Predicativo do Objeto

# Predicativo do Objeto [Sequence 1: (a) Contextualized Situation] Eu, Harry Potter, cresci ouvindo as pessoas ao meu redor me descreverem de formas muito diferentes. Em Hogwarts, aprendi que as palavras têm poderes ocultos — e que às vezes elas não apenas descrevem uma ação, mas também revelam como quem recebe essa ação passa a ser visto. Em *Dom Casmurro*, de Machado de Assis, uma das obras mais importantes da literatura brasileira, isso acontece o tempo todo: todos em casa chamavam Bentinho de **doutor**, José Dias considerava Capitu uma nora **boa, discreta, prendada**, e uma fada prometia ao jovem bacharel um futuro **feliz**. Você já parou para pensar: essas palavras em destaque falam sobre quem age ou sobre quem recebe a ação? O que acontece com o sentido da frase quando descrevemos como o objeto é ou está? [Sequence 2: (a) Recall Diagnostic Questions] [D1] Leia a frase a seguir: > "Achei a prova difícil." Nessa frase, o que a palavra **difícil** diz sobre a prova? Em sua opinião, ela faz parte do sujeito ou fala algo sobre o objeto da ação verbal? Explique com suas palavras. [Sequence 4: (a) Reference Text Presentation and Formalization] ## Dom Casmurro, de Machado de Assis Vamos investigar isso juntos a partir de um trecho de *Dom Casmurro*, romance de 1899. Eu aprendi que os melhores feitiços se escondem dentro das histórias — e é exatamente aqui que o predicativo do objeto aparece em ação. --- Quando eu regressei bacharel quase estalou de felicidade. Ainda ouço a voz de José Dias, lembrando o evangelho de São João, e dizendo ao ver-nos abraçados: — Mulher, eis aí o teu filho! Filho, eis aí a tua mãe! Minha mãe, entre lágrimas: — Mano Cosme, é a cara do pai, não é? — Sim, tem alguma cousa, os olhos, a disposição do rosto. É o pai, um pouco mais moderno, concluiu por chalaça. E diga-me agora mana Glória, não foi melhor que ele não teimasse em ser padre? Veja se este peralta daria um padre capaz. — Como vai o meu substituto? — Vai indo, ordena-se para o ano, respondeu tio Cosme. Hás de ir ver a ordenação; eu também, se o meu senhor coração consentir. É bom que te sintas na alma do outro, como se recebesses em ti mesmo a sagração. — Justamente! exclamou minha mãe. Mas veja bem, mano Cosme, veja se não é a figura do meu defunto. Olha, Bentinho, olha bem para mim. Sempre achei que te parecias com ele, agora é muito mais. O bigode é que desfaz um pouco... — Sim, mana Glória, o bigode realmente... mas é muito parecido. E minha mãe beijava-me com uma ternura que não sei escrever. Tio Cosme, para alegrá-la, **chamava-me doutor**, José Dias também, e todos em casa, a prima, os escravos, as visitas, Pádua, a filha, e ela mesma repetiam-me o título. No quarto, desfazendo a mala e tirando a carta de bacharel de dentro da lata, ia pensando na felicidade e na glória. Via o casamento e a carreira ilustre, enquanto José Dias me ajudava calado e zeloso. Uma fada invisível desceu ali, e me disse em voz igualmente macia e cálida: "Tu serás feliz, Bentinho; tu vais ser feliz." — E por que não seria feliz? perguntou José Dias, endireitando o tronco e fitando-me. — Você ouviu? perguntei eu erguendo-me também. — Ouviu o quê? — Ouviu uma voz que dizia que eu serei feliz? — É boa! Você mesmo é que está dizendo... Ainda agora sou capaz de jurar que a voz era da fada; naturalmente as fadas, expulsas dos contos e dos versos, meteram-se no coração da gente e falam de dentro para fora. Esta, por exemplo, muita vez a ouvi clara e distinta. Há de ser prima das feiticeiras da Escócia: "Tu serás rei, Macbeth!" — "Tu serás feliz, Bentinho!" Ao cabo, é a mesma predição, pela mesma toada universal e eterna. Quando voltei do meu espanto, ouvi o resto do discurso de José Dias: — Há de ser feliz, como merece, assim como mereceu esse diploma que ali está, que não é favor de ninguém. A distinção que tirou em todas as matérias é prova disso; já lhe contei que ouvi da boca dos lentes, em particular, os maiores elogios. Demais, a felicidade não é só a glória, é também outra cousa... Ah! você não confiou tudo ao velho José Dias! O pobre José Dias está aí para um canto, é caju chupado, não vale nada; agora são os novos, os Escobares... Não lhe nego que é moço muito distinto, e trabalhador, e marido de truz; mas, enfim, velho também sabe amar... — Mas que é? — Que há de ser? Quem é que não sabe tudo?... Aquela intimidade de vizinhos tinha de acabar nisto, que é verdadeiramente uma bênção do céu, porque ela é um anjo, é um anjíssimo... Perdoe a cincada, Bentinho, foi um modo de acentuar a perfeição daquela moça. Cuidei o contrário, outrora; confundi os modos de criança com expressões de caráter, e não vi que essa menina travessa e já de olhos pensativos era a flor caprichosa de um fruto sadio e doce... Por que é que não me contou também o que outros sabem, e cá em casa está mais que adivinhado e aprovado? — Mamãe aprova deveras? — Pois então? Temos falado sobre isso, e ela fez-me o favor de pedir a minha opinião. Pergunte-lhe o que é que eu lhe disse em termos claros e positivos; pergunte-lhe. **Disse-lhe que não podia desejar melhor nora para si, boa, discreta, prendada**, amiga da gente... e uma dona de casa, que não lhe digo nada. Depois da morte da mãe, tomou conta de tudo. Pádua, agora que se aposentou, não faz mais que receber o ordenado e entregá-lo à filha. A filha é que distribui o dinheiro, paga as contas, faz o rol das despesas, cuida de tudo, mantimento, roupa, luz; você já a viu o ano passado. E quanto à formosura você sabe melhor que ninguém... — Mas, deveras, mamãe consultou o senhor sobre o nosso casamento? — Positivamente, não; fez-me o favor de perguntar se Capitu não daria uma boa... *(Machado de Assis. Dom Casmurro. Rio de Janeiro: Garnier, 1899.)* --- [chapter-section: Perfil] **Machado de Assis** (1839–1908) é considerado o maior escritor da literatura brasileira. Nascido no Rio de Janeiro, de origem humilde, tornou-se fundador e primeiro presidente da Academia Brasileira de Letras. *Dom Casmurro* (1899) é seu romance mais lido e debatido, narrado pelo próprio Bentinho, que reconstrói sua vida e seu amor por Capitu. ## O que é o Predicativo do Objeto Eu, ao reler esse trecho, percebi algo fascinante: certas palavras não apenas completam a ação do verbo — elas também revelam *como* quem recebe essa ação passa a ser visto. Você consegue perceber isso em "chamava-me **doutor**"? O **predicativo do objeto** é exatamente o termo da oração que atribui uma característica ao objeto do verbo. Ele integra o predicado verbo-nominal e qualifica o complemento verbal, não o sujeito — por isso não é o mesmo que predicativo do sujeito. No trecho de Machado de Assis, quando "Tio Cosme chamava-me **doutor**", o objeto direto é *me* (referindo-se a Bentinho) e *doutor* é o predicativo do objeto: atribui um título a Bentinho, que é quem recebe a ação de chamar. O predicativo do objeto pode ser um adjetivo, um substantivo ou uma locução adjetiva — como *boa, discreta, prendada* (adjetivos que caracterizam Capitu na fala de José Dias) ou *doutor* (substantivo que distingue Bentinho socialmente). ## Verbos que Introduzem o Predicativo do Objeto Descobri que nem todo verbo aceita predicativo do objeto — e isso, em Hogwarts, seria equivalente a saber qual varinha serve para qual feitiço. Os verbos que abrem espaço para esse termo são **transitivos** e expressam avaliação, julgamento, nomeação ou transformação: *achar, considerar, julgar, eleger, nomear, chamar, deixar, tornar, proclamar*. No texto, o verbo *chamar* aparece com essa função em "chamava-me **doutor**" — e você consegue identificar qual é o objeto direto e qual é o predicativo nessa frase? ## Como Identificar o Predicativo do Objeto Para reconhecer o predicativo do objeto, sigo um protocolo simples — pense nele como uma investigação. Primeiro, verifique se o verbo é transitivo do grupo acima; segundo, identifique o objeto direto (quem recebe a ação); terceiro, veja se há um termo que atribui uma característica *a esse objeto*, concordando com ele em gênero e número. Se sim, você encontrou o predicativo do objeto. **Exemplo do texto:** "chamava-me **doutor**" — verbo: *chamar* (transitivo de nomeação); objeto direto: *me* (Bentinho); predicativo: *doutor* (caracteriza Bentinho, não quem o chama). [chapter-section: Zoom] Releia: "Disse-lhe que não podia desejar melhor nora para si, boa, discreta, prendada, amiga da gente..." — Os adjetivos *boa, discreta, prendada* caracterizam Capitu. Essa frase apresenta predicativo do objeto da mesma forma que "chamava-me doutor"? O que muda na estrutura sintática entre os dois casos? [INTERACTIVE: a1-mm | Explore o mapa mental interativo sobre os termos da oração — predicativo do objeto, predicativo do sujeito e complementos verbais — na plataforma Teachy] [Sequence 5] ## Na prática Agora é hora de praticar com apoio no texto que lemos juntos. Vamos começar identificando o predicativo do objeto em frases diretamente conectadas ao universo de *Dom Casmurro*. [P1] (DOK 1) Leia o trecho do romance *Dom Casmurro*, de Machado de Assis: > "E minha mãe beijava-me com uma ternura que não sei escrever." Agora observe a frase adaptada: > "Todos chamavam Bentinho **doutor**." Nessa frase, qual é o objeto direto do verbo **chamar**? Qual palavra ou expressão atribui uma característica a esse objeto? (A) Objeto direto: *doutor* — característica atribuída: *Bentinho* (B) Objeto direto: *Bentinho* — característica atribuída: *doutor* (C) Objeto direto: *Todos* — característica atribuída: *Bentinho* (D) Objeto direto: *doutor* — característica atribuída: *chamavam* **Gabarito:** B [P2] (DOK 2) Leia o trecho a seguir, extraído de *Dom Casmurro*: > "Disse-lhe que não podia desejar melhor **nora** para si, boa, discreta, prendada, amiga da gente..." Nesse trecho, José Dias descreve Capitu ao falar com a mãe de Bentinho. Reescreva o pensamento de José Dias em uma única frase que contenha um predicativo do objeto, usando o verbo **considerar**. Em seguida, identifique o predicativo do objeto que você utilizou. *Dica: pense em qual verbo indica uma avaliação ou julgamento e quem está sendo avaliado na frase.* [P3] (DOK 2) Analise as duas frases abaixo: **Frase 1:** "Todos julgaram José Dias fiel à família." **Frase 2:** "Todos sabiam que José Dias era fiel à família." Nas duas frases, o adjetivo **fiel** desempenha uma função semelhante: atribui uma característica a alguém. No entanto, apenas a Frase 1 apresenta um predicativo do objeto. Explique por que a Frase 1 contém esse termo e a Frase 2 não. *Dica: observe a estrutura da Frase 2 — o que acontece com a oração depois do verbo **saber**? Há um objeto direto exposto ao qual **fiel** se refira diretamente?* [Sequence 6] ## Exercícios Agora você praticará em novos contextos, identificando o predicativo do objeto além do texto que lemos e aplicando o conceito de forma mais autônoma. [I1] (DOK 2) Leia o trecho de *Dom Casmurro*, de Machado de Assis: > "José Dias me ajudava calado e zeloso. Uma fada invisível desceu ali, e me disse em voz igualmente macia e cálida: 'Tu serás feliz, Bentinho; tu vais ser feliz.'" Nesse trecho, a "fada invisível" faz uma previsão sobre Bentinho. Com base na leitura, identifique, no trecho abaixo reescrito, o predicativo do objeto e o termo ao qual ele se refere: > "A fada considerou Bentinho **feliz**." (A) Predicativo do objeto: *a fada* — termo ao qual se refere: *feliz* (B) Predicativo do objeto: *feliz* — termo ao qual se refere: *Bentinho* (C) Predicativo do objeto: *Bentinho* — termo ao qual se refere: *fada* (D) Predicativo do objeto: *considerou* — termo ao qual se refere: *feliz* (E) Predicativo do objeto: *feliz* — termo ao qual se refere: *a fada* **Gabarito:** B [I2] (DOK 2) Leia o trecho de *Dom Casmurro* abaixo: > "Disse-lhe que não podia desejar melhor nora para si, boa, discreta, prendada, amiga da gente... e uma dona de casa, que não lhe digo nada. Depois da morte da mãe, tomou conta de tudo." José Dias elogia Capitu descrevendo suas qualidades. No cotidiano, também usamos frases que atribuem características às pessoas que avaliamos ou observamos — em elogios, críticas, recomendações, mensagens. a) Escreva duas frases sobre pessoas ou situações do seu dia a dia utilizando verbos que exijam predicativo do objeto (como *achar*, *considerar*, *julgar*, *eleger*, *nomear*). b) Em cada frase, sublinhe o predicativo do objeto e indique a qual termo ele se refere. [LINES: 6] [I3] (DOK 3 — ENEM-style) Leia o trecho de *Dom Casmurro*, de Machado de Assis: > "Tio Cosme, para alegrá-la, chamava-me doutor, José Dias também, e todos em casa, a prima, os escravos, as visitas, Pádua, a filha, e ela mesma repetiam-me o título." Nesse trecho, o verbo **chamar** é seguido de um substantivo que atribui ao narrador uma distinção social recém-conquistada. A estrutura "chamar + objeto + predicativo" revela, além da função gramatical, uma relação entre linguagem e reconhecimento social. Considerando a função gramatical do predicativo do objeto e seu efeito de sentido no trecho, qual das alternativas apresenta a análise **correta**? (A) O termo *doutor* é o objeto direto do verbo *chamar*, pois indica a pessoa que recebe a ação diretamente. (B) O termo *doutor* é o predicativo do sujeito, pois se refere ao narrador, que ocupa a posição de sujeito da oração. (C) O termo *doutor* é o predicativo do objeto, pois atribui uma característica ao objeto direto *me*, referindo-se ao narrador como alguém que alcançou um título. (D) O verbo *chamar*, nesse contexto, é intransitivo, dispensando qualquer complemento ou predicativo. (E) O termo *doutor* é um adjunto adnominal do verbo *chamar*, modificando a ação verbal sem se referir ao objeto. **Gabarito:** C [I4] (DOK 3 — síntese) Leia os dois trechos de *Dom Casmurro*: > **Trecho 1:** "Tio Cosme, para alegrá-la, chamava-me doutor, José Dias também, e todos em casa [...] repetiam-me o título." > **Trecho 2:** "Disse-lhe que não podia desejar melhor nora para si, boa, discreta, prendada, amiga da gente..." Nos dois trechos, pessoas atribuem características a outras por meio da linguagem — no primeiro, usando um título; no segundo, usando adjetivos. No entanto, apenas o Trecho 1 apresenta, de forma clara, a estrutura com predicativo do objeto. Com base na análise gramatical dos trechos, explique: a) Por que o Trecho 1 apresenta um predicativo do objeto e qual é esse termo. b) Por que o Trecho 2 não apresenta um predicativo do objeto na forma estrutural típica, mesmo que os adjetivos descrevam alguém. [LINES: 8] [INTERACTIVE: d-rp | Escaneie para responder estes exercícios na Teachy e receber correção automática com feedback personalizado] [chapter-section: Nossa língua na rua] Você já reparou como usamos o predicativo do objeto o tempo todo nas redes sociais e nas conversas do dia a dia? Quando alguém escreve "Achei o filme incrível" ou "Considero essa música perfeita", está usando exatamente a estrutura que estudamos. Observe, nas próximas 24 horas, três frases em mensagens, posts ou conversas que contenham verbos como *achar*, *considerar* ou *julgar* seguidos de uma caracterização. O que está sendo caracterizado em cada caso?


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