Produção de Paródia

[Section 0] # Produção de Paródia **Habilidade BNCC:** EF89LP36 — Parodiar poemas conhecidos da literatura e criar textos em versos, explorando o uso de recursos sonoros e semânticos (como figuras de linguagem e jogos de palavras) e visuais (como relações entre imagem e texto verbal e distribuição da mancha gráfica), de forma a propiciar diferentes efeitos de sentido. **Microhabilidade trabalhada neste capítulo:** - EF89LP36-M01: Adequar a estrutura de um texto original para a criação de uma paródia, alterando elementos como tema, contexto, ponto de vista ou disposição visual, de modo a estabelecer intertextualidade. --- [Section 1: (a) Contextualized Situation] Imagine que você está navegando pelas redes sociais e encontra um meme com estes versos: > *"João devia a tarefa que devia ao caderno / que devia ao professor que devia à escola que devia ao sistema / que não devia a ninguém."* Você ri — e, de repente, percebe que aquele ritmo soa familiar demais para ser coincidência. Aquele texto está conversando com outro, mais antigo. Algo nele ecoa um poema que você talvez já tenha lido, ou pelo menos já sentido. Isso é o que a paródia faz: ela entra pela porta do reconhecimento e te leva para um lugar diferente do que você esperava. Ao longo deste capítulo, vamos entender como essa transformação funciona — o que muda, o que fica, e por que essas escolhas produzem efeitos tão distintos do texto original. **Pergunta orientadora:** O que muda em um poema quando alguém o transforma em paródia? **Images:** - https://storage.googleapis.com/teachy-classroom-contents/images/imported/57ce3ec4ea3358bb979a7a665f89302390f7a588e7c4a087554b6e9e25baa8e7.jpeg — Caricatura de Pedro Américo para A Comédia Social: ilustração satírica do século XIX que combina exagero visual e crítica social, antecipando o espírito da paródia literária. --- [Section 2: (a) Recall Diagnostic Questions] [D1] Você já ouviu ou leu algum texto que "brincava" com outro texto conhecido — mudando a letra de uma música, reinventando um poema ou recontando uma história com humor? Descreva brevemente como era esse texto e o que ele transformou do original. --- [Section 4] ## O texto que dialoga com outro Para compreender como a paródia funciona, é preciso começar pelo texto que ela transforma. Leia o poema a seguir — um dos mais conhecidos da literatura brasileira — e observe com atenção suas escolhas de linguagem, ritmo e tema. --- **Canto de regresso à pátria** *Oswald de Andrade* Minha terra tem mais rosas E quase que mais amores Minha terra tem mais ouro Minha terra tem mais terra Ouro terra amor e rosas Eu quero tudo de lá Não permita Deus que eu morra Sem que volte para lá Não permita Deus que eu morra Sem que volte pra São Paulo Sem que veja a Rua 15 E o progresso de São Paulo *(Oswald de Andrade, "Canto de regresso à pátria", 1925. In: Poesias reunidas. São Paulo: Difusão Europeia do Livro, 1966.)* --- Ao ler o poema de Oswald de Andrade, algumas perguntas surgem naturalmente. A estrutura — três estrofes de quatro versos — soa familiar, e o refrão "Não permita Deus que eu morra / Sem que volte para lá" parece ecoar algo que você já leu. Compare com estes versos de Gonçalves Dias, escritos quase oitenta anos antes: > *"Minha terra tem palmeiras, / Onde canta o Sabiá; / As aves, que aqui gorjeiam, / Não gorjeiam como lá."* > *"Não permita Deus que eu morra, / Sem que eu volte para lá; / Sem que desfrute os primores / Que não encontro por cá."* > *(Gonçalves Dias, "Canção do exílio", 1846 — fragmento)* A semelhança não é coincidência — é intencional. Oswald subverteu o texto de Gonçalves Dias, mantendo a estrutura métrica e retomando versos quase idênticos, mas trocando as palmeiras tropicais pela "Rua 15" de São Paulo e a nostalgia pela natureza pelo entusiasmo com o progresso urbano. Esse gesto de reescrita proposital — que mantém o eco do original enquanto altera seu sentido — é precisamente o que chamamos de paródia. [chapter-callout-label: Perfil] **Oswald de Andrade (1890–1954)** foi poeta, romancista e ensaísta paulistano que se notabilizou pelo humor irreverente e pela crítica aos textos consagrados da literatura. Usava a reescrita como ferramenta de questionamento cultural, transformando textos clássicos em instrumentos de renovação e debate. "Canto de regresso à pátria" é um exemplo claro dessa postura: ao reescrever Gonçalves Dias, Oswald não apenas faz graça — ele propõe uma nova maneira de olhar para o Brasil. --- ## O que é paródia A paródia é a reescrita de um texto preexistente que mantém elementos reconhecíveis do original — estrutura, ritmo, frases-chave ou tema — mas altera intencionalmente o sentido, o tom ou o contexto para criar um novo efeito. A palavra vem do grego *parodès*, que significa "canto ou poesia semelhante a outro". Para que uma paródia funcione, três elementos trabalham juntos: - **Reconhecimento:** o leitor precisa identificar o texto original. Sem esse elo, o texto não dialoga com nada — é apenas um texto novo. Em "Canto de regresso à pátria", quem conhece "Canção do exílio" percebe imediatamente o jogo. - **Transformação:** a paródia altera algo significativo do original — tema, tom, ponto de vista ou contexto. Oswald trocou a natureza exuberante pela Rua 15 de São Paulo e a nostalgia romântica por um fervor urbano quase exagerado. - **Novo efeito de sentido:** a reformulação produz um impacto diferente do original, seja humor, crítica ou ironia. Ao imitar o fervor patriótico de Gonçalves Dias, Oswald questiona ironicamente o que de fato merece ser celebrado no Brasil. [chapter-callout-label: Comparando...] A paródia dialoga com o original, mas não é a única forma de intertextualidade. Compare: | Tipo | O que faz | Exemplo a partir dos textos deste capítulo | |---|---|---| | **Paródia** | Transforma o original, criando novo sentido — geralmente humorístico ou crítico | "Canto de regresso à pátria" (Oswald) retoma a estrutura de "Canção do exílio" (Gonçalves Dias) mas muda o tema e o tom | | **Paráfrase** | Reescreve o original com outras palavras, mantendo o mesmo sentido | Contar em prosa o que Gonçalves Dias diz em verso, preservando a saudade da terra natal | | **Citação** | Reproduz um trecho do original textualmente, indicando a fonte | Usar entre aspas os versos "Não permita Deus que eu morra / Sem que eu volte para lá", referenciando Gonçalves Dias | A diferença fundamental está na **intenção**: a paródia quer transformar o sentido; a paráfrase quer preservá-lo; a citação quer reproduzi-lo. **Images:** - https://storage.googleapis.com/teachy-classroom-contents/images/imported/4d0d456e-8d4b-4886-85b9-70407330133c.jpg — Caricatura "Copla de Actualidad" por Mecachis (1895): imagem satírica que combina ilustração e texto em versos com jogos de palavras — exemplo de como o visual pode reforçar o efeito cômico ou crítico de um texto. --- ## Como transformar um texto em paródia Criar uma paródia exige compreensão profunda do original — é preciso saber o que o torna reconhecível antes de saber o que transformar. O processo envolve escolhas deliberadas sobre quais elementos manter e quais alterar, sempre guiadas pelo efeito de sentido que se deseja produzir. Os principais elementos que podem ser transformados são: o **tema** (o assunto central do poema); o **tom** (a atitude do eu-lírico — pode ir do solene ao irônico, do dramático ao cotidiano); o **ponto de vista** (quem fala, para quem, a partir de qual posição); e o **contexto** (o cenário, a época, as referências culturais). Em "Canto de regresso à pátria", Oswald manteve a estrutura métrica e o tom de devoção, mas transformou o contexto — da natureza virgen para a cidade industrial — e o ponto de vista, deslocando o olhar do poeta exilado para o paulistano orgulhoso do progresso. Essa combinação de permanência e mudança cria a tensão entre os dois textos e, consequentemente, o efeito irônico. A disposição visual do texto — chamada de **mancha gráfica** — também pode ser usada como recurso expressivo. Em poemas concretos ou ciberpoemas, a forma como as palavras se distribuem na página cria significados que o texto verbal sozinho não produziria. Quando uma paródia altera a mancha gráfica do original, ela acrescenta mais uma camada de transformação ao diálogo intertextual. [chapter-callout-label: Biblioteca cultural] Quer conhecer outras paródias da "Canção do exílio"? O poema de Gonçalves Dias é um dos mais reescritos da literatura brasileira: Murilo Mendes, Carlos Drummond de Andrade e Cassiano Ricardo também criaram suas próprias versões. Pesquise por "paródias da Canção do exílio" e compare como cada autor escolheu transformar o original — e que novo efeito cada um buscou criar. [INTERACTIVE: A1 | mapa mental | Explore o mapa mental sobre estrutura da paródia e intertextualidade na plataforma Teachy] --- ## Na prática Agora que você já compreendeu como a paródia transforma o original, é hora de exercitar esse reconhecimento. Vamos começar identificando o que muda e o que permanece nos textos. [P1] (DOK 1) Leia os dois textos a seguir: **Texto I — "Quadrilha" (Carlos Drummond de Andrade, fragmento)** > João amava Teresa que amava Raimundo > que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili > que não amava ninguém. **Texto II — "Quadrilha Escolar" (paródia)** > João devia a tarefa que devia ao caderno > que devia ao professor que devia à escola que devia ao sistema > que não devia a ninguém. Qual elemento do poema original foi mantido na paródia e qual foi alterado? (A) A estrutura de versos encadeados foi mantida; o tema do amor foi substituído pelo tema das dívidas escolares. (B) O tema do amor foi mantido; a estrutura de versos foi completamente modificada. (C) Apenas os nomes próprios foram mantidos; o ritmo e o tema foram inteiramente substituídos. (D) A paródia não guarda nenhuma relação com o poema original: tema, estrutura e tom são completamente diferentes. (E) O poema e a paródia são idênticos em tema e estrutura, diferindo apenas no uso de palavras sinônimas. **Gabarito:** A [P2] (DOK 2) Releia o **Texto II** ("Quadrilha Escolar") da questão anterior. A paródia utiliza a mesma estrutura do original, mas cria um novo efeito de sentido ao trocar o tema. a) Identifique o novo tema abordado na paródia. b) Explique de que forma a repetição da estrutura de encadeamento contribui para o efeito humorístico do texto. _Dica: Pense no que a repetição exagerada de uma mesma situação provoca no leitor — o que ela exagera ou critica?_ [P3] (DOK 2) A intertextualidade é o diálogo que um texto estabelece com outro. Em uma paródia, esse diálogo é proposital e transforma o sentido original. Considere a seguinte afirmação: *"Para que uma paródia funcione, o leitor precisa conhecer o texto original."* Você concorda com essa afirmação? Justifique sua resposta com um exemplo concreto, citando como o conhecimento do original interfere na leitura e compreensão da paródia. _Dica: Imagine um leitor que nunca leu "Quadrilha" de Drummond lendo a paródia escolar. Qual seria sua experiência em comparação à de alguém que conhece o original?_ --- ## Exercícios [I1] (DOK 3) Leia o poema e sua paródia a seguir: **Texto I — "No meio do caminho" (Carlos Drummond de Andrade)** > No meio do caminho tinha uma pedra > tinha uma pedra no meio do caminho > tinha uma pedra > no meio do caminho tinha uma pedra. **Texto II — Paródia (autor desconhecido, circulação em redes sociais)** > No meio da aula tinha um celular > tinha um celular no meio da aula > tinha um celular > no meio da aula tinha um celular. A paródia do poema de Drummond, ao substituir "pedra" por "celular" e "caminho" por "aula", produz um efeito de sentido que: (A) elimina a relação intertextual com o original ao introduzir um vocabulário contemporâneo incompatível com a linguagem poética clássica. (B) preserva a estrutura repetitiva do original para ampliar o impacto da crítica ao comportamento dos estudantes diante da tecnologia em sala de aula. (C) reduz o poema original a uma versão infantilizada, perdendo toda a carga simbólica presente na imagem da pedra drummondiana. (D) ignora os recursos visuais do poema original, pois a disposição dos versos foi completamente reformulada na paródia. (E) transforma o texto em crônica humorística, abandonando a forma poética característica de Drummond. **Gabarito:** B [I2] (DOK 2) _O poema "Canção do exílio", de Gonçalves Dias, é um dos mais parodiados da literatura brasileira. Seu verso inicial — "Minha terra tem palmeiras / onde canta o sabiá" — é reconhecido por grande parte dos leitores brasileiros, o que permite que diferentes autores o reescrevam para criar novos efeitos de sentido._ _Oswald de Andrade, em sua "Canto de regresso à pátria", reescreveu assim:_ > Minha terra tem palmares > onde gorjeia o mar > os passarinhos daqui > não cantam como os de lá. Com base na comparação entre o poema de Gonçalves Dias e a paródia de Oswald de Andrade, explique que elemento do original foi alterado e que novo efeito de sentido essa alteração provoca. [LINES: 5] [I3] (DOK 3) _Você recebe a tarefa de criar uma paródia de um poema que estudou. Antes de escrever, precisa planejar quais elementos do original vai manter e quais vai transformar._ _Escolha um poema que você conhece (pode ser um dos estudados neste capítulo ou outro de sua preferência) e elabore um planejamento para a sua paródia, respondendo aos itens abaixo:_ a) Identifique o poema original escolhido (título e autor) e descreva sua estrutura: quantidade de estrofes, esquema de rimas (se houver) e tema central. b) Explique quais elementos você manteria do original (estrutura, recursos sonoros, disposição visual) e quais você transformaria (tema, tom, ponto de vista), justificando suas escolhas em função do efeito de sentido que deseja criar. [LINES: 8] [INTERACTIVE: D | responda na plataforma | Escaneie para responder estes exercícios na Teachy e receber correção automática com comentários sobre suas escolhas de transformação] --- ## Referência de Imagens ### Banco de dados (imagens reais) | # | URL | Descrição | Onde usar | |---|-----|-----------|-----------| | 1 | https://storage.googleapis.com/teachy-classroom-contents/images/imported/57ce3ec4ea3358bb979a7a665f89302390f7a588e7c4a087554b6e9e25baa8e7.jpeg | Caricatura de Pedro Américo para A Comédia Social — ilustração satírica do século XIX | Seção 1 (abertura) | | 2 | https://storage.googleapis.com/teachy-classroom-contents/images/imported/4d0d456e-8d4b-4886-85b9-70407330133c.jpg | Caricatura "Copla de Actualidad" por Mecachis (1895) — texto + imagem com jogos de palavras | Seção 4 (após tabela Comparando...) | ### Para gerar | # | Descrição | Tag | Formato | |---|-----------|-----|---------| | 1 | Diagrama radial com "Paródia" no centro e seis raios: Original reconhecível / Deslocamento de tom / Alteração temática / Recursos sonoros / Recursos semânticos / Efeito visual — visual clean, cores suaves, fundo branco | elementos-parodia-diagrama.png | 1:1 | --- ## Checklist - [x] Seção 0: Metadata YAML completo com skill, microskill e verb pattern - [x] Seção 1: Situação contextualizada com hook diferente do usado em I1; pergunta orientadora presente; sem conceitos formais - [x] Seção 2: Questão diagnóstica D1 verbatim do QUESTIONS_FILE — única questão - [x] Seção 3: Ausente (chapter_start + LP — correto) - [x] Seção 4: Texto de referência integral (Oswald de Andrade) com fonte; "Canção do exílio" marcada como fragmento; formalização com exemplos rastreáveis ao texto de referência; tabela Comparando... com exemplos dos textos do capítulo; inline image placement para Mecachis; labels Perfil, Comparando..., Biblioteca cultural - [x] Perfil reescrito sem periodização literária formal (sem "Modernismo" como categoria analítica) - [x] Seção 5 ("Na prática"): Questões P1, P2, P3 verbatim do QUESTIONS_FILE, incluindo formatação de dicas - [x] Seção 6 ("Exercícios"): Questões I1, I2, I3 verbatim do QUESTIONS_FILE; I2 com stanza exata do QUESTIONS_FILE - [x] Rótulos de capítulo: Perfil, Comparando..., Biblioteca cultural — total 3 (dentro do limite) - [x] Blocos interativos: A1 após formalização (antes de Na prática); D após Exercícios — 2 por capítulo - [x] Seção 8: Ausente (chapter_start não inclui síntese — correto) - [x] Títulos não reproduzem nomes pedagógicos internos


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