Verbo e Complementos na Estrutura da Oração

# O Verbo e os Termos que o Completam [Sequence 4] Eu sou Harry Potter — e mesmo depois de aprender feitiços em Hogwarts, aprendi que nenhuma ação existe no vácuo: toda ação precisa de um alvo. Nas aulas anteriores, você aprendeu a identificar o sujeito da oração, a reconhecer quando ele é simples, composto ou oculto, e a distinguir o sujeito indeterminado das orações sem sujeito. Agora eu vou apresentar o último grande protagonista da estrutura oracional: o verbo e os termos que giram ao redor dele. Pense comigo: em Hogwarts, quando eu lançava um feitiço, a ação não ficava suspensa no ar — ela sempre alcançava algo ou alguém. "Harry apontou a varinha para o inimigo." O verbo *apontou* precisava saber o quê e para quem. Na língua portuguesa, essa lógica funciona exatamente da mesma forma. Será que todo verbo precisa de um "alvo" para fazer sentido? O texto que acompanha este capítulo é o conto *Conto de escola*, de Machado de Assis. Leia o trecho a seguir com atenção — ele será o nosso fio condutor durante toda a aula. --- > Raimundo deu-me a pratinha, sorrateiramente; eu meti-a na algibeira das calças, com um alvoroço que não posso definir. Cá estava ela comigo, pegadinha à perna. Restava prestar o serviço, ensinar a lição e não me demorei em fazê-lo, nem o fiz mal, ao menos conscientemente; passava-lhe a explicação em um retalho de papel que ele recebeu com cautela e cheio de atenção. Sentia-se que despendia um esforço cinco ou seis vezes maior para aprender um nada; mas contanto que ele escapasse ao castigo, tudo iria bem. > > De repente, olhei para o Curvelo e estremeci; tinha os olhos em nós, com um riso que me pareceu mau. Disfarcei; mas daí a pouco, voltando-me outra vez para ele, achei-o do mesmo modo, com o mesmo ar, acrescendo que entrava a remexer-se no banco, impaciente. Sorri para ele e ele não sorriu; ao contrário, franziu a testa, o que lhe deu um aspecto ameaçador. O coração bateu-me muito. > > Fui e parei diante dele. Ele enterrou-me pela consciência dentro um par de olhos pontudos; depois chamou o filho. Toda a escola tinha parado; ninguém mais lia, ninguém fazia um só movimento. Eu, conquanto não tirasse os olhos do mestre, sentia no ar a curiosidade e o pavor de todos. > — Então o senhor recebe dinheiro para ensinar as lições aos outros? disse-me o Policarpo. > — Dê cá a moeda que este seu colega lhe deu! clamou. **Machado de Assis. *Conto de escola*. In: *Várias histórias*. Rio de Janeiro: W.M. Jackson, 1899.** --- Antes de seguirmos para as definições, observe o trecho: quais verbos "pedem" algo para completar o sentido? "Raimundo *deu*..." — deu o quê? Para quem? "O mestre *chamou*..." — chamou quem? Perceba que alguns verbos parecem incompletos sem o termo seguinte, enquanto outros se bastam sozinhos. Em resumo, essa observação inicial já revela o conceito central desta aula: a transitividade verbal. ## A Transitividade Verbal O verbo é o núcleo do predicado e o responsável por organizar o significado da oração. Ele pode ou não exigir complementos para ter sentido completo. Um **verbo intransitivo** tem sentido pleno por si só: em "O coração bateu-me muito" (do conto), o verbo *bater* não precisa de um alvo — a ação é completa. Já os **verbos transitivos** exigem complemento: "Ele chamou o filho" ficaria vazio sem "o filho", pois a pergunta "chamou quem?" permaneceria sem resposta. A transitividade não é uma propriedade fixa de cada verbo — é uma propriedade do verbo **em uso**, dentro de uma oração específica. O mesmo verbo pode ser transitivo em um contexto e intransitivo em outro, dependendo do sentido que o autor quis construir. **Images:** - GENERATE: Ilustração colorida mostrando uma seta partindo de um verbo ("chamou") em direção a um complemento ("o filho"), com outra seta partindo de um verbo intransitivo ("bateu") sem alvo, representando a diferença entre transitividade e intransitividade; estilo diagrama educativo limpo em português | transitividade-verbal.png | 4:3 ## O Objeto Direto O **objeto direto** é o complemento do verbo transitivo direto. Ele se liga ao verbo **sem preposição obrigatória** e responde às perguntas "O quê?" ou "Quem?". Como se fosse um feitiço que atinge diretamente o alvo — sem intermediários. No conto: "eu meti-*a* na algibeira das calças". O pronome *a* retoma "a pratinha" e funciona como objeto direto do verbo *meter*: meteu o quê? → *a pratinha*. Não há preposição entre o verbo e seu complemento. Para identificar o objeto direto, uma estratégia eficaz é tentar substituí-lo pelos pronomes átonos **o, a, os, as**: se a substituição funcionar naturalmente, trata-se de um objeto direto. ## O Objeto Indireto O **objeto indireto** é o complemento do verbo transitivo indireto. Diferentemente do objeto direto, ele se liga ao verbo por meio de uma **preposição obrigatória** — as mais comuns são *a, de, com, para, por*. As perguntas que o identificam são "A quem?", "De quem?", "Para quem?", "De quê?". No conto: "contanto que ele escapasse *ao castigo*". O verbo *escapar* exige preposição: escapou de quê? → *ao castigo* (a + o castigo). A preposição é estruturalmente obrigatória — retirá-la torna a oração incorreta. O objeto indireto é retomado pelos pronomes **lhe, lhes**: em "passava-*lhe* a explicação", o pronome *lhe* responde a "passou para quem?" → para Raimundo. [chapter-section: Comparando...] Observe a tabela abaixo para comparar as duas funções sintáticas dos complementos verbais: | Aspecto | Objeto Direto | Objeto Indireto | |---|---|---| | **Preposição** | Não (ligação direta) | Obrigatória | | **Pronomes de retomada** | o, a, os, as | lhe, lhes | | **Perguntas-chave** | O quê? Quem? | A quem? De quem? Para quem? | | **Verbo exigido** | Transitivo direto | Transitivo indireto | | **Exemplo do conto** | "chamou *o filho*" | "passava-*lhe* a explicação" | ## Verbos com Dois Complementos Alguns verbos — como *dar*, *enviar*, *ensinar* e *dizer* — exigem dois complementos ao mesmo tempo: um objeto direto e um objeto indireto. Esses verbos são chamados de **transitivos diretos e indiretos** (ou bitransitivos). O exemplo mais precioso do conto é a oração de abertura: "Raimundo *deu-me* a pratinha". O verbo *dar* pede dois alvos: deu o quê? → *a pratinha* (OD); deu a quem? → *a mim* / *me* (OI). Outro caso: "passava-*lhe* a *explicação*" — passou a explicação (OD) para Raimundo (OI, retomado por *lhe*). Perceba que Machado de Assis usa pronomes para condensar os complementos sem perder a precisão sintática. [INTERACTIVE: a1-mm | Explore o mapa mental interativo sobre verbo e complementos — objeto direto, objeto indireto e transitividade verbal — na plataforma Teachy] [chapter-section: Perfil] **Machado de Assis** (1839–1908) é o principal escritor do Realismo brasileiro. Nascido no Rio de Janeiro, filho de um pintor mulato e de uma açoriana, Machado foi autodidata e tornou-se o maior prosador da literatura brasileira. Fundou e presidiu a Academia Brasileira de Letras. *Conto de escola* (1884) integra a coletânea *Várias histórias* e narra, em primeira pessoa, um episódio de corrupção vivido na infância do narrador-personagem Pilar. **Images:** - https://storage.googleapis.com/teachy-classroom-contents/images/imported/e8fd27aaf366ac85b707998f5bb7296763951c6bfabbc8a1912f32da136b1f30.jpg — Estudantes conversando animadamente numa sala de aula, com cadernos sobre as mesas — cena de comunicação real onde verbos de interação ("contar", "perguntar", "responder") aparecem com seus complementos, assim como no conto de Machado de Assis | Attribution: Fonte: Vitaly Gariev - Unsplash ## Na prática [Sequence 5] Como se fosse um feitiço que revela o que estava escondido, vamos usar os conceitos desta aula para analisar as próprias orações do conto. Será que você consegue identificar os complementos onde Pilar menos esperava encontrá-los? Em resumo, a prática agora é nossa lente de investigação sobre o texto de Machado de Assis. [P1] Leia as orações abaixo, extraídas do conto *Conto de escola*, de Machado de Assis: > I. "Raimundo deu-me a pratinha." > II. "O coração bateu-me muito." > III. "Ele enterrou-me pela consciência dentro um par de olhos pontudos." Em cada oração, identifique o verbo e indique se ele é transitivo direto, transitivo indireto, transitivo direto e indireto (bitransitivo) ou intransitivo. Organize sua resposta em uma pequena tabela com as colunas: oração | verbo | classificação. --- [P2] Observe este trecho do conto: > "Não queria recebê-la, e custava-me recusá-la." a) Identifique o objeto direto do verbo "receber" na forma infinitiva "recebê-la". b) Explique por que o complemento do verbo "recusar" (em "recusá-la") é classificado como objeto direto e não como objeto indireto. *Dica: Pergunte ao verbo "O quê?" ou "Quem?" para localizar o objeto direto. Verifique também se há preposição obrigatória ligando o complemento ao verbo.* --- [P3] Releia o trecho: > "Sentia-se que despendia um esforço cinco ou seis vezes maior para aprender um nada; mas contanto que ele escapasse ao castigo, tudo iria bem." a) No trecho "despendia um esforço", classifique o complemento "um esforço" indicando sua função sintática. b) Na expressão "escapasse ao castigo", identifique o complemento verbal e justifique sua classificação, explicando o papel da preposição "a". *Dica: Para o item (b), tente retirar a preposição e veja se a oração continua gramaticalmente correta.* --- [chapter-section: Nossa língua na rua] Verbos e complementos não ficam só nos livros de gramática — eles aparecem o tempo todo nas suas mensagens e posts. "Mandei a foto pro grupo" (mandei = verbo; a foto = OD; pro grupo = OI). "Gostei muito do show" (gostei = verbo; do show = OI com a preposição *de*). Na próxima mensagem que você enviar, tente identificar o verbo e perguntar: *ele precisa de complemento? É com preposição ou sem?* ## Exercícios [Sequence 6] Em Hogwarts, eu sabia que havia dominado um feitiço apenas quando conseguia usá-lo em uma situação nova — não apenas repetir o movimento que o professor havia mostrado. Será que você consegue fazer o mesmo com o que aprendeu? Em resumo, você vai aplicar o que aprendeu em contextos diferentes do *Conto de escola*, mostrando que a habilidade de analisar complementos verbais funciona em qualquer situação linguística. [I1] Leia o trecho a seguir, do conto *Conto de escola*, de Machado de Assis: > "Fui e parei diante dele. Ele enterrou-me pela consciência dentro um par de olhos pontudos; depois chamou o filho. Toda a escola tinha parado; ninguém mais lia, ninguém fazia um só movimento." Nesse trecho, o narrador constrói uma cena de tensão por meio de escolhas verbais precisas. Analisando as funções sintáticas dos complementos verbais presentes, é correto afirmar que: (A) "um par de olhos pontudos" é objeto indireto do verbo "enterrou", pois indica o instrumento da ação. (B) "o filho" é objeto direto do verbo "chamou", ligado sem preposição obrigatória, completando diretamente o sentido do verbo. (C) Na oração "ninguém mais lia", o verbo "lia" é transitivo direto e seu objeto direto está expresso na oração. (D) "um só movimento" é objeto indireto do verbo "fazia", pois a preposição "um" conecta o complemento ao verbo. (E) "toda a escola" é objeto direto do verbo "parar" na oração "Toda a escola tinha parado", pois responde à pergunta "O quê?". **Gabarito:** B --- [I2] Em mensagens de texto e redes sociais, a linguagem do dia a dia está cheia de verbos com complementos. Veja estas frases usadas por adolescentes: > 1. "Mandei uma figurinha pro grupo." > 2. "Preciso de ajuda com o exercício." > 3. "Postei uma foto nova." > 4. "Gostei muito do show." Para cada frase, identifique o(s) complemento(s) verbal(is) e classifique-o(s) como objeto direto (OD) ou objeto indireto (OI). [LINES: 6] --- [I3] Leia o trecho do *Conto de escola*: > "Raimundo deu-me a pratinha, sorrateiramente; eu meti-a na algibeira das calças, com um alvoroço que não posso definir." a) Na oração "Raimundo deu-me a pratinha", identifique o objeto direto e o objeto indireto do verbo "dar". b) Na oração "eu meti-a na algibeira das calças", o pronome "a" retoma "a pratinha". Classifique a função sintática desse pronome na oração. [LINES: 6] --- [I4] Leia as manchetes abaixo, retiradas de portais de notícias brasileiros: > A. "Governo anuncia reajuste aos servidores." > B. "Choveu muito no interior de São Paulo." > C. "Disseram que a reunião foi cancelada." Para cada manchete: (i) identifique o sujeito e classifique-o (simples, composto, oculto, indeterminado ou oração sem sujeito); (ii) quando houver complemento verbal, identifique-o e classifique-o como objeto direto ou objeto indireto. [LINES: 8] [INTERACTIVE: d-rp | Escaneie para responder estes exercícios na Teachy e receber correção automática com feedback detalhado] --- [Sequence 8] Lembra da pergunta que abriu o nosso estudo juntos: *Como as palavras ao redor do verbo constroem o sentido completo de uma oração?* Agora você tem ferramentas para responder. O verbo é o núcleo do predicado, e sua transitividade determina quais complementos ele exige: sem objeto direto, "Raimundo deu" ficaria incompleto; sem objeto indireto, "passava a explicação" perderia seu destinatário. Machado de Assis usou essas estruturas com precisão para construir a tensão do *Conto de escola* — e agora você também consegue enxergar isso na leitura. Ao longo de todo o capítulo, você percorreu os termos da oração de ponta a ponta. Reconheceu que o sujeito pode ser simples ("Raimundo deu-me a pratinha"), composto ou oculto (elíptico). Aprendeu que, quando o agente não pode ser identificado, o sujeito é indeterminado — como nas orações em que "se" indetermina o responsável pela ação — e que verbos como *chover* ou *haver* (no sentido de existir) formam orações sem sujeito porque o agente simplesmente não existe. Por fim, descobriu que o verbo, quando transitivo, ancora seus complementos: diretamente (objeto direto, sem preposição obrigatória) ou indiretamente (objeto indireto, com preposição obrigatória). Em resumo, você passou a enxergar a oração como um sistema organizado, em que cada palavra ocupa uma função específica e contribui para o sentido do todo — exatamente como cada ingrediente de uma poção em Hogwarts tem sua função precisa. [INTERACTIVE: a2-fc | Revise todos os conceitos do capítulo — sujeito, sujeito indeterminado, orações sem sujeito e complementos verbais — com os flash cards interativos na Teachy] **Auto-avaliação:** Para cada habilidade abaixo, marque como você se sente: | Habilidade | Ainda preciso praticar | Já consigo fazer | Domino completamente | |---|---|---|---| | Identificar e classificar o sujeito (simples, composto, oculto) | ( ) | ( ) | ( ) | | Distinguir sujeito indeterminado de oração sem sujeito | ( ) | ( ) | ( ) | | Identificar o objeto direto e o objeto indireto na oração | ( ) | ( ) | ( ) | | Analisar a transitividade verbal em textos reais | ( ) | ( ) | ( ) | Das habilidades acima, qual você considera mais desafiadora? Compartilhe com um colega e explique por quê. Em uma frase, complete: "Analisar os complementos verbais me ajuda a entender melhor um texto porque..."


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