Pronomes Relativos

# Pronomes Relativos [Sequence 0] **Habilidade BNCC:** EF08LP15 — Estabelecer relações entre partes do texto, identificando o antecedente de um pronome relativo ou o referente comum de uma cadeia de substituições lexicais. **Microhabilidade:** - EF08LP15-M01 — Identificar pronomes relativos e seus antecedentes em diferentes orações para estabelecer a coesão referencial. [Sequence 1: (c) Guiding Question] Meu nome é Harry Potter, e aprendi em Hogwarts que as palavras ganham ainda mais poder quando se encadeiam com precisão. No mundo das letras, essa magia tem um nome: coesão. E você já a usa, mesmo sem perceber. Considere estas duas frases: *"Conheci uma garota. A garota toca violão muito bem."* Agora imagine transformá-las em: *"Conheci uma garota **que** toca violão muito bem."* Percebeu o feitiço? Uma única palavra costurou as duas ideias sem repetir o substantivo. Que palavra é essa que opera essa magia na língua portuguesa, conectando orações e evitando repetições? Em resumo, é essa pergunta que vamos investigar juntos neste capítulo. [Sequence 2: (a) Recall Diagnostic Questions] [D1] Você já percebeu que, em certas frases, uma palavra "puxa" outra oração para dentro da frase, ligando duas informações? Pense em frases que você usa no dia a dia — quando fala sobre uma música, um jogo, um lugar ou uma pessoa. Cite uma frase em que você conecta dois pensamentos sobre a mesma coisa ou pessoa, sem repetir o substantivo. *Exemplo do cotidiano: "Aquela música \_\_\_ eu ouvi ontem está na minha cabeça." Qual palavra você usaria no espaço em branco?* [Sequence 4] ## O texto de Machado de Assis Vamos investigar isso como faria qualquer bom detetive de Hogwarts: partindo de um texto real. Leia com atenção este trecho do romance *Dom Casmurro*, de Machado de Assis, publicado em 1899. Enquanto lê, observe as palavras que ligam orações e pergunte-se: a que termo anterior cada uma delas se refere? --- **DOM CASMURRO** (trecho do capítulo I) Machado de Assis Uma noite destas, vindo da cidade para o Engenho Novo, encontrei num trem da Central um rapaz aqui do bairro, que eu conheço de vista e de chapéu. Cumprimentou-me, sentou-se ao pé de mim, falou da lua e dos ministros, e acabou recitando-me versos. A viagem era curta, e os versos pode ser que não fossem inteiramente maus. Sucedeu, porém, que, como eu estava cansado, fechei os olhos três ou quatro vezes; tanto bastou para que ele interrompesse a leitura e metesse os versos no bolso. — Continue, disse eu acordando. — Já acabei, murmurou ele. — São muito bonitos. Vi-lhe fazer um gesto para tirá-los outra vez do bolso, mas não passou do gesto; estava amuado. No dia seguinte entrou a dizer de mim nomes feios, e acabou alcunhando-me Dom Casmurro. Os vizinhos, que não gostam dos meus hábitos reclusos e calados, deram curso à alcunha, que afinal pegou. Nem por isso me zanguei. Contei a anedota aos amigos da cidade, e eles, por graça, chamam-me assim, alguns em bilhetes: "Dom Casmurro, domingo vou jantar com você." — "Vou para Petrópolis, Dom Casmurro; a casa é a mesma da Renania; vê se deixas essa caverna do Engenho Novo, e vai lá passar uns quinze dias comigo." Não consultes dicionários. Casmurro não está aqui no sentido que eles lhe dão, mas no que lhe pôs o vulgo de homem calado e metido consigo. Dom veio por ironia, para atribuir-me fumos de fidalgo. O meu poeta do trem ficará sabendo que não lhe guardo rancor. E com pequeno esforço, sendo o título seu, poderá cuidar que a obra é sua. Há livros que apenas terão isso dos seus autores; alguns nem tanto. Vivo só, com um criado. A casa em que moro é própria; fi-la construir de propósito. Um dia, há bastantes anos, lembrou-me reproduzir no Engenho Novo a casa em que me criei na antiga Rua de Mata-cavalos, dando-lhe o mesmo aspecto e economia daquela outra, que desapareceu. *(Fonte: ASSIS, Machado de. Dom Casmurro. Rio de Janeiro: Garnier, 1899. Capítulo I.)* --- [chapter-section: Perfil] **Machado de Assis** (1839–1908) é considerado o maior escritor da literatura brasileira. Filho de um mulato e de uma açoriana, nasceu no Rio de Janeiro e superou dificuldades sociais e de saúde para se tornar romancista, poeta e contista de prestígio internacional. *Dom Casmurro* (1899) é uma de suas obras mais estudadas no mundo e integra o Realismo brasileiro. **Images:** - GENERATE: Retrato em estilo gravura do escritor Machado de Assis, com traços que evocam o século XIX brasileiro, fundo neutro sepia | machado-de-assis-perfil.png | 3:4 --- Agora que lemos o texto juntos, note o que Machado de Assis faz logo na primeira frase: "encontrei num trem da Central um rapaz aqui do bairro, **que** eu conheço de vista e de chapéu." A palavra **"que"** está fazendo algo especial — ela retoma "um rapaz" e puxa uma nova oração para dentro do período, acrescentando uma informação sobre esse rapaz. Mais adiante: "Os vizinhos, **que** não gostam dos meus hábitos reclusos e calados, deram curso à alcunha, **que** afinal pegou." O mesmo mecanismo se repete, com antecedentes diferentes. É isso que vamos formalizar agora. ## O que é um pronome relativo? Como se fosse um feitiço de conexão, o **pronome relativo** é a palavra que retoma um termo já mencionado no texto — chamado de **antecedente** — e ao mesmo tempo introduz uma nova oração ligada a esse termo. Essa dupla função é o que torna o pronome relativo um recurso essencial de coesão textual: ele evita repetições e garante a fluidez do texto. No trecho de Machado de Assis, você pode verificar esse mecanismo diretamente. Em "Os vizinhos, **que** não gostam dos meus hábitos", o pronome "que" retoma "os vizinhos" — esse é o antecedente. Em "deram curso à alcunha, **que** afinal pegou", o mesmo pronome retoma agora "alcunha". Você consegue perceber como o antecedente muda dependendo de qual "que" estamos observando? Em resumo, identificar o pronome relativo e localizar seu antecedente é a chave para compreender como as orações se articulam em qualquer texto. **Images:** - GENERATE: Diagrama com duas orações ligadas por seta colorida destacando o pronome relativo "que" e circulando seu antecedente, mostrando a relação coesiva entre as orações | pronome-relativo-antecedente.png | 4:3 ## Os principais pronomes relativos Eu aprendi em Hogwarts que cada feitiço tem a fórmula certa — e com os pronomes relativos é igual: cada um tem seu uso específico. Observe a tabela: | Pronome | Tipo | Uso principal | |---|---|---| | **que** | invariável | o mais versátil; retoma pessoas e coisas | | **quem** | invariável | retoma apenas pessoas; sempre com preposição | | **onde** | invariável | valor locativo; retoma lugar | | **cujo / cuja / cujos / cujas** | variável | indica posse; concorda com o nome seguinte | | **o qual / a qual / os quais / as quais** | variável | substitui "que" em registros formais | Pronomes **invariáveis** (que, quem, onde) não mudam de forma. Já os pronomes **variáveis** (cujo, o qual) concordam com o substantivo que vem depois deles, não com o antecedente. O pronome **"que"** é chamado de pronome relativo universal por ser o mais frequente e versátil, capaz de retomar substantivos de qualquer gênero ou número — exatamente como aparece várias vezes no texto de Machado de Assis. Em resumo, reconhecer o tipo de cada pronome relativo ajuda a entender seu funcionamento e a evitar erros de concordância. [chapter-section: Sabia?] **"Cujo"** sempre indica uma relação de posse entre o antecedente e o substantivo seguinte — e nunca se usa com artigo. Diz-se "o autor **cujo** livro li" e não "o autor **cujo o** livro li". Esse é um dos erros mais comuns com pronomes relativos, mas agora você já sabe evitá-lo! ## O antecedente e a coesão referencial Será que você consegue encontrar o antecedente de qualquer pronome relativo? Vamos investigar juntos. No trecho "A casa **em que** moro é própria", o pronome relativo é **"que"**, precedido da preposição "em" exigida pelo verbo "morar". O antecedente é "casa". Perceba que a preposição não integra o pronome em si, mas é exigida pelo verbo da oração subordinada — um detalhe que faz toda a diferença na análise. Os pronomes relativos são, portanto, instrumentos de **coesão referencial**: ao retomar o antecedente sem repeti-lo, eles criam ligações entre partes do texto e garantem a continuidade do sentido. Esse recurso está presente em todos os gêneros textuais, de romances clássicos como *Dom Casmurro* a posts de redes sociais, de reportagens a artigos de opinião. Em resumo, sem os pronomes relativos, os textos se tornariam repetitivos e fragmentados — com eles, as ideias fluem de maneira encadeada e precisa. [INTERACTIVE: a1-mm | Explore o mapa mental interativo sobre pronomes relativos e coesão referencial na plataforma Teachy] [chapter-section: Nossa língua na rua] Pronomes relativos aparecem em todo lugar: em legendas de fotos, em letras de música, em manchetes de jornal. Na próxima vez que você ler uma notícia ou uma postagem, procure por frases com "que", "onde" ou "cujo". Tente identificar o antecedente de cada um. Você vai perceber que essa estrutura está em toda parte — e que reconhecê-la transforma a forma como você lê qualquer texto. ## Na prática Agora vamos praticar com o próprio texto de Machado de Assis. Esses exercícios são como os treinos de Quadribol: começamos com os movimentos básicos antes de partir para a jogada completa. [P1] (DOK 1) Releia o trecho de *Dom Casmurro*: > "encontrei num trem da Central um rapaz aqui do bairro, **que** eu conheço de vista e de chapéu." A palavra **"que"** nessa frase retoma (substitui) qual termo? Indique-o copiando-o do trecho. [P2] (DOK 2) O narrador de *Dom Casmurro* menciona: "Vivo só, com um criado." Imagine que ele queira acrescentar que esse criado mora na casa dele. Observe as duas versões: **Versão A:** "O criado trabalha para mim. O criado mora na minha casa." **Versão B:** "O criado **que** mora na minha casa trabalha para mim." a) Que palavra faz a junção das duas orações na Versão B? b) Qual é o antecedente dessa palavra, ou seja, o termo que ela retoma? *Dica: O antecedente é o substantivo (ou pronome) mencionado antes do pronome relativo — aquele sobre quem a segunda oração acrescenta uma informação.* [P3] (DOK 2) Leia este trecho de *Dom Casmurro*: > "A casa em **que** moro é própria; fi-la construir de propósito." a) Identifique o pronome relativo e seu antecedente nessa frase. b) Explique por que não se usa "que" simplesmente nesse contexto e qual é a função da preposição antes do pronome. *Dica: Pense no verbo "morar" — ele exige uma preposição para indicar lugar? Compare: "moro em algum lugar" → "a casa em que moro".* ## Exercícios Agora você praticará em novos contextos, transferindo o que aprendeu para outros textos. Isso é como aplicar um feitiço em situações que você nunca viu antes — o teste verdadeiro do aprendizado. [I1] (DOK 2) Leia o trecho a seguir de *Dom Casmurro*, de Machado de Assis: > "Os vizinhos, **que** não gostam dos meus hábitos reclusos e calados, deram curso à alcunha, que afinal pegou." Identifique os dois pronomes relativos presentes no trecho, indique o antecedente de cada um e explique que tipo de informação cada pronome relativo introduz sobre seu antecedente. [LINES: 5] [I2] (DOK 2) Leia o trecho a seguir, de *Vidas Secas* (1938), de Graciliano Ramos: > "Fabiano, você é um homem, disse ele para si mesmo. A caatinga estendia-se, de um vermelho de sangue. Fabiano, que nunca tinha visto o mar, imaginava que aquela vermelhidão era como a água do mar." *(Fonte: RAMOS, Graciliano. Vidas Secas. Rio de Janeiro: José Olympio, 1938. Adaptado.)* a) Identifique o pronome relativo no trecho e indique seu antecedente. b) Que informação a oração introduzida pelo pronome relativo acrescenta ao antecedente? c) Reescreva o trecho sem usar pronome relativo, substituindo-o por duas orações separadas. O que muda na leitura? [LINES: 6] [I3] (DOK 3) Leia o trecho de *Dom Casmurro*, de Machado de Assis: > "O meu poeta do trem ficará sabendo que não lhe guardo rancor. E com pequeno esforço, sendo o título seu, poderá cuidar que a obra é sua. Há livros **que** apenas terão isso dos seus autores; alguns nem tanto." O pronome relativo **"que"** estabelece uma relação coesiva entre orações. Escreva um parágrafo explicando: qual é o antecedente desse pronome relativo, que tipo de informação a oração relativa acrescenta a esse antecedente e de que forma essa estrutura contribui para o sentido irônico da frase de Machado de Assis. [LINES: 6] [I4] (DOK 3) Leia estes dois modos de apresentar a mesma informação: > **Versão 1 (sem pronome relativo):** > "Machado de Assis escreveu *Dom Casmurro*. *Dom Casmurro* é um dos romances mais estudados da literatura brasileira. O romance retrata um narrador. O narrador é pouco confiável." > **Versão 2 (com pronomes relativos):** > "Machado de Assis escreveu *Dom Casmurro*, **que** é um dos romances mais estudados da literatura brasileira e **que** retrata um narrador **que** é pouco confiável." a) Explique como os pronomes relativos contribuem para a coesão textual na Versão 2. b) A Versão 2, embora coesa, apresenta um problema de estilo. Identifique-o e proponha uma reescrita que mantenha a coesão sem o problema apontado. [LINES: 8] [INTERACTIVE: d-rp | Escaneie para responder estes exercícios na Teachy e receber correção automática] [Sequence 8] Voltemos à pergunta que abriu nosso caminho: que palavra une duas ideias numa frase sem repeti-las desnecessariamente? A resposta, eu agora sei como Harry Potter que investigou esse feitiço do início ao fim, vai muito além de uma lista de palavras. Releia a primeira frase de *Dom Casmurro*: "encontrei num trem da Central um rapaz aqui do bairro, que eu conheço de vista e de chapéu." Machado de Assis não escreveu "encontrei um rapaz. O rapaz eu conheço de vista." Ele usou o pronome relativo para costurar as duas ideias numa construção elegante — e essa escolha cria um narrador que parece conversar com o leitor de forma natural, quase oral. Perceba como o recurso gramatical não é apenas uma questão de correção: ele molda o tom, o ritmo e o efeito do texto sobre quem lê. Em resumo, os pronomes relativos são pontes coesivas que ligam orações ao seu antecedente, evitam repetições e contribuem diretamente para o sentido e o estilo de um texto — do romance clássico à conversa cotidiana. **Auto-avaliação:** Antes de avançar, reserve um momento para revisar sua própria aprendizagem. Para cada habilidade abaixo, marque seu nível de confiança: | Habilidade | Ainda preciso praticar | Já consigo fazer | Domino completamente | |:---|:---|:---|:---| | Identificar pronomes relativos em um período | ( ) | ( ) | ( ) | | Localizar o antecedente do pronome relativo | ( ) | ( ) | ( ) | | Explicar a relação coesiva que o pronome estabelece | ( ) | ( ) | ( ) | Das habilidades acima, qual você considera mais desafiadora? Por quê? Em uma frase, complete: "O pronome relativo é importante porque..." [chapter-section: Biblioteca cultural] Para ler mais textos de Machado de Assis e praticar a identificação de pronomes relativos em prosa clássica, procure *Contos: uma antologia*, organizado por John Gledson (Companhia das Letras), disponível em bibliotecas escolares e públicas. Os contos curtos do autor são ótimos para treinar a análise de coesão referencial em textos literários.


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