Período Composto por Subordinação

# Período Composto por Subordinação [Sequence 4] Eu já mostrei, em Hogwarts, que as orações coordenadas caminham lado a lado com independência total. Agora vou te apresentar outro tipo de laço — aquele em que uma oração simplesmente não consegue existir sem a outra, como um feitiço que só funciona com dois componentes juntos. ## A dependência que cria sentido Veja este trecho de *Dom Casmurro*, de Machado de Assis, que abrimos no capítulo anterior: --- > Minha mãe quis saber o que era. José Dias, depois de alguns instantes de concentração, veio ver se havia alguém no corredor; não deu por mim, voltou e, abafando a voz, disse que a dificuldade estava na casa ao pé, a gente do Pádua. > > [...] Não me parece bonito que o nosso Bentinho ande metido nos cantos com a filha do Tartaruga. > > [...] Mas, Sr. José Dias, tenho visto os pequenos brincando, e nunca vi nada que faça desconfiar. > > Eia, comecemos a evocação por uma célebre tarde de novembro, que nunca me esqueceu. *MACHADO DE ASSIS. Dom Casmurro. Rio de Janeiro: Garnier, 1899. Cap. II–III.* --- Tente agora isolar as partes desta frase: *"Minha mãe quis saber o que era."* A primeira parte, *"Minha mãe quis saber"*, faz sentido? Sim, mas fica incompleta: saber *o quê*? Já a segunda parte, *"o que era"*, funciona sozinha como período? Não — ela depende do verbo "saber" para existir. Esse encaixe, essa dependência de uma oração na outra, é o que chamamos de **subordinação**. No **período composto por subordinação**, as orações não são iguais nem independentes: uma delas desempenha uma *função sintática* dentro da outra. A oração que recebe essa função é chamada de **oração subordinada**, e aquela que a "hospeda" (mas fica incompleta sem ela) é a **oração principal**. [chapter-section: Comparando...] Observe a diferença entre os dois tipos de período composto: | Tipo | Relação entre orações | Teste | Exemplo de *Dom Casmurro* | |---|---|---|---| | **Coordenação** | Independência sintática — cada oração faz sentido sozinha | Isole cada oração: ambas sobrevivem | *"não deu por mim, voltou"* | | **Subordinação** | Dependência sintática — uma oração completa a outra | Isole a subordinada: ela perde o sentido ou fica gramaticalmente incompleta | *"disse que a dificuldade estava na casa ao pé"* | A chave está no **teste da dependência**: uma oração subordinada não funciona como período autônomo. Se você tirar *"que a dificuldade estava na casa ao pé"* e tentar apresentá-la sozinha, vai perceber que algo fundamental falta — ela precisa do verbo "disse" para existir. Em resumo, subordinação é uma relação de dependência sintática: uma oração completa o sentido que a outra exige. ## Os três tipos de orações subordinadas Eu aprendi em Hogwarts que todo ser tem uma função no mundo — e com as orações subordinadas é exatamente igual. Cada uma exerce um papel sintático específico dentro da oração principal, e é esse papel que determina sua classificação. Há **três grandes tipos** de orações subordinadas: **Orações subordinadas substantivas** exercem a função de um substantivo na oração principal: sujeito, objeto direto, objeto indireto, complemento nominal ou predicativo. Repare: *"Não me parece bonito **que o nosso Bentinho ande metido nos cantos com a filha do Tartaruga**."* A oração destacada responde à pergunta "o que não parece bonito?" e, por isso, exerce função de sujeito. **Orações subordinadas adjetivas** exercem a função de adjetivo, modificando um substantivo da oração principal. Observe: *"uma célebre tarde de novembro, **que nunca me esqueceu**."* Essa oração caracteriza e modifica "tarde" — ela acrescenta uma informação sobre esse substantivo, do mesmo modo que um adjetivo faria. **Orações subordinadas adverbiais** exercem a função de advérbio, expressando circunstâncias como tempo, causa, condição, consequência, concessão e finalidade. São introduzidas por conjunções subordinativas como *quando, porque, embora, se, para que, tanto que*, entre outras. **Images:** - https://storage.googleapis.com/teachy-classroom-contents/images/imported/a5d8fe2b7420f06672748cfec7b66b55.png — Ilustração com o título "Conjunções Subordinativas" e exemplos de conectivos como "embora" e "quando", que introduzem orações subordinadas | Attribution: Fonte: Teachy - "Subordinating Conjunctions" - Teachy *Para gerar:* | Descrição | Nome do arquivo | Proporção | |---|---|---| | Diagrama em árvore mostrando um período composto por subordinação: retângulo superior com "oração principal (incompleta)" e retângulo inferior conectado por seta com "oração subordinada (completa o sentido)", com fundo branco e estilo didático limpo | diagrama-subordinacao.png | 16:9 | [chapter-section: Glossário] **subordinação:** relação sintática em que uma oração depende de outra para ter sentido gramatical completo; a oração dependente é chamada de *subordinada* e a que a recebe é a *principal*. **conjunção subordinativa:** palavra ou expressão que liga a oração subordinada à principal (exemplos: *que, se, porque, embora, quando, para que*). **oração subordinada substantiva:** oração que exerce função de substantivo dentro da oração principal (sujeito, objeto, complemento). **oração subordinada adjetiva:** oração que modifica um substantivo da oração principal, exercendo função de adjetivo. **oração subordinada adverbial:** oração que indica circunstâncias (tempo, causa, condição, consequência etc.), exercendo função de advérbio. [INTERACTIVE: a1-sl | Acesse os slides interativos sobre orações subordinadas na plataforma Teachy para revisar os três tipos com exemplos] [Sequence 5] ## Na prática Você conseguiria identificar uma oração subordinada em qualquer texto que lesse agora mesmo? Eu já errei muito nessa identificação em Hogwarts até entender o truque: sempre verificar se a oração sobrevive sozinha. Vamos investigar juntos os períodos de *Dom Casmurro*. **[P1]** Leia o trecho de *Dom Casmurro*, de Machado de Assis: > "Minha mãe quis saber o que era." Esse período é composto por duas orações. Identifique cada uma delas e indique qual oração **depende** da outra para ter sentido completo. --- **[P2]** Observe os dois períodos abaixo: > I. "Estudei muito, mas não passei no teste." > II. "Estudei muito para que passasse no teste." Em qual dos períodos existe uma oração que **não pode funcionar sozinha**, ou seja, que depende sintaticamente da outra? Explique por que isso caracteriza subordinação e não coordenação. *Dica: Tente isolar cada oração e verificar se ela mantém sentido completo por si mesma. Qual delas "fica incompleta" sem a outra?* --- **[P3]** Leia o trecho abaixo, também de *Dom Casmurro*: > "Não me parece bonito que o nosso Bentinho ande metido nos cantos com a filha do Tartaruga." a) Identifique as duas orações presentes nesse período. b) Explique por que a oração introduzida por "que" não pode ser separada da oração principal sem perder seu sentido gramatical. *Dica: Pergunte-se: a oração "que o nosso Bentinho ande metido nos cantos..." pode funcionar sozinha como um período completo?* --- Em resumo, o teste mais confiável para reconhecer uma subordinada é verificar se ela funciona como período autônomo: se não funcionar, ela é subordinada. [chapter-section: Nossa língua na rua] Você já percebeu como a subordinação aparece o tempo todo na linguagem cotidiana? Frases como *"Espero que você entenda"*, *"Faço isso porque gosto"* e *"Quando chegar em casa, ligo"* são exemplos de subordinação que usamos naturalmente ao falar e escrever. Da próxima vez que ler uma mensagem, uma notícia ou até uma letra de música, veja se consegue identificar orações que dependem umas das outras — você vai se surpreender com a frequência! [Sequence 6] ## Exercícios Eu descobri em Hogwarts que a verdadeira prova de que aprendemos algo é conseguir aplicar o conhecimento em situações novas. Será que você já domina a subordinação a ponto de reconhecê-la em trechos que ainda não leu? Cada exercício a seguir traz novos contextos de *Dom Casmurro* para você analisar com precisão. Em resumo, o objetivo é transferir o que aprendemos para textos além dos já explorados. **[I1]** Leia o trecho de *Dom Casmurro*, de Machado de Assis (1899): > "José Dias, depois de alguns instantes de concentração, veio ver se havia alguém no corredor; não deu por mim, voltou e, abafando a voz, disse que a dificuldade estava na casa ao pé, a gente do Pádua." No trecho, as orações "disse que a dificuldade estava na casa ao pé" e "que a dificuldade estava na casa ao pé" estabelecem entre si uma relação sintática específica. A respeito dessa relação, é correto afirmar que: (A) as duas orações são coordenadas, pois estão ligadas pela conjunção "que", que une ideias independentes. (B) a oração "que a dificuldade estava na casa ao pé" é subordinada, pois funciona como complemento do verbo "disse" e não faz sentido sem ele. (C) a oração "disse que a dificuldade estava na casa ao pé" é subordinada à oração anterior, pois depende do sujeito "José Dias". (D) as orações formam um período simples, já que ambas giram em torno de um único verbo principal. (E) a conjunção "que" estabelece uma relação de adição entre as orações, caracterizando coordenação aditiva. **Gabarito:** B --- **[I2]** Leia o trecho de *Dom Casmurro*: > "Mas, Sr. José Dias, tenho visto os pequenos brincando, e nunca vi nada que faça desconfiar." O período acima contém mais de duas orações. Uma delas é subordinada. Identifique a oração subordinada presente nesse período e explique de que elemento da oração principal ela depende sintaticamente. [LINES: 5] --- **[I3]** Releia este trecho do texto de referência: > "Basta a idade; Bentinho mal tem quinze anos. Capitu fez quatorze à semana passada; são dous criançolas." Agora compare com a versão reescrita abaixo (versão adaptada para fins didáticos): > "Capitu fez quatorze anos na semana passada, o que confirma que os dois ainda são crianças." a) Identifique a oração subordinada presente na versão reescrita. b) Explique por que essa oração não poderia iniciar o período de forma autônoma, sem a oração principal que a antecede. [LINES: 6] --- **[I4]** Leia o trecho abaixo de *Dom Casmurro*: > "Eia, comecemos a evocação por uma célebre tarde de novembro, que nunca me esqueceu." A oração "que nunca me esqueceu" é frequentemente chamada de **oração subordinada adjetiva** porque funciona como um adjetivo para um substantivo da oração principal. Explique, com suas próprias palavras, por que essa oração é considerada subordinada. Em sua resposta, indique: (a) de qual termo da oração principal ela depende e (b) o que aconteceria com o sentido do período se ela fosse retirada. [LINES: 8] [INTERACTIVE: d-rp | Escaneie para responder estes exercícios na Teachy e receber correção automática]


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