Sujeito Indeterminado e Orações Sem Sujeito
# Sujeito Indeterminado e Orações Sem Sujeito [Sequence 4] Eu aprendi no capítulo anterior, junto com você, a identificar o sujeito da oração e a reconhecer seus tipos — simples, composto e oculto. Em todos esses casos, o sujeito existia e podia ser encontrado, fosse ele expresso ou apenas subentendido pelo contexto. Vamos avançar agora para um território mais misterioso: o que acontece quando o sujeito simplesmente não pode ser identificado — ou quando ele não existe de forma alguma? Pense nisso como magia, mas é gramática pura. Ainda dentro do "Conto de Escola" de Machado de Assis, repare nesta frase do narrador: *"Não esqueçam que estávamos então no fim da Regência."* Quem deve não esquecer? Não há como saber. O narrador fala para um grupo indefinido de leitores, e a língua não nos dá pistas para identificá-los. Essa é a porta de entrada para dois conceitos centrais deste capítulo: o **sujeito indeterminado** e as **orações sem sujeito**. ## O Sujeito que Existe, mas não se Deixa Ver O **sujeito indeterminado** é aquele que existe na realidade — há um agente praticando a ação —, mas não é possível identificá-lo na oração, nem pelo contexto. Em Hogwarts, aprendi que certos feitiços ocultam a origem da magia; na língua portuguesa, certas construções ocultam quem age. Você já consegue imaginar como isso funciona? A primeira estrutura que produz sujeito indeterminado é o **verbo na 3ª pessoa do plural sem sujeito expresso**. No próprio "Conto de Escola", o narrador usa a expressão *"Não esqueçam"* — verbo no plural, sem que saibamos quem são essas pessoas. De forma análoga, se alguém diz *"Roubaram a bicicleta do menino"*, há um ladrão real, mas a língua não o nomeia e o contexto não nos permite identificá-lo. Esse é o critério decisivo: quando não conseguimos identificar quem pratica a ação, mesmo sabendo que alguém a praticou, o sujeito é indeterminado. A segunda estrutura usa o **"se" como índice de indeterminação do sujeito**, sempre com verbo na 3ª pessoa do singular. No conto, Machado de Assis escreve: *"Compreende-se que o ponto da lição era difícil."* Qualquer leitor compreenderia aquilo — mas nenhum leitor específico pode ser nomeado. A partícula "se" fecha a porta para qualquer identificação do agente. Essa estrutura aparece muito em textos formais, placas e avisos: *"Fala-se português neste país."* A terceira ocorre com o **infinitivo impessoal** em orações de leitura genérica, aplicável a qualquer pessoa. Uma frase como *"É penoso aprender tudo de última hora"* não aponta para nenhum sujeito identificável. Em resumo, o sujeito indeterminado existe na realidade, mas a língua o esconde: seja pelo plural sem referente, pelo "se" indeterminador, ou pelo infinitivo impessoal. [chapter-section: Comparando...] Mas espera — não é o sujeito oculto também "escondido"? Essa é exatamente a confusão mais comum, e eu preciso te ajudar a desfazê-la. O **sujeito oculto** (estudado no capítulo anterior) pode ser recuperado: em *"Saímos cedo"*, a desinência verbal mostra que o sujeito é "nós". No **sujeito indeterminado**, essa recuperação é impossível: em *"Saíram cedo"* (sem mais contexto), não sabemos quem saiu — e a língua não quer que saibamos. | Aspecto | Sujeito Oculto | Sujeito Indeterminado | |---|---|---| | O sujeito existe? | Sim | Sim | | Podemos identificá-lo? | Sim (pelo contexto ou desinência verbal) | Não | | Exemplo do texto | *"[Eu] Fiquei a olhar para ele."* | *"Não esqueçam..."* (leitores indefinidos) | | Estrutura típica | Qualquer pessoa verbal recuperável | 3ª pessoa do plural sem referente, ou verbo + "se" | **Images:** - [https://storage.googleapis.com/teachy-classroom-contents/images-v2/c341ae85-d2b1-4260-83e7-b14ec8c77507/imported/v2_0_38.jpg](https://storage.googleapis.com/teachy-classroom-contents/images-v2/c341ae85-d2b1-4260-83e7-b14ec8c77507/imported/v2_0_38.jpg) — Operário em obra: a ação é visível, mas em "Trabalha-se nessa construção" o agente fica indeterminado | Attribution: Fonte: Manually imported ## Quando o Sujeito Simplesmente Não Existe Agora vem algo ainda mais intrigante: as **orações sem sujeito**. Aqui, a diferença é radical. Não é que o agente exista e esteja escondido — é que ele simplesmente não existe. Não há ninguém praticando a ação. Vamos investigar isso juntos. No "Conto de Escola", a narrativa não menciona chuva, mas Machado usa em outros escritos verbos como *"choveu"*, *"trovejou"*, *"anoiteceu"* para criar atmosfera. Esses verbos expressam **fenômenos naturais**: não há ser humano (nem qualquer agente) causando a chuva. Por isso, o verbo **chover** — assim como **nevar**, **ventar**, **trovejar**, **amanhecer** e **anoitecer** — é chamado de **verbo impessoal**: ele não admite sujeito, porque a natureza não precisa de um agente gramatical. Além dos fenômenos naturais, há outros verbos impessoais frequentes. O verbo **fazer** é impessoal quando indica tempo decorrido ou condição climática: *"Faz dois anos que ele não aparece"* — aqui, "dois anos" é complemento do verbo, não sujeito. O verbo **haver**, com sentido de existência ou ocorrência, também é impessoal: *"Houve muita confusão no intervalo."* Nesse caso, "confusão" é objeto direto, não sujeito — e por isso o verbo permanece sempre no singular na norma culta (nunca *"houveram protestos"*, sempre *"houve protestos"*). Em resumo, nas orações sem sujeito, o verbo é impessoal: ele expressa um fenômeno, uma ocorrência ou uma noção de tempo que não depende de nenhum agente para acontecer. **Images:** - [https://storage.googleapis.com/teachy-classroom-contents/images/imported/540c023a-091c-4af8-bd59-1b3085904fa1.jpg](https://storage.googleapis.com/teachy-classroom-contents/images/imported/540c023a-091c-4af8-bd59-1b3085904fa1.jpg) — Chuva sobre o vale do Guárico: "Choveu sobre o vale" — oração sem sujeito com verbo impessoal de fenômeno natural | Attribution: Fonte: Fev - Wikimedia Commons ## O "se" que Indetermina e o "se" que Apassiva Existe ainda um detalhe que eu preciso te alertar, como se fosse um feitiço com dois efeitos diferentes: o "se" pode ser **índice de indeterminação** ou **apassivador**. O critério para distingui-los é a concordância verbal. No *"se" indeterminador*, o verbo fica sempre no singular: *"Compreende-se que a lição era difícil."* No *"se" apassivador* (voz passiva sintética), o verbo concorda com o substantivo seguinte: *"Vendem-se casas"* — o plural "casas" determina o plural do verbo. Neste segundo caso, "casas" é o sujeito paciente, e a frase equivale a "Casas são vendidas." Em resumo, quando o verbo não concorda com o substantivo que vem depois, o "se" é indeterminador — e o sujeito é indeterminado; quando concorda, o "se" é apassivador — e a oração tem sujeito determinado. [INTERACTIVE: a1-mm | Explore o mapa mental interativo sobre sujeito indeterminado e orações sem sujeito na plataforma Teachy] ## O Conto de Escola e o Sujeito Escondido Com esses conceitos em mãos, eu quero te mostrar como Machado de Assis os usa como recurso literário consciente. Releia dois trechos do "Conto de Escola": > "Não esqueçam que estávamos então no fim da Regência, e que era grande a agitação pública." > "Compreende-se que o ponto da lição era difícil, e que o Raimundo, não o tendo aprendido, recorria a um meio que lhe pareceu útil para escapar ao castigo do pai." No primeiro, o narrador adulto se dirige a leitores que ele nunca nomeia — o verbo "esqueçam" na 3ª pessoa do plural sem referente identificável cria o sujeito indeterminado. No segundo, o "se" em "Compreende-se" é o índice de indeterminação: qualquer pessoa que lesse a situação a compreenderia. Machado usa essas estruturas para criar a ilusão de que o narrador conversa com toda a humanidade — sem fixar nenhum interlocutor. [chapter-section: Perfil] **Joaquim Maria Machado de Assis** (1839–1908) é considerado o maior escritor brasileiro. Nascido no Rio de Janeiro, filho de um operário negro e de uma lavadeira açoriana, tornou-se o fundador e primeiro presidente da Academia Brasileira de Letras. "Conto de Escola" (1884) é narrado por um adulto que rememora um episódio da infância escolar — e esse distanciamento narrativo explica o uso frequente de estruturas que apagam o sujeito para criar efeito de generalidade e memória coletiva. --- [Sequence 5] ## Na prática Eu poderia ficar aqui descrevendo mais casos — mas em Hogwarts, a gente aprende fazendo, não é mesmo? Vamos colocar os conceitos à prova com os trechos do "Conto de Escola". Responda a cada item com atenção. [P1] Leia as orações abaixo e classifique cada uma marcando **S.I.** (sujeito indeterminado) ou **S.S.** (oração sem sujeito): a) Choveu forte durante a tarde. b) Disseram que a escola vai fechar mais cedo. c) Faz dois anos que ele não aparece. d) Fala-se muito de sustentabilidade nas escolas. e) Nevou pela primeira vez naquela região. --- [P2] Leia o trecho do conto "Conto de Escola", de Machado de Assis: > "Não esqueçam que estávamos então no fim da Regência, e que era grande a agitação pública." a) Identifique o tipo de sujeito da oração "Não esqueçam que estávamos então no fim da Regência". b) Explique por que o sujeito dessa oração recebe essa classificação. *Dica: Pergunte-se — é possível saber, pelo contexto, quem está sendo chamado a "não esquecer"? Ou o narrador se dirige a um grupo indefinido de leitores?* --- [P3] Releia este trecho do conto: > "Compreende-se que o ponto da lição era difícil, e que o Raimundo, não o tendo aprendido, recorria a um meio que lhe pareceu útil para escapar ao castigo do pai." a) Na oração "Compreende-se que o ponto da lição era difícil", o "se" funciona como índice de indeterminação do sujeito ou como apassivador? Justifique sua resposta. b) Compare essa estrutura com a oração "Vendem-se casas". Em qual delas o sujeito é indeterminado e em qual é determinado (voz passiva sintética)? *Dica: Quando o "se" é indeterminador, o verbo fica sempre no singular e não admite concordância com o objeto. Quando é apassivador, o verbo concorda com o sujeito paciente.* --- [Sequence 6] ## Exercícios Agora você vai aplicar o que aprendeu de forma independente — como um verdadeiro detetive da gramática, saindo do "Conto de Escola" para novos contextos. Leia com atenção cada enunciado antes de responder. [I1] *Em textos jornalísticos, a escolha entre estruturas com sujeito determinado e sujeito indeterminado não é neutra: ela pode responsabilizar ou proteger agentes, criar efeitos de impessoalidade ou ampliar o alcance de uma afirmação. Considere as manchetes abaixo:* > **Manchete A:** "O prefeito aumentou as tarifas de ônibus." > **Manchete B:** "Aumentaram as tarifas de ônibus." > **Manchete C:** "Houve reajuste nas tarifas de ônibus." Do ponto de vista da análise linguística, a diferença entre as três manchetes se explica porque: (A) A Manchete A apresenta sujeito determinado; a Manchete B, sujeito indeterminado com verbo na 3ª pessoa do plural; e a Manchete C, oração sem sujeito com verbo impessoal "haver". (B) As três manchetes têm sujeito indeterminado, pois nenhuma delas especifica os motivos do reajuste. (C) A Manchete B e a Manchete C são equivalentes, pois ambas omitem o sujeito para proteger o agente responsável. (D) A Manchete A e a Manchete B têm sujeito oculto, enquanto a Manchete C apresenta sujeito indeterminado com verbo impessoal. (E) A Manchete C apresenta sujeito determinado ("reajuste"), pois "reajuste" pratica a ação de "haver". **Gabarito:** A --- [I2] *Em grupos de WhatsApp de moradores, é comum encontrar mensagens como estas:* > "Arrombaram o carro do vizinho essa madrugada." > "Estão jogando lixo na calçada de novo." > "Hoje ventou muito e derrubou uma árvore." Identifique, nas três mensagens acima, quais orações apresentam sujeito indeterminado e quais apresentam oração sem sujeito. Para cada caso, indique o elemento linguístico que permite essa classificação (forma verbal, uso do "se", ausência de agente, etc.). [LINES: 6] --- [I3] *Leia as orações abaixo, criadas para fins didáticos, inspiradas em situações do cotidiano:* > "Roubaram a bicicleta do menino." > "Choveu intensamente na tarde em que tudo aconteceu." *Imagine que você é um jornalista escrevendo uma notícia sobre os fatos descritos nessas orações.* a) Explique, com base na gramática, por que a primeira oração não permite identificar o responsável pela ação, mesmo que esse responsável exista. b) Explique por que, na segunda oração, não existe agente algum a ser identificado. [LINES: 8] **Images:** - [https://storage.googleapis.com/teachy-classroom-contents/images-v2/9a31c0c0-e32f-4487-9bca-c15a50ae9dee/imported/v2_0_32.jpg](https://storage.googleapis.com/teachy-classroom-contents/images-v2/9a31c0c0-e32f-4487-9bca-c15a50ae9dee/imported/v2_0_32.jpg) — Tempestade com raios: "Trovejou a noite toda" — exemplo de oração sem sujeito com verbo impessoal | Attribution: Fonte: Manually imported [INTERACTIVE: d-rp | Escaneie para responder estes exercícios na Teachy e receber correção automática] [chapter-section: Nossa língua na rua] O sujeito indeterminado é onipresente no nosso dia a dia. Nas próximas 24 horas, preste atenção em placas, notícias de TV, posts em redes sociais e conversas. Anote dois exemplos de sujeito indeterminado e dois de oração sem sujeito que você encontrar. Traga para compartilhar com a turma — e discutam: em cada caso, por que a língua optou por apagar (ou não ter) o agente?
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