Orações Subordinadas

[Sequence 0] # Orações Subordinadas **Habilidade BNCC:** EF08LP12 — Identificar, em textos lidos, orações subordinadas com conjunções de uso frequente, incorporando-as às suas próprias produções. **Microhabilidade:** - EF08LP12-M01 — Identificar orações subordinadas em períodos compostos por subordinação, em textos lidos. --- [Sequence 1: (a) Contextualized Situation] Eu, Harry Potter, aprendi em Hogwarts que as palavras têm um poder muito especial — mas algumas só funcionam quando se unem a outras. Pense comigo: o que acontece quando alguém diz apenas "porque estava cansada"? Você fica esperando algo mais, não é verdade? Essa expressão incompleta, solta no ar, precisa de outra frase para ganhar sentido. Nas conversas do dia a dia, usamos o tempo todo estruturas assim. Janaína avisa a amiga: "Não fui ao treino **porque estava com febre**." Carlos explica para a mãe: "Avisa quando o almoço ficar pronto." Bianca posta nas redes: "Estou feliz **porque a notícia que esperava finalmente chegou**." Essas partes em destaque não existem sozinhas — elas dependem de outra oração para fazer sentido. Esse fenômeno, tão presente no português que usamos em casa, na escola e nas redes sociais, tem um nome: **oração subordinada**. A pergunta que vamos investigar juntos neste capítulo é: por que algumas frases precisam de outra frase para completar seu sentido? Em resumo, a subordinação é um recurso que todo falante do português usa naturalmente — e aprender a identificá-la nos torna leitores e escritores mais conscientes. [Sequence 2: (a) Recall Diagnostic Questions] Antes de mergulharmos no novo conteúdo, vou verificar o que você já sabe sobre como as frases se organizam — porque em Hogwarts eu aprendi que construir sobre o que já conhecemos é sempre o melhor caminho. Você já parou para pensar como as frases ganham ou perdem informação dependendo do que acrescentamos a elas? [D1] Leia as duas frases abaixo: - "Ela saiu." - "Ela saiu porque estava cansada." Na sua opinião, o que muda no significado quando acrescentamos "porque estava cansada"? Qual dessas frases dá mais informação sobre o que aconteceu? [D2] Pense em uma situação do seu dia a dia em que você precisou explicar a razão de algo que fez. Escreva essa explicação em uma frase começando com a palavra **porque**. Em resumo, as frases ganham profundidade quando uma ideia se apoia em outra — e é exatamente isso que estudaremos a seguir. [Sequence 4] ## Dom Casmurro e as frases que dependem umas das outras Agora vamos mergulhar em um texto de verdade. Eu aprendi em Hogwarts que os grandes escritores são como mestres de feitiços: cada palavra que escolhem tem um propósito. O trecho abaixo é de *Dom Casmurro*, romance do escritor Machado de Assis, publicado em 1899. Leia com atenção — preste atenção especial nas partes em que uma oração continua a outra. [chapter-section: Perfil] **Machado de Assis** (1839–1908) é considerado o maior escritor da literatura brasileira. Filho de um pintor mulato e de uma lavadeira açoriana, nasceu no Rio de Janeiro e, com esforço e talento, tornou-se um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras. *Dom Casmurro* (1899) é seu romance mais conhecido e discutido. --- > Minha mãe, depois que lhe morreu o marido, Pedro de Albuquerque Santiago, contava trinta e um anos de idade, e podia voltar para Itaguaí. Não quis; preferiu ficar perto da igreja em que meu pai fora sepultado. Vendeu a fazendola e os escravos, comprou alguns que pôs ao ganho ou alugou, uma dúzia de prédios, certo número de apólices, e deixou-se estar na casa de Mata-cavalos, onde vivera os dous últimos anos de casada. Era filha de uma senhora mineira, descendente de outra paulista, a família Fernandes. > > Ora, pois, naquele ano da graça de 1857, D. Maria da Glória Fernandes Santiago contava quarenta e dous anos de idade. Era ainda bonita e moça, mas teimava em esconder os saldos da juventude, por mais que a natureza quisesse preservá-la da ação do tempo. Vivia metida em um eterno vestido escuro, sem adornos, com um xale preto, dobrado em triângulo e abrochado ao peito por um camafeu. Os cabelos, em bandós, eram apanhados sobre a nuca por um velho pente de tartaruga; alguma vez trazia a touca branca de folhas. Lidava assim, com os seus sapatos de cordovão rasos e surdos, a um lado e outro, vendo e guiando os serviços todos da casa inteira, desde manhã até à noite. > > Tenho ali na parede o retrato dela, ao lado do do marido, tais quais na outra casa. A pintura escureceu muito, mas ainda dá idéia de ambos. Não me lembra nada dele, a não ser vagamente que era alto e usava cabeleira grande; o retrato mostra uns olhos redondos, que me acompanham para todos os lados, efeito da pintura que me assombrava em pequeno. O pescoço sai de uma gravata preta de muitas voltas, a cara é toda rapada, salvo um trechozinho pegado às orelhas. O de minha mãe mostra que era linda. Contada então vinte anos, e tinha uma flor entre os dedos. No painel parece oferecer a flor ao marido. O que se lê na cara de ambos é que, se a felicidade conjugal pode ser comparada à sorte grande, eles a tiraram no bilhete comprado de sociedade. Concluo que não se devem abolir as loterias. Nenhum premiado as acusou ainda de imorais, como ninguém tachou de má a boceta de Pandora, por lhe ter ficado a esperança no fundo; em alguma parte há de ela ficar. > > Mas é tempo de tornar àquela tarde de novembro, uma tarde clara e fresca, sossegada como a nossa casa e o trecho da rua em que morávamos. Verdadeiramente foi o princípio da minha vida; tudo o que sucedera antes foi como o pintar e vestir das pessoas que tinham de entrar em cena, o acender das luzes, o preparo das rabecas, a sinfonia. Agora é que eu ia começar a minha ópera. "A vida é uma ópera", dizia-me um velho tenor italiano que aqui viveu e morreu. *Machado de Assis. Dom Casmurro. Rio de Janeiro: Garnier, 1899. Capítulos II e III (fragmento).* **Images:** - https://storage.googleapis.com/teachy-classroom-contents/images/imported/882493809bb88e15f87af3b2a86b611d145794588c31ca32eb8e54b890ca612b.jpg — Página de Os Lusíadas, de Luís de Camões, mostrando texto literário clássico em português com estruturas sintáticas complexas | Attribution: Fonte: Luís de Camões - "Os Lusíadas" - Wikimedia Commons --- Você percebeu quantas vezes, nesse trecho, uma oração "puxa" outra? Na frase "preferiu ficar perto da igreja **em que meu pai fora sepultado**", o trecho destacado não faz sentido por si só — ele completa e especifica "a igreja". Já em "tudo o que sucedera antes foi como o pintar e vestir das pessoas **que tinham de entrar em cena**", o trecho em destaque especifica quais pessoas o narrador menciona. Essas partes que dependem de outra são justamente as **orações subordinadas**, e agora que você as observou em ação, vamos entender como elas funcionam. ## O que é uma oração subordinada? Em qualquer período com mais de uma oração, existe uma hierarquia: há aquela que tem sentido completo — a **oração principal** — e aquelas que dependem dela para fazer sentido — as **orações subordinadas**. A oração subordinada exerce uma função dentro do período como se fosse um sujeito, um complemento ou uma circunstância ampliados. O sinal mais visível da subordinação é a presença de uma **conjunção subordinativa**: palavras como *porque*, *que*, *se*, *quando*, *embora*, *para que*. Essa conjunção é o elo que amarra a oração subordinada à oração principal, tornando explícita a relação de dependência entre elas. Veja um exemplo diretamente do texto de Machado de Assis: > "Não quis; preferiu ficar perto da igreja **em que meu pai fora sepultado**." - **Oração principal:** preferiu ficar perto da igreja - **Oração subordinada:** em que meu pai fora sepultado - **Elemento de ligação:** *em que* A oração subordinada não tem sentido isolada. Ela responde implicitamente à pergunta "qual igreja?" e, ao responder isso, completa o período com uma informação essencial. [chapter-section: Glossário] **conjunção subordinativa:** palavra ou locução que introduz uma oração subordinada, indicando sua relação com a oração principal (*porque*, *que*, *se*, *quando*, *embora*, *para que*). **período composto por subordinação:** período formado por uma oração principal e uma ou mais orações subordinadas, ligadas por conjunção subordinativa. ## Como identificar uma oração subordinada? Vamos investigar isso juntos, como se fosse uma missão em Hogwarts. Eu uso uma técnica simples de três passos para identificar feitiços — e aqui funciona da mesma forma: **Passo 1 — Procure a conjunção subordinativa.** Palavras como *porque*, *que*, *se*, *quando*, *embora*, *para que* são pistas quase sempre confiáveis de que há uma oração subordinada na sequência. **Passo 2 — Isole o trecho que começa na conjunção.** Separe mentalmente essa parte do restante do período. **Passo 3 — Teste o sentido.** Leia essa parte isolada. Ela faz sentido completo sozinha? Se a resposta for não, ela é subordinada — precisa da oração principal para existir. Aplique esse raciocínio a uma frase do próprio Machado de Assis: > "O que se lê na cara de ambos é que, **se a felicidade conjugal pode ser comparada à sorte grande**, eles a tiraram no bilhete comprado de sociedade." - Conjunção encontrada: *se* - Trecho isolado: "se a felicidade conjugal pode ser comparada à sorte grande" - Teste de sentido: esse trecho sozinho deixa o leitor esperando uma conclusão — não se sustenta. Portanto, é uma oração subordinada. Perceba que a oração principal vem **depois** da subordinada nesse caso. A posição no período não determina qual é a principal; o que determina é a dependência de sentido. **Images:** - GENERATE: Diagrama pedagógico com duas caixas retangulares: à esquerda "Oração Principal" (moldura sólida, azul) e à direita "Oração Subordinada" (moldura tracejada, laranja), ligadas por uma seta rotulada "conjunção subordinativa". Abaixo, um exemplo com as partes destacadas nas cores correspondentes: "preferiu ficar perto da igreja" (azul) + "em que meu pai fora sepultado" (laranja). Estilo limpo, didático, fundo branco. | diagrama-oracao-subordinada.png | 16:9 [chapter-section: Nossa língua na rua] Você sabia que usa orações subordinadas todos os dias, sem perceber? Frases como "Vou te ligar **quando chegar em casa**", "Não saí **porque estava estudando**" e "Guarda o celular **para que possamos conversar**" são exemplos de subordinação no português falado. Na próxima vez que mandar uma mensagem de voz para um colega, tente identificar quantas orações subordinadas você usou naturalmente. Em resumo, a subordinação não é apenas uma regra gramatical — é a forma como a língua organiza o pensamento complexo na vida real. [INTERACTIVE: a1-mm | Explore o mapa mental interativo sobre orações subordinadas — tipos, conjunções e exemplos — na plataforma Teachy] [Sequence 5] ## Na prática É hora de colocar em prática o que aprendemos. Vamos trabalhar com os trechos de Machado de Assis que você já leu — porque usar um texto real é sempre a melhor forma de consolidar um conceito. Você consegue localizar as orações subordinadas no texto que acabou de ler? [P1] (DOK 1) Leia o trecho de *Dom Casmurro*, de Machado de Assis: > "Não quis; preferiu ficar perto da igreja **em que meu pai fora sepultado**." O trecho destacado ("em que meu pai fora sepultado") é: (A) Uma oração independente, pois tem verbo próprio. (B) Uma oração subordinada, pois completa ou modifica o sentido de "igreja". (C) Uma oração coordenada, pois está ligada à oração anterior por vírgula. (D) Uma frase sem verbo, usada para descrever um lugar. **Gabarito:** B [P2] (DOK 2) Releia este período do texto de referência: > "Era filha de uma senhora mineira, descendente de outra paulista, a família Fernandes." Agora compare com a versão reescrita abaixo: > "Era filha de uma senhora mineira **que descendia de uma família paulista, os Fernandes**." Identifique a oração subordinada na versão reescrita e explique qual informação ela acrescenta ao período. Observe que o trecho original e a versão reescrita veiculam o mesmo sentido por estruturas diferentes — qual das duas torna a dependência entre as orações mais explícita? *Dica: Procure o trecho que começa com "que" e observe a qual palavra ele se relaciona na oração principal.* [LINES: 4] [P3] (DOK 2) Leia o trecho abaixo de *Dom Casmurro*: > "O que se lê na cara de ambos é que, se a felicidade conjugal pode ser comparada à sorte grande, eles a tiraram no bilhete comprado de sociedade." a) Identifique a oração subordinada introduzida pela conjunção "se" nesse período. b) Explique que tipo de relação de sentido essa oração estabelece com a oração principal: ela introduz uma condição, uma causa ou uma comparação? *Dica: A conjunção "se" indica uma hipótese — algo que pode ou não ser verdadeiro. Use esse raciocínio para classificar a relação.* [LINES: 6] Em resumo, identificar uma oração subordinada exige atenção à conjunção que a introduz e ao teste de sentido: se a oração não se sustenta sozinha, ela depende de outra. [Sequence 6] ## Exercícios Agora eu te convido a aplicar o que aprendemos em novos trechos — porque em Hogwarts eu descobri que a verdadeira prova do aprendizado é usar o conhecimento em situações ainda não vistas. Você está pronto para isso? [I1] (DOK 3) Leia o trecho a seguir, retirado de *Dom Casmurro*, de Machado de Assis: > "Verdadeiramente foi o princípio da minha vida; tudo o que sucedera antes foi como o pintar e vestir das pessoas que tinham de entrar em cena, o acender das luzes, o preparo das rabecas, a sinfonia. Agora é que eu ia começar a minha ópera." A construção "tudo o que sucedera antes" é uma oração subordinada que desempenha função essencial no período. A respeito dessa construção, é correto afirmar que ela: (A) Acrescenta uma circunstância de tempo à oração principal, indicando quando os eventos aconteceram. (B) Substitui um substantivo, funcionando como sujeito da oração principal ao especificar o referente de "tudo". (C) Exprime uma condição necessária para que o narrador pudesse iniciar sua vida verdadeira. (D) Introduz uma ideia de concessão, sugerindo que o passado contradiz o sentido do presente. (E) Estabelece uma relação de causa entre os eventos passados e o início da ópera do narrador. **Gabarito:** B [I2] (DOK 2) Leia o seguinte parágrafo de *Dom Casmurro*: > "Minha mãe vivia metida em um eterno vestido escuro, sem adornos, com um xale preto. Lidava assim a um lado e outro, vendo e guiando os serviços todos da casa inteira, desde manhã até à noite." Um estudante reescreveu os dois períodos em um só, unindo-os com a conjunção **embora**: > "Embora vivesse metida em um eterno vestido escuro, minha mãe lidava com toda a casa, de manhã até à noite." Explique que relação de sentido a oração subordinada introduzida por "embora" estabelece com a oração principal nessa nova versão. [LINES: 4] [I3] (DOK 3) Releia este período do texto de referência: > "Concluo que não se devem abolir as loterias." A oração "que não se devem abolir as loterias" é subordinada e completa o sentido do verbo "concluo". Reescreva esse mesmo raciocínio do narrador utilizando uma oração subordinada iniciada pela conjunção **porque**, de modo que a conclusão se torne a oração principal e a justificativa apareça como oração subordinada. [LINES: 5] Em resumo, reconhecer orações subordinadas em textos literários é o primeiro passo para empregá-las com precisão e intenção nas suas próprias produções. [INTERACTIVE: d-rp | Escaneie para responder estes exercícios na Teachy e receber correção automática com feedback detalhado]


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