O Juiz de Paz na Roça

# Vocativo [Sequence 4] Eu, Harry Potter, aprendi em Hogwarts que algumas palavras têm um poder muito especial: elas não descrevem nada, não praticam ação nenhuma — elas apenas chamam. Quando o professor Dumbledore dizia "Harry, preste atenção", aquele "Harry" no começo da frase não era nem sujeito nem complemento. Era um chamamento direto, como um feitiço de atenção. É exatamente esse fenômeno que vamos investigar juntos agora: o vocativo. Você já sabe, do capítulo anterior, o que é o aposto — esse termo que explica ou especifica um nome dentro da frase. Agora, ainda dentro de *O Juiz de Paz na Roça*, de Martins Pena, encontramos outro tipo de termo: um que não explica nem especifica nada, mas chama. Vamos investigar isso com atenção. Releia este trecho da peça: --- **O Juiz de Paz na Roça** (trecho) Martins Pena, 1838. Publicado em *Comédias*, Rio de Janeiro. > JOSÉ — Minha Aninha, não chores. Oh, se tu soubesses como é bonita a Côrte! Tenho um projeto que te quero dizer. > > ANINHA — Qual é? > > JOSÉ — Você sabe que eu agora estou pobre como Jó, e então tenho pensado em uma cousa. Nós nos casaremos na freguesia, sem que teu pai o saiba; depois partiremos para a Côrte e lá viveremos. > > ANINHA — Mas como? Sem dinheiro? > > JOSÉ — Não te dê isso cuidado: assentarei praça nos Permanentes. > > ANINHA — E minha mãe? > > JOSÉ — Que fique raspando mandioca, que é ofício leve. Vamos para a Côrte, que você verá o que é bom. > > ANINHA — Oh, homem! > > JOSÉ — Pois o curro dos cavalherios! Isto é que é cousa grande! > > ANINHA — Aí vem meu pai! Vai-te embora antes que êle te veja. > > JOSÉ — Adeus lá, não falte! --- Antes de continuarmos, eu te pergunto: quando José diz "Minha Aninha, não chores", a palavra "Aninha" está praticando alguma ação na frase? Ela é quem chora — ou é para quem José está falando? Essa diferença, meu caro leitor, é a chave para entender o vocativo. ## O que é o vocativo? O vocativo é o termo da oração usado para **chamar, invocar ou interpelar** a pessoa (ou ser) a quem a fala se dirige. Em "Minha Aninha, não chores", José não descreve Aninha nem a inclui como participante da ação verbal: ele a chama diretamente, dirigindo-lhe uma ordem. Esse chamamento é o vocativo. O que torna o vocativo especial é que ele **não estabelece relação sintática com o sujeito nem com o predicado** da oração. Pense nisso como magia: o vocativo flutua fora da estrutura da frase — pode ser retirado sem que a oração perca sua gramaticalidade. Em "Minha Aninha, não chores", se removemos "Minha Aninha", a frase "não chores" continua completamente formada: sujeito implícito, verbo, sentido intacto. O vocativo exige **vírgula obrigatória** para marcar seu isolamento sintático. Quando aparece no início da frase, a vírgula o separa do restante; no meio da frase, fica entre duas vírgulas; no final, a vírgula o antecede. Essa pontuação não é opcional — sem ela, o termo deixa de ser vocativo e passa a parecer sujeito ou complemento. Em resumo, o vocativo é o termo da chamada: ele interpela, sem integrar o esqueleto da oração. [chapter-section: Comparando...] Você já sabe que o aposto explica ou especifica um nome — ele se liga a um termo nominal anterior e amplia seu sentido. O vocativo, por sua vez, não se liga a nenhum termo da oração: ele interpela o interlocutor. Veja a diferença usando o próprio texto de Martins Pena como base. Martins Pena apresenta José com expressões que o descrevem: podemos imaginar uma frase em que ele seria chamado de "José, o noivo de Aninha" — aqui, "o noivo de Aninha" seria um **aposto**, explicando quem é José e se relacionando ao sujeito da oração. Já na fala de Aninha, "Oh, homem!" é diferente: ela não descreve José, ela o interpela com espanto. "Homem" aqui é o **vocativo** — ela dirige a fala a ele, sem que "homem" exerça qualquer função de sujeito ou complemento na oração. A distinção prática é esta: se o termo chama alguém sem exercer função de sujeito ou complemento, é vocativo. Se explica ou especifica um nome que já está na frase, é aposto. Em resumo, aposto informa sobre um nome; vocativo dirige-se a alguém. ## Posição e forma do vocativo Uma das características mais fascinantes do vocativo — e eu aprendi isso investigando — é sua **mobilidade**: ele pode aparecer no início, no meio ou no final da frase, sem que seu sentido se altere. No texto de Martins Pena, José usa o vocativo na posição inicial em "Minha Aninha, não chores", garantindo que o chamamento venha antes da ordem. Observe como o mesmo nome pode ser deslocado e a função permanece a mesma: > *Inicial:* "**Minha Aninha**, não chores." > *Medial:* "Não chores, **minha Aninha**, por favor." > *Final:* "Não chores, **minha Aninha**!" O vocativo pode ainda vir acompanhado da interjeição *ó* (ou *oh*), que reforça o chamamento, como na fala de Aninha: "Oh, homem!" A interjeição *ó/oh* precede o vocativo e não faz parte dele; serve apenas para intensificar a interpelação. Em resumo, o vocativo é móvel e sempre marcado por vírgula, independentemente da posição que ocupa na frase. [chapter-section: Nossa língua na rua] O vocativo não vive só nos livros: ele está em toda parte. Observe chamamentos do seu dia a dia — "Ei, pessoal!", "Atenção, passageiros!", "Gente, que notícia!" — e você vai perceber que a língua usa constantemente o vocativo para criar contato direto com o interlocutor. Em discursos políticos ("Cidadãos brasileiros, chegou o momento…"), em músicas populares e até em posts de redes sociais, o vocativo é o recurso pelo qual quem fala chama quem ouve. Procure, nos próximos dias, exemplos de vocativo em textos que você lê ou ouve — e traga para compartilhar com a turma. [INTERACTIVE: a1-mm | Explore o mapa mental interativo sobre vocativo e sua relação com o aposto na plataforma Teachy] [chapter-section: Perfil] **Martins Pena** (Rio de Janeiro, 1815 — Lisboa, 1848) é considerado o pai da comédia brasileira. Diplomata e dramaturgo, escreveu peças que retratavam com humor os costumes do Brasil do século XIX. *O Juiz de Paz na Roça* (1838) é sua obra mais conhecida: um retrato irônico da vida rural e da burocracia da época, repleta de diálogos vivos em que vocativos e formas de tratamento revelam as relações entre personagens. **Images:** - [https://storage.googleapis.com/teachy-classroom-contents/images/imported/e4c0be8fbdeb47ae7b6aa9307d441caffb5d43167a705b498b743df6a298a4af.jpg](https://storage.googleapis.com/teachy-classroom-contents/images/imported/e4c0be8fbdeb47ae7b6aa9307d441caffb5d43167a705b498b743df6a298a4af.jpg) — Página original de *Os Lusíadas*, de Luís de Camões, manuscrito histórico da língua portuguesa | Attribution: Fonte: Luís de Camões - "Page from 'Os Lusíadas' by Luís de Camões" - Wikimedia Commons --- ## Na prática [Sequence 5] Agora é hora de investigar os vocativos com os próprios olhos — vamos voltar ao texto de Martins Pena e verificar o que aprendemos. Como eu descobri em Hogwarts, a melhor forma de testar uma teoria é confrontá-la com os fatos. Cada exercício parte do que você já leu; as respostas estão no texto, esperando por você. [P1] Leia o trecho a seguir, da peça *O Juiz de Paz na Roça*, de Martins Pena: > "Minha Aninha, não chores." O termo "Minha Aninha" exerce, nessa oração, a função de: (A) sujeito da oração, pois indica quem pratica a ação de chorar. (B) vocativo, pois interpela diretamente a pessoa a quem a fala é dirigida. (C) aposto explicativo, pois explica um termo nominal anterior. (D) predicativo do sujeito, pois caracteriza o sujeito da oração. **Gabarito:** B --- [P2] Observe as frases abaixo: 1. "Oh, homem!" 2. "Vai-te embora antes que ele te veja." 3. "Adeus lá, não falte!" Em qual(is) dessas frases há um vocativo? (A) Apenas na frase 1. (B) Apenas na frase 2. (C) Nas frases 1 e 3. (D) Nas frases 1, 2 e 3. **Gabarito:** A *Nota: Na frase 1, "homem" é o vocativo — Aninha interpela José com espanto. Na frase 3, "Adeus lá, não falte!" é uma despedida idiomática em que "lá" funciona como reforço adverbial, sem configurar um vocativo.* --- [P3] Leia as duas frases: > Frase A: "José, meu amor, não me abandone!" > Frase B: "José, meu irmão de infância, chegou ontem." Em qual frase "José" é um vocativo e em qual é um sujeito? Explique como a função sintática de "José" muda de uma frase para a outra. *Dica: Pense se "José" pratica alguma ação ou se é apenas chamado/interpelado em cada frase.* [LINES: 5] --- [P4] Releia o trecho da peça: > "Aí vem meu pai! Vai-te embora antes que ele te veja." Aninha fala essas palavras para José. Se ela quisesse usar um vocativo explícito ao chamá-lo, como poderia reformular a segunda frase? Escreva a nova versão e identifique o vocativo. *Dica: O vocativo é separado por vírgula e não exerce função de sujeito ou complemento — é um chamamento.* [LINES: 4] --- ## Exercícios [Sequence 6] Nas atividades a seguir, você vai transferir o que aprendeu sobre vocativo para novos textos e situações. Cada contexto é diferente — leia com atenção antes de responder. [I1] Leia o trecho de uma carta: > "Prezados alunos da turma 802, > Informamos que a visita ao teatro foi confirmada para a próxima sexta-feira. Tragam autorização assinada pelos responsáveis. > Atenciosamente, > A Direção" O termo "Prezados alunos da turma 802" cumpre, nesse texto, a seguinte função sintática: (A) sujeito composto da oração seguinte, pois indica os destinatários da ação comunicada. (B) aposto especificativo, pois especifica o substantivo "alunos" sem separação por vírgula. (C) vocativo, pois interpela diretamente o interlocutor sem integrar a estrutura argumental da oração. (D) aposto enumerativo, pois lista os elementos do grupo a que a carta se destina. (E) complemento nominal do verbo "informar", pois indica a quem a informação é dirigida. **Gabarito:** C --- [I2] Leia os dois enunciados abaixo: > Enunciado 1: "Carlos, o melhor jogador do time, marcou três gols." > Enunciado 2: "Carlos, você precisa treinar mais!" a) Identifique a função sintática do termo "Carlos" em cada enunciado. b) Explique o critério que permite diferenciar as duas funções. [LINES: 6] --- [I3] Leia o trecho a seguir, de um bilhete encontrado num caderno escolar: > "Ei, pessoal, não se esqueçam: amanhã tem reunião do grêmio antes do intervalo. Tragam as suas ideias! > — Mariana, presidente do grêmio estudantil" Considerando as funções sintáticas presentes no texto, é correto afirmar que: (A) "pessoal" é o sujeito implícito da oração imperativa "não se esqueçam", pois indica quem deve lembrar. (B) "pessoal" é um vocativo que interpela os destinatários do bilhete, sem integrar a estrutura sujeito-predicado da oração. (C) "Mariana, presidente do grêmio estudantil" é um vocativo que encerra o bilhete chamando a atenção da leitora. (D) "presidente do grêmio estudantil" é um vocativo explicativo, pois esclarece quem é Mariana ao leitor. (E) "Ei" é um aposto de intensidade que modifica o vocativo "pessoal", reforçando o chamamento. **Gabarito:** B --- [I4] Leia a tirinha imaginária descrita a seguir: > *Imagem: Três quadrinhos. No primeiro, uma criança grita "Mãe!" enquanto segura um troféu. No segundo, a mãe responde: "O quê, filho?" No terceiro, a criança diz: "Ganhei o campeonato!"* a) Identifique os vocativos presentes nos quadrinhos e indique em qual fala cada um aparece. b) Explique por que esses termos são vocativos e não sujeitos das respectivas orações. [LINES: 6] --- [I5] Leia os dois fragmentos retirados de gêneros textuais diferentes: > **Fragmento 1** (discurso político): > "Cidadãs e cidadãos brasileiros, chegou o momento de escolhermos um futuro melhor para o nosso país." > **Fragmento 2** (bula de remédio): > "Dexametasona, o corticoide de referência no tratamento de processos inflamatórios, deve ser usada com acompanhamento médico." Analise a função sintática dos termos destacados em cada fragmento — "Cidadãs e cidadãos brasileiros" e "o corticoide de referência no tratamento de processos inflamatórios" — e explique de que forma o gênero textual influencia a escolha entre usar um vocativo ou um aposto. [LINES: 8] --- [INTERACTIVE: d-rp | Escaneie para responder estes exercícios na Teachy e receber correção automática] --- [Sequence 8] Ao reler o diálogo entre José e Aninha, eu percebo que a peça de Martins Pena é construída sobre chamamentos e interpelações: cada personagem se dirige ao outro pelo nome, pela afeição ou pela situação. "Minha Aninha", "Oh, homem!", o "Adeus lá" que José lança antes de partir — cada uma dessas formas de se dirigir ao outro revela algo sobre a relação entre os dois. Isso é o vocativo em ação: não apenas uma categoria gramatical, mas uma forma de criar laços, urgência e intimidade dentro da língua. Ao longo deste capítulo, você aprendeu a identificar o aposto — que explica e especifica nomes — e o vocativo — que chama e interpela o interlocutor. Cada um tem seu papel próprio na construção da oração, e saber distingui-los é uma habilidade que você pode aplicar em qualquer texto que leia ou escreva. Em resumo, aposto e vocativo parecem semelhantes à primeira vista, mas a função de cada um é muito diferente: um informa, o outro chama. [INTERACTIVE: a2-fc | Revise aposto e vocativo com os flash cards interativos na plataforma Teachy] **Auto-avaliação:** Para fechar, reserve um momento para refletir sobre o que você já domina. Para cada habilidade abaixo, marque como você se sente: | Habilidade | Ainda preciso praticar | Já consigo fazer | Domino completamente | |:-----------|:-----------------------|:-----------------|:---------------------| | Identificar apostos em textos diversos (explicativo, especificativo, enumerativo) | ( ) | ( ) | ( ) | | Identificar vocativos em diferentes gêneros textuais | ( ) | ( ) | ( ) | | Diferenciar vocativo de aposto usando critérios sintáticos | ( ) | ( ) | ( ) | | Reconhecer a pontuação obrigatória do vocativo | ( ) | ( ) | ( ) | Das habilidades acima, qual você considera mais desafiadora? O que você pode fazer para praticar mais essa habilidade? **Images:** - [https://storage.googleapis.com/teachy-classroom-contents/images/imported/863f6a82a6bd8a6c1bdbceea82154dd1.jpg](https://storage.googleapis.com/teachy-classroom-contents/images/imported/863f6a82a6bd8a6c1bdbceea82154dd1.jpg) — Três jovens em conversa animada com balões de fala em diferentes idiomas, ilustrando a interpelação direta entre interlocutores | Attribution: Fonte: freepik - "Illustration of young people talking in different languages" - Freepik


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