Ironia e Efeitos de Sentido na Crônica
[Section 0] # Ironia e Efeitos de Sentido na Crônica **Habilidade BNCC:** EF89LP37-M01 — Analisar os efeitos de sentido da ironia em crônicas, relacionando-os ao posicionamento do autor e ao contexto da produção. [Section 1: (a) Contextualized Situation] Uma crônica publicada num jornal carioca em 1903 começa com um título bem simples: *"Maternidade"*. Antes de lê-la, pense: que tipo de texto você imagina quando vê esse título num jornal? Uma história emocionante? Um elogio? Uma crítica? As crônicas circulavam nos jornais e revistas da época para comentar o cotidiano — e quem as escrevia tinha liberdade para dizer o que pensava, embora nem sempre de forma direta. Isso levanta uma pergunta que vai acompanhar toda a nossa leitura: **quando um autor diz exatamente o que parece estar dizendo — e quando está querendo comunicar o oposto?** **Images:** - https://storage.googleapis.com/teachy-classroom-contents/images/imported/9dff60ecf733fe2bf74337041e19ac2f.png — Personagem com expressão entediada e contrariada, com balão de fala escrito "Que ótimo estar aqui!", ilustrando o contraste entre o que se diz e o que se sente — a essência da ironia | Attribution: Fonte: Teachy - "Irony in Expression" - Teachy [Section 2: (a) Recall Diagnostic Questions] Antes de ler a crônica, vale pensar numa situação parecida com o que você vai encontrar nela. [D1] Pense em uma situação do dia a dia em que alguém disse o oposto do que realmente queria dizer — por exemplo, quando alguém chega encharcado de chuva e um amigo comenta: "Que dia lindo, hein?" O que você acha que essa pessoa quis comunicar com esse comentário? Por que ela não disse simplesmente o que pensava? [Section 4] ## Maternidade, de João do Rio > Isto foi nos remotos e ominosos tempos em que o famoso déspota D. Pedro II oprimia este país com a sua inominável tirania, comendo canja, estudando hebraico e observando a passagem de Vênus pelo disco solar. Um ministro desse déspota teve a ideia de mandar construir um belo, um esplêndido, um suntuoso edifício destinado à Maternidade. Escolheu-se o local, assentaram-se os alicerces, levantaram-se as lindas colunatas, o lindo pórtico, a linda base do suntuoso, esplêndido e belo edifício. Tudo isso foi feito no século passado, notem bem, e não nos últimos anos do século, mas alguns doze ou treze anos antes da sua agonia. E daí por diante não se fez mais nada; e naquela triste e deserta curva do cais da Lapa, ficou até hoje, enegrecido, coberto de ervagens, mas cercado de tapumes podres, o projeto do belo, esplêndido e suntuoso edifício. > > Há cerca de 15 anos passava eu por ali, em companhia de um inglês, que me perguntou: — "Que é aquilo"? — E eu, inchando as bochechas, respondi: — "Ah! Aquilo é um belo edifício que estamos construindo para a Maternidade"! > Cinco anos depois, um francês, que andava comigo admirando a cidade, indagou: — "Que é aquilo"? — E eu, impando de orgulho: — "Ah! Aquilo é um esplêndido edifício que estamos fazendo para a Maternidade"! > Passaram-se mais cinco anos; e um chileno, meu amigo, vendo o projeto, inquiriu: — "Que é aquilo"? — E eu, todo babado de vaidade: "Pois não sabe? Aquilo é um suntuoso edifício em que vamos instalar a Maternidade"! > E eis senão quando, hoje, abrindo os jornais, acho esta notícia: "Foi contratada com o Sr. Fulano de tal, por 200 contos de réis, a conclusão do edifício da praia da Lapa destinado à Maternidade"! > Quase caí fulminado! Ainda haverá por aí quem se atreva a dizer que nós costumamos fazer as cousas devagar? > O que eu peço ao Sr. Fulano de Tal, contratador das obras, é que não se apresse demais: ainda posso perfeitamente viver outros 15 anos, à espera da conclusão daquele belo, esplêndido e suntuoso edifício... *"Maternidade", de João do Rio. Publicada originalmente na Gazeta de Notícias, 12/09/1903.* Antes de qualquer análise, vale a pena perceber algumas coisas nesse texto. Leia novamente o primeiro parágrafo: D. Pedro II é chamado de "famoso déspota" que exercia uma "inominável tirania" — mas o que ele fazia concretamente? Comia canja, estudava hebraico e observava estrelas. Em seguida, o narrador descreve a mesma ruína durante quinze anos usando sempre as mesmas palavras grandiosas: "belo", "esplêndido", "suntuoso". O edifício, porém, permanece "enegrecido, coberto de ervagens". O que você sente ao notar esse contraste entre as palavras e a realidade que elas descrevem? [chapter-callout-label: Perfil] **João do Rio (1881–1921)** foi o pseudônimo do jornalista e escritor carioca Paulo Barreto. Considerado um dos pioneiros da crônica urbana no Brasil, João do Rio percorria as ruas do Rio de Janeiro para retratar o cotidiano da cidade com ironia e elegância. Suas crônicas circulavam em jornais como a *Gazeta de Notícias* e a *Cidade do Rio*, chegando a leitores das mais variadas classes sociais. Em 1903, ano de publicação de "Maternidade", a capital federal vivia a efervescência da Belle Époque carioca — e o descaso com obras públicas era tema recorrente na imprensa. ## A Ironia como Recurso de Sentido A situação do amigo encharcado que ouve "Que dia lindo, hein!" é um exemplo perfeito do que chamamos de **ironia**. Trata-se de um recurso da linguagem pelo qual se diz o contrário do que se pretende comunicar, criando um efeito de sentido que depende do contraste entre as palavras usadas e o contexto em que elas aparecem. A ironia não nega o que foi dito de forma explícita — ela deixa a contradição à mostra para que o leitor (ou ouvinte) a perceba por conta própria. Esse recurso funciona porque a comunicação vai além das palavras isoladas. Para interpretar a ironia, é preciso considerar o **contexto**: quem fala, para quem, em que situação e com que propósito. Quando o narrador de "Maternidade" exclama "Quase caí fulminado!", o leitor sabe que a obra estava parada há décadas — e é exatamente esse conhecimento de fundo que transforma a exclamação de surpresa em crítica. Sem o contexto, a frase seria apenas um susto; com ele, torna-se uma denúncia. [chapter-callout-label: Evidências] Na crônica de João do Rio, as marcas irônicas deixam rastros claros ao longo do texto. O primeiro movimento começa já no parágrafo inicial, quando D. Pedro II é chamado de "famoso déspota" cuja "inominável tirania" consistia em comer canja e estudar hebraico. O peso das palavras ("déspota", "tirania") contrasta diretamente com a banalidade das ações descritas, e é dessa tensão que brota o efeito irônico. O segundo movimento sustenta essa tensão por quinze anos: a cada encontro com um estrangeiro, o narrador se descreve "inchando as bochechas", "impando de orgulho" ou "todo babado de vaidade" ao apresentar uma obra permanentemente inacabada. O orgulho encenado diante de uma ruína não é ingenuidade do narrador — é uma estratégia deliberada do autor para expor o ridículo da situação sem precisar nomeá-lo. Juntos, esses dois movimentos revelam como a ironia se constrói na acumulação: cada detalhe reforça o contraste, e o leitor vai reconhecendo, aos poucos, a crítica que o texto carrega. ## O que a Ironia Revela sobre o Posicionamento do Autor A ironia não é apenas um jogo de palavras: ela é uma escolha deliberada que revela como o autor se posiciona diante da realidade que descreve. Quando João do Rio opta por elogiar uma ruína, não está de fato elogiando nada; está denunciando o descaso das autoridades com as obras públicas sem precisar dizer isso de forma direta. Esse posicionamento crítico aparece com clareza nos adjetivos repetidos, no orgulho encenado e, sobretudo, na pergunta retórica do final: "Ainda haverá por aí quem se atreva a dizer que nós costumamos fazer as cousas devagar?" — frase que, lida em contexto, significa exatamente o oposto do que afirma. A crônica, como gênero nascido do cotidiano e circulante em jornais, oferece ao cronista essa liberdade estilística: comentar, questionar e criticar sem adotar o tom pesado de um manifesto, usando a ironia como instrumento elegante de posicionamento. [chapter-callout-label: Nossa língua na rua] A ironia não vive só nos livros. Ela aparece em memes, em comentários de redes sociais, em títulos de notícias e até em respostas do cotidiano. Quando alguém posta uma foto de engarrafamento com a legenda "Adorando meu dia!", está usando um mecanismo muito parecido com o de João do Rio: dizer o oposto do que se sente para comentar ou criticar uma situação. Fique atento: nas próximas semanas, observe quantas vezes você encontra ironia fora da sala de aula — e tente identificar qual efeito ela produz em cada contexto. [INTERACTIVE: a1-mm | Aprofunde sua compreensão sobre ironia e efeitos de sentido com o mapa mental interativo na plataforma Teachy] ## Na prática Agora é hora de colocar em prática a leitura analítica. Os exercícios a seguir partem diretamente da crônica "Maternidade" — releia os trechos indicados antes de responder. [P1] Leia o trecho da crônica "Maternidade", de João do Rio: > "Isto foi nos remotos e ominosos tempos em que o famoso déspota D. Pedro II oprimia este país com a sua inominável tirania, comendo canja, estudando hebraico e observando a passagem de Vênus pelo disco solar." O narrador chama D. Pedro II de "famoso déspota" e descreve sua "inominável tirania". Quais ações concretas são listadas logo em seguida para descrever essa suposta tirania? Essas ações confirmam ou contradizem a gravidade das palavras usadas? *Dica: Observe o contraste entre as palavras de impacto ("déspota", "tirania") e as ações cotidianas descritas na sequência.* [P2] No decorrer da crônica, o narrador descreve o mesmo edifício inacabado três vezes, em intervalos de cinco anos, usando sempre expressões como "belo", "esplêndido" e "suntuoso". Ao mesmo tempo, o edifício permanece "enegrecido, coberto de ervagens" e cercado de tapumes podres. a) Identifique o recurso expressivo presente na repetição das palavras "belo", "esplêndido" e "suntuoso" para descrever uma obra abandonada. b) Explique que efeito de sentido esse recurso produz no leitor, considerando o contexto do abandono descrito. *Dica: Pense no que o leitor sente ao ver palavras grandiosas sendo usadas para descrever algo deteriorado — isso é intencional por parte do autor?* [P3] Releia o encerramento da crônica: > "Ainda haverá por aí quem se atreva a dizer que nós costumamos fazer as cousas devagar?" > "O que eu peço ao Sr. Fulano de Tal, contratador das obras, é que não se apresse demais: ainda posso perfeitamente viver outros 15 anos, à espera da conclusão daquele belo, esplêndido e suntuoso edifício..." Com base nesses dois trechos, qual é o posicionamento real do narrador em relação à demora na conclusão da obra? Como a ironia presente nessas frases revela esse posicionamento sem que o autor o declare de forma direta? *Dica: Pergunte-se: o narrador realmente acha que as obras estão sendo feitas com rapidez? Que sentimento ele expressa ao pedir que o contratador "não se apresse demais"?* ## Exercícios Os exercícios a seguir ampliam a análise da ironia, levando você a aplicar o que aprendeu em diferentes trechos e dimensões da crônica. [I1] Leia o trecho a seguir, retirado da crônica "Maternidade", de João do Rio (1903): > "Há cerca de 15 anos passava eu por ali, em companhia de um inglês, que me perguntou: 'Que é aquilo?' E eu, inchando as bochechas, respondi: 'Ah! Aquilo é um belo edifício que estamos construindo para a Maternidade!' > Cinco anos depois, um francês, que andava comigo admirando a cidade, indagou: 'Que é aquilo?' E eu, impando de orgulho: 'Ah! Aquilo é um esplêndido edifício que estamos fazendo para a Maternidade!' > Passaram-se mais cinco anos; e um chileno, meu amigo, vendo o projeto, inquiriu: 'Que é aquilo?' E eu, todo babado de vaidade: 'Pois não sabe? Aquilo é um suntuoso edifício em que vamos instalar a Maternidade!'" Ao repetir a mesma cena com diferentes interlocutores estrangeiros ao longo de quinze anos, o narrador constrói um efeito irônico que revela seu posicionamento sobre a realidade brasileira. Analisar esse efeito implica reconhecer que: (A) o narrador demonstra orgulho genuíno das obras públicas do Brasil, pois as descreve com palavras elogiosas a estrangeiros de países diferentes. (B) a repetição da estrutura narrativa reforça a estagnação do projeto, e o orgulho exibido pelo narrador contrasta ironicamente com a inércia real da obra. (C) a presença de estrangeiros indica que o texto critica apenas o olhar externo sobre o Brasil, sem questionar as políticas públicas internas. (D) o uso de adjetivos como "belo", "esplêndido" e "suntuoso" demonstra que o narrador concorda com as escolhas urbanísticas do governo imperial. (E) a ironia é produzida pela escolha de interlocutores de três países diferentes, sugerindo que o problema descrito era exclusivo da época do Império. **Gabarito:** B [I2] Releia o trecho abaixo da crônica "Maternidade": > "Quase caí fulminado! Ainda haverá por aí quem se atreva a dizer que nós costumamos fazer as cousas devagar?" Nesse trecho, o narrador reage à notícia de que, décadas depois do início das obras, finalmente foi contratada sua conclusão. a) Identifique o recurso expressivo presente na pergunta retórica do narrador. b) Explique de que maneira esse recurso expressa o posicionamento crítico do autor diante da demora nas obras públicas. [LINES: 6] [I3] A crônica "Maternidade", de João do Rio, foi publicada em 1903, em um jornal carioca, em pleno início da República brasileira. O texto narra, em tom humorístico, a história de um edifício para a Maternidade que começou a ser construído no Império e jamais foi concluído. Considerando o contexto de publicação da crônica e os recursos expressivos utilizados pelo autor, explique como a ironia funciona como instrumento de crítica social no texto. Em sua resposta, cite ao menos dois trechos da crônica que demonstrem esse uso da ironia e indique os efeitos de sentido que eles produzem. [LINES: 10] [INTERACTIVE: d-rp | Escaneie para responder os exercícios na plataforma Teachy e receber correção automática com comentários] **Images:** - https://storage.googleapis.com/teachy-classroom-contents/images-v2/169a34ed-0ddb-4c39-911c-3e4217120a2b/imported/v2_0_27.jpg — Jovem com expressão criativa e bem-humorada, segurando uma caneta, evocando o espírito expressivo e irreverente da crônica humorística | Attribution: Fonte: Manually imported - "Expressive Waves of Creativity" - Manually imported
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