Planejamento e Estrutura de Crônica

# Planejamento e Estrutura de Crônica [Section 1: (a) Contextualized Situation] Quinta-feira. Seis e meia da manhã. Você desce do ônibus e atravessa a calçada molhada de garoa. Na porta do prédio, o mesmo porteiro de sempre — aquele que diz "bom dia" com uma voz grossa mas olhos cansados. Você responde sem nem olhar. Entra no elevador, coloca o fone de ouvido, e a rotina recomeça. Agora imagine que alguém viu exatamente essa cena. Mas em vez de deixá-la passar, essa pessoa parou, observou com atenção, e pensou: *há algo aqui que merece ser contado*. Ela voltou para casa e escreveu um texto curto — não uma notícia, não um conto longo, mas algo mais íntimo e reflexivo. Escreveu uma crônica. De que forma uma história do cotidiano pode se tornar uma crônica marcante? [Section 2: (a) Recall Diagnostic Questions] [D1] Você provavelmente já leu ou ouviu alguma história curta sobre uma situação do dia a dia — no ônibus, na escola, em casa — que fez você rir, pensar ou se emocionar. O que, na sua opinião, faz uma história assim ser interessante? Descreva brevemente o que você lembra de alguma história desse tipo que tenha chamado a sua atenção. [Section 4] ## O que é uma crônica? Antes de escrever qualquer texto, é preciso conhecer bem o gênero com que se vai trabalhar. Por isso, leia a seguir uma crônica de **Machado de Assis**, publicada originalmente na coluna "Bons dias!" do jornal *Gazeta de Notícias*, em 1888. --- **"Bons dias!"** *Machado de Assis — Gazeta de Notícias, 1888* Neste jantar, a que meus amigos deram o nome de banquete, em falta de outro melhor, reuni umas cinco pessoas, conquanto as notícias dissessem trinta e três (anos de Cristo), no intuito de lhe dar um aspecto simbólico. No golpe do meio, levantei-me eu com a taça de champanha e declarei que, acompanhando as ideias pregadas por Cristo, há dezoito séculos restituía a liberdade ao meu escravo Pancrácio; que entendia que a nação inteira devia acompanhar as mesmas ideias e imitar o meu exemplo; finalmente, que a liberdade era um dom de Deus, que os homens não podiam roubar sem pecado. Pancrácio, que estava à espreita, entrou na sala, como um furacão, e veio abraçar-me os pés. Um dos meus amigos pegou de outra taça e pediu à ilustre assembleia que correspondesse ao ato que acabava de publicar, brindando ao primeiro dos cariocas. Ouvi cabisbaixo; fiz outro discurso agradecendo, e entreguei a carta ao molecote. Todos os lenços comovidos apanharam as lágrimas de admiração. Caí na cadeira e não vi mais nada. De noite, recebi muitos cartões. Creio que estão pintando o meu retrato, e suponho que a óleo. --- Antes de continuar, reflita: quem fala nesse texto? O que essa pessoa acabou de fazer? Como ela se sente em relação a isso? Você percebe algo de irônico na forma como ela conta a história? **Images:** - https://storage.googleapis.com/teachy-classroom-contents/images/imported/ee05b7e27b761a2009b2475ad63ec1fe39d733b40ca0bf2566e6c44c139f2ff1.jpg — Página de jornal brasileiro do século XIX mostrando crônicas e colunas de época, contexto de publicação da crônica de Machado de Assis --- A crônica de Machado de Assis fala de um jantar aparentemente festivo, de um gesto "generoso" — e, no entanto, algo não soa verdadeiro. O narrador liberta um escravizado e, em seguida, descreve com satisfação os elogios que recebe por isso. A libertação, ato que deveria ser de justiça, vira performance social. Essa tensão entre o que é dito e o que está por trás das palavras é um dos recursos mais poderosos da crônica: a **ironia**. [chapter-callout-label: Perfil] **Machado de Assis (1839–1908)** foi um dos maiores escritores brasileiros de todos os tempos. Fundador da Academia Brasileira de Letras, escreveu romances, contos e, por anos, publicou crônicas em jornais cariocas. Filho de um operário mulato e de uma imigrante portuguesa, Machado conhecia de perto as contradições da sociedade brasileira. Suas crônicas usavam o humor e a ironia para expor a hipocrisia das classes dominantes sem nunca perder a elegância da linguagem. --- ### Constituintes estruturais da crônica A crônica é um texto curto que narra ou reflete sobre uma situação do cotidiano, com marcas fortes da visão pessoal do autor. Diferente da notícia, que busca informar com objetividade, a crônica interessa-se pelo que está por trás dos fatos — a emoção, a ironia, a reflexão. Ela nasceu nos jornais e ainda hoje circula em suplementos literários, sites e revistas. Para planejar uma crônica, é fundamental conhecer seus elementos constituintes. Veja como eles aparecem na crônica de Machado de Assis: | Elemento | O que é | No texto de Machado | |---|---|---| | **Tema** | O assunto central sobre o qual o texto reflete | Hipocrisia e vaidade disfarçadas de bondade | | **Mote** | O acontecimento-gatilho que origina a reflexão | Um jantar em que o narrador liberta um escravizado | | **Espaço** | Local onde a cena se passa (geralmente reduzido) | Uma sala de jantar particular | | **Tempo** | Período abordado (geralmente breve) | Uma noite | | **Personagens** | Pessoas envolvidas (geralmente poucas) | O narrador, os amigos, Pancrácio | | **Ponto de vista** | Quem narra e como vê a situação | Narrador em 1ª pessoa, sem autocrítica | | **Tom** | A atitude do narrador (humor, ironia, melancolia...) | Irônico — o narrador elogia a si mesmo sem perceber a crítica | | **Desfecho** | Como termina (pode ser aberto ou reflexivo) | Aberto e ambíguo: "Caí na cadeira e não vi mais nada" | Repare que o **tema** não é o mesmo que o **mote**: o mote é o episódio concreto (o jantar, a libertação), enquanto o tema é a ideia mais ampla que o episódio revela (a vaidade, a hipocrisia). Essa distinção é essencial no planejamento, porque você pode ter o mesmo tema em crônicas com motes completamente diferentes. ### Recursos expressivos típicos da crônica A crônica não apenas conta — ela expressa. Para isso, o cronista utiliza recursos de linguagem que ampliam o significado do texto e criam efeitos sobre o leitor. Veja os principais recursos presentes no gênero, com exemplos ancorados na crônica de Machado de Assis e em outros textos do mesmo gênero: **Ironia**: dizer o contrário do que se quer fazer entender, criando efeito de humor ou crítica. Na crônica de Machado, essa é a chave de tudo — o narrador fala com orgulho de um ato que, visto de fora, é apenas uma performance de bondade. "Creio que estão pintando o meu retrato, e suponho que a óleo" resume esse autoengano irônico. **Comparação**: aproximação explícita entre dois elementos, usando "como", "tal qual" ou expressão equivalente. No texto, "Pancrácio entrou na sala como um furacão" compara a chegada do personagem à força e velocidade de um fenômeno da natureza, intensificando a cena. **Antítese**: oposição de ideias que revela contradição. A crônica inteira é construída sobre uma antítese: o gesto de libertação de um lado, e o comportamento egoísta e vaidoso do narrador do outro. **Personificação**: atribuir características humanas a seres ou objetos inanimados. Recurso comum em crônicas líricas — por exemplo: "A cidade acordou triste naquela manhã" (texto didático elaborado para fins pedagógicos). **Eufemismo**: suavização de uma realidade dura ou desagradável. Cronistas usam esse recurso quando querem abordar temas difíceis com delicadeza — por exemplo, ao referir-se à morte ou à pobreza de modo indireto. [chapter-callout-label: Zoom] Na crônica de Machado de Assis, o narrador liberta Pancrácio e espera ser admirado por isso. O que esse comportamento revela sobre a sociedade da época? Você vê situações parecidas hoje — quando alguém faz uma "boa ação" mas espera reconhecimento público por ela? --- ### Como planejar uma crônica Escrever uma crônica começa muito antes da primeira frase. O planejamento é o momento em que você, como cronista, decide o que quer dizer e como vai dizer. Sem esse preparo, o texto corre o risco de ser apenas uma descrição — e a crônica pede muito mais do que isso. O planejamento de uma crônica envolve cinco decisões fundamentais: **1. Observar e escolher o mote** Tudo começa com um olhar atento ao cotidiano. Uma fila, um encontro inesperado, um detalhe que chamou atenção — qualquer situação simples pode ser o ponto de partida. A pergunta é: por que esse episódio merece ser contado? O que ele revela? **2. Definir o tema** A partir do mote, identifique o tema mais amplo que aquele episódio pode explorar. Uma discussão no ônibus pode virar crônica sobre impaciência, solidão urbana ou intolerância. O mesmo mote pode servir a temas muito diferentes, dependendo da visão do cronista. **3. Escolher o ponto de vista e os personagens** Você vai narrar em primeira pessoa (como participante da cena) ou em terceira (como observador)? Quem são as pessoas envolvidas? Na crônica, os personagens raramente são muito desenvolvidos — o que importa é o que representam ou revelam. **4. Decidir o tom** O tom é a atitude do cronista diante da situação: irônico, melancólico, bem-humorado, reflexivo, lírico. O tom determina os recursos expressivos que serão usados e a forma como o leitor vai receber o texto. **5. Planejar o desfecho** A crônica pode ter um final fechado ou aberto. Muitas crônicas terminam com uma reflexão que fica suspensa, deixando o leitor com uma pergunta ou uma imagem. Decidir o desfecho antes de escrever ajuda a manter o foco do texto. [INTERACTIVE: A1 | mapa mental | Acesse o mapa mental interativo com os elementos do planejamento de crônica e seus recursos expressivos na plataforma Teachy] **Images:** - GENERATE: Diagrama visual em formato de fluxograma mostrando as cinco etapas do planejamento de uma crônica: "Observar o mote" → "Definir o tema" → "Escolher ponto de vista e personagens" → "Decidir o tom" → "Planejar o desfecho". Estilo editorial limpo, cores suaves, adequado para livro didático do 8º ano | planejamento-cronica-fluxograma.png | 16:9 --- [Section 5] ## Pratique Agora que você conhece os constituintes e os recursos da crônica, é hora de identificá-los em textos e começar a planejar o seu. [P1] Leia o trecho a seguir (texto didático elaborado para fins pedagógicos): > "Toda manhã ele atravessava a praça às sete em ponto. Nunca olhava para os lados, nunca parava. Mas naquele dia, uma pomba pousou no seu ombro — e o mundo parou." Identifique, no trecho acima, dois elementos que são característicos da crônica como gênero textual: o tema abordado e o tipo de narrador utilizado. [P2] Um estudante quer escrever uma crônica sobre um episódio vivido no intervalo da escola. Para planejar o texto, ele precisará definir alguns elementos antes de começar a escrever. Explique a diferença entre **tema** e **mote** no planejamento de uma crônica, usando o contexto do intervalo escolar como exemplo. *Dica: Pense no tema como o assunto geral que o texto quer revelar (por exemplo, "amizade" ou "solidão") e no mote como o acontecimento-gatilho específico que origina a reflexão (por exemplo, "a briga que aconteceu durante o intervalo").* [P3] Observe os dois esboços de planejamento abaixo para uma crônica sobre o mesmo tema — uma fila de supermercado: **Esboço A:** Narrador observador descreve pessoas diferentes na fila; cada detalhe revela algo sobre a vida de cada um; a cena termina com um olhar de cumplicidade entre duas desconhecidas. **Esboço B:** Narrador em primeira pessoa reclama do tempo de espera; lista os pensamentos que teve enquanto aguardava; encerra com uma reflexão sobre a pressa no mundo moderno. a) Indique qual esboço tem foco mais **lírico-reflexivo** e qual tem foco mais **narrativo-observacional**. b) Qual dos dois esboços, na sua avaliação, seria mais adequado para uma crônica destinada ao jornal de uma escola? Justifique sua escolha com base em um elemento do planejamento. *Dica: Considere o perfil do leitor e o tom que cada esboço sugere ao escolher qual seria mais adequado para o contexto escolar.* [chapter-callout-label: Nossa língua na rua] **Crônicas estão em todo lugar.** Procure no site de jornais como *Folha de S.Paulo* ou *O Globo* a seção de crônicas. Você também pode acessar o Portal da Crônica Brasileira (cronicabrasileira.org.br) para ler textos de autores contemporâneos. Leia uma crônica curta e observe: qual é o mote? Qual é o tom? Consegue identificar o tema por trás da história? [Section 6] ## Exercícios [I1] Leia o fragmento abaixo: > "A crônica não é um conto. Não é um artigo de opinião. Ela nasce no jornal, vive no jornal, e, talvez por isso, tenha a leveza e a urgência de quem escreve para ser lido hoje, não daqui a cem anos. O cronista pega um fato miúdo — uma briga de trânsito, uma criança no parque — e o transforma em espelho do mundo." > > *(Texto didático elaborado para fins pedagógicos, com base em características do gênero crônica descritas por Antonio Candido em "A vida ao rés-do-chão", in: Para gostar de ler, v. 5, Ática, 1980.)* Com base no fragmento e nos conhecimentos sobre o gênero, o planejamento de uma crônica se diferencia do planejamento de um conto principalmente porque a crônica: (A) exige uma estrutura com introdução, desenvolvimento e conclusão formalmente demarcados, ao contrário do conto, que é mais livre. (B) parte de fatos do cotidiano para construir uma reflexão ou emoção, dispensando o aprofundamento psicológico dos personagens exigido pelo conto. (C) deve sempre ser escrita em primeira pessoa e com tom humorístico, enquanto o conto admite narradores variados e temas trágicos. (D) prescinde de planejamento, pois sua brevidade permite que o autor escreva de forma espontânea sem definir tema ou enredo. (E) é destinada exclusivamente à publicação em jornais, o que a torna incompatível com os recursos expressivos utilizados nos contos literários. --- [I2] Uma estudante do 8º ano recebeu a seguinte orientação da professora: "Antes de escrever sua crônica, faça um planejamento respondendo a estas perguntas: Qual é o tema? Qual é o mote (o acontecimento-gatilho)? Quem narra? Qual é o tom (humorístico, reflexivo, melancólico)?" A estudante escolheu escrever sobre o momento em que sua avó esqueceu o nome dela e chamou pelo nome de outra neta. Com base nas quatro perguntas do planejamento, preencha cada etapa para o texto dessa estudante, explicando sua escolha em cada caso. [LINES: 6] --- [I3] Leia o seguinte início de crônica: > "Ninguém presta atenção no porteiro. Ele está lá todo dia, das seis da manhã às seis da tarde, segurando a porta, dizendo bom-dia, recebendo encomendas. Hoje, quando passei por ele, percebi que nunca soube o nome dele." a) Identifique o elemento do cotidiano que serve de mote para esta crônica e explique de que forma ele carrega potencial reflexivo. b) Elabore um planejamento resumido para a continuação dessa crônica, indicando: o desenvolvimento proposto (o que acontecerá a seguir), o tom escolhido e o desfecho pretendido. [LINES: 8] [INTERACTIVE: D | responda na plataforma | Escaneie para responder estes exercícios na Teachy e receber correção com feedback automático] --- ## Referência de Imagens ### Banco de dados | Nº | URL | Legenda sugerida | Seção | |---|---|---|---| | 1 | https://storage.googleapis.com/teachy-classroom-contents/images/imported/ee05b7e27b761a2009b2475ad63ec1fe39d733b40ca0bf2566e6c44c139f2ff1.jpg | Página do jornal *O Estado de S. Paulo* com artigo de Monteiro Lobato — exemplo do contexto de publicação das crônicas brasileiras no início do século XX | Section 4 | ### Para gerar | Nº | Descrição | Nome do arquivo | Proporção | |---|---|---|---| | 1 | Diagrama visual em formato de fluxograma mostrando as cinco etapas do planejamento de uma crônica: "Observar o mote" → "Definir o tema" → "Escolher ponto de vista e personagens" → "Decidir o tom" → "Planejar o desfecho". Estilo editorial limpo, cores suaves, adequado para livro didático do 8º ano | planejamento-cronica-fluxograma.png | 16:9 | --- ## Gabarito (uso exclusivo do professor) **I1:** Alternativa B — A crônica parte de fatos do cotidiano para construir uma reflexão ou emoção, dispensando o aprofundamento psicológico dos personagens exigido pelo conto.


Iara Tip

Precisa de slides customizados para suas aulas?

Eu consigo gerar slides, atividades, resumos e 60+ tipos de materiais. Isso mesmo, nada de noites mal dormidas por aqui :)

Community img

Faça parte de uma comunidade de professores direto no seu WhatsApp

Conecte-se com outros professores, receba e compartilhe materiais, dicas, treinamentos, e muito mais!