Os quatro porquês
[Section 0] # Os quatro porquês [Section 1: (a) Contextualized Situation] Você já recebeu uma mensagem como essa: *"Vc não veio ontem. Por que?"* — e ficou com a sensação de que algo estava errado, mas não soube dizer bem o quê? Ou já escreveu em uma redação *"Não fui porque estava doente"* e se perguntou se estava certo mesmo? As quatro formas dos porquês — **por que**, **por quê**, **porque** e **porquê** — parecem iguais na fala, mas têm funções bem distintas na escrita. Escolher a forma errada pode mudar o sentido de uma frase ou revelar descuido com a norma-padrão, tanto em uma redação escolar quanto em uma mensagem formal. Então vale a pergunta que guia este capítulo: > **Uma mesma palavra pode ter significados diferentes dependendo de como é escrita?** **Images:** | URL | Legenda | |-----|---------| | https://storage.googleapis.com/teachy-classroom-contents/images-v2/68bd8de8-d4a3-4157-b760-92799fa784ba/imported/v2_0_11.jpg | Numa conversa cotidiana, fazemos perguntas e damos respostas o tempo todo — e cada tipo de enunciado exige uma forma diferente dos porquês na escrita. | [Section 2: (a) Recall Diagnostic Questions] Antes de mergulhar nas regras, pense no que você já faz intuitivamente ao escrever. [D1] Quando você quer explicar o motivo de algo que aconteceu — por exemplo, "não fui à escola ___ estava doente" — que palavra você colocaria nesse espaço em branco? Você saberia dizer por que escolheu essa palavra? [Section 4] ## Conto de Escola — Machado de Assis > Não queria recebê-la, e custava-me recusá-la. Olhei para o mestre, que continuava a ler, com tal interesse, que lhe pingava o rapé do nariz. — Ande, tome, dizia-me baixinho o filho. E a pratinha fuzilava-lhe entre os dedos, como se fora diamante... Em verdade, se o mestre não visse nada, que mal havia? > > — Tome, tome... > > Relancei os olhos pela sala, e dei com os do Curvelo em nós; disse ao Raimundo que esperasse. Pareceu-me que o outro nos observava, então dissimulei; mas daí a pouco deitei-lhe outra vez o olho, e — tanto se ilude a vontade! — não lhe vi mais nada. Então cobrei ânimo. > > — Dê cá... > > Raimundo deu-me a pratinha, sorrateiramente; eu meti-a na algibeira das calças, com um alvoroço que não posso definir. Restava prestar o serviço, ensinar a lição; passava-lhe a explicação em um retalho de papel que ele recebeu com cautela e cheio de atenção. Sentia-se que despendia um esforço cinco ou seis vezes maior para aprender um nada; mas contanto que ele escapasse ao castigo, tudo iria bem. > > De repente, olhei para o Curvelo e estremeci; tinha os olhos em nós, com um riso que me pareceu mau. Sorri para ele e ele não sorriu; ao contrário, franziu a testa, o que lhe deu um aspecto ameaçador. O coração bateu-me muito. > > — Oh! seu Pilar! bradou o mestre com voz de trovão. > > Estremeci como se acordasse de um sonho, e levantei-me às pressas. Dei com o mestre, olhando para mim, cara fechada, e ao pé da mesa, em pé, o Curvelo. Pareceu-me adivinhar tudo. > > — Então o senhor recebe dinheiro para ensinar as lições aos outros? disse-me o Policarpo. > > — Eu... > > — Dê cá a moeda que este seu colega lhe deu! clamou. *Machado de Assis, "Conto de Escola". In: Várias Histórias. Rio de Janeiro: Laemmert, 1896.* [chapter-callout-label: Perfil] **Machado de Assis** (1839–1908) é considerado o maior escritor da literatura brasileira. Fundador da Academia Brasileira de Letras, nasceu no Rio de Janeiro e produziu romances, contos, crônicas e poemas de linguagem precisa e irônica. "Conto de Escola" integra a coletânea *Várias Histórias* (1896) e narra um episódio de dilema moral na infância do personagem Pilar — menino que aceita dinheiro para ensinar a lição a um colega e é descoberto pelo professor. --- O conto de Machado é inteiramente narrado em ação: o mestre lê, Curvelo observa, Pilar hesita. Se você quisesse comentar o que aconteceu — perguntar o motivo de cada escolha ou explicar as causas de cada reação — seria aí que os porquês entrariam. Cada situação do conto exige uma forma diferente, e entender qual é qual é exatamente o que você vai aprender agora. ## As quatro formas dos porquês Na língua portuguesa, existem quatro maneiras de escrever a mesma sequência sonora /porkê/, e cada uma exerce uma função diferente no texto. A escolha depende de três critérios: se a frase é uma pergunta ou uma explicação, se a palavra ocorre no final do período e se ela funciona como substantivo. **Por que** — separado e sem acento — introduz perguntas diretas (marcadas por ponto de interrogação) e perguntas indiretas (inseridas numa oração sem ponto de interrogação). Nesses casos, é possível substituí-lo por *"por qual motivo"* ou *"pelo qual"*. > *Por que Pilar aceitou a moeda?* > *Ninguém sabia por que o Curvelo observava tanto.* **Por quê** — separado e com acento — aparece quando a ideia interrogativa ocorre no **final de um período**, imediatamente antes de ponto-final, ponto de exclamação ou ponto de interrogação. O acento marca essa posição específica. > *O mestre chamou Pilar. Por quê?* > *Raimundo insistia, mas Pilar não entendia por quê.* **Porque** — junto e sem acento — é o conectivo que introduz explicações e causas. Ele responde à pergunta feita com *por que* e pode ser substituído por *"pois"* ou *"uma vez que"*. > *Pilar aceitou a pratinha porque não conseguiu resistir à tentação.* > *Raimundo se esforçava muito porque queria escapar ao castigo.* **Porquê** — junto e com acento — é um **substantivo**: significa *"a razão"*, *"o motivo"*, *"a causa"*. Como qualquer substantivo, pode ser precedido de artigo e flexionado no plural — *os porquês*. > *O porquê da hesitação de Pilar era o medo de ser descoberto.* > *Existem vários porquês para a atitude de Curvelo.* [chapter-callout-label: Comparando...] Para fixar as diferenças, veja o quadro a seguir: | Forma | Separado? | Com acento? | Função | Exemplo do conto | |---|---|---|---|---| | **por que** | Sim | Não | interrogativo / relativo | *Por que Pilar aceitou a moeda?* | | **por quê** | Sim | Sim | interrogativo (final de período) | *O mestre chamou. Por quê?* | | **porque** | Não | Não | conectivo causal | *Pilar aceitou porque não resistiu.* | | **porquê** | Não | Sim | substantivo | *O porquê da hesitação era o medo.* | [chapter-callout-label: Nossa língua na rua] Nas redes sociais, é comum ver frases como *"Me conta o porque disso"* quando o correto seria *"o porquê"*, ou *"Porque você fez isso?"* no lugar de *"Por que você fez isso?"*. Esses deslizes acontecem porque, na fala, as quatro formas soam idênticas — só a escrita as diferencia. Assim como Machado escolhia cada palavra com precisão, em redações, e-mails e publicações formais o uso correto dos porquês sinaliza domínio da norma-padrão. [INTERACTIVE: a1-mm | Explore o mapa mental interativo com as quatro formas dos porquês e suas regras na plataforma Teachy] ## Na prática Agora que você conhece as quatro formas, é hora de testá-las com apoio do texto de Machado de Assis. Comece pelos exercícios mais diretos e avance gradualmente. [P1] (DOK 1) Releia o trecho do conto "Conto de Escola", de Machado de Assis: > "Sentia-se que despendia um esforço cinco ou seis vezes maior para aprender um nada; mas contanto que ele escapasse ao castigo, tudo iria bem." No trecho acima, o narrador explica uma razão: o esforço do colega era justificado por um objetivo. Se você fosse reescrever essa ideia em uma frase direta, como em "Raimundo se esforçava _____ queria escapar ao castigo", qual dos porquês completaria corretamente o espaço em branco? (A) por que (B) por quê (C) porque (D) porquê **Gabarito:** (C) porque [P2] (DOK 2) No conto, o narrador Pilar frequentemente ignora os sinais que Curvelo lhe dava. Imagine que alguém queira narrar essa situação em frases indiretas. Leia as opções abaixo e identifique qual está escrita corretamente de acordo com a norma-padrão: (A) "Não sei porque ele foi embora tão cedo." (B) "Não sei por que ele foi embora tão cedo." (C) "Não sei porquê ele foi embora tão cedo." (D) "Não sei por quê ele foi embora tão cedo." *Dica: Pense em quando "por que" pode ser substituído por "por qual razão" na frase.* **Gabarito:** (B) "Não sei por que ele foi embora tão cedo." [P3] (DOK 2) Considere o seguinte diálogo entre dois estudantes que acabaram de ler o conto: > **Marina:** Você sabe o porquê da demora do mestre em perceber o que Pilar fazia? > **Caio:** Não. Por quê? Você acha que ele percebeu antes? Explique por que o uso de "porquê" na fala de Marina está correto e diferente do uso de "por quê" na fala de Caio. *Dica: Verifique se é possível substituir cada forma por "o motivo" ou por "por qual razão".* [LINES: 5] ## Exercícios Os exercícios a seguir levam você a um nível mais autônomo: você vai identificar e aplicar os porquês em contextos novos, transferindo o que aprendeu para além do texto de Machado. [I1] (DOK 3) Leia o trecho a seguir, retirado do conto "Conto de Escola", de Machado de Assis: > "Olhei para o mestre, que continuava a ler, com tal interesse, que lhe pingava o rapé do nariz." > "De repente, olhei para o Curvelo e estremeci; tinha os olhos em nós, com um riso que me pareceu mau." Suponha que um leitor moderno, ao resumir o conflito do conto, escreva a seguinte frase: *"O narrador ficou em tensão _____ sabia que Curvelo poderia delatá-lo, mas não entendia _____ o mestre não percebia nada."* Para preencher corretamente os dois espaços em branco, de acordo com a norma-padrão, o leitor deve usar, respectivamente: (A) porque — por que (B) por quê — porque (C) porquê — por quê (D) porque — porquê (E) por que — porque **Gabarito:** (A) porque — por que [I2] (DOK 2) No início do conto "Conto de Escola", o menino Pilar vive um dilema moral: receber dinheiro para ensinar a lição ao colega Raimundo é uma tentação que ele não consegue resistir facilmente. Imagine que um aluno leu o conto e escreveu o seguinte comentário em seu caderno: > *"Pilar cedeu a tentação por que queria a moeda, mas o porquê de sua hesitação era o medo de ser pego."* Identifique e corrija os erros de uso dos porquês nessa frase, reescrevendo-a de forma adequada à norma-padrão. [LINES: 4] [I3] (DOK 2) Observe as quatro frases abaixo: 1. "Você sabe **por que** ele foi embora?" 2. "Ele foi embora, mas não disse **por quê**." 3. "Ele foi embora **porque** estava cansado." 4. "Ninguém entendeu o **porquê** da decisão." Classifique cada ocorrência destacada em negrito, indicando qual forma dos porquês está sendo usada (por que / por quê / porque / porquê) e justifique sua escolha para cada uma delas com base nas regras da norma-padrão. [LINES: 8] [INTERACTIVE: d-rp | Escaneie para responder estes exercícios na Teachy e receber correção automática]
Precisa de slides customizados para suas aulas?
Eu consigo gerar slides, atividades, resumos e 60+ tipos de materiais. Isso mesmo, nada de noites mal dormidas por aqui :)
Faça parte de uma comunidade de professores direto no seu WhatsApp
Conecte-se com outros professores, receba e compartilhe materiais, dicas, treinamentos, e muito mais!
Soluções
2026 - Todos os direitos reservados