Quem está falando — e o que isso muda?
# Quem está falando — e o que isso muda? [Sequence 3] Nas páginas anteriores, vocês investigaram o que o narrador de Rubem Braga *faz* com o que vê: como ele parte de uma borboleta amarela e atravessa, quase sem aviso, para uma reflexão sobre a morte. Identificamos a estrutura da crônica — situação inicial, conflito cotidiano, desfecho — e percebemos que o conflito raramente é dramático. Mas ficou uma questão sem resposta: **por que esse olhar é tão específico?** O que faz com que duas pessoas que presenciam o mesmo episódio urbano escrevam crônicas completamente diferentes sobre ele? A resposta passa por algo que está antes da estrutura — está na escolha de *quem conta*. Hoje, a investigação avança um passo: saímos do *o quê* da crônica para o *de onde* ela fala. ## O olhar que não é neutro Leia o trecho abaixo. Ele foi publicado por Machado de Assis na seção *A Semana*, do jornal *Gazeta de Notícias*, em 1892. > "Na segunda-feira da semana que findou, acordei cedo, pouco depois das galinhas, e dei-me ao gosto de propor a mim mesmo um problema. Verdadeiramente era uma charada; mas o nome de problema dá dignidade, e excita para logo a atenção dos leitores austeros." > > *ASSIS, Machado de. A Semana. Gazeta de Notícias, Rio de Janeiro, 1892.* Antes de qualquer análise, uma pergunta simples: *de onde* esse narrador está falando? Ele acorda, pensa, avisa ao leitor o que está fazendo — e imediatamente revela sua estratégia retórica: chamar uma *charada* de *problema* para parecer mais sério. [chapter-section: Perfil] **Machado de Assis** (1839–1908) é considerado o maior prosador da literatura brasileira. Nascido no Rio de Janeiro, foi jornalista, contista, romancista e cronista. Publicou centenas de crônicas em jornais cariocas ao longo de décadas. Sua escrita é reconhecida pelo humor sutil, pela ironia precisa e pela capacidade de revelar contradições humanas a partir de situações cotidianas aparentemente simples. Em grupos de dois, observem o trecho de Machado e levantem hipóteses para as três perguntas a seguir antes de continuar a leitura: 1. O narrador está dentro ou fora da cena que descreve? Como vocês sabem? 2. Que palavras ou expressões revelam que o narrador tem uma *opinião* sobre o que está narrando? 3. Se esse mesmo episódio fosse narrado por um repórter de jornal, quais dessas palavras ou expressões desapareceriam? Por quê? A terceira pergunta é a mais difícil — e a mais importante para o que vamos formalizar a seguir. Uma primeira hipótese seria que o repórter eliminaria as expressões de julgamento pessoal ("dei-me ao gosto", "dá dignidade"). Mas isso ainda não explica *o que essa escolha produz* na leitura. Esse é o passo que vamos dar agora. **Images:** - https://storage.googleapis.com/teachy-classroom-contents/images/imported/46f9959186c757b3073abcd0aaa5f8342ace062f693013c8678d83a4760aee4e.jpg — Cena urbana com pedestres: o tipo de cena cotidiana que o cronista transforma em texto. | Attribution: Fonte: José Edson Mathias - "Urban Scene with Pedestrians and Shops" - Wikimedia Commons --- ## Foco narrativo e marcas de subjetividade [Sequence 4] O padrão que vocês começaram a nomear nas perguntas de investigação tem dois conceitos-chave que precisamos estabilizar. **Foco narrativo** é a posição a partir da qual o narrador conta a história — a escolha de quem narra e de que lugar o faz. O foco narrativo em primeira pessoa, o mais comum nas crônicas brasileiras, coloca o narrador como sujeito da própria narração: ele usa *eu*, participa dos eventos ou os observa de dentro, e sua presença é explícita no texto. Esse padrão que vocês identificaram no trecho de Machado — o narrador que acorda, pensa, avisa, comenta — é exatamente o foco narrativo em primeira pessoa. **Marcas de subjetividade** são os recursos linguísticos que sinalizam a presença e a perspectiva do narrador no texto. Elas incluem: - **Pronomes e verbos em primeira pessoa** (*eu acordei*, *dei-me ao gosto*, *propor a mim mesmo*): ancoram a narrativa no narrador como sujeito da ação. - **Adjetivos e linguagem avaliativa** (*austeros*, *digno*, *interessante*, *ridículo*): marcam o julgamento do narrador, não uma descrição objetiva. - **Tom conversacional** (*verdadeiramente*, *e excita para logo*): simula uma fala direta ao leitor, criando intimidade e diálogo. - **Contradições e paradoxos deliberados**: quando o narrador afirma uma coisa e ao mesmo tempo a desfaz, como chamar de *problema* o que é apenas uma *charada* — e confessar que o faz para impressionar. Essa última marca merece atenção especial. Nas crônicas de Machado de Assis, o humor nasce precisamente dessa contradição: o narrador "ao mesmo tempo se arroga imparcialidade e ocupa todo o campo de observação com seus julgamentos precipitados"[[2]]. Ele afirma ser imparcial enquanto demonstra o oposto — e isso não é um erro. É uma estratégia deliberada que, ao exacerbar a subjetividade, produz humor e crítica ao mesmo tempo. A subjetividade, portanto, não é uma falha do gênero crônica. É seu procedimento fundamental. O cronista não pretende neutralidade — ele a abandona como ponto de partida e faz do seu olhar particular a própria matéria da escrita[[2]]. Compreender isso transforma a forma como lemos: em vez de buscar "o que aconteceu", passamos a perguntar "como *esse* narrador viu o que aconteceu — e o que essa visão revela?" Vale notar por que o foco em primeira pessoa é tão recorrente nas crônicas: o gênero nasceu no jornal e nunca abandonou sua vocação de falar *ao* leitor, não *sobre* acontecimentos. O narrador-cronista está sentado ao lado de quem lê, comentando o mundo — e isso cria uma cumplicidade que a terceira pessoa impessoal não alcança. Quando Rubem Braga escreve "fui ver a borboleta amarela", o leitor não recebe apenas uma informação: é convidado a acompanhar um percurso de pensamento. [chapter-section: Nossa língua na rua] **Nossa língua na rua** "Choveu hoje." "Parece que vai esfriar." "Como o tempo mudou." Frases como essas circulam todos os dias em calçadas, grupos de WhatsApp, conversas de ônibus — e são, em essência, o mesmo gesto da crônica: alguém que registra o cotidiano com sua própria voz. Não por acaso, a crônica brasileira sempre teve o ar da fala: o cronista escreve como quem conta para um amigo, usando expressões coloquiais, pausas, surpresas. Essa proximidade com a linguagem oral do dia a dia é o que torna a crônica um dos gêneros mais lidos e mais reconhecíveis para quem vive nas cidades brasileiras. Ler uma crônica de Machado de Assis sobre o Rio do século XIX é, também, ouvir a voz de alguém que vivia naquela cidade e decidiu parar, observar e escrever — assim como qualquer pessoa que hoje publica suas reflexões cotidianas em um blog ou num post de texto. [INTERACTIVE: a1-mm | Mapa mental interativo sobre foco narrativo, marcas de subjetividade e leitura inferencial na crônica brasileira] --- ## Pondo à prova [Sequence 5] [chapter-section: Afirmar, Sustentar, Questionar] Agora vocês vão testar os dois conceitos — foco narrativo e marcas de subjetividade — sobre o trecho de Machado de Assis que investigamos na abertura desta seção. A rotina tem três passos, a serem respondidos no caderno: - **Afirmar:** Faça uma afirmação sobre o foco narrativo presente no trecho. - **Sustentar:** Indique quais palavras ou expressões do trecho sustentam sua afirmação. - **Questionar:** Formule uma pergunta que sua afirmação ainda não responde. Uma resposta possível para o primeiro passo: "O trecho apresenta foco narrativo em primeira pessoa, evidenciado pelo uso de verbos e pronomes que colocam o narrador como sujeito da ação." Observe que essa afirmação é correta, mas incompleta — ela nomeia o foco, mas ainda não diz *o que esse foco produz*. O passo de sustentação e o de questionamento são onde a análise se aprofunda. **Questão 1** O trecho abaixo foi extraído de uma crônica de Machado de Assis publicada na série *A Semana*, no jornal *Gazeta de Notícias*, em 1892. > "Na segunda-feira da semana que findou, acordei cedo, pouco depois das galinhas, e dei-me ao gosto de propor a mim mesmo um problema. Verdadeiramente era uma charada; mas o nome de problema dá dignidade, e excita para logo a atenção dos leitores austeros." Com base no trecho acima, o foco narrativo escolhido por Machado de Assis A) distancia o narrador dos acontecimentos narrados, criando uma perspectiva imparcial sobre o cotidiano. B) situa o narrador como observador externo dos fatos, sem expressar sua opinião sobre eles. C) coloca o narrador como sujeito da ação e da reflexão, construindo uma perspectiva marcada pela subjetividade. D) apaga os traços pessoais do narrador para dar mais credibilidade às informações apresentadas. **Questão 2** [I1] O trecho abaixo é do mesmo texto de Machado de Assis da Questão 1 (*A Semana*, *Gazeta de Notícias*, 1892). > "Na segunda-feira da semana que findou, acordei cedo, pouco depois das galinhas, e dei-me ao gosto de propor a mim mesmo um problema. Verdadeiramente era uma charada; mas o nome de problema dá dignidade, e excita para logo a atenção dos leitores austeros." No trecho acima, o narrador afirma que chamará de "problema" o que, na verdade, é "uma charada", porque "o nome de problema dá dignidade". Identifique nesse momento uma marca de subjetividade e explique como ela contribui para a construção da perspectiva do narrador no texto. --- ## Exercícios [Sequence 6] **Questão 3** [P1] Com base na análise da crônica "A Borboleta Amarela", de Rubem Braga, que estudamos no subcapítulo anterior, é possível perceber que o narrador oscila entre descrever o que vê externamente e revelar o que pensa ou sente internamente. Essa oscilação entre o olhar externo e a reflexão interna é uma característica do foco narrativo da crônica. Explique de que forma essa característica distingue a crônica de uma reportagem jornalística. Utilize ao menos dois elementos do texto de Rubem Braga para sustentar sua análise. **Questão 4** [P2] Leia as afirmativas abaixo, baseadas no estudo do foco narrativo na crônica. O pesquisador Sidney Chalhoub, ao analisar as crônicas de Machado de Assis, observou que "o humor nesses textos se assenta no procedimento de exacerbar a subjetividade do narrador ou autor putativo", que, "ao mesmo tempo, se arroga imparcialidade e ocupa todo o campo de observação com seus julgamentos precipitados" (*Remate de Males*, v. 29, n. 2, 2009). Com base nessa observação, o efeito de humor nas crônicas machadianas decorre principalmente A) da alternância entre o foco narrativo em primeira e terceira pessoa ao longo do texto. B) da contradição entre a imparcialidade que o narrador afirma ter e a perspectiva pessoal que ele de fato demonstra. C) da ausência de marcas de subjetividade no texto, que cria um efeito de distanciamento irônico. D) da escolha de temas filosóficos abstratos que contrastam com o registro coloquial do narrador. **Questão 5** [P3] O pesquisador da Universidade Federal de Sergipe, ao estudar crônicas de humor, observou que "a estratégia de leitura proposta leva em conta o funcionamento dessas estruturas como instrumento de orientação à compreensão leitora" e que o texto requer uma leitura que explore "o aspecto heterogêneo do texto" (Santos, 2020). Com base nessa perspectiva, um leitor que identifica o foco narrativo de uma crônica em primeira pessoa consegue, durante a leitura, A) acessar diretamente as intenções do autor real por trás do texto, sem mediação do narrador. B) compreender os eventos narrados como fatos objetivos verificáveis, independentemente da voz que os conta. C) reconhecer que os julgamentos, emoções e interpretações presentes no texto pertencem ao narrador construído, não ao autor. D) classificar o texto como não literário, pois a presença do "eu" aproxima a crônica do relato jornalístico pessoal. **Questão 6** [D1] Você está construindo sua própria crônica para a coletânea da turma. Ao escrever a primeira versão de um parágrafo, um estudante produziu o seguinte trecho: > "Hoje choveu em São Paulo. As pessoas correram para a saída do metrô. A calçada ficou molhada." Analise este trecho e explique por que ele ainda não apresenta o foco narrativo característico da crônica. Em seguida, reescreva o trecho incorporando ao menos duas marcas de subjetividade que transformem a perspectiva puramente descritiva em uma voz narrativa de crônica. [INTERACTIVE: d-rp | Escaneie para responder as questões de múltipla escolha na plataforma Teachy e receber correção automática] --- ## Ensaio da crônica [Sequence 7 — Independent Task] Na Questão 6 dos Exercícios, vocês começaram a transformar uma descrição neutra em voz de crônica. Agora é hora de dar o passo seguinte: escrever o primeiro parágrafo da sua própria crônica, a partir de uma cena real que vocês tenham vivido ou observado nos últimos dias. O parágrafo deve ter no mínimo cinco linhas e incluir: - **Foco narrativo em primeira pessoa** (o narrador dentro da cena, com voz explícita); - **Pelo menos duas marcas de subjetividade** que revelem a perspectiva do narrador — uma avaliação, uma contradição, uma opinião disfarçada de descrição. Veja um exemplo de como o parágrafo pode começar — não para copiar, mas para perceber o movimento: > *"Era segunda-feira, e eu estava parado no sinal vermelho da Avenida Paulista quando um pombo pousou no capô do carro da frente. O motorista nem ligou. Pensei: tem pessoas que já viram tantos pombos que deixaram de enxergá-los. Achei que isso dizia alguma coisa sobre nós — mas não soube bem o quê."* Observe como o narrador está dentro da cena (parado no sinal), usa avaliação ("achei que isso dizia alguma coisa") e termina com uma incerteza que convida o leitor a continuar pensando. Guarde esse ensaio: ele será revisado e integrado à coletânea de crônicas da turma. **Images:** - https://storage.googleapis.com/teachy-classroom-contents/images/imported/34f5df02-ac5e-4943-99c7-1c823476009a.jpg — Sarau de narrativas na Biblioteca Vasconcelos: o texto que se escreve para ser lido por outros. | Attribution: Fonte: Andycyca - "Narrative Reading Event at Biblioteca Vasconcelos" - Wikimedia Commons
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