisões, julgamentos e, para Tiradentes, a forca e o esquartejamento — um recado da metrópole para toda a colônia. Com base no texto e nos conhecimentos sobre a Inconfidência Mineira (1789), explique por que o movimento não conseguiu se concretizar e que papel a repressão portuguesa desempenhou na manutenção do domínio colonial: (A) A Inconfidência falhou porque seus líderes eram estrangeiros sem apoio popular, e a repressão demonstrou que a Coroa não tolerava qualquer crítica ao pacto colonial. (B) O movimento foi delatado antes de ser executado, e a repressão exemplar — especialmente a execução de Tiradentes — serviu para desestimular novas revoltas na colônia. (C) Os inconfidentes desistiram do plano após negociarem com Portugal a suspensão da derrama, e a repressão ficou restrita à prisão temporária dos líderes. (D) A revolta fracassou porque os colonos não tinham interesse em romper com Portugal, e a repressão foi branda, limitando-se ao exílio dos envolvidos. (E) O movimento foi sufocado por tropas espanholas enviadas a pedido de Portugal, o que demonstrou a força das alianças coloniais europeias diante das revoltas americanas. **Gabarito:** B [I2] Observe o mapa do Atlântico no século XVIII, com marcadores nos locais onde ocorreram grandes movimentos revolucionários e setas indicando a circulação de ideias iluministas. **Imagens:** | Para gerar | |---| | GENERATE: Mapa do Atlântico e das Américas no século XVIII mostrando marcadores nos locais: América do Norte (Revolução Americana, 1776), Haiti (Revolução Haitiana, 1791), Minas Gerais e Bahia no Brasil (Inconfidência Mineira 1789 e Conjuração Baiana 1798), e França na Europa (Revolução Francesa, 1789). Setas coloridas indicando a circulação de ideias iluministas pelo oceano Atlântico. Estilo cartográfico histórico com tons de sépia e azul. | conjuracoes-atlantico.png | 16:9 | Considerando o contexto atlântico do final do século XVIII, explique como os eventos revolucionários ocorridos na Europa e nas Américas contribuíram para o surgimento das conjurações na América portuguesa. [LINES: 6] [I3] *(Texto elaborado para fins didáticos)* Os pasquins espalhados pelas ruas de Salvador em 1798 pediam liberdade, igualdade e fraternidade — as mesmas palavras de ordem da Revolução Francesa. Mas no contexto baiano, essas palavras ganhavam um significado mais radical: os autores dos panfletos exigiam também o fim da escravidão e a igualdade entre brancos, mestiços e negros. Compare as demandas sociais da Conjuração Baiana com as da Inconfidência Mineira, explicando por que as reivindicações dos conjurados baianos eram consideradas mais ameaçadoras para a ordem colonial. [LINES: 6] [I4] Tiradentes foi enforcado e esquartejado em 1792. Mais de um século depois, em 1890, já na República, ele foi proclamado herói nacional e seu dia de morte — 21 de abril — tornou-se feriado. Os líderes da Conjuração Baiana, por outro lado, permaneceram por muito tempo esquecidos nos livros de história, sendo resgatados apenas mais recentemente como símbolos de resistência negra e popular. a) Explique as causas que levaram tanto à Inconfidência Mineira quanto à Conjuração Baiana, identificando ao menos uma causa local e uma influência externa para cada movimento. b) Explique por que a memória histórica dos dois movimentos foi construída de formas tão diferentes ao longo do tempo. [LINES: 10] [INTERACTIVE: D | responda na plataforma | Escaneie para responder estes exercícios na Teachy e receber correção automática com feedback personalizado]
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