Relações Sul-Sul e Cooperação entre Brasil e África

# Relações Sul-Sul: Brasil e África Juntos [Section 4] Você já viu como os países africanos construíram seus novos Estados após a descolonização e como o Brasil buscou industrializar-se para reduzir a dependência econômica. Esses dois processos — independência política na África e industrialização na América Latina — criaram um contexto em que países do chamado Sul Global passaram a se enxergar como parceiros naturais. Afinal, tinham desafios semelhantes e experiências que poderiam ser compartilhadas. Foi nesse cenário que emergiram as **relações Sul-Sul**. ## O que são as Relações Sul-Sul? As relações Sul-Sul são acordos de cooperação estabelecidos entre países em desenvolvimento, localizados em sua maioria no hemisfério sul do planeta. Ao contrário da cooperação Norte-Sul — em que nações ricas transferem recursos para nações mais pobres, geralmente com exigências políticas e econômicas como condição — a cooperação Sul-Sul parte do pressuposto de que países com trajetórias parecidas têm muito a oferecer uns aos outros: conhecimentos, tecnologias adaptadas aos seus contextos, experiências de superação de problemas comuns. A ausência de condicionalidades é um traço distintivo dessa cooperação. Na prática, isso significa que um país não exige que o parceiro adote determinado modelo econômico, político ou social em troca da ajuda. Essa característica preserva a soberania dos envolvidos e favorece relações de confiança mútua — algo especialmente valorizado por nações que haviam acabado de sair de décadas de tutela colonial ou de subordinação às grandes potências da Guerra Fria. É justamente esse perfil de cooperação entre parceiros soberanos que o Brasil buscou construir com os países africanos ao longo do pós-guerra. **Imagens:** - https://storage.googleapis.com/teachy-classroom-contents/images-v2/5a2387b6-5f94-47cf-acf4-3ec46f0c2737/imported/v2_0_32.jpg — Líderes do Brasil e da África do Sul durante encontro do BRICS, com bandeiras de diversas nações ao fundo: exemplo das alianças multilaterais que marcam a cooperação Sul-Sul contemporânea. [chapter-callout-label: Passado e presente] O conceito de "Sul Global" tem raízes nos debates da Guerra Fria. Na época, os países que não se alinhavam formalmente nem ao bloco capitalista liderado pelos EUA nem ao bloco socialista da União Soviética eram agrupados sob o rótulo de "Terceiro Mundo". O Brasil, que havia passado pela industrialização dependente estudada no capítulo anterior, via-se como um ator desse mundo — industrializado mas ainda periférico, influente mas ainda subordinado. Quando os países africanos conquistaram a independência, o Brasil reconheceu neles parceiros com quem compartilhava muito mais do que a posição no mapa. ## Brasil e África: Uma Parceria que Atravessa o Atlântico Sul A aproximação entre Brasil e África não surgiu apenas de cálculos estratégicos. Ela também se apoia em vínculos históricos e culturais profundos: durante séculos, o tráfico transatlântico de pessoas escravizadas forjou uma herança compartilhada que se expressa na música, na culinária, nas religiões e nas línguas do Brasil de hoje. Quando o Brasil passou a cooperar tecnicamente com países africanos, estava também reconhecendo essa dívida histórica e construindo uma parceria baseada em afinidades reais. **Imagens:** - https://storage.googleapis.com/teachy-classroom-contents/images/imported/be64192f94f7f6a98cb86f4da6676fcd1633fd51a71bc6e45af539dfa85d6906.jpg — Ministro da Cultura do Brasil e Embaixador do Benin assinam Projeto de Cooperação em Patrimônio Cultural (2010): exemplo concreto dos laços culturais que sustentam as relações Sul-Sul entre Brasil e África. Do ponto de vista político, porém, essa aproximação teve altos e baixos. Entre 1961 e 1964, durante a chamada **Política Externa Independente** dos governos Jânio Quadros e João Goulart, o Brasil votou nas Nações Unidas contra o colonialismo e apoiou abertamente os processos de descolonização. Com o golpe militar de 1964, essa postura foi abandonada: o regime priorizou o alinhamento com as potências ocidentais e se distanciou da África por uma década. A retomada veio em 1974, com o presidente Ernesto Geisel e seu chanceler Azeredo da Silveira. O Brasil adotou o que ficou conhecido como **pragmatismo ecumênico e responsável**: uma política externa que buscava acordos pragmáticos com múltiplos parceiros, sem dogmatismo ideológico. Nesse contexto, o Brasil foi o primeiro país ocidental a reconhecer a independência de Angola, em 1975 — movimento que sinalizou ao mundo a disposição brasileira de tratar os novos Estados africanos como parceiros soberanos, independentemente de pressões vindas de Washington. **Imagens:** - https://storage.googleapis.com/teachy-classroom-contents/images-v2/2ccf3a81-18d4-4668-a1c1-eeec4a72e807/imported/v2_0_3.jpg — Presidente Lula em foto oficial com participantes da Cúpula Brasil–CEDEAO (Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental), evidenciando a política de aproximação com os países da África subsaariana. ## Exemplos Concretos de Cooperação A cooperação Brasil-África assumiu formas variadas ao longo do tempo. Na dimensão **política**, o Brasil apoiou movimentos de descolonização e defendeu, em fóruns internacionais, o direito dos povos africanos à autodeterminação. Na dimensão **econômica**, estabeleceu parcerias comerciais e energéticas — a Nigéria, por exemplo, tornou-se o principal parceiro africano do Brasil na década de 1980, especialmente no setor de petróleo. Mas foi na cooperação **técnica e tecnológica** que a parceria ganhou contornos mais originais. A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), criada em 1973, desenvolveu tecnologias adaptadas ao cultivo em solos tropicais e semiáridos — como os do Cerrado brasileiro. Esse conhecimento revelou-se precioso para países africanos que enfrentavam problemas semelhantes de aridez e baixa fertilidade, como Moçambique e Gana. Por meio de programas de cooperação técnica, o Brasil transferiu esse acervo de saberes sem impor condições econômicas, expressando com clareza o espírito Sul-Sul. Na área da saúde, o Brasil compartilhou com parceiros africanos, especialmente Moçambique, tecnologias para a produção de medicamentos antirretrovirais (ARV) usados no combate ao HIV/AIDS — uma experiência que o país havia desenvolvido internamente ao longo dos anos 1990. Mais recentemente, a criação do **Fórum IBAS** (Índia, Brasil e África do Sul) em 2003 institucionalizou essa dinâmica: os três países se comprometeram a cooperar em desenvolvimento sustentável, redução da pobreza e defesa do multilateralismo, mostrando que as relações Sul-Sul podem ganhar o formato de aliança estratégica de longo prazo. [chapter-callout-label: Evidencias] O texto a seguir, adaptado de uma análise de política externa brasileira, apresenta uma perspectiva sobre a cooperação Sul-Sul. Leia-o com atenção e pense: de que maneira a posição histórica e geográfica do Brasil explica seu papel de destaque nesse tipo de cooperação? *"A Cooperação Sul-Sul não se trata de caridade, mas de parceria entre iguais. Diferentemente da cooperação Norte-Sul, ela não impõe condicionalidades políticas nem modelos prontos — parte do pressuposto de que os países em desenvolvimento enfrentam desafios semelhantes e podem aprender uns com os outros. O Brasil, por sua posição geográfica, histórica e linguística, tornou-se um ator central nessa rede ao longo da segunda metade do século XX."* [INTERACTIVE: A1 | aprofundamento | Acesse na plataforma Teachy conteúdo aprofundado sobre as relações Sul-Sul e os principais acordos de cooperação entre Brasil e África no pós-guerra] [Section 5] Com base no que você aprendeu sobre as relações Sul-Sul e a cooperação entre Brasil e África, responda às questões a seguir. [P1] As relações Sul-Sul referem-se à cooperação entre países em desenvolvimento situados, em sua maioria, no hemisfério sul do planeta. Com base no que você estudou, assinale a alternativa que apresenta corretamente uma característica central desse tipo de cooperação. (A) Baseia-se na transferência de recursos financeiros de países ricos para países pobres, seguindo o modelo da cooperação Norte-Sul. (B) Envolve troca de conhecimentos, tecnologias e experiências entre países com níveis de desenvolvimento semelhantes, sem relação de subordinação. (C) É coordenada exclusivamente por organismos financeiros internacionais, como o Fundo Monetário Internacional. (D) Limita-se ao comércio de matérias-primas entre países africanos e latino-americanos. [P2] Durante o período pós-guerra, o Brasil ampliou suas relações com países africanos, especialmente após os processos de descolonização do continente. Analise as afirmativas abaixo e identifique aquela que melhor descreve um objetivo das relações Sul-Sul estabelecidas entre Brasil e África nesse contexto. (A) Assegurar que os países africanos mantivessem laços exclusivos com suas antigas metrópoles europeias. (B) Reduzir a influência dos Estados Unidos na América Latina por meio de alianças militares com os países africanos. (C) Promover cooperação técnica em áreas como agricultura, saúde e educação, valorizando saberes e experiências compartilhadas. (D) Garantir acesso privilegiado do Brasil a reservas de petróleo no continente africano, sem contrapartidas para os parceiros. *Dica: Pense nas áreas em que o Brasil desenvolveu tecnologias adaptadas a climas tropicais e em como esse conhecimento poderia ser útil a países africanos com contextos geográficos semelhantes.* [P3] O mapa a seguir ilustra fluxos de cooperação técnica entre o Brasil e países da África nas décadas de 1970 a 2000, destacando setores como agricultura tropical, combate à fome e formação profissional. *[Descrição da imagem: mapa político da África com setas partindo do Brasil (América do Sul) em direção a diferentes países africanos, cada seta colorida conforme o setor de cooperação — verde para agricultura, vermelho para saúde, azul para educação. Países como Moçambique, Angola, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe e Guiné-Bissau aparecem destacados.]* **Imagens:** - GENERATE: Mapa esquemático mostrando o Atlântico Sul com o Brasil à esquerda e o continente africano à direita; setas coloridas partindo do Brasil em direção a países africanos lusófonos (Moçambique, Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe), com legenda de cores indicando setor de cooperação (verde = agricultura, vermelho = saúde, azul = educação); verificar precisão geográfica antes da publicação | mapa-cooperacao-brasil-africa.png | 4:3 Com base no mapa e nos seus conhecimentos, explique por que os países africanos lusófonos (de língua portuguesa) concentram uma parte expressiva das ações de cooperação técnica brasileira. [LINES: 5] *Dica: Considere o papel do idioma compartilhado e dos laços históricos e culturais na facilitação do diálogo entre governos e instituições.* [Section 6] ## Exercícios [I1] *A Cooperação Sul-Sul não se trata de caridade, mas de parceria entre iguais. Diferentemente da cooperação Norte-Sul, ela não impõe condicionalidades políticas nem modelos prontos — parte do pressuposto de que os países em desenvolvimento enfrentam desafios semelhantes e podem aprender uns com os outros. O Brasil, por sua posição geográfica, histórica e linguística, tornou-se um ator central nessa rede ao longo da segunda metade do século XX.* Com base no texto e nos seus conhecimentos sobre as relações Sul-Sul no pós-guerra, analise por que a ausência de condicionalidades é considerada uma diferença estratégica entre a cooperação Sul-Sul e a cooperação Norte-Sul. (A) Porque os países do Sul não possuem recursos financeiros suficientes para impor exigências, o que torna a cooperação inevitavelmente mais igualitária. (B) Porque a cooperação Sul-Sul é coordenada por organizações militares que impedem interferências políticas nos acordos bilaterais. (C) Porque ao não exigir reformas políticas ou econômicas em troca de apoio, a cooperação Sul-Sul preserva a soberania dos países parceiros e favorece relações de confiança mútua. (D) Porque os países em desenvolvimento preferem receber ajuda sem nenhum tipo de compromisso, evitando qualquer forma de responsabilidade bilateral. (E) Porque a cooperação Sul-Sul substitui completamente os organismos internacionais, tornando desnecessários acordos com países do Norte. **Gabarito:** C --- [I2] *Nas décadas de 1970 e 1980, a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) desenvolveu tecnologias voltadas para o cultivo em solos do Cerrado, bioma com características climáticas e edáficas desafiadoras. Esse conhecimento foi posteriormente compartilhado com países africanos que enfrentavam problemas semelhantes de aridez e baixa fertilidade dos solos, como Moçambique e Gana, por meio de programas de cooperação técnica.* Com base nesse exemplo, explique como a experiência brasileira no desenvolvimento agrícola tropical se tornou um recurso estratégico nas relações Sul-Sul com países africanos. [LINES: 5] --- [I3] *"Os laços entre o Brasil e a África não começaram na diplomacia do século XX. Eles foram forjados ao longo de séculos de história compartilhada — pela língua, pela religiosidade, pela música, pela culinária. Quando o Brasil passa a cooperar tecnicamente com países africanos no pós-guerra, está, de certa forma, reconhecendo uma dívida histórica e construindo uma parceria baseada em afinidades reais."* *(Adaptado de texto de análise de política externa brasileira)* a) Identifique dois elementos históricos e culturais mencionados ou sugeridos no texto que aproximam o Brasil do continente africano. [LINES: 3] b) Analise de que forma esses vínculos históricos e culturais influenciaram a natureza e os objetivos das relações Sul-Sul entre Brasil e África no período pós-guerra. [LINES: 6] [INTERACTIVE: D | responda na plataforma | Escaneie para responder os exercícios desta seção na plataforma Teachy e receber correção com feedback personalizado]


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