Modo Imperativo: Quando as Palavras Mandam
[Sequence 0] # Modo Imperativo: Quando as Palavras Mandam **Habilidade:** EF69LP16 — Explicar os efeitos de sentido do uso, em textos, de estratégias de modalização e argumentatividade. **O que você vai aprender:** Analisar o uso do modo imperativo em diferentes gêneros textuais, explicando sua função de expressar ordem, pedido, conselho ou instrução (EF69LP16-M01). --- [Sequence 1: (a) Contextualized Situation] Eu, Harry Potter, aprendi em Hogwarts que algumas palavras têm um poder especial: elas não apenas descrevem o mundo — elas tentam mudá-lo. "Expecto Patronum!" não conta uma história; ela ordena que algo aconteça. Na língua portuguesa, esse mesmo poder se manifesta no modo imperativo, e eu te convido a investigar isso comigo. Pense na última vez que alguém te disse algo como *"Vem aqui"*, *"Por favor, fale mais baixo"* ou *"Não esqueça de trazer o material"*. Você percebe que esses três enunciados fazem coisas diferentes, mesmo que todos queiram que você aja? Um soa como ordem, outro como pedido gentil, outro como conselho. O que muda entre eles? Aqui está a questão que vamos investigar ao longo deste capítulo: **quando alguém usa "venha" ou "vem", está dizendo a mesma coisa?** Em resumo, vamos descobrir que a forma verbal escolhida carrega muito mais do que uma simples ação — ela revela a relação entre quem fala e quem ouve. **Images:** - https://storage.googleapis.com/teachy-classroom-contents/images-v2/398d0499-eda0-4a6e-a569-bbb25169b637/generated/v2_0_2.jpg — Dois ambientes de comunicação em contraste: à esquerda, reunião formal em escritório; à direita, conversa descontraída ao ar livre — ilustrando como o contexto molda as escolhas de linguagem | Attribution: Fonte: Teachy --- [Sequence 2] [D1] No dia a dia, você já recebeu um bilhete, uma mensagem ou um aviso pedindo que você fizesse algo — como "Por favor, devolva o livro" ou "Não esqueça de trazer o material". Pense em uma situação assim que você viveu. a) Quem te enviou essa mensagem ou esse aviso? b) Como era o tom — parecia uma ordem, um pedido gentil ou um conselho? --- [Sequence 4] ## Quando as Palavras Dão Ordens — ou Pedem com Jeitinho Com essas lembranças frescas, vamos agora entrar no texto que vai guiar nossa investigação. Eu aprendi em Hogwarts que até os feitiços mais poderosos precisam ser ditos no tom certo — e o sermão que você vai ler a seguir mostra exatamente isso. [chapter-section: Perfil] **Padre Antonio Vieira** (1608–1697) foi um jesuíta português nascido em Lisboa e criado no Brasil, onde viveu grande parte de sua vida. Pregador extraordinário, diplomata e escritor, é considerado um dos maiores oradores e prosadores da língua portuguesa. O *Sermão da Sexagésima* (1655), pregado em Roma, é um de seus textos mais estudados até hoje. --- > **Sermão da Sexagésima** (fragmento) > Padre Antonio Vieira, 1655 > > Perguntaram ao Baptista quem era? Respondeu ele: *Ego vox clamantis in deserto* — "Eu sou uma voz que anda bradando neste deserto". Desta maneira se definiu o Baptista. A definição do pregador cuidava eu que era: voz que arrazoa e não voz que brada. Pois porque se definiu o Baptista pelo bradar e não pelo arrazoar; não pela razão, senão pelos brados? Porque há muita gente neste mundo com quem podem mais os brados que a razão, e tais eram aqueles a quem o Baptista pregava. > > Dir-me-eis o que a mim me dizem, e o que já tenho experimentado, que, se pregamos assim, zombam de nós os ouvintes, e não gostam de ouvir. Oh, boa razão para um servo de Jesus Cristo! **Zombem e não gostem embora, e façamos nós nosso ofício!** A doutrina de que eles zombam, a doutrina que eles desestimam, essa é a que lhes devemos pregar, e por isso mesmo, porque é mais proveitosa e a que mais hão mister. [...] Dessoutros conceitos, dessoutros pensamentos, dessoutras subtilezas que os homens estimam e prezam, dessas não se teme nem se acautela o Diabo. > > Assim há-de ser a voz do pregador — um trovão do Céu, que assombre e faça tremer o Mundo. Antes de qualquer definição, responda mentalmente: você consegue localizar um momento nesse texto em que o pregador parece dar uma ordem ou um chamado? Que verbo ele usa, e para quem ele se dirige? --- ### O Modo Imperativo como Ferramenta Discursiva O que Vieira faz quando escreve *"façamos nós nosso ofício"* é usar o **modo imperativo**: a forma verbal pela qual o falante expressa que quer — ou exige — que alguém realize uma ação. Esse modo verbal é um dos recursos mais importantes de **modalização do discurso**, pois não apenas informa: ele tenta interferir no comportamento do interlocutor. O modo imperativo pode expressar diferentes intenções, dependendo do contexto. Uma receita de cozinha instrui (*"Leve ao forno por 30 minutos"* — instrução encontrada em qualquer livro de culinária). Um aviso escolar normatiza (*"Mantenham silêncio nos corredores"*). Uma mensagem entre amigos pede com afeto (*"Chega logo, tô te esperando!"*). O que determina se é uma ordem, um conselho, uma instrução ou um convite não é apenas o verbo — é a relação entre os interlocutores e o contexto de comunicação. ### Como o Imperativo se Forma No português brasileiro, o modo imperativo tem duas formas principais. O **imperativo afirmativo** pede que algo seja feito: para as pessoas *tu* e *vós*, retira-se o *-s* final do presente do indicativo (*falas* → *fala*; *comes* → *come*); para *você*, *nós* e *vocês*, usa-se o presente do subjuntivo (*fale*, *falemos*, *falem*). O **imperativo negativo** proíbe uma ação e se forma com o presente do subjuntivo precedido de "não": *não fale*, *não coma*, *não saia*. Uma característica importante: o imperativo **não existe para a 1ª pessoa do singular** — não damos ordens a nós mesmos. Por isso, quando Vieira escreve *"façamos nós nosso ofício"*, ele usa a 1ª pessoa do plural, incluindo a si mesmo e aos outros pregadores num chamado coletivo. [chapter-section: Sabia?] Em muitas regiões do Brasil, o pronome *tu* é amplamente usado na fala informal, mas a conjugação frequentemente segue o padrão de *você*: diz-se *"Tu fala"* em vez da forma padrão *"Tu falas"*. Isso significa que, na prática cotidiana, a distinção entre as formas do imperativo afirmativo derivadas do indicativo (*fala*) e do subjuntivo (*fale*) muitas vezes desaparece — ambas convivem dependendo da região e do nível de formalidade. ### Formalidade e Efeito de Sentido Voltemos ao texto de Vieira. O imperativo *"façamos nós nosso ofício"* soa como um voto coletivo e solene, reforçado pelo vocabulário culto e pelas referências bíblicas do sermão. Agora compare três maneiras de fazer o mesmo pedido em contextos diferentes: | Situação | Enunciado | Função | |---|---|---| | Mensagem de texto para um amigo | "Vem aqui!" | Pedido direto, informal | | Pedido a um colega na escola | "Vem cá um segundo?" | Pedido informal atenuado | | E-mail para um professor | "Poderia vir à reunião, por gentileza?" | Pedido formal com atenuação | Nas situações mais formais, o imperativo direto é frequentemente substituído por construções com verbos modais como *poder* e *querer* (*"você poderia..."*), que suavizam a força da ordem. Esse recurso chama-se **atenuação** e é parte fundamental da modalização do discurso. Em resumo, o grau de formalidade não muda apenas o vocabulário — ele altera a estrutura inteira do enunciado e o efeito que ele produz sobre quem lê ou ouve. [chapter-section: Nossa língua na rua] Preste atenção nos próximos dias: você vai encontrar o modo imperativo em todo lugar. Placas de trânsito (*"Reduza a velocidade"*), bulas de remédio, postagens em redes sociais (*"Compartilha!" / "Segue a gente!"*), tutoriais de YouTube (*"Clica no link da bio"*) e avisos escolares. Cada um desses contextos usa o imperativo com um grau de formalidade diferente e uma intenção diferente. Que exemplos você consegue encontrar no caminho para a escola? [INTERACTIVE: a1-mm | Explore o mapa mental interativo sobre o modo imperativo — funções, formação e graus de formalidade — na plataforma Teachy] --- ## Na prática [Sequence 5] Agora vamos trabalhar diretamente com o *Sermão da Sexagésima* para consolidar o que você aprendeu. Lembre-se da pergunta que abriu este capítulo: "venha" e "vem" dizem a mesma coisa? Observe como o texto de Vieira vai ajudando você a responder isso. [P1] Leia os pares de frases abaixo: 1. "Escuta o que estou dizendo." 2. "Escute o que estou dizendo." a) Em qual das frases o verbo está na forma mais usada em conversas informais? b) Qual das duas formas seria mais adequada em uma carta formal? --- [P2] Leia o trecho do *Sermão da Sexagésima*, do Padre Antonio Vieira: > "Zombem e não gostem embora, e façamos nós nosso ofício!" a) Identifique os verbos no modo imperativo presentes nesse trecho. b) Explique que função esses verbos exercem no contexto do discurso do pregador: expressam ordem, pedido, conselho ou instrução? *Dica: Observe a quem o Padre Vieira se dirige nesse momento — a si mesmo e aos outros pregadores — e pense no que ele quer dizer com "façamos nosso ofício".* --- [P3] Releia este fragmento do mesmo sermão: > "Dessoutros conceitos, dessoutros pensamentos, dessoutras subtilezas que os homens estimam e prezam, dessas não se teme nem se acautela o Diabo." Agora compare com esta versão reescrita em modo imperativo: > "Não se preocupe com conceitos e subtilezas que os homens estimam — pregue apenas o que é útil para a salvação." a) Qual efeito de sentido o modo imperativo produz na versão reescrita que estava ausente no original? b) Esse imperativo expressa ordem, conselho ou instrução? Justifique sua resposta. *Dica: Pense em qual é o objetivo de quem usa o modo imperativo nessa versão: orientar, comandar ou aconselhar um pregador?* --- **Atenção para um erro comum:** muitos estudantes classificam todo imperativo como "ordem". Mas o contexto é essencial — um mesmo verbo pode expressar um conselho (*"Descanse um pouco"*, dito por um médico) ou uma norma institucional (*"Mantenha o silêncio"*, num aviso público). Antes de classificar, pergunte-se: quem fala, para quem, e com qual intenção? Em resumo, a função do imperativo é sempre moldada pela situação em que ele aparece. **Images:** - https://storage.googleapis.com/teachy-classroom-contents/images/imported/f5253c3ae136e598193803878d4eef8a.png — Ilustração mostrando contraste entre linguagem coloquial e formal: jovem usando gírias vs. adulto com expressão surpresa — exemplificando como o grau de formalidade interfere na escolha das formas verbais | Attribution: Fonte: Teachy - "Variedades Linguísticas - Linguagem Coloquial" - Teachy --- ## Exercícios [Sequence 6] Nos exercícios a seguir, você vai aplicar o que aprendeu a textos novos — identificando o modo imperativo, explicando suas funções e relacionando as escolhas verbais ao contexto de comunicação. Você está pronto para responder: "venha" e "vem" dizem a mesma coisa? [I1] Leia os enunciados abaixo, retirados de diferentes gêneros textuais: **Texto I** — Bula de medicamento: "Tome um comprimido a cada oito horas. Não ultrapasse a dose recomendada. Consulte o médico em caso de dúvida." **Texto II** — Aviso em escola pública: "Alunos, mantenham silêncio nos corredores durante as aulas." **Texto III** — Mensagem de texto entre amigos: "Chega logo, tô te esperando!" Considerando o uso do modo imperativo nesses três textos, é correto afirmar que (A) o imperativo tem sempre a mesma função nos três textos, independentemente do contexto: expressar uma ordem que deve ser obedecida sem questionamento. (B) nos Textos I e II, o imperativo funciona como instrução e norma institucional, enquanto no Texto III ele expressa um pedido informal com tom afetivo. (C) o uso do imperativo no Texto III é inadequado por se tratar de uma linguagem coloquial incompatível com a função gramatical do modo imperativo. (D) nos três textos, o imperativo expressa conselho, pois em todos os casos quem fala deseja o bem de quem recebe a mensagem. (E) o grau de formalidade não interfere na função do modo imperativo, que é sempre idêntica em qualquer situação comunicativa. **Gabarito:** B --- [I2] Em placas de trânsito, manuais e avisos públicos, é muito comum o uso do modo imperativo. Observe os exemplos: - "Reduza a velocidade." - "Mantenha distância." - "Não ultrapasse." Esses enunciados aparecem em contextos em que não há um interlocutor específico visível — a placa fala com qualquer motorista que passe. Explique de que forma o uso do modo imperativo nesses enunciados funciona como um recurso de modalização do discurso, considerando o efeito de sentido que ele produz sobre o leitor. [LINES: 5] --- [I3] Releia este trecho do *Sermão da Sexagésima*, de Padre Antonio Vieira: > "Assim há-de ser a voz do pregador — um trovão do Céu, que assombre e faça tremer o Mundo." Vieira usa tanto o modo imperativo quanto construções que impõem ao pregador um modo de agir. Ao longo do sermão, ele mistura brados (comandos intensos) com raciocínios elaborados para convencer seus ouvintes. a) Identifique um exemplo de uso do modo imperativo no texto de referência e classifique sua função: ordem, pedido, conselho ou instrução. b) Explique como o grau de formalidade do texto influencia a escolha da forma verbal imperativa utilizada por Vieira. [LINES: 8] Em resumo, o que você aprendeu neste capítulo vai muito além de decorar formas verbais: você aprendeu a ler as intenções que se escondem nas escolhas de quem escreve ou fala. [INTERACTIVE: d-rp | Escaneie para responder estes exercícios na plataforma Teachy e receber correção automática com comentários] --- **Images:** - https://storage.googleapis.com/teachy-classroom-contents/images-v2/9a287c82-acfe-4db0-b227-09dd0d938f4b/generated/v2_0_3.jpg — Dois jovens conversando em ponto de ônibus em ambiente urbano — ilustrando a comunicação cotidiana e informal onde o imperativo aparece naturalmente | Attribution: Fonte: Teachy
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