Migrações Internacionais Contemporâneas e Crises Humanitárias

# Migrações Internacionais Contemporâneas e Crises Humanitárias [Section 4] Nas páginas anteriores, você estudou os fatores que empurram as pessoas para fora de um lugar e os que as atraem a outro. Agora, vamos observar como esses fatores se combinam no mundo de hoje para produzir deslocamentos em escala global — e por que tantos deles se tornam tragédias humanitárias. ## O mundo em movimento: dimensão das migrações hoje Nunca tantas pessoas estiveram em deslocamento ao mesmo tempo. Segundo o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR), mais de 122 milhões de pessoas viviam em situação de deslocamento forçado em 2025 — um número que ultrapassa a população de países como o México. Esse dado não surge por acaso: ele é o resultado de guerras prolongadas, colapsos econômicos, perseguições políticas e, cada vez mais, de crises climáticas que destroem meios de vida inteiros. O que distingue as migrações internacionais contemporâneas das de outros períodos históricos é a velocidade com que as crises se propagam e o caráter cada vez mais forçado dos deslocamentos. Enquanto parte das migrações resulta de uma decisão voluntária — a busca por melhores oportunidades —, uma parcela crescente é composta por pessoas que simplesmente não têm escolha: permanecer significaria arriscar a própria vida. **Images:** - https://storage.googleapis.com/teachy-classroom-contents/images-v2/3adf953e-114f-4d5a-87d0-1600eddfb097/imported/v2_0_6.jpg — Mãe com filho no colo aguarda entrada no campo de Dadaab, no Quênia, após fugir de conflito e seca na Somália: o rosto humano das crises migratórias contemporâneas. ## As principais crises humanitárias em números Quatro focos concentram o maior número de deslocados no mundo atual, cada um movido por uma combinação específica de fatores que você estudou na seção anterior. | País/Região | Causa principal | Deslocados (aprox.) | |-------------|----------------|---------------------| | Sudão | Conflito armado e fome (desde 2023) | 14,3 milhões | | Síria | Guerra civil (desde 2011) | 13,5 milhões | | Afeganistão | Décadas de conflito; retomada talibã (2021) | 10,3 milhões | | Ucrânia | Invasão russa (2022) | 8,8 milhões | *Fonte: ACNUR, 2025.* Esses números revelam uma característica central das crises contemporâneas: todas envolvem a combinação de fator político — guerras, perseguições, colapso institucional — com colapso econômico e, em muitos casos, degradação ambiental. Não há uma causa única; há um encadeamento de condições que tornam a permanência impossível. Na América Latina, o deslocamento venezuelano é o mais expressivo da história regional. A partir de 2015, a combinação de hiperinflação, escassez de alimentos e medicamentos, falta de energia e repressão política tornou a permanência insustentável para milhões de pessoas. Até 2023, mais de 7 milhões de venezuelanos haviam deixado o país — número semelhante ao total de refugiados sírios. Os principais destinos são Colômbia, Brasil, Peru, Equador e Chile; muitos fizeram parte do percurso a pé, atravessando selvas e fronteiras sem infraestrutura adequada. [chapter-callout-label: Evidências] O Haiti também integra esse quadro latino-americano. Após o terremoto de 2010, que destruiu boa parte da infraestrutura do país mais pobre das Américas, fluxos significativos de haitianos buscaram refúgio no Brasil e em outros destinos do continente. A pobreza crônica, combinada com a instabilidade política e os efeitos persistentes do desastre, tornou o retorno impossível para muitos. **Images:** - https://storage.googleapis.com/teachy-classroom-contents/images-v2/ae8c127c-8443-4d9d-8a6b-e33378f5cd1c/imported/v2_0_18.jpg — Vista aérea de campo de refugiados sírios alagado após chuvas intensas em Idlib, Síria (dezembro de 2018): além da guerra, deslocados enfrentam a vulnerabilidade ambiental nos campos. ## Rotas migratórias: os caminhos do deslocamento As rotas que os migrantes percorrem hoje são determinadas tanto pela geografia quanto pelas políticas dos países. Quem foge de conflitos no Oriente Médio e na África tenta chegar à Europa; quem escapa de crises na América do Sul se desloca para países vizinhos ou para o Brasil. Essas rotas raramente são seguras — ao contrário, passam por alguns dos trajetos mais perigosos do planeta. No corredor entre a África e a Europa, quatro rotas concentram o fluxo principal. A rota do Mediterrâneo Central é a mais utilizada: migrantes partem da Líbia, da Tunísia ou do Egito em direção à Itália, especialmente à ilhota de Lampedusa, responsável por 43% das travessias registradas. A rota do Mediterrâneo Oriental conecta a Turquia à Grécia e representa 31% dos fluxos rumo à Europa. Já a rota do Mediterrâneo Ocidental chega à Espanha pela costa marroquina, com 13% do total. A rota Atlântica, partindo da África Ocidental em direção às Ilhas Canárias, responde pelos demais 11%. Em 2025, mais de 200 mil partidas foram registradas nessas rotas — e quase 8 mil pessoas morreram ou desapareceram durante as travessias. **Images:** - https://storage.googleapis.com/teachy-classroom-contents/images-v2/01dc9a48-12eb-4c6e-bd51-5e1c15815626/imported/v2_0_22.jpg — Chegada de migrantes à ilha de Lampedusa, na Itália: após semanas de travessia pelo Mediterrâneo Central, recém-chegados são recebidos por equipes humanitárias. **Images:** - GENERATE: Mapa-múndi esquemático mostrando as quatro principais rotas migratórias contemporâneas rumo à Europa (Mediterrâneo Central, Oriental, Ocidental e Atlântica), com setas coloridas saindo das regiões de origem (África Subsaariana, Oriente Médio, Norte da África) em direção aos destinos europeus; inclui também a rota venezuelana em direção à Colômbia, Brasil e Peru na América do Sul | mapa-rotas-migracoes-contemporaneas.png | 16:9 ## Por que essas rotas são tão perigosas? A pergunta lançada no início deste capítulo merece uma resposta direta: as rotas migratórias contemporâneas passam pelos lugares mais perigosos do mundo porque os caminhos legais e seguros são bloqueados para a maioria dos migrantes forçados. Políticas de fechamento de fronteiras, acordos entre países europeus e governos do Norte da África para barrar a passagem, e a ausência de um sistema global de realocação fazem com que as únicas opções restantes sejam as travessias clandestinas — pagas a redes criminosas, feitas em embarcações precárias, por desertos e selvas. A crise humanitária, portanto, não começa no campo de refugiados: ela começa no momento em que uma pessoa percebe que não pode permanecer onde está e não encontra um caminho legal para ir a outro lugar. O deslocamento em si se torna uma ameaça à vida — e as estatísticas de mortes nas rotas migratórias são a expressão mais concreta dessa contradição. [chapter-callout-label: Impacto e responsabilidade] A proteção de migrantes e refugiados é regida por tratados internacionais como a Convenção de 1951 da ONU, que estabelece o direito de não ser devolvido a um país onde a vida esteja em risco (princípio do *non-refoulement*). No entanto, a aplicação desse princípio é desigual, e a disputa entre países sobre responsabilidade de acolhimento revela que os acordos internacionais nem sempre são suficientes diante da escala das crises atuais. [chapter-callout-label: Glossário] *non-refoulement* (em português: *não devolução*): princípio do direito internacional que proíbe que um Estado envie uma pessoa de volta a um território onde ela corra risco de perseguição, violência ou morte. É a base legal da proteção aos refugiados. [INTERACTIVE: A1 | aprofundamento | Acesse o conteúdo interativo sobre as principais crises humanitárias e rotas migratórias contemporâneas na plataforma Teachy] [Section 5] Com base no que você estudou, vamos praticar a identificação e análise das crises humanitárias e das rotas migratórias contemporâneas. ## Pratique [P1] (DOK 1) Leia as afirmações abaixo e identifique qual delas descreve corretamente uma crise humanitária associada a fluxos migratórios internacionais contemporâneos. (A) Uma crise humanitária ocorre quando turistas internacionais enfrentam dificuldades em obter visto de entrada. (B) Uma crise humanitária migratória acontece quando grandes grupos de pessoas são forçados a deixar seus países em razão de guerras, perseguições ou desastres, sofrendo condições extremas durante o deslocamento. (C) A crise humanitária é provocada exclusivamente por desastres naturais que impedem o retorno dos migrantes ao país de origem. (D) Crises humanitárias só ocorrem em países africanos, pois são os únicos com conflitos armados ativos. _Dica: Pense no que caracteriza uma crise humanitária — é uma situação de emergência que afeta grandes grupos de pessoas e exige resposta urgente. Avalie cada alternativa com base nisso._ --- [P2] (DOK 2) O mapa abaixo representa as principais rotas de migrações internacionais contemporâneas, destacando os fluxos da África Subsaariana e do Oriente Médio em direção à Europa. _[Descrição da imagem: mapa-múndi esquemático com setas indicando as rotas do Mediterrâneo Central (Líbia → Itália), rota do Mediterrâneo Oriental (Turquia → Grécia) e rota da África Ocidental (Senegal/Marrocos → Espanha), com pontos de origem sinalizados em vermelho e destinos em azul.]_ Com base no mapa e nos conceitos estudados, explique por que as rotas marítimas do Mediterrâneo se tornaram as principais vias de entrada de migrantes na Europa e quais fatores de repulsão estão associados a esses fluxos. _Dica: Retome os fatores de repulsão (econômicos, políticos e ambientais) discutidos anteriormente e identifique quais regiões de origem são representadas no mapa._ [LINES: 5] --- [P3] (DOK 2) A crise síria, iniciada em 2011, gerou um dos maiores deslocamentos populacionais do século XXI. Milhões de sírios deixaram seu país em direção à Turquia, ao Líbano, à Jordânia e, posteriormente, à Europa. Relacione essa crise a dois tipos de fatores que explicam por que as pessoas foram forçadas a se deslocar, indicando a dimensão de cada fator (política, econômica ou ambiental). _Dica: Pense nas condições que tornaram impossível permanecer na Síria — não apenas o desejo de ir para outro lugar, mas a impossibilidade de ficar._ [LINES: 5] [Section 6] ## Exercícios [I1] (DOK 3) _Entre 2015 e 2016, mais de um milhão de pessoas cruzaram o Mediterrâneo tentando chegar à Europa. Cerca de 3.700 morreram ou desapareceram nessa travessia apenas em 2015, segundo o ACNUR. A maioria partia da Síria, do Afeganistão e da Eritreia — países marcados por conflitos armados, perseguições políticas e colapso econômico. Ao chegarem à Europa, muitos enfrentaram novas barreiras: políticas de fechamento de fronteiras, campos de espera superlotados e disputas entre países sobre responsabilidade de acolhimento._ A situação descrita evidencia que as crises humanitárias associadas às migrações internacionais contemporâneas resultam de (A) decisões individuais de migrantes que preferem condições de vida mais confortáveis em países europeus. (B) falhas exclusivamente logísticas no transporte internacional de pessoas entre continentes. (C) combinação de fatores de repulsão severos nos países de origem e ausência de rotas legais seguras para o deslocamento forçado. (D) disputas comerciais entre países europeus que dificultam a entrada de trabalhadores estrangeiros qualificados. (E) pressão demográfica nos países de destino, que não possuem infraestrutura suficiente para receber novos moradores. **Gabarito:** C --- [I2] (DOK 2) _O número de pessoas deslocadas à força no mundo ultrapassou 100 milhões pela primeira vez em 2022, segundo o ACNUR. Esse total inclui refugiados reconhecidos, solicitantes de refúgio e deslocados internos — pessoas que fugiram de guerras, perseguições e catástrofes ambientais. As principais regiões de origem desses fluxos são o Oriente Médio, a África Subsaariana e a América Latina._ a) Identifique duas rotas migratórias internacionais contemporâneas que partem de regiões em crise, indicando os países ou regiões de origem e de destino. [LINES: 3] b) Explique de que forma a ausência de rotas legais seguras contribui para o agravamento das crises humanitárias durante o deslocamento. [LINES: 4] --- [I3] (DOK 3) _A Venezuela viveu, a partir de 2015, uma crise econômica e política que gerou o maior deslocamento de pessoas da história da América Latina. Até 2023, mais de 7 milhões de venezuelanos haviam deixado o país, dirigindo-se principalmente para Colômbia, Peru, Equador, Brasil e Chile. Muitos fizeram o percurso a pé, cruzando as selvas do Darién — uma das rotas mais perigosas do continente. No Brasil, os venezuelanos chegam principalmente pelo estado de Roraima, onde cidades pequenas passaram a receber um número de migrantes muito superior à sua capacidade de acolhimento._ Analise a crise migratória venezuelana como exemplo de migração internacional contemporânea, identificando suas principais rotas, os fatores que a originaram e os desafios humanitários enfrentados tanto pelos migrantes quanto pelas comunidades receptoras. [LINES: 8] [INTERACTIVE: D | responda na plataforma | Escaneie para responder estes exercícios na plataforma Teachy e receber correção automática com feedback detalhado] --- ## Referência de Imagens ### Do banco de dados | # | URL | Legenda sugerida | |---|-----|-----------------| | 1 | https://storage.googleapis.com/teachy-classroom-contents/images-v2/3adf953e-114f-4d5a-87d0-1600eddfb097/imported/v2_0_6.jpg | Mãe com filho no colo aguarda entrada no campo de refugiados de Dadaab, Quênia, após fuga da Somália: o deslocamento forçado tem rosto humano. | | 2 | https://storage.googleapis.com/teachy-classroom-contents/images-v2/ae8c127c-8443-4d9d-8a6b-e33378f5cd1c/imported/v2_0_18.jpg | Campo de refugiados sírios alagado em Idlib (2018): além da guerra, deslocados enfrentam condições climáticas adversas. | | 3 | https://storage.googleapis.com/teachy-classroom-contents/images-v2/01dc9a48-12eb-4c6e-bd51-5e1c15815626/imported/v2_0_22.jpg | Chegada de migrantes à ilha de Lampedusa, Itália: ponto de entrada da principal rota migratória do Mediterrâneo Central. | ### Para gerar | # | Descrição | Nome do arquivo | Proporção | |---|-----------|-----------------|-----------| | 1 | Mapa-múndi esquemático mostrando as quatro principais rotas migratórias contemporâneas rumo à Europa (Mediterrâneo Central, Oriental, Ocidental e Atlântica), com setas coloridas saindo das regiões de origem (África Subsaariana, Oriente Médio, Norte da África) em direção aos destinos europeus; inclui também a rota venezuelana em direção à Colômbia, Brasil e Peru na América do Sul | mapa-rotas-migracoes-contemporaneas.png | 16:9 |


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