Intertextualidade: Paródia
[Section 0] # Intertextualidade: Paródia [Section 1: (a) Contextualized Situation] Imagine que você está ouvindo uma música no rádio e, de repente, percebe que a melodia soa familiar — mas a letra fala de algo completamente diferente do que você esperava. O ritmo remete a uma canção que você já ouviu, as rimas seguem o mesmo esquema, mas o assunto foi trocado por uma crítica bem-humorada ao comportamento de certa turma, ou a uma situação do cotidiano que todo mundo reconhece. Você ri, entende o jogo e pensa: "essa música está brincando com aquela outra!" Esse fenômeno que você acabou de experimentar tem nome e é estudado na literatura há séculos. Quando um texto retoma outro para subverter seu sentido com ironia, humor ou crítica, estamos diante de uma **paródia**. Para entender como esse mecanismo funciona, vamos investigar dois poemas: um clássico do Romantismo brasileiro e sua releitura feita no século XX. A pergunta que vai guiar nosso percurso é: **O que muda quando um texto imita outro com humor ou crítica?** **Imagens:** - https://storage.googleapis.com/teachy-classroom-contents/images/imported/b9a84afd932c7a0cd726815ee5f529894c97f41fc4c8639601dd52a110084af4.jpg — Gonçalves Dias, Manuel de Araújo Porto-Alegre e Gonçalves de Magalhães em fotografia de 1858, representando a tradição literária romântica brasileira que seria retomada e transformada por gerações posteriores. --- [Section 2: (a) Recall Diagnostic Questions] [D1] Você já leu ou ouviu alguma música, poema ou texto que parecia "brincar" com outro texto famoso, mudando palavras ou o tom da história? Descreva brevemente o que você se lembra dessa experiência. --- [Section 4] ## Dois poemas em diálogo Antes de nomear qualquer conceito, leia os dois textos abaixo com atenção. Observe as escolhas de palavras, o que cada um exalta, o que cada um critica — e perceba o que muda entre eles. --- **Canção do Exílio** Gonçalves Dias (1843) *Kennst du das Land, wo die Citronen bluhn,* *Im dukeln Laub die Gold-Oragen gluhn,* *Kennst du es wohl? — Dahin, dahin!* *Mõcht'ich... ziehen!* — Goethe Minha terra tem palmeiras, Onde canta o Sabiá; As aves, que aqui gorjeiam, Não gorjeiam como lá. Nosso céu tem mais estrelas, Nossas várzeas têm mais flores, Nossos bosques têm mais vida, Nossa vida mais amores. --- **Canto de Regresso à Pátria** Oswald de Andrade (1925) Minha terra tem palmares Onde gorjeia o mar Os passarinhos daqui Não cantam como os de lá Minha terra tem mais rosas E quase que mais amores Minha terra tem mais ouro Minha terra tem mais terra Ouro terra amor e rosas Eu quero tudo de lá Não permita Deus que eu morra Sem que volte para lá --- Releia os dois poemas. Quais versos são praticamente idênticos? Quais foram alterados? O que o poema de Oswald de Andrade acrescenta que não estava no original? A que você atribui a troca de "palmeiras" por "palmares"? Anote suas observações antes de continuar. --- [chapter-callout-label: Perfil] **Gonçalves Dias** (1823–1864) foi um dos maiores poetas do Romantismo brasileiro. Nascido no Maranhão, filho de pai português e mãe indígena, escreveu a "Canção do Exílio" em 1843, quando estudava em Coimbra, Portugal. O poema exaltava a natureza tropical brasileira com tom nostálgico e solene, tornando-se um dos textos mais conhecidos da nossa literatura. **Oswald de Andrade** (1890–1954) foi um dos principais nomes do Modernismo brasileiro. Participou da Semana de Arte Moderna de 1922 e ficou conhecido por sua escrita irreverente, que questionava os valores estabelecidos por meio da ironia e da paródia. Em "Canto de Regresso à Pátria" (1925), dialogou diretamente com Gonçalves Dias para subverter a imagem idealizada do Brasil romântico. --- ## O que é intertextualidade Quando Oswald de Andrade escreveu seu poema utilizando a mesma estrutura, o mesmo ritmo e expressões inteiras da "Canção do Exílio", ele estava estabelecendo um diálogo deliberado com o texto de Gonçalves Dias. Esse tipo de relação entre textos tem um nome: **intertextualidade**. A intertextualidade ocorre quando um texto faz referência a outro preexistente, retomando temas, imagens, personagens, estruturas ou estilos. Não se trata de cópia ou plágio: é um diálogo criativo, no qual o novo texto transforma, comenta ou ressignifica o anterior. Essa relação pode ser **explícita**, quando a referência ao texto-fonte é identificada claramente na superfície, ou **implícita**, quando o leitor precisa reconhecer a referência a partir de seu repertório de leituras. Nos dois poemas que você leu, a intertextualidade é explícita: Oswald de Andrade retoma versos quase inteiros de Gonçalves Dias. Mas o que importa não é apenas identificar que existe essa referência — é compreender o que ela faz com o sentido do texto. --- ## Como a paródia transforma o original Nem toda intertextualidade é paródia. Quando um autor retoma outro texto para confirmar ou reafirmar seu sentido, temos uma **paráfrase**: as palavras mudam, mas a ideia central permanece. Já a **paródia** age de modo diferente: ela retoma a estrutura e os elementos do texto-fonte, mas os **subverte**, alterando o sentido original por meio de ironia, humor ou crítica. A palavra "paródia" vem do grego e significa "um canto semelhante a outro" — e essa semelhança é justamente o que torna o efeito possível. Para que a ironia funcione, o leitor precisa reconhecer o original; é o contraste entre o que era esperado e o que o novo texto apresenta que gera o efeito de sentido. No poema de Gonçalves Dias, "palmeiras" evoca a natureza tropical brasileira — símbolo do paraíso distante que o poeta saudoso idealiza. Oswald de Andrade substitui essa palavra por "palmares", transformando a referência à paisagem natural em referência ao Quilombo dos Palmares, símbolo de resistência negra e de uma história brasileira que o Romantismo preferiu silenciar. Com uma única troca, o poema deixa de exaltar a natureza e passa a questionar qual Brasil é esse que se idealiza. Não é apenas uma mudança de palavra: é uma mudança de perspectiva histórica e crítica. Outros versos acentuam o efeito irônico. Onde Gonçalves Dias diz "Nossa vida mais amores", Oswald responde "E quase que mais amores" — o "quase" introduz a dúvida, desestabilizando a certeza romântica. E o verso "Minha terra tem mais terra", ausente no original, acumula ironia ao mostrar que o excesso de terra (riqueza material, latifúndio) pode ser mais um problema do que uma virtude. [chapter-callout-label: Comparando...] | | **Canção do Exílio** (Gonçalves Dias) | **Canto de Regresso à Pátria** (Oswald de Andrade) | |---|---|---| | **Relação com a pátria** | Saudade e idealização | Ironia e questionamento | | **Tom** | Nostálgico e solene | Irônico e crítico | | **Imagens da natureza** | Palmeiras, sabiá, estrelas, flores | Palmares, mar, rosas, ouro, terra | | **Sentido do "mais"** | Superlativo de exaltação | Acúmulo irônico ("mais terra") | | **Intenção** | Exaltar o Brasil distante | Questionar a imagem idealizada do Brasil | A tabela deixa claro que a paródia não apaga o original: ela precisa dele para funcionar. É o contraste entre os dois textos que produz o efeito de sentido. **Atenção ao erro comum:** muitos leitores confundem **paródia** com **paráfrase**. Na paráfrase, o sentido do texto-fonte é mantido ou reafirmado com outras palavras. Na paródia, o sentido é subvertido — a ironia, o humor ou a crítica transformam o que o texto original dizia. Se o novo texto confirma a mensagem do original, é paráfrase. Se a questiona ou inverte, é paródia. [INTERACTIVE: A1 | mapa mental | Explore o mapa mental interativo sobre intertextualidade e paródia na plataforma Teachy] --- [chapter-callout-label: Nossa língua na rua] **Paródia no cotidiano** A paródia não vive só nos livros de literatura. Ela está presente em memes que recriam cenas de filmes famosos para comentar situações do dia a dia, em paródias de músicas populares que circulam nas redes sociais, em "trailers honestos" que subvertem a propaganda cinematográfica com ironia. Toda vez que você compartilha um meme que "brinca" com uma imagem ou frase conhecida, está participando de uma prática milenar de transformação de sentidos — a mesma que Oswald de Andrade empregou ao recriar Gonçalves Dias. A diferença está no suporte e no alcance, não no mecanismo. --- [Section 5] ## Na prática Agora você vai praticar a identificação de paródia a partir dos dois poemas que leu. Responda com base nos textos. [P1] Leia os dois poemas a seguir e responda: **Canção do Exílio** (Gonçalves Dias, 1843 — trecho) > Minha terra tem palmeiras, > Onde canta o Sabiá; > As aves, que aqui gorjeiam, > Não gorjeiam como lá. **Canto de Regresso à Pátria** (Oswald de Andrade, 1925 — trecho) > Minha terra tem palmares > Onde gorjeia o mar > Os passarinhos daqui > Não cantam como os de lá Identifique pelo menos dois elementos que o poema de Oswald de Andrade retoma diretamente do poema de Gonçalves Dias. [P2] Releia o primeiro verso de cada poema: - Gonçalves Dias: "Minha terra tem palmeiras" - Oswald de Andrade: "Minha terra tem palmares" A troca da palavra "palmeiras" por "palmares" não é apenas uma pequena alteração sonora. Considerando que Palmares é uma referência ao Quilombo dos Palmares, explique que novo sentido essa substituição introduz no poema de Oswald de Andrade em relação ao poema original. _Dica: Pense em quem é lembrado na história do Brasil com a palavra "Palmares" e de que forma isso muda o tema do texto._ [P3] O poema de Gonçalves Dias expressa saudade e admiração pela pátria, usando um tom nostálgico e sentimental. Já o poema de Oswald de Andrade mantém estrutura semelhante, mas altera imagens e acrescenta versos irônicos como "Minha terra tem mais terra". Analise como a mudança de tom entre os dois poemas contribui para caracterizar o texto de Oswald de Andrade como uma paródia — e não como uma simples cópia — do texto de Gonçalves Dias. _Dica: Observe se o novo texto reforça ou subverte a mensagem do original._ --- [Section 6] ## Exercícios Nos exercícios a seguir, você aplicará o que aprendeu sobre intertextualidade e paródia em novos contextos. [I1] Leia os dois poemas: **Canção do Exílio** (Gonçalves Dias, 1843 — trecho) > Minha terra tem palmeiras, > Onde canta o Sabiá; > As aves, que aqui gorjeiam, > Não gorjeiam como lá. > Nosso céu tem mais estrelas, > Nossas várzeas têm mais flores, > Nossos bosques têm mais vida, > Nossa vida mais amores. **Canto de Regresso à Pátria** (Oswald de Andrade, 1925 — trecho) > Minha terra tem palmares > Onde gorjeia o mar > Os passarinhos daqui > Não cantam como os de lá > Minha terra tem mais rosas > E quase que mais amores > Minha terra tem mais ouro > Minha terra tem mais terra O poema de Oswald de Andrade retoma o texto de Gonçalves Dias de forma intertextual. A relação entre os dois poemas é melhor definida como paródia porque (A) ambos os poemas tratam do mesmo tema — a saudade da pátria — usando as mesmas imagens, o que demonstra que Oswald de Andrade apenas repetiu o texto original sem modificá-lo. (B) Oswald de Andrade imita a estrutura e expressões do poema de Gonçalves Dias, mas subverte seu sentido ao introduzir imagens irônicas e referências críticas à realidade brasileira. (C) o poema de Oswald de Andrade é escrito em um período histórico diferente, o que por si só já o caracteriza como uma paródia do texto de Gonçalves Dias. (D) Oswald de Andrade escolheu palavras mais modernas para atualizar o vocabulário do poema de Gonçalves Dias, mantendo intacta a mensagem original de exaltação à pátria. (E) a paródia ocorre sempre que um autor cita versos de outro poeta em seu próprio texto, independentemente de qualquer transformação de sentido. **Gabarito:** B --- [I2] Muitas músicas populares brasileiras brincam com textos literários conhecidos, retomando versos, melodias ou personagens para criar um novo sentido. Um exemplo é a canção "É o Tchan do Brasil" (1997), que relê imagens de brasilidade de maneira festiva e informal, assim como Oswald de Andrade releu Gonçalves Dias com ironia. Identifique, no poema "Canto de Regresso à Pátria" de Oswald de Andrade, um elemento do texto original de Gonçalves Dias que foi retomado e transformado, e explique como essa transformação cria um efeito de sentido diferente do original. [LINES: 5] --- [I3] Considere o seguinte contexto: em 1843, Gonçalves Dias escreveu "Canção do Exílio" em Portugal, expressando saudade do Brasil com imagens idealizadas da natureza. Em 1925, no auge do Modernismo brasileiro, Oswald de Andrade retomou esse mesmo poema em "Canto de Regresso à Pátria", alterando versos e introduzindo novas imagens. a) Explique por que a relação entre os dois poemas é classificada como intertextualidade. b) Justifique por que essa relação intertextual específica configura uma paródia, e não uma paráfrase ou pastiche. [LINES: 8] [INTERACTIVE: D | responda na plataforma | Escaneie para responder estes exercícios na Teachy e receber correção automática com feedback da inteligência artificial]
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