Sermão da Sexagésima

[Sequence 0] # Defesa Oral de Ponto de Vista **Habilidade BNCC:** EF89LP12 — Planejar e participar de debates regrados, defendendo ponto de vista de forma convincente, ética e respeitosa, mobilizando argumentos consistentes. **Microhabilidade trabalhada neste capítulo:** - EF89LP12-M01: Produzir uma defesa oral de ponto de vista, adequando a linguagem e as estratégias de convencimento ao perfil dos ouvintes e objetivos do debate. --- [Sequence 1: (a) Contextualized Situation] Meu nome é Harry Potter, e eu aprendi uma coisa muito antes de Hogwarts: a magia mais poderosa que existe não vem de uma varinha. Ela vem das palavras certas, ditas da forma certa, para as pessoas certas. Eu me lembro de um momento em que precisei defender minha posição diante de toda a turma, sem nenhum feitiço para me ajudar, e senti aquele frio no estômago que você também já conhece: era hora de falar, e todo mundo ia me ouvir. Você já viveu algo parecido? Talvez numa discussão com amigos sobre uma série, numa assembleia de turma ou num momento em que precisou explicar para um adulto por que sua ideia era boa. O que fez com que alguns fossem ouvidos e outros fossem ignorados? Em resumo, a diferença entre convencer e não convencer nem sempre está em quem tem razão — está em como você defende o que acredita. --- **Pergunta orientadora:** *Como convencer alguém de que sua opinião faz sentido sem precisar discutir?* --- [Sequence 2: (a) Recall Diagnostic Questions] Antes de avançar, vamos investigar isso juntos. Pense no que você já sabe e viveu sobre defender um ponto de vista. [D1] Pense em uma situação em que você precisou defender uma opinião, seja em casa, com amigos ou na escola. Como você tentou convencer a outra pessoa? O que funcionou e o que não funcionou? Em resumo, o que você já faz naturalmente ao tentar convencer alguém é o ponto de partida para o que vamos aprender aqui. --- [Sequence 4] ## O Sermão da Sexagésima: uma defesa oral que atravessou séculos Eu descobri, investigando os grandes oradores da história, que algumas defesas orais são tão bem construídas que continuam sendo estudadas séculos depois. Pense nisso como magia, mas real: é possível convencer pessoas por meio de palavras organizadas com precisão. O melhor exemplo que encontrei foi o *Sermão da Sexagésima*, pregado pelo jesuíta Padre Antônio Vieira na Igreja da Misericórdia de Lisboa, em 1655. Leia o trecho a seguir com atenção: --- **Sermão da Sexagésima** — *Padre Antônio Vieira* (excerto, 1655) Sendo, pois, certo que a palavra divina não deixa de frutificar por parte de Deus, segue-se que ou é por falta do pregador ou por falta dos ouvintes. Por qual será? Os pregadores deitam a culpa aos ouvintes, mas não é assim. Se for por parte dos ouvintes, não fizera a palavra de Deus muito grande fruto, mas não fazer nenhum fruto e nenhum efeito, não é por parte dos ouvintes. Provo. Os ouvintes, ou são maus ou são bons; se são bons, faz neles fruto a palavra de Deus; se são maus, ainda que não faça neles fruto, faz efeito. No Evangelho o temos. O trigo que caiu nos espinhos, nasceu, mas afogaram-no: *Simul exortae spinae suffocaverunt illud.* O trigo que caiu nas pedras, nasceu também, mas secou-se: *Et natum aruit.* O trigo que caiu na terra boa, nasceu e frutificou com grande multiplicação: *Et natum fecit fructum centuplum.* De maneira que o trigo que caiu na boa terra, nasceu e frutificou; o trigo que caiu na má terra, não frutificou, mas nasceu; porque a palavra de Deus é tão fecunda, que nos bons faz muito fruto e é tão eficaz que nos maus, ainda que não faça fruto, faz efeito; lançada nos espinhos, não frutificou, mas nasceu até nos espinhos; lançada nas pedras, não frutificou, mas nasceu até nas pedras. Supostas estas duas demonstrações; suposto que o fruto e efeitos da palavra de Deus, não fica, nem por parte de Deus, nem por parte dos ouvintes, segue-se por consequência clara, que fica por parte do pregador. E assim é. Sabeis, cristãos, por que não faz fruto a palavra de Deus? — Por culpa dos pregadores. Sabeis, pregadores, por que não faz fruto a palavra de Deus? — Por culpa nossa. *Padre Antônio Vieira — Sermão da Sexagésima, 1655. Domínio público.* --- Antes de avançar para os conceitos, observe o texto e pense: qual é a posição de Vieira nesse sermão? Onde exatamente ele apresenta essa posição? Que tipo de raciocínio ele usa para chegar até ela? Repare que Vieira não apenas diz "é culpa dos pregadores": ele elimina outras hipóteses passo a passo, como um detetive, antes de apresentar sua conclusão. Isso já é argumentação em ação. [chapter-section: Perfil] **Padre Antônio Vieira** (1608–1697) foi um jesuíta luso-brasileiro considerado um dos maiores oradores da língua portuguesa. Nascido em Lisboa e criado na Bahia, defendeu os direitos dos indígenas e dos africanos escravizados perante a Igreja e a Coroa portuguesa. Seus sermões são estudados até hoje como modelos de argumentação e eloquência em língua portuguesa. --- ## Defender um ponto de vista: o que isso significa? Quando Vieira escreve a palavra "Provo" no texto, ele está sinalizando algo que eu aprendi a valorizar muito: não basta afirmar, é preciso demonstrar. Esse é o núcleo da **defesa oral de ponto de vista**: apresentar uma posição clara e sustentá-la com razões que convençam quem está ouvindo. Existe uma diferença importante entre três ações que parecem semelhantes. **Opinar** é expressar o que você pensa sem precisar justificar, como dizer "Acho que celular na escola atrapalha." **Discutir** é trocar ideias de forma menos organizada, sem estrutura definida. **Argumentar** exige que você sustente sua posição com razões, evidências e exemplos organizados de forma lógica, como Vieira faz no sermão. Em resumo, em uma defesa oral de ponto de vista, o que conta não é apenas ter uma opinião, mas saber organizá-la de forma convincente e adequada ao contexto. --- ## A estrutura de uma defesa oral Como se fosse um feitiço com três partes necessárias para funcionar, a defesa oral de ponto de vista também segue uma estrutura básica que toda boa argumentação possui. A **tese** é a posição que o orador vai defender, formulada como uma afirmação clara. No texto de Vieira, a tese emerge ao final: o fruto da pregação fica por conta dos pregadores, não dos ouvintes. Os **argumentos** são as razões, evidências e exemplos que sustentam a tese. Vieira constrói os seus em etapas: primeiro descarta que os ouvintes sejam culpados, depois usa a parábola do semeador como exemplo, e só então apresenta sua conclusão. A **conclusão** é a reafirmação da tese à luz dos argumentos, mostrando que o raciocínio levou inevitavelmente àquela posição, como Vieira faz na frase final do trecho. Em resumo, tese, argumentos e conclusão formam a espinha dorsal de qualquer defesa oral bem-sucedida. --- ## Tipos de argumento: qual estratégia usar? Você já percebeu que Vieira usa tipos diferentes de argumento ao longo do sermão? Vamos investigar isso. O **argumento de autoridade** recorre a fontes confiáveis para reforçar a tese. No sermão, as referências ao Evangelho funcionam exatamente assim para o público religioso de Vieira. O **argumento de evidência ou fato** apoia-se em dados verificáveis. Em um debate atual sobre redes sociais, apresentar estatísticas de pesquisas sobre saúde mental é usar evidências concretas. O **argumento de exemplificação** recorre a casos concretos que ilustram a tese, como a parábola do semeador que Vieira usa para mostrar que a palavra divina produz efeito mesmo nos maus ouvintes. O **argumento de consequência** demonstra o que resulta de adotar ou ignorar determinada posição, tornando as implicações visíveis para quem ouve. Em resumo, escolher o tipo certo de argumento depende tanto da tese que você defende quanto do público que vai ouvir você. --- ## Adequar a estratégia ao perfil dos ouvintes Por que Vieira usou a parábola do semeador e não uma tabela estatística? Porque ele conhecia seu público. Essa é a pergunta central de qualquer defesa oral: quem vai me ouvir, e o que vai convencer essas pessoas? O **perfil dos ouvintes** inclui o que eles sabem sobre o tema, o que já acreditam, o que valorizam e o que os mobiliza. Um debate sobre redes sociais em uma turma do 8º ano exige argumentos diferentes de um debate no Senado Federal, mesmo que o tema seja o mesmo. Por isso, antes de defender qualquer ponto de vista, é preciso considerar: Qual é o objetivo do debate? Quem está ouvindo? Qual tipo de argumento terá mais força para esse público específico? Em resumo, adaptar a linguagem e as estratégias ao perfil dos ouvintes é o que transforma uma opinião pessoal em uma defesa oral convincente. **Images:** - https://storage.googleapis.com/teachy-classroom-contents/images-v2/804d6b69-4eeb-4735-8dcc-3e4237f1055a/generated/v2_0_13.jpg — Estudantes em grupo planejando argumentos antes de um debate, com laptops e papéis sobre a mesa | Attribution: Fonte: Desconhecido [chapter-section: Nossa língua na rua] Você já percebeu como diferentes pessoas usam estratégias diferentes para convencer nos mesmos contextos? Preste atenção em debates de grêmio estudantil, assembleias de turma ou vídeos de jovens ativistas nas redes. Quais argumentos eles usam: fatos e dados, histórias pessoais ou apelos a valores compartilhados? Traga um exemplo para compartilhar com a turma. [INTERACTIVE: a1-sl | Explore os tipos de argumento e as estratégias de defesa oral com os slides interativos na plataforma Teachy] --- [Sequence 5] ## Na prática Agora vamos praticar o que vimos no texto de Vieira e nas definições. Cada exercício tem apoio para guiar seu raciocínio. [P1] (DOK 1) No contexto de um debate oral estruturado, o que se entende por "ponto de vista"? (A) Uma pergunta feita ao adversário durante a fala. (B) A posição pessoal que o debatedor defende sobre um tema. (C) O resumo das falas de todos os participantes. (D) A conclusão final apresentada pelo mediador. **Gabarito:** B [P2] (DOK 1) Leia novamente o trecho do *Sermão da Sexagésima*, de Padre Antônio Vieira: > "Sabeis, cristãos, por que não faz fruto a palavra de Deus? — Por culpa dos pregadores. Sabeis, pregadores, por que não faz fruto a palavra de Deus? — Por culpa nossa." Nesse trecho, Vieira assume uma posição clara sobre quem é o responsável pelo fracasso da pregação. Identifique qual é essa posição e qual recurso ele usa para reforçá-la. *Dica: Observe como a repetição da mesma estrutura de frase contribui para enfatizar a ideia central.* [LINES: 4] [P3] (DOK 2) Em um debate sobre o uso de celulares em sala de aula, uma estudante afirma: *"O celular atrapalha o aprendizado porque distrai os alunos."* Outro estudante responde: *"O celular é uma ferramenta de pesquisa e pode ajudar no aprendizado."* Explique por que apenas apresentar uma opinião não é suficiente para convencer os ouvintes em um debate. O que cada debatedor precisaria acrescentar para tornar seu argumento mais consistente? *Dica: Pense na diferença entre afirmar algo e sustentar essa afirmação com evidências ou exemplos, como Vieira faz no sermão ao usar a parábola do semeador.* [LINES: 5] --- [Sequence 6] ## Exercícios Agora você praticará em novos contextos, aplicando o que aprendeu a situações diferentes das que abrimos no início do capítulo. [I1] (DOK 3) *Em 2023, uma escola pública do interior de Minas Gerais promoveu um debate entre turmas do 8º ano sobre a seguinte questão: "As redes sociais fazem mais mal do que bem para os jovens?" Antes do evento, os grupos pesquisaram dados, ouviram especialistas e definiram regras para a troca de turnos de fala. Durante o debate, um grupo apresentou estatísticas sobre saúde mental de adolescentes; o outro trouxe depoimentos de jovens que usaram as redes para encontrar apoio emocional e oportunidades de aprendizagem.* Com base nessa situação, qual estratégia de convencimento foi mais adequada ao perfil dos ouvintes e aos objetivos do debate? (A) Recorrer apenas à autoridade dos especialistas, pois isso garante a credibilidade do argumento independentemente do público. (B) Utilizar apenas depoimentos pessoais, pois a emoção é mais eficaz do que dados em qualquer contexto de debate. (C) Combinar dados concretos e relatos que conectem o tema à realidade dos ouvintes, tornando o argumento ao mesmo tempo verificável e próximo da experiência do público. (D) Evitar exemplos do cotidiano, pois eles enfraquecem o argumento ao torná-lo subjetivo demais. (E) Apresentar somente a opinião do grupo de forma clara e direta, sem evidências, para não confundir os ouvintes com informações em excesso. **Gabarito:** C [I2] (DOK 2) *Antes de um debate sobre a redução da jornada escolar, uma equipe de estudantes do 8º ano se reuniu para planejar sua participação. Eles precisavam decidir quais argumentos usar, quais fontes consultar e como organizar a fala de cada integrante.* Descreva duas ações concretas que essa equipe deveria realizar durante o planejamento para garantir uma defesa oral consistente no dia do debate. [LINES: 5] [I3] (DOK 3) *Leia o trecho abaixo, de uma fala de Malala Yousafzai no discurso de abertura da Assembleia da Juventude da ONU, em 2013:* > "Um professor, um livro, uma caneta podem mudar o mundo. A educação é a única solução. Educação em primeiro lugar." *Malala, jovem paquistanesa que sobreviveu a um atentado por defender o direito das meninas à educação, dirigiu essas palavras a líderes mundiais e jovens de todo o planeta.* a) Explique como a consideração do perfil dos ouvintes influenciou as escolhas de Malala nessa defesa oral de ponto de vista. Que tipo de argumento predomina no trecho? b) Proponha como um estudante do 8º ano poderia usar estratégia semelhante em um debate escolar sobre inclusão digital nas escolas públicas, adaptando a linguagem e os argumentos a dois perfis diferentes de ouvintes: colegas de classe e professores. [LINES: 8] **Images:** - https://storage.googleapis.com/teachy-classroom-contents/images/imported/0221d7a12e5dbb6215146e5b242505f65ca7a8a055c7410422c9ab099e2844f0.jpg — Debate formal com painelistas defendendo posições sobre um tema específico, com escuta ativa em ambiente institucional | Attribution: Fonte: Senado Federal - Wikimedia Commons [INTERACTIVE: d-rp | Escaneie para responder estes exercícios na Teachy e receber correção automática com feedback da plataforma] --- **Referência de imagens utilizadas:** | URL | Descrição | Attribution | |-----|-----------|-------------| | https://storage.googleapis.com/teachy-classroom-contents/images-v2/804d6b69-4eeb-4735-8dcc-3e4237f1055a/generated/v2_0_13.jpg | Estudantes em grupo planejando argumentos antes de um debate | Attribution: Fonte: Desconhecido | | https://storage.googleapis.com/teachy-classroom-contents/images/imported/0221d7a12e5dbb6215146e5b242505f65ca7a8a055c7410422c9ab099e2844f0.jpg | Debate formal com painelistas em ambiente institucional | Attribution: Fonte: Senado Federal - Wikimedia Commons |


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